Se Meu Apartamento Falasse

Farrapo Humano, de Billy Wilder

O homem em questão, embriagado, não tem poder sobre si mesmo. Cambaleia, vive às sombras, furta uma bolsa para conseguir dinheiro, depois chega a roubar uma garrafa de uma loja como se estivesse armado. Não está. Ainda não. Basta o olhar de Ray Milland, o embriagado em questão, para que o balconista entregue a garrafa.

Depois de Farrapo Humano, de Billy Wilder, o “bêbado” passou a “alcoólatra”. Sinal dos tempos. Não que não fosse necessário falar de alcoolismo e seus males. O filme de Wilder é um retrato forte sobre o problema, passado em apenas um fim de semana e na companhia do homem entregue à própria sorte, sem poder sobre o corpo e a mente.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Um filme que chamou a atenção do público, da crítica e dos prêmios. Um filme que terminou imortalizado – ou quase isso – devido à coragem de se colocar como um divisor de águas. Até então, existiam os bêbados felizes. Farrapo Humano levou ao alcoólatra prestes a tomar a arma e puxar o gatilho, preso às sombras da grande cidade.

Em Billy Wilder: E o Resto é Loucura, Hellmuth Karasek aponta à transformação, ao cinema antes e depois do filme: “No cinema, os bêbados eram esperados em casa por suas mulheres, que ficavam à espreita atrás da porta, com o rolo de macarrão na mão”. Os bêbados faziam sucesso. Chaplin ganharia fama e fortuna no papel do descontrolado Vagabundo, com pouca força para sustentar o peso, ainda assim leve, engraçado em sua forma trôpega.

Em Farrapo Humano, um certo Don Birnam eleva-se à tela como um monstro: expande os braços um pouco ao alto, firma os lábios para dizer palavras que o levam a pontos do outro lado do mundo, o olhar que borbulha de paixão enquanto encara, como se fosse o último gole, o pequeno copo de bebida posto sobre o balcão. Não fraqueja: vira inteiro.

O destino do alcoólatra, de todas suas certezas a todas suas fraquezas, aos tropeços, ao crime, à miséria, ao hospital para ser trancado, depois aos braços de alguma dama disposta a amar esse novo vagabundo. O triste retrato de um certo homem da cidade, um como tantos, a quem resta encarar a cidade da janela, a grande metrópole.

Pois Wilder voltaria à grande cidade em Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Algo aproxima esses filmes. São irmãos. Um como drama profundo, sobre aprisionamento; o outro como comédia sobre o ridículo da vida moderna, no qual homens assemelham-se a formigas, gente que encontra o prazer, de novo, em algum bar ainda aberto em pleno Natal, para se escorar no Papai Noel igualmente à beira do balcão.

O homem moderno, diz Wilder, não vive. Soçobra. Escora-se. Precisa de alguma injeção de ânimo constante, de alguma fórmula para o lábio não tombar – o que Milland faz com maestria. O roteiro é conhecido: da ideia de força, com o copo à mão, passa à fraqueza absoluta, à escuridão do cômodo e aos delírios com pequenos animais.

Se por momentos a cidade é filmada de maneira realista, em outros as sombras levam Farrapo Humano ao campo expressionista. A trilha sonora assemelha-se à de um filme de ficção científica, chega mesmo a incomodar o público, como se martelasse ali a estaca que atinge a mesma personagem, o que lhe imobiliza o filme inteiro.

Estranho jogo em que o movimento não permite que se saia do lugar. É a amostra maior do problema retratado, da passagem do bêbado para o alcoólatra. Se antes o Vagabundo de Chaplin era capaz de flutuar, o homem moderno de Milland vê-se em lama espessa, no labirinto em que é apenas, e pouco a pouco, um corpo sem vida.

(The Lost Weekend, Billy Wilder, 1945)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bastidores: Wilder e Monroe

Anúncios

O Processo, de Orson Welles

Os engravatados representantes da Justiça prendem e não explicam o motivo. O acusado, apesar de negar a culpa, ainda deixa dúvidas. Talvez Josef K. (Anthony Perkins) seja realmente culpado de algo, todos são.

