transexual

Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O movimento de Marina Vidal pelas ruas remete tanto à necessidade de chegar a um destino quanto à de se perder, ou recomeçar. Pois nesse caminho, não raras vezes, ela deverá questionar a si mesma, deverá olhar no espelho, encontrar a fuga ou o fecho que dá vez à sua história, seu ser: quem é ela talvez seja o grande mistério.

Não se trata da identidade que carrega no documento, ou da transformação física que expõe. O que está em jogo, em Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, é a identidade que se projeta no espelho, e o que ela diz sobre a alma da mulher em questão, essa mulher fantástica que, do dia para a noite, viu-se sem o homem que amava.

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Viu-se perdida, por isso, nas ruas de uma cidade grande, entre pequenas corridas e passos rápidos, para ir a tantos lugares e a lugar algum. Nesse meio, até mesmo o vento será capaz de segurá-la, não uma rajada qualquer: a ventania que, a certa altura, serve à representação perfeita da natureza – o corpo, a condição – contra o desejo de seguir em frente.

Nem a natureza será capaz de segurar a mulher. Nem o que talvez ainda carregue – ou esconde, sem muita opção – entre as pernas. Pois o que vê, ao olhar em direção ao próprio sexo, na sequência mais importante do filme, é justamente seu reflexo. Deitada na cama, perto do encerramento, Marina coloca um pequeno espelho entre as pernas. No lugar do falo o que salta é sua face, seu reflexo, o da mulher fantástica em questão.

Sua situação não é das melhores: certa noite, em seu aniversário regado à festa, ela vê-se com o companheiro à beira da morte. Depois, no hospital, descobre que ele morreu. Vêm as perguntas à protagonista transexual: por que teria ido embora do hospital tão rapidamente? Por que o homem carregava hematomas no corpo?

O espectador sabe todas as respostas, acompanhou o périplo da heroína. Aos outros, Marina é vista como possível profissional do sexo, aproveitadora, carregando o estereótipo que tanto se leva aos transexuais. Nesse meio de intimações e dúvidas, a inocente é obrigada a se ver no espelho de novo, a repensar seu local nessa sociedade.

O diretor Lelio já havia mergulhado no universo feminino no belo Gloria, sobre uma mulher, a personagem-título, também em uma jornada de descobrimento. À parte a questão feminina, em Uma Mulher Fantástica resta sempre o reflexo distorcido, ou a reprodução da máscara do monstro, a forma como é vista por muitos.

Em um momento forte, Marina é colocada à força no interior de um carro por dois homens, enquanto um terceiro dirige. Quem está ao volante é o filho de seu companheiro morto. Os homens passam uma fita adesiva ao redor de sua face. A câmera aproxima-se. O monstro nasce da pele que salta, dessa face que não esconde o susto, o medo, a dor.

Face, por sinal, quase sempre sofrida, paralisada, de pouco ou nenhum desejo. Marina cria para si própria – no rosto bloqueado e abatido – a forma de quem parece ter vivido demais, ou de quem desistiu de viver. Não é uma expressão erotizada; é uma expressão feminina, de alguém que acaba de nascer e se volta ao redor como se tudo fosse novidade. Faz lembrar – não apenas pela aparência – a moça que renasce em Fale com Ela, de Almodóvar.

A protagonista é interpretada pela atriz e cantora lírica Daniela Vega. Sua presença torna o filme ainda maior. Suas palavras, quando explode, não deixam dúvidas sobre o que quer, e sua caminhada não abre novas interpretações a respeito do amor que sente pelo homem morto. A história de uma mulher que renasce, que se redefine, contra os monstros que impõem padrões, seu espaço envernizado, cheios de hipocrisia.

(Una Mujer Fantástica, Sebastián Lelio, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero

Bons exemplos de cinema, os filmes abaixo também podem – e devem – ser discutidos em outras esferas. Retratam, sob o olhar de cineastas distintos, a questão de gênero e a diversidade sexual a partir de histórias humanas. As obras foram lançadas entre 2007 e 2016.

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XXY, de Lucía Puenzo

O delicado filme de Puenzo leva à história de um intersexual, uma hermafrodita, Alex (Inés Efron), que foi criada como menina pelos pais em região à beira-mar do Uruguai. Mais tarde, Alex decide parar de tomar hormônios e parece se identificar como homem, ou mesmo não apresenta definição. A obra aborda não apenas o drama da personagem, mas também da família, sem saber como lidar com a questão.

