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Vida, de Daniel Espinosa

A personagem de Jake Gyllenhaal não teve muito sucesso em seu contato com os humanos. Entre os tripulantes em órbita no espaço, em Vida, é ela quem está ali há mais tempo. Em momentos rápidos, o astronauta queixa-se da civilização. No filme do sueco Daniel Espinosa, ele prefere o espaço e o som que quase não se ouve, ou apenas o silêncio.

Pois o fracasso do contato com o outro transfere-se ao ambiente isolado, quando os mesmos tripulantes, astronautas, procuram o contato com o desconhecido: a primeira criatura alienígena reconhecida, o primeiro sinal de vida fora da Terra. O que deveria ser a prova dos avanços científicos revela-se o oposto: não demora para que os tripulantes estejam em luta pela própria vida, em embates que levam à selvageria.

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A opção da personagem de Gyllenhaal e os ataques do monstro pouco a pouco formado suscitam – juntos ou separados – questões de interesse: vale a pena buscar o contato com o outro? Melhor é o isolamento em alguma ilha remota, em alguma máquina para além das fronteiras da Terra? É possível evitar o ataque e a presença do desconhecido?

A criatura – antes pequena, aparentemente bela, depois um monstro assustador com a forma de um polvo, rápido e até mesmo com alguma inteligência – prova que a procura pelo “outro” – seja lá o que isso signifique – sempre leva à perturbação, à invasão de um território inóspito e invariavelmente ao embate. É tão histórico quanto científico.

Não é novidade que a criatura rebelar-se-á. É o que move o filme. A vida, mais que a morte. Nesse caso, o inimigo deseja apenas sobreviver, como lembra o cientista que o maneja, que o distrai, que o adula, que vê naquela pequena criatura em formação o que a ciência não poderia deixar de ver, fosse o que fosse: o que há de mais belo.

Após alguns ataques, a criatura escapa. Sobrevive. Vive. Estará por todos os cantos. E os tripulantes, um a um, são abatidos por esse ser que insiste em continuar. Irônico, por isso, que alguns tripulantes, ora ou outra, estejam dispostos a dar a vida para evitar que o monstro chegue a Terra. A criatura não tem consciência, quer apenas sobreviver.

Pela estrutura, pela confinamento, pelo contato com o desconhecido e mesmo pela insistência do monstro em invadir corpos, o filme de Espinosa tem sido comparado a Alien – O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Mas há uma diferença entre ambos: enquanto no novo todos os tripulantes estão em missão com o objetivo de encontrar o alienígena, no antigo o monstro toma todos (ou quase) de assalto. Não era convidado.

Em Vida, o alien é recebido, alimentado, aquecido. Ainda que levassem em conta a possibilidade de um ser hostil, prevalece nos homens a espera pela bondade, pelo bom contato. Em um filme como tal – que se resolve bem do início ao fim, ainda que as personagens despejem pouca ou nenhuma humanidade – isso é impossível.

(Life, Daniel Espinosa, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

Sr. Ninguém, de Jaco Van Dormael

As diferentes linhas narrativas para a mesma vida são lançadas ao espectador pelo velho homem e personagem-título de Sr. Ninguém. Qual delas é a verdadeira? Nenhuma e todas. Esse é o enigma de que trata o filme: a escolha é do espectador.

Em seu primeiro longa-metragem, Um Homem com Duas Vidas, de 1991, Jaco Van Dormael já tratava de questão semelhante: um velho homem cheio de imaginação encontra uma saída à mediocridade de sua existência, quando se vê em um asilo.

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Ele conta a própria história, do dia em que foi trocado na maternidade aos problemas relacionados à vida que foi obrigado a viver: como passou a morar na casa do vizinho, não na casa de sua verdadeira família. Por consequência, tudo deu errado.

Em Sr. Ninguém a fórmula parece a mesma, ou pelo menos seu ponto de partida. O texto busca mais ousadia, com diferentes caminhos para uma mesma vida – enquanto seu autor, o velho homem com mais de 100 anos, o último mortal de uma terra de imortais, flerta com a morte, com sorriso cínico e provável blefe.

O futuro surge do lado de fora do hospital em que ele está internado: prédios gigantes e espelhados, robôs, grandes telas, pequenas câmeras que o vigiam, além do branco abundante. Um repórter consegue invadir o quarto e ouve suas histórias.

Como o espectador, é natural, o repórter fica confuso: deseja saber o que realmente levou a personagem àquele estágio. Ou, em outras palavras, deseja entender seu passado para entendê-lo. Mas a resposta pode estar em seu nome: ele é ninguém.

O nome tem a ver com seus vários passados. Ao evocar diferentes caminhos para uma mesma vida – com diferentes mulheres, diferentes mortes e até mesmo diferentes cortes de cabelo –, o protagonista desprende-se da identidade. Torna-se ninguém.

Como o próprio explica ao longo dessa avalanche de imagens, a vida é como um purê de batata com molho: após sua mistura, não é mais possível separar os elementos.

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O ponto em que isso fica evidente – e que muda para sempre a vida de Ninguém (Jared Leto) – é a separação dos pais. À beira da linha do trem, ele terá de escolher se segue viagem com a mãe ou se fica na estação e na companhia do pai.

O protagonista, Nemo (Ninguém em latim), tem sua vida dividida, ou passa a enxergar – do futuro, velho e decrépito – os caminhos pelos quais passou ou poderia ter passado. Com a mãe, apaixonar-se-á por uma garota. Com o pai, amará outra.