Ao ser questionado por Peter Bogdanovich se o protagonista nasce culpado, como parece ser a visão de Franz Kafka em O Processo, Orson Welles rebateu. O cineasta lembrou que o escritor era judeu. A culpa, disse Welles, nasce com os católicos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Nas voltas dessa adaptação de O Processo, o protagonista esbarra na Justiça e na religião. Ao fim, o padre e o advogado confundem-se: ambos oferecem ao acusado a possibilidade de absolvição, ainda que não se reconheça a origem da culpa.

Mais do que mostrar o que move a ação de quem persegue o protagonista, a obra apresenta o mergulho em si próprio: a história – se é possível colocar dessa forma – começa e termina em Joseph K., o rapaz efeminado, sempre titubeante a cada novo passo e, subitamente, tomado pela fúria quando deve investir com discurso.

Welles explora os tempos estranhos da época, os anos 60, o que explica o encerramento com a explosão da bomba, não com a execução à faca. Os prédios quadrados, o ambiente soturno, os becos e as pilhas de documentos remetem ao universo fechado, ao gélido clima do lado comunista do Muro de Berlim, sob a perseguição política.

Por outro lado, a origem dos problemas é humana, não política – ainda que às vezes seja difícil encontrar separação, sobretudo quando se trata do poder.

O cômodo em que K. dorme, no início, parece enorme, profundo, ainda que o teto, achatado, quase toque sua cabeça. Os enquadramentos de Welles exploram a grandeza de locais em que pessoas funcionam como máquinas, em que o banco parece ser uma grande fábrica na qual as peças são mesas com pessoas.

Repetição e profundidade foram vistas em A Turba, de King Vidor, e depois em Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder – filmes, vale lembrar, sobre a explosão das metrópoles, sobre a mecanização humana. O Processo não foge à regra: sua crítica aborda a loucura do homem medíocre cuja dor é ligada à culpa inexplicável.

À culpa que envolve a personagem sem lhe dar saídas, evidenciada nos corredores apertados, na pouca luz, em suas corridas a lugar algum – para terminar morto. No início e no fim, Welles retorna à história do homem que ficou em frente a um portão e, pelo resto da vida, teve a passagem impedida por um guarda. Ao fim, apesar de morrer sem atravessar, descobre que esta foi feita apenas para ele.

O poder leva à crença de que todos devem ser tratados separadamente, de que todos têm seu espaço, mas que não poderão conhecer o outro lado. Não por acaso, a metáfora parece servir bem ao protagonista, a quem todos se voltam, incluindo a Justiça e a Igreja, mas a quem não é dada a oportunidade de conhecer o motivo da perseguição.

A velha e grande casa do advogado, interpretado pelo próprio Welles, tem pilhas de papéis, velhos documentos que remetem aos tesouros empilhados de Charles Foster Kane. Para o cineasta, todo esse poder acumula teias de aranha, cheira mal.

A certa altura, K. tenta se libertar de tudo o que o aprisiona: dispensa o advogado e o padre, crê ser o dono de si próprio, sem manipulações. Seu mundo de sonhos desmorona aos poucos. A bomba de Welles dá fim às esperanças, ou faz acordar.

(The Trial, Orson Welles, 1962)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Três perguntas sobre Orson Welles

Oito grandes filmes sobre o mal-estar da vida urbana

A cidade grande é o ambiente perfeito para histórias de pessoas solitárias, invisíveis, em busca de afeto. Histórias sobre impessoalidade, niilismo, dor, perda, sobre vidas contra a frieza ao redor. Na lista abaixo, a violência divide espaço com a tragédia familiar, o desejo de fugir com a fuga ao sexo. Grandes filmes sobre a vida moderna e seus espaços.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A Turba, de King Vidor

No interior dos grandes prédios, homens em fila se assemelham a formigas. Nessa obra-prima de Vidor, o protagonista (James Murray) muda-se para a metrópole e encara o competitivo mercado de trabalho. Mais tarde, ele casa-se e tem filhos. As condições financeiras não mudam tanto. E, para piorar, sofre uma tragédia na família.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder

Os escritórios de Nova York foram inspirados nos espaços de A Turba. A esse mal-estar gerado pela arquitetura, Wilder acrescenta a vida de homens e mulheres em encontros corriqueiros, seres solitários que se esbarram apenas no elevador. Por ali, o protagonista (Jack Lemmon) aluga seu apartamento para encontros de amigos do trabalho.