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Tomboy, de Céline Sciamma

O cotidiano da menina Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël, é o centro do trabalho de Sciamma. A questão de gênero é aqui levada à infância e pré-adolescência, com brincadeiras e relações entre jovens em um bairro de classe média francês. A direção busca sempre o rosto da (ou do) protagonista e consegue, sem grande esforço, levar o espectador ao centro de suas tensões.

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Laurence Anyways, de Xavier Dolan

Quando o professor Laurence (Melvil Poupaud) começa a se vestir com roupas de mulher, seus alunos e outros professores não entendem. Ficam chocados. Além da questão, o filme aborda sua relação, aqui central, com a namorada (Suzanne Clément), cujo amor pelo protagonista faz com que continue ao seu lado, com o passar dos anos. O diretor Dolan também abordou a diversidade sexual em outros filmes.

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A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper

Com os contornos típicos do “drama de Oscar”, o trabalho de Hooper segue os passos de Einar (Eddie Redmayne) e como se transformou em Lili Elbe. O que poderia ser apenas uma provocação nas festas dos anos 20, com roupas femininas e a companhia da mulher (Alicia Vikander), torna-se questão de vida para Lili. O próximo passo é se tornar a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de sexo.

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Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

O novo trabalho da cineasta começa com uma cena que explica tudo, ou quase: o protagonista (Naomi Nero) faz sexo com uma menina, no banheiro, usando roupas íntimas femininas. Esse grito de contestação à sociedade heteronormativa vem acompanhado de uma história sobre bebês furtados na maternidade. Por consequência, com a mudança de família, o menino encontrará a abertura para afirmar suas escolhas.

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A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper

Ao pressionar o vestido contra o corpo, o pintor Einar faz nascer Lili. Momento em que desperta a mulher presa em seu corpo, seu verdadeiro “eu”. O ator Eddie Redmayne leva essa mudança à expressão de estranheza, como se não entendesse a passagem.

À frente, sem demora, ele vestirá roupas femininas, colocará peruca, maquiagem, no que deveria ser apenas uma provocação: segue com a mulher, Gerda (Alicia Vikander), a uma festa da alta sociedade, e vê nascer Lili Elbe em definitivo.

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A passagem é celebrada até com certa naturalidade em A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper, quando, apesar da libertinagem, a sociedade dos anos 20 ainda não sabia lidar com o que mais parecia confusão. Na contramão, era descoberta.

E isso, por sua vez, levava a problemas maiores, à dificuldade de entendimento da comunidade médica sobre a existência de uma mulher em um homem, o fato de Lili nascer dessa experiência aparentemente à toa, natural.

A natureza tem espaço nos primeiros instantes, ainda nos créditos. Retornará ao fim, momento em que Gerda segue ao local em que Einar cresceu. Ou seria Lili? Como se sabe, Einar teve uma rápida experiência homossexual na infância.

No filme de Hooper, sobre a primeira transexual que o mundo conheceu, as imagens iniciais dão seu recado: trata-se de uma questão de natureza, não de escolha. Por isso, para Einar, ou Lili, não resta outra saída senão ser transparente.

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Na total mudança, terá de ser quem deseja ser, na tentativa de se realizar, ser autêntica – ainda que para alguns a passagem possa soar como aberração. São muitos os supostos especialistas que não compreendem Lili. A desinformação apenas a confunde.

O que explora A Garota Dinamarquesa é o nascimento de Lili apenas como questão de tempo, ou também de lugar, de época. É quando, em meio a provocações, a mulher aceita vestir o marido como ela, e com ele ir a uma festa entre amigos.

A regra era provocar, era viver. Os riscos – se é que assim o rito pode ser chamado – acabam se revelando, para as dúvidas dela e até mesmo dele (dela). Lili nasce em meio à naturalidade, mas contra a ordem social, e para a não compreensão de muitos.

O filme tem diversos tropeços. Toma um material interessante e não vai além do drama em formato conhecido, com o desentendimento sobre si mesmo, depois o dos outros, o da sociedade e, por fim, o papel da companheira em toda essa luta.

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Tudo como já se viu. Ainda assim, o problema maior está na frieza, na forma como Hooper tenta “pincelar” a tela, como se se lançasse a um quadro de tons escuros, em um tempo de estranhezas, e chegasse à melancolia. O filme termina sem alma.

O excesso de enquadramentos com lente grande angular também incomoda. Tenta-se parecer grandioso, colocar personagens como pequenas peças de um quadro, ou contra aquele mar de tijolos e ambientes que engolem vidas ao centro.

Questões de natureza, diz o filme em suas pinceladas quase lúgubres, não devem ser confundidas com acaso. Apenas repousam, para ora ou outra despertar.

Nota: ★★☆☆☆

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