sexo no cinema

O Proscrito, de Howard Hughes e Howard Hawks

Poucas vezes no cinema homens tão desinteressantes deixaram de lado uma mulher tão atraente. Aos cantos, Jane Russell é a figura irreal em O Proscrito, a imagem idealizada de uma Hollywood ainda no período clássico, a se mover pelos terrenos da sexualidade.

O diretor e produtor Howard Hughes expõe, pelo decote, pequena parte de seus seios. Faz história com essa jovem ainda contida em expressões, dominadora com um simples olhar, uma simples frase àqueles homens incapazes de se inserir nos domínios dela. É o protótipo da pin-up, da mulher carnuda que dominaria o cinema nos anos seguintes.

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Hughes soube aproveitar essa mina de ouro: teria criado, diz a lenda, um sutiã para sua atriz e vendido sua imagem para promover o filme. Codiretor da obra, Howard Hawks declarou em entrevista a Peter Bogdanovich que não teria feito esse tipo de publicidade com a atriz, “mas ele [Hughes] fez e teve grande sucesso”.

O Proscrito retorna a algumas lendas do oeste. Doc Holliday (Walter Huston) tem seu cavalo roubado por Billy the Kid (Jack Buetel) e, em sua procura pelo animal, vai parar na pequena cidade cujo xerife é ninguém menos que Pat Garrett (Thomas Mitchell). Todas essas figuras são um pouco distorcidas, às vezes cômicas. Consciente ou não, Hughes e Hawks brincam com os mitos do faroeste.

E ainda que grande atração emane de Russell, os homens em cena nada podem fazer: são antigos machos do oeste que pouco se importam com a mulher que ora é beijada por um e deixada ao outro com pouco ou nenhum ressentimento, que ora serve de isca para um deles tentar capturar o outro, o foragido da lei.

Enquanto ela insinua-se aos cantos, e sem esforço, os homens estão mais preocupados com seus cavalos e armas. O tom erótico é quase forçado, imposto apenas por uma peça – ao passo que aos pistoleiros resta a forma fria do homem em sua missão, destinado a vagar solitário. Chega a ser engraçado o momento em que Billy não consegue atirar em Holliday, o único parceiro que teve na vida.

Há quem enxergue um fundo homossexual nessas relações – o que talvez justifique a indiferença a Russell. O faroeste sempre foi o espaço dos homens. Ali, as mulheres, com alguma exceção, sempre se mantiveram como coadjuvantes. Caso ganhassem peso, terminavam alienadas a algum pistoleiro, ao embate final.

Coadjuvante de luxo, Russell dá peso à obra. Segundo Jean Tulard, Hughes criou para a atriz o primeiro sexy western. A bela – ao lado de atores consagrados como Huston e Mitchell – domina todas as cenas em que aparece. O feito não está ligado ao talento da atriz (que tinha, é verdade), mas à pura e simples presença, aos traços que o cinema clássico imortalizou na tela.

(The Outlaw, Howard Hughes, Howard Hawks, 1943)

Nota: ★★★☆☆

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Perdas e Danos, de Louis Malle

A primeira aparição de Juliette Binoche dá a ideia do peso de sua personagem, feita para desestabilizar: fria, vestindo preto, de cabelos curtos colados ao crânio, um ser que beira o exotismo e, justamente por isso, capaz de captar a atenção do protagonista.

Ele próprio apontará às intenções de Louis Malle em Perdas e Danos: “Quem é você?”, pergunta, no segundo encontro do casal, e ainda com roupas. Foi assim no primeiro: ele vai ao endereço dela e sem palavras avança. Fazem sexo ainda com roupas, a salientar o encontro desajeitado, e sem deixar claro se ela deseja-o de verdade.

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Ele deixa-se ver. Ela não dá indícios de paixão. Ao contrário, e como a personagem de Terence Stamp em Teorema, de Pasolini, ela existe apenas para desequilibrar a família “perfeita” encabeçada pelo homem de Jeremy Irons, o ministro Stephen Fleming.

