Tom Holland

Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts

A dicotomia herói/vilão, em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, pode ser substituída por outra: jovem promissor/adulto fracassado. A ambos, herói ou vilão, jovem ou adulto, impõe-se o sistema ao redor, com seus representantes: um país de homens bilionários e belos como Tony Stark, a face do chamado establishment americano.

Para Peter Parker (Tom Holland), Stark é o exemplo a ser seguido, seu mentor. Ele não cansa de dizer aos amigos que faz estágio com o empresário que veste a armadura do Homem de Ferro. Ao vilão, Adrian (Michael Keaton), depois convertido no Abutre, seres como Stark são odiosos: servem apenas para lucrar a partir de gente batalhadora como ele, que no início perde um trabalho e culpa justamente Stark.

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Adrian trabalhava na limpeza da cidade, entre destroços, após a batalha dos heróis contra os alienígenas retratada no primeiro filme dos Vingadores. Por se tratar de material alienígena, foi impedido de continuar o serviço. O produto ficou sob a batuta de Stark. No entanto, Adrian ainda conseguiu furtar um pouco do precioso material. Criou assim sua armadura.

A construção de personagens – nunca perdida entre tanto movimento, giros, pulos, saltos de prédio em prédio – é o que há de melhor em De Volta ao Lar, de Jon Watts. A questão política atual, que indica a ascensão de uma figura como Donald Trump, está representada no filme. Ressentidos com os rumos de uma nação guiada por homens como Stark ganham corpo em Adrian, candidato a engrossar as fileiras de Trump.

Por sinal, as motivações de Adrian são sempre as do empresário, não as do vilão em busca de vingança, ou as de um louco atrás do caos. O Abutre é, antes, um empresário. Ao roubar de Stark, talvez ele tente expor o crime como algo justificável: está apenas tomando o que deveria ser seu por direito, o trabalho que perdeu enquanto limpava a cidade.

A incrementar essa batalha a distância, entre o bilionário e o homem comum que funde sua armadura escondido em um galpão, surge o adolescente que deseja ser um super-herói. O Homem-Aranha erra o tempo todo. Mais brinca do que luta. Vê em Stark o “empresário que deu certo” e em Adrian a possibilidade de o mal também residir nas melhores famílias.

A fase adulta de Peter Parker começa a se desenhar nesse momento: ele precisa sair do típico bailinho adolescente de décadas passadas, nesse passado que ganha espaço como nostalgia americana, para enfrentar o vilão. Precisa deixar sua amada para correr atrás de sua outra identidade: em suma, precisa deixar o jovem para ser o homem, e encarar a briga.

Com um peso extra sobre o corpo, a certa altura, precisa provar força e levantá-lo. A sequência é conhecida e resume bem essa transformação. O jovem que vê em Stark seu modelo, seu “chefe”, tem de provar estar à altura da roupa colante que deseja usar para combater o crime – roupa, por sinal, projetada por Stark.

Na melhor sequência do filme, o Homem-Aranha mostra certo medo de altura, no topo do Monumento de Washington. Watts leva o medo ao espectador ao voltar a câmera para baixo, ao fazer rolar uma pedra. Não deixa de ser outro momento representativo: o jovem herói descobre o tamanho do mundo que o cerca e o abismo que o espera.

O mesmo jovem herói não quer deixar de ser jovem. Ainda quer estar pela vizinhança, a combater pequenos bandidos que rondam seu bairro. Prefere o “estágio” à vaga garantida no time dos grandes, os Vingadores. É apenas questão de tempo para se juntar à turma. Com suas fragilidades e graça, é um dos poucos heróis interessantes da atualidade.

(Spider-Man: Homecoming, Jon Watts, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins

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Z: A Cidade Perdida, de James Gray

A jornada de Percy Fawcett pela Amazônia tem mais sonho que realidade. O diretor James Gray, com roteiro de sua própria autoria a partir do livro de David Grann, divide o tempo entre passagens do explorador em busca da cidade perdida e situações nas quais a selvageria impõe-se de outras formas, como na caçada a um cervo, no início, ou na Primeira Guerra Mundial.

O que há de irônico aqui – ainda que o filme em momento nenhum desdenhe das crenças do herói, e tampouco o trate como louco – é essa tentativa de encontrar uma civilização quando só restam sinais de selvageria. E Fawcett, como mostra Gray no desfecho, terminará consumido pela mesma. Rui o sonho da civilização.

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O militar converte-se em explorador quando é levado pelo Império Britânico a uma missão na América do Sul, entre a Bolívia e o Brasil, na Amazônia, para o mapeamento de seu território. Os ingleses têm interesse no fim dos conflitos locais, o que tem feito subir o preço da borracha. Os homens seguem então à mata fechada.

Três viagens à selva são mostradas ao longo do filme. Fawcett primeiro lamenta: não entende por que deixou a família para trás, na Inglaterra, para invadir território tão hostil. Logo muda, encanta-se com a possibilidade da aparência selvagem e desordenada abrigar uma cidade. Isso ocorre após ele encontrar alguns objetos de cerâmica na floresta, o suficiente para sustentar suas crenças.

De volta à Inglaterra, Fawcett protagoniza um debate que parece ter saído de A Volta ao Mundo em 80 Dias ou algo do tipo, quando um bando de britânicos bem vestidos colocam-se a desconfiar dos outros, todos sedentos por novidades e desafios, nos espaços de um clube local. Todos a esbravejarem o poder do homem branco.

De volta à mata, o explorador descobre novas esculturas sobre a rocha, uma tribo canibal, e se vê outra vez ao lado de homens desconfiados, doentes, sem forças para continuar a empreitada. Vê-se sem comida, a certa altura, o que inviabiliza a missão. Difícil não pensar em Aguirre, a Cólera dos Deuses, de Werner Herzog, no qual os homens são pouco a pouco dizimados à medida que seguem pelo rio.

E se não chega à insanidade do filme alemão ou mesmo de Apocalypse Now (as comparações são quase incontornáveis), isso se deve à visão clássica de Gray, à maneira como prefere a calmaria e a linearidade, à aparente retidão das personagens e até mesmo aos contornos de tragédia silenciosa do homem controlado até o fim.

Seus homens não explodem nem mesmo quando tudo parece terminado, quando percebem ter perdido a batalha. Fawcett não desiste da missão com facilidade: é o caçador que consegue abater o cervo em uma disputa, o militar que conduz um bando de homens contra os alemães na Primeira Guerra e quase termina cego. Na pele do protagonista, Charlie Hunnam concentra força e humanidade.

A terceira viagem à Amazônia, à frente, ocorre por insistência do filho, Jack, interpretado por Tom Holland. O garoto aprende a gostar da caça e, como o pai, busca na mata uma aventura ou a possibilidade de escrever seu nome na história. São louvados pelos outros no caminho, embrenham-se de novo no meio do nada, encaram índios enquanto estes se mantêm a distância, incompreendidos, indecifráveis.

Como o filme anterior de Gray, Era uma Vez em Nova York, a imagem final de Z: A Cidade Perdida mostra a caminhada de uma personagem por meio de seu reflexo. Vê-se, através do espelho, um espaço de sombras, a mulher (Sienna Miller) que ainda aguarda o retorno do marido e do filho, a mulher que mantém a esperança de que ambos talvez tenham encontrado a sonhada civilização perdida entre a mata selvagem.

(The Lost City of Z, James Gray, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
James Gray: era uma vez na América