Rooney Mara

De Canção em Canção, de Terrence Malick

Muito se disse sobre a beleza das imagens nos filmes de Terrence Malick. De Terra de Ninguém ao recente De Canção em Canção, é difícil negá-la. Mesmo com transformações ao longo das obras, todas revelam pensamentos de seres distintos, com narrações – ou divagações – sobre a existência, o outro, o mundo ao redor.

Em resumo, o cinema de Malick, do melhor ao pior trabalho, é uma investigação interminável sobre a existência. A partir de A Árvore da Vida, fica mais fragmentado, com rupturas temporais, navegações rumo ao infinito, à natureza, aos seres convertidos em modelos de homem, mulher, família, ou velhice e infância.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Há, por exemplo, o Brad Pitt que encarna o pai autoritário em A Árvore da Vida, ou o Javier Bardem que sintetiza a própria igreja em Amor Pleno. A Michael Fassbender ou Ryan Gosling, em De Canção em Canção, há também algum papel, algum modelo a desempenhar, como, em menor medida, à verdadeira protagonista da obra: Rooney Mara.

Nem o uso da grande-angular do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki faz de Mara alguém maior. É pequena, frágil, com o olhar de criança perdida, forma de boneca. Em cena, ela envolve-se com dois homens, depois com uma mulher. Representa, mais do que todos, o questionamento de Malick sobre qual rumo tomar, como viver.

“Qualquer experiência é melhor que nenhuma experiência”, diz ela, Faye, namorada de um músico (Gosling) e amante de um produtor cultural (Fassbender). Malick poderia ter feito – e não fez – um filme sobre o mundo dos artistas, roqueiros e tal; preferiu o cenário como fundo, e lançou seus seres aos bastidores, aos cantos, à observação.

De Canção em Canção é talvez o pior filme de Malick (até o momento), no qual resta apenas a beleza das imagens. É pouco. Um filme em que a montagem fragmenta o pouco que se vê de uma “história” – e que ajuda a entender o também irregular Cavaleiro de Copas, trabalho anterior do cineasta, sobre o mundo vazio das celebridades.

A montagem presta-se ao trabalho de lançar o espectador a qualquer outro ponto, outra situação, sem deixá-lo saber mais: é o ponto central – pelo menos em De Canção em Canção – de um cinema de estilo, de gesto, de poses, de modelos. Pessoas belas vagando pela natureza bela, em carros belos, casas belas. Gente rica e vazia atrás das respostas às suas perguntas, mergulhada em narrações.

A montagem mais separa do que une, em um emaranhado de vidas do qual – mesmo com tantas questões, tanta suposta profundidade – menos se sabe a cada novo passo. O fim talvez seja o início. As cartas estão embaralhadas. Fassbender interpreta o esperto da vez, o explorador, o empresário que lucra com a multidão dos shows – a humanidade invadida em movimentos selvagens, a turba descontrolada que grita ao espectador.

“Somos a humanidade”, é como se dissessem, e como o diretor deseja fazer crer. Uma balada cool de gente moderna que ora ou outra toma uma guitarra ou um violão e resolve fazer música, ou apenas pose para Malick e Lubezki. Acrescentam-se ao bolo figuras reais, artistas excêntricos, um pouco filósofos, a dar suporte às beldades protagonistas. Mistura conhecida e cansativa, com beleza e vazio à farta.

(Song to Song, Terrence Malick, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick

Anúncios

As melhores atuações de 2016

Não dá para reclamar da safra. Nem de filmes nem de atuações. Foi um ano forte principalmente para as mulheres, para algumas veteranas que retornaram com grande força e foram – e seguem sendo – reconhecidas. Entre os homens há veteranos e rostos menos conhecidos. São figuras que conferem alma e grandeza a essas obras.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Melhor atriz

A francesa Isabelle Huppert sangra, sofre, atrai homens e brinca com as personagens que desfilam ao seu lado. O sofrimento de Sonia Braga, a Clara de Aquarius, é de outra natureza: tem a ver com seu passado, com seu apartamento. Decidida a quebrar barreiras, mas sofrendo com o marido também livre, está a incrível Trine Dyrholm de A Comunidade – a melhor coisa do filme. Ao contrário dessa mulher experiente está a Rooney Mara de Carol. Para completar, a forte Amy Adams de A Chegada.

Amy Adams em A Chegada

a-chegada1

Isabelle Huppert em Elle

elle2

Rooney Mara em Carol

carol2

Sonia Braga em Aquarius

aquarius

Trine Dyrholm em A Comunidade

a-comunidade

Outros destaques: Cate Blanchett em Carol; Catherine Frot em Marguerite; Emmanuelle Bercot em Meu Rei; Kate Beckinsale em Amor & Amizade.

Melhor atriz coadjuvante

Algum tempo sem fazer algo relevante no cinema, Jane Fonda vem em uma pequena participação como a atriz decadente de Juventude. Em busca de um recomeço está a sentimental mas fechada Micaela Ramazzotti. Magaly Solier, em A Passageira, também move sua história, uma história que remete ao passado, aos tempos do militarismo no Peru. Passado, também, que serve a ótima Rinko Kikuchi. No caso de Shirley Henderson, o que se impõe é a imaginação, em uma terra de ogros, bruxas e reis.