São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person

A trajetória de Carlos (Walmor Chagas), funcionário de uma grande empresa, pouco a pouco cansado de sua vida. No filme de Person, os sinais da grande cidade já podem ser vistos na incrível cena de abertura, com o reflexo dos prédios no vidro do apartamento, enquanto o casal briga em seu interior. Obra-prima do cinema nacional.

Playtime – Tempo de Diversão, de Jacques Tati

O senhor Hulot (Tati) mete-se em outra confusão, dessa vez entre prédios futuristas, no trânsito, em salas envidraçadas, um restaurante e um aeroporto. Acinzentado, o filme reproduz um universo de pessoas presas a pequenos quadrados, ou a girar em círculos, como se vê em uma das cenas finais. Apesar de cômico, a crítica é contundente.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Travis (Robert De Niro) vaga por dias e noites de Nova York em seu táxi. Esbarra em bandidos, cafetões, políticos influentes e uma prostituta que deseja salvar. Quando percebe que está sendo cercado por tudo o que há de pior nessa cidade, arma-se e parte para a luta. Marco dos anos 70, é o filme mais importante da carreira de Scorsese.

Os Terroristas, de Edward Yang

Diferentes personagens esbarram-se nesse grande filme taiwanês. Há, por exemplo, a mulher que sonha em escrever seu livro, seu marido que almeja um cargo melhor na empresa, ou mesmo o fotógrafo confinado em um quarto escuro, com suas fotos e, a certa altura, ao lado de uma fugitiva. A cidade é quadriculada, a vida tem frieza.

Naked, de Mike Leigh

Algumas horas na companhia de Johnny (David Thewlis), um homem que abusou de uma mulher, furtou um carro e mudou de cidade. Um homem desesperado, cujas palavras são armas contra os outros – e contra o espectador. De Manchester a Londres, ele encontra todo o tipo de gente. Como ele, os demais não encontram qualquer saída.

Shame, de Steve McQueen

O homem ao centro, na pele de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Não consegue parar de consumi-lo – de maneira física ou visual. Em suas andanças, McQueen registra uma cidade impessoal, de pessoas em busca de prazeres e encontros momentâneos – embaladas pela canção “New York, New York”, na voz de Carey Mulligan.

Veja também:
Sete bons filmes recentes sobre solidão e isolamento

Algumas considerações sobre Tootsie

O protagonista, Michael Dorsey, precisa se tornar uma mulher para conseguir um emprego como ator. Não é fácil viver em Nova York, onde só é possível vencer quando se vive outro papel. O palco é dos falsos, e a comédia é sempre doce, nunca dolorida. É como se houvesse um aviso prévio: a falsidade impera.

Michael, vivido por Dustin Hoffman, torna-se Dorothy Michaels. Faz sucesso, conquista o coração dos americanos com um programa de televisão aparentemente bobo, de piadas e personagens mais que manjadas.

Tootsie

Do homem sofisticado, ator versátil e indomado, passa a uma mulher de aparência comportada, conservadora, com gritinhos na medida para fazer o público rir. Em Tootsie, de Sydney Pollack, o que chama a atenção é esse caminhar à América careta dos anos 1980, àquela televisão sem graça, com pessoas que a refletem.

E, por isso, não poderia ser diferente: como em Se Meu Apartamento Falasse, no qual as críticas ao jeito americano de ser são evidentes, em Tootsie os excessos não poderiam faltar. Pollack não chega à acidez de Wilder e, por outro lado, entrega um protagonista quase inflexível, não o homem bondoso de Jack Lemmon.

O riso é garantido. Há belas músicas, belo elenco. Interessante como essa troca de papéis – entre homens e mulheres – dá sentido às coisas ao invés de bagunçá-las. E interessante, ainda mais, como é preciso “ser” mulher para entender a outra, ou simplesmente para invadir o círculo no qual homens não têm espaço.