Um Barco e Nove Destinos

Clash, de Mohamed Diab

Cabem, em um mesmo camburão militar, tipos diferentes em um Egito em ebulição: de membros da Irmandade Muçulmana a manifestantes a favor dos militares, de radicais a jornalistas, de homens adultos a mulheres e crianças. Todos estão presos em um dia de protestos, a observar a luta a partir das janelas do veículo, a tentar sobreviver.

A direção de Mohamed Diab é dinâmica e não deixa perder o interesse em momento algum. A ideia, contudo, já foi explorada outras vezes: reunir em espaço exíguo pessoas de inclinações políticas distintas e de lados diferentes. Ao ver Clash, vem à mente Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock, ambientado na Segunda Guerra Mundial.

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O filme egípcio começa com o camburão vazio. Vê-se sua estrutura metálica enquanto se ouve o trânsito, o som das ruas, a buzina dos veículos. Ainda que o som remeta à realidade, a imagem que se impõe é quase irreal, espaço inabitável e inatingível, uma pintura como representação do cárcere.

Pois será também real e ganhará movimento, proximidade. A exploração do espaço é fundamental. E se às vezes o que há dentro mais parece irreal e absurdo, um teatro de faces conhecidas, de demarcações, discursos políticos, o que há fora carrega o horror da realidade: tudo o que explode a partir da janela é filmado com extremo realismo.

Nessa divisão – entre o espaço do texto, da concentração das faces, das luzes calculadas e, do outro lado, o que mais parece documentário, correndo do lado de fora –, vê-se a força que o filme exerce. E que torna seu desfecho tão difícil. A partir de uma guerra de interpretações, de pessoas que pedem aproximação cada vez maior, é difícil crer em um término que leve a outro estado senão o da liberdade.

O sentido do confinamento tem a ver com a cegueira política. No pequeno espaço, todos se convertem em humanos, e a certa altura todos precisam se ajudar. Nesse camburão, os confinados estão sob o poder de uma força totalitária, sob a evocação da humanidade ou da selvageria, ou uma ou outra, ao passo que fora tudo é conflito.

A intenção, claro, é colocar o espectador como prisioneiro. Não apenas do espaço, mas das pessoas. Em uma batalha interna encampada por gente de lados opostos, resta crer na possibilidade de que essas mesmas pessoas sejam parecidas. Em meio a tantos solavancos, é difícil diferenciar uma ou outra.

Mesmo um grupo favorável à intervenção militar no Egito termina no camburão. Ao atirar pedras contra os jornalistas que já estavam ali, acusados de atuarem a favor da Irmandade Muçulmana, esse grupo é preso no camburão. Islâmicos favoráveis ao regime deposto também são detidos em seguida. O confronto é então inevitável.

Os confinados são colocados à margem: aos militares assistidos pelos vãos da janela ou da porta, não significam nada porque não fazem mais parte da guerra do lado de fora. E quando um soldado revolta-se e resolve ajudá-los, termina preso no camburão. É um sinal de humanismo raro entre o confronto que toma as ruas.

A clausura imposta por Diab é, primeiro, metafórica: de um lado ou de outro dos conflitos, as personagens são reduzidas a quase nada. São expostas à brutalidade dos militares, depois à da própria turba revoltada que toma as ruas. De um lado para outro no veículo apertado, elas não têm mais ninguém a recorrer, ou em quem acreditar.

(Eshtebak, Mohamed Diab, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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