Malle não chega à profundidade de Pasolini. Fica quase sempre na superfície. Seu filme tem bons momentos e, por algum milagre, o casal ainda consegue transmitir gotas de emoção. Não é sobre traição, mas sobre um homem que se vê nu, que descobre não ter o controle de si mesmo. O que leva ao desejo pelo anjo silencioso.

Ao descobrir essa mulher, a noiva do filho, Stephen converte-se em jovem bobo que passa a perseguir a nova amada. Chega a viajar de trem de Bruxelas a Paris apenas para um encontro rápido com a moça, a vê-la pela janela, no outro hotel, com seu filho.

Menos radical, às vezes atrevido, Malle não retira o filme da frieza: é para causar mal-estar, para não se entender o que nela tanto atrai o protagonista, e o que tanto o faz se desviar da mulher mais interessante em cena, sua esposa (Miranda Richardson), e que chega a lhe apresentar o corpo, ao fim, para ver o quanto perdeu.

Anna (Binoche), claro, tem passado nebuloso. Envolve a morte do irmão que ela amou. Quando perguntam o motivo da morte do rapaz, é direta, não menos fria: morreu por amor. A família desestruturada da moça, inaceitável à sociedade de bons modos e religiosa em questão, certamente a motiva a destruir a outra.

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Malle não precisa elegê-la vilã, o que, de novo, faz pensar no Stamp de olhar enigmático e que, pouco a pouco, traga todos à espiral de desgraça. Binoche não é atraente, tampouco o corpo que gera desejo enquanto faz sexo com o ministro. O cineasta francês filma o sexo como conflito, fúria, com as mãos dos amantes sobre os olhos do outro e os corpos que se debatem enquanto se tocam.

A falta de emoção tem a ver com essa sociedade fria e que ainda deixa ver, à deriva, em seus coadjuvantes, poucos sentimentos verdadeiros: a mãe que expõe o corpo que o marido perdeu, ou trocou; o filho que ainda guarda um sorriso verdadeiro.

A tragédia da parte final é clara: ao filho, não apenas a amante está nua. O pai, a família, todo o alicerce que não se vê na foto que o mesmo menino carrega, que o pai – longe de seu cargo, de suas funções públicas de ministro, e agora preso a algum lugar distante – vê-se obrigado a apreciar, ampliada, em sua parede.

A Anna da fotografia não está longe da moça em sua primeira aparição, ao pai, com seu jeito petrificado, seu olhar distante, seu convite à perdição. O mal que ela transmite é inexplicável, os efeitos são conhecidos: o homem segue em frente, perde tudo.

(Damage, Louis Malle, 1992)

Nota: ★★★☆☆

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Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars von Trier

A impressão é que nada é por acaso no universo de Joe (Charlotte Gainsbourg), a protagonista de Ninfomaníaca: Volume 1, do diretor Lars von Trier. Esse universo pertence à personagem, encontrada em um beco, certa noite, e violentada por motivos não explicados.

Se há alguma naturalidade no tratamento da câmera, que chega a perder o foco e treme com constância, o mesmo não se pode dizer do universo criado – ou relembrado – pela mesma mulher ao centro da história, a ninfomaníaca do título.

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Não é necessariamente um filme sobre sexo. O diretor, como em outros de seus longas, lança a personagem a um labirinto no qual as andanças sempre levam ao mesmo ponto, como parece ocorrer nas passagens de Joe por um bosque.

Ali, a certa altura, ela encontra partes de uma fotografia rasgada. Pega os pedaços pelo chão, une-os, reconstrói a foto de um velho amor. Como em um passe de mágica, o homem reaparece. Constata-se então brincadeira de von Trier: sua protagonista, ao criar essa história, assume ser a única dona desse universo.

O sexo está ao centro, é verdade. Faz a mulher movimentar-se. Na juventude, Joe é interpretada pela sempre impassível Stacy Martin. Suas reações mais explosivas ocorrem quando faz sexo. E faz muito – com diversos homens, em diversos locais, em uma única noite, apenas para jogar ou passar o tempo.

O filme volta-se primeiro à menina atrevida, ao sexo como descoberta, como aventura. Vai da infância à juventude, da perda da virgindade aos encontros noite após noite, em trens, em apartamentos, até mesmo no hospital – quando seu pai (Christian Slater) delira, agoniza e morre.