O texto ainda insiste em outras divisões, levando a novas trilhas dentro das diferentes histórias. E todas se interpõem, como cartas embaralhadas.

Sobre esses caminhos reina a consciente mistura de Dormael, também autor do roteiro: seu filme nasce para ser visto nessas confusões, feito de cortes rápidos, repleto de cacoetes típicos do cinema moderno, moldados para impressionar.

Ao tentar aprofundar a proposta de Um Homem com Duas Vidas e sem conseguir um terço da humanidade de O Oitavo Dia, o diretor traz apenas um quebra-cabeça a partir de vidas passadas. Diferente do astronauta decrépito de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que assiste à aurora de uma nova vida, Ninguém continua preso ao passado.

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Ex-Machina: Instinto Artificial, de Alex Garland

Bastidores: O Sétimo Selo

As preocupações mais profundas do filme podem remontar à infância de Bergman num intenso – para ele sufocante e opressivamente tenso – lar cristão, onde as grandes questões de relacionamento entre o Bem e o Mal, Deus e o Diabo, o Homem e Deus, o Homem e a Morte e a Redenção faziam parte da vida e da conversa cotidianas.

Melvyn Bragg, escritor e radialista, em O Sétimo Selo (editora Rocco; pg. 37). O autor refere-se à infância de Ingmar Bergman em um lar religioso e rígido demais. O pai do cineasta sueco era pastor da Igreja Luterana, descrito pelo mesmo autor como “tirânica divindade doméstica”, e contra o qual Bergman rebelar-se-ia mais tarde.

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Bastidores: Persona

Mia Madre, de Nanni Moretti

Enquanto todos desempenham um papel, a cineasta pede que sua atriz, em cena, seja ela própria. Ou que esteja, de verdade, ao lado de sua criação. A atriz fica um pouco assustada e não entende por que não pode ser apenas a personagem.

A escolha da cineasta Margherita (Margherita Buy) continuará à medida que Mia Madre avança, e com frequência será difícil. Todos devem desempenhar um papel, a começar pela diretora, mãe, filha, mulher – tudo ao mesmo tempo.

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Quanto mais Margherita recusa sua própria personagem, em um capítulo comum à vida de todos (aqui, a morte da mãe), ela será lançada ainda mais às dificuldades, enquanto o falso e o verdadeiro confundem-se, mesclam-se o tempo todo.

O jogo do cineasta Nanni Moretti não é novidade. Por outro lado, o diretor e ator italiano consegue levar a situação a um nível poucas vezes visto anteriormente: o ponto em que dois universos diferentes encontram-se, em que tudo parece confuso.

O filme, por isso, lança o espectador ao impensável. Às vezes joga com o sonho, não sendo possível saber se Margherita está vivendo algo ou delirando. O filme dentro do filme é também um contraste: o desejo da autora em contar, de novo, mais uma história sobre operários, com revolta, confusões, voz aos oprimidos e luta de classes.

Volta-se, sim, ao clichê, mas ao clichê que permeia o fundo, apenas uma saída para Moretti jogar as diferenças à frente, aquilo que realmente importa: a impossibilidade das pessoas negarem um papel em meio à chamada “vida real”.

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No caso de Margherita, ela não poderá recusar o papel – e o fardo que isso traz, pois as emoções são inegavelmente verdadeiras, e ela não deixará também de ser – da filha que se prepara para perder a mãe, hospitalizada e à beira da morte.

Mia Madre, como outros filmes de Moretti, não esconde partes absurdas, que naturalmente destoam do drama central. Se por um lado há a personagem de Moretti, o irmão sereno e esperado, por outro há o demônio cinematográfico de John Turturro, a não deixar ver as divisas entre vida e interpretação. Ele interpreta sempre.

O problema de Margherita talvez seja controlar demais, discordar dos outros, rejeitar qualquer traço de falsidade. Verá, com dificuldade, não sem conflitos, o peso de confrontar esse universo que leva invariavelmente ao cinema, à arte.

Em Caro Diário, o próprio Moretti descobria o cinema, ou mesmo encontrava algumas partes em andanças de vespa pela Itália, entre salas com filmes americanos e o local em que Pier Paolo Pasolini foi assassino, uma praia afastada.

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Mais tarde, com Habemus Papam, o novo papa de Michel Piccoli foge do Vaticano – e de seu ofício – para tentar se descobrir. Acaba se deparando com o teatro, com a possível verdade na rabeira da interpretação – contra a interpretação da Igreja.

A situação do filme dentro do filme coloca o empresário da fábrica (Turturro) contra seus funcionários, que ocupam o local. Jean-Luc Godard também fez um filme com operários que ocupam uma fábrica, um filme dentro de outro filme.

Em Tudo Vai Bem, a certa altura o cineasta (Yves Montand) encara a câmera e confessa seu cansaço. No olhar de Margherita é possível ver um pouco de Montand, um pouco de sua desilusão, como se a arte não conduzisse a todas as respostas.

Nota: ★★★★☆

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A Pele de Vênus, de Roman Polanski
Os dez melhores filmes de Jean-Luc Godard

Christopher Lee (1922–2015)

A morte de Christopher Lee fez retornar a imagem do ator em suas personagens mais populares, em filmes de Tim Burton, Peter Jackson e George Lucas, além de sua famosa caracterização de Drácula. Abaixo, a imagem de um trabalho nem sempre lembrado, o curioso O Chicote e o Corpo, de Mario Bava, no qual Lee retorna como espírito para atormentar sua amante.

o chicote e o corpo