A morte, como o gozo, dá-lhe prazer. Antes, quando começa a contar sua história para Seligman (Stellan Skarsgård), o homem que a encontrou violentada e desacordada no beco, ela explica ser uma pessoa má. O diretor associa o sexo não meramente à maldade, mas a uma busca pelo prazer como contraponto ao amor. Além disso, a sociedade finge, atolada em hipocrisia, não compreender o sexo isolado, o que ficará nítido na segunda parte.

Joe foge quando uma amiga fala sobre a importância do amor ao sexo. À frente, quando mostra algum sentimento – ou algo mais sério – pelo chefe (que tirou sua virgindade), a moça reluta em fazer sexo com ele. Como outras personagens de von Trier, ela é fadada à dor.

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Nesse meio, o diretor insere números na tela, corta-a em partes. Tais efeitos dirigem ideias e mais ideias à história física da mulher e seus desejos. O filme pretende evocar uma experiência de detalhes, em que números dividem espaço com sêmen que escorre pela boca.

Ninfomaníaca: Volume 1 é uma obra forte. Na tela, contudo, fica certo vazio – o que pode ser explicado pelo encerramento abrupto e pela espera de respostas que pertencem à sua continuação.

Os números, os encontros, as coincidências e as histórias evocadas por Seligman são artifícios para acreditar que nada, no fundo, é por acaso na vida de Joe. Ou que tudo na vida está aberto à associação, à compreensão. Mas será assim no campo sexual?

No sexo, Joe revela sua existência, sua busca, seu vício. Viver é se viciar em algo, é se deixar levar contra as prisões da sociedade. Ela não firma compromissos e tem diferentes homens. Para piorar, não explica ao espectador quem é e o que deseja.

Ao fim, cada um dos amantes é uma peça. Em um extremo, o submisso; em outro, o caçador; ao meio, aquele que deveria trazer partes dos outros dois e satisfazê-la por completo. É como tocar piano: há três partes que dão harmonia, que dão luz ao homem esperado. Ainda assim, o prazer total é incerto.

(Nymphomaniac: Vol. I, Lars von Trier, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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Última Felicidade, de Arne Mattsson

Os jovens não suportam viver sob o julgamento dos outros. Eles dançam e se divertem em Última Felicidade, de Arne Mattsson, ambientado no campo. Contra eles está o olhar corrosivo do pároco, representação do passado, do conformismo.

O ambiente repressivo leva mais uma vez ao confronto entre tradição e modernidade – entre os jovens pecadores e os religiosos. À mesa, o pároco fala sobre o desrespeito aos domingos, sobre o problema das danças, do teatro, dessa diversão.

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Quando o protagonista questiona ele sobre a tolerância cristã, seu gesto é rápido: levanta-se e fecha a janela, como se o barulho de fora – os jovens que se divertem aos domingos – fosse um insulto à ordem religiosa.

O protagonista é um rapaz da cidade, Göran Stendahl (Folke Sundquist), que vai ao campo passar um tempo com o tio. O que seria uma temporada estende-se: o filme de Mattsson baseia-se na passagem das estações, entre o verão de libertação e o inverno triste, entre o calor dos jovens e constatação, ao fim, da frieza da morte.

Aqui, Göran será julgado ainda no início, quando chega ao cemitério. Os outros o encaram como a doença que veio de fora, responsável por levar uma jovem à perdição – mas nem todos estão convencidos disso, ou tomados pelas ideias e palavras do pároco.

As imagens de Mattsson levam ao amor idealizado, ao jovem forte, irretocável, cuja face deixa saber cedo sobre sua bondade. A menina, sua amada, oferece o mesmo: é o anjo que se despe – como a Mônica de Ingmar Bergman, ainda mais importante quando o assunto é sexo no cinema – e que não deixa dúvidas.

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Kerstin (Ulla Jacobsson) vai dos 14 aos 17 anos sem mudar. Mulher forte, ao mesmo tempo a adolescente em dúvida, sob a pressão dos outros – do pároco, de sua ajudante mais velha, do homem com aparente deficiência mental e que ronda os ambientes, como uma criança, ou apenas um servo cego da Igreja. Homem em estado infantil.

Ela ainda resiste em sua forma angelical, e o filme não se inclina ao cinismo. Se a Mônica de Harriet Andersson toma o protagonismo de seu universo e confronta o espectador, Kerstin é mantida presa e incompreendida.

O filme tem sequências incríveis. Mattsson apresenta o paraíso dos jovens vivos, rebeldes, sob a luz brilhante que emana do fundo e delineia os corpos – também a luz que quase não deixa vê-los quando estão nus na água.

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Em outra situação, o casal central entrega-se ao desejo: estão juntos e sozinhos (ou quase) em uma noite chuvosa, no pequeno cômodo de madeira de Kerstin. Raios e trovões sintetizam o conflito contra os outros, a abalar o suposto paraíso.

Depois de encarar os moradores do campo, Göran foge do cemitério. À beira do lago, a câmera toma distância e passa entre a vegetação que sai das águas. O rapaz aos poucos desaparece. Sobram a natureza bruta e certo vazio.

O amor idealizado não sobrevive ao velho mundo totalitário da igreja, à velha ordem de seus líderes, sequer ao homem infantil que nada sabe sobre a vida senão o que parece bom e o que não parece. O casal ao centro não cabe na percepção simplista da maioria.

Nota: ★★★★☆

Cinco atrizes que erotizaram o cinema nos anos 50

O cinema moderno tem grande dívida com algumas atrizes e seus diretores. Algumas marcaram época em mais de um filme. Para outras, bastou uma cena. Quando o cinema passou a abordar a sexualidade de maneira aberta, após o fim da Segunda Guerra Mundial, algumas mulheres desafiaram os bons costumes e o puritanismo.

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Um tempo de mudanças, da libertinagem na contramão do suposto fim do mundo, dos conflitos políticos e perseguições, como o macarthismo. Tempo de “Rock Around the Clock”, de jovens protagonistas como James Dean, de Saint-Tropez e do “viver o hoje”.

Harriet Andersson

Demorou um pouco para Mônica e o Desejo ser reconhecido como divisor de águas. Até então, nenhum filme havia tratado a sexualidade com tamanha naturalidade. Como Mônica, Harriet Andersson guarda inocência e libertinagem, e chega mesmo a encarar o espectador – no “plano mais triste da história do cinema”, como diria Jean-Luc Godard.

mônica e o desejo

Melina Mercouri

Misto da mulher livre de sua época e, ao mesmo tempo, com expressões que remetem às damas do cinema clássico, como Gilda e Lola Lola. Na pele da personagem Stella, da obra de Mihalis Kakogiannis, ela reivindica sua posição ao palco. Livre, coloca os homens a seus pés: não quer casar ou ter relacionamentos duradouros, apenas viver.

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Marilyn Monroe

Diferentes filmes mostram Monroe como a mulher desejável, capaz de captar o olhar da cinefilia da época. Desde Os Homens Preferem as Loiras, ou mesmo como a cantora de O Rio das Almas Perdidas, chegando à bela laçada de Nunca Fui Santa, Marilyn dá vida à deusa do sexo, de rosto angelical, ainda assim feita de pura carne.

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Brigitte Bardot

Logo na abertura de E Deus Criou a Mulher, a loura Bardot está nua, ao sol, e pede ajuda do homem para se cobrir. Assim, Roger Vadim sintetiza as mudanças da época. Ao lado da atriz, há a exploração do paraíso, Saint-Tropez, refúgio ideal nos tempos da Guerra Fria – ao qual iria Godard com seu O Desprezo, e justamente com Bardot.

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Jeanne Moreau

Nada poderia preparar o espectador para o escândalo de Amantes, de Louis Malle, lançado em 1958. É sobre uma mulher entediada com o casamento e à procura de novas aventuras. A certa altura, leva o amante para casa e, no dia seguinte, escolher fugir com ele. A traição é quase aventura obrigatória, inconsequente e desesperada.

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