Jane Fonda em Juventude

juventude3

Magaly Solier em A Passageira

a-passageira

Micaela Ramazzotti em Loucas de Alegria

loucas-de-alegria

Rinko Kikuchi em Ninguém Deseja a Noite

ninguem-deseja-a-noite

Shirley Henderson em O Conto dos Contos

o-conto-dos-contos1

Outros destaques: Cécile De France em Um Belo Verão; Jennifer Jason Leigh em Os Oito Odiados; Kate Winslet em Steve Jobs; Laura Linney em Animais Noturnos; Maeve Jinkings em Boi Neon.

Melhor ator

O Oscar nem sempre acerta. Michael Fassbender merecia o prêmio de melhor ator. E por que esqueceram o incrível Michael Caine? É um pai, como é também o ótimo Géza Röhrig de O Filho de Saul, no pior ambiente do mundo: um campo de concentração. Outro que se envolve com a mesma questão histórica é o veterano Christopher Plummer. Para completar o time, o protagonista de O Valor de um Homem, alguém simples que resolve enfrentar o sistema.

Christopher Plummer em Memórias Secretas

memorias-secretas

Géza Röhrig em O Filho de Saul

o-filho-de-saul

Michael Caine em Juventude

juventude2

Michael Fassbender em Steve Jobs

steve-jobs

Vincent Lindon em O Valor de um Homem

o-valor-de-um-homem

Outros destaques: Alfredo Castro em De Longe Te Observo; Bryan Cranston em Trumbo – Lista Negra; Leonardo DiCaprio em O Regresso; Niels Arestrup em Diplomacia; Tom Hanks em Sully; Viggo Mortensen em Capitão Fantástico.

Melhor ator coadjuvante

Interpretar Deus não é fácil. Alguns atores topam o desafio no campo da comédia: podem ser um Deus emburrado e até malvado. Ao deus mercado, em Wall Street, há dois homens um pouco diferentes, que nunca se encontram. E há também um cineasta, mais sonhador que o amigo com quem divide alguns dias em uma casa de repouso em Juventude. Da Venezuela vem um ator surpreendente, Luis Silva, como o delinquente que vê sua vida mudar ao conhecer um homem mais velho.

Benoît Poelvoorde em O Novíssimo Testamento

novissimo-testamento

Christian Bale em A Grande Aposta

a-grande-aposta1

Harvey Keitel em Juventude

juventude1

Luis Silva em De Longe Te Observo

de-longe-te-observo

Steve Carell em A Grande Aposta

a-grande-aposta2

Outros destaques: Aaron Taylor-Johnson em Animais Noturnos; John Goodman em Rua Cloverfield, 10; Lázaro Ramos em Mundo Cão; Mark Ruffalo em Spotlight – Segredos Revelados; Michael Shannon em Animais Noturnos; Tom Hardy em O Regresso.

Veja também:
As melhores atuações de 2015

Carol, de Todd Haynes

As mulheres saem em viagem com diferentes intenções no filme de Todd Haynes. Para Carol, é a oportunidade de fugir de sua vida de prisões, do marido e da família moralista. Para Therese, é a maneira de se descobrir, o que leva à sexualidade.

Ainda que o filme seja visto pelo olhar da segunda, é a primeira que fornece todas as mudanças: é ela que fará Therese (Rooney Mara) ver o mundo de outra forma, o que sua paixão pela fotografia – e depois seu trabalho – apenas representará.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

carol2

Antes dela, há os trenzinhos, as bonecas na loja de departamento na qual Therese trabalha: a amostra do velho mundo de curvas perfeitas, em que “todos” são destinados às formas da porcelana, ou a girar, rumo ao mesmo destino, ao mesmo lugar.

É nessa loja, em Carol, que ambas se veem pela primeira vez. Não é um olhar qualquer. Para Haynes, será difícil dizer quem se sente mais atraída. E são sensações diferentes: enquanto Carol sabe o que deseja, Therese parece saber pouco, experimentar.

O ambiente ao redor dá tom ao drama, com uma história que começou há muito tempo, com Douglas Sirk e seus incríveis melodramas feitos para a Universal, entre eles Tudo o Que o Céu Permite, no qual a mãe de família (Jane Wyman) é impedida pelos filhos de namorar um jardineiro jovem e ganha uma televisão de aniversário.

Na tela da televisão, em Carol, em importante sequência passada em um almoço, a personagem-título assiste à imagem do poder, à imagem masculina. A sociedade, então pautada em grande parte pela televisão, reproduz a voz do homem.

Assim, a relação entre duas mulheres só poderia estar condenada. É contra essa sociedade que as personagens devem lutar, principalmente Carol, interpretada por Cate Blanchett, ao mesmo tempo desafiadora e disposta a ceder aos outros.

Espécie de Anna Karenina, forte e destinada a amar a filha pequena – como qualquer mulher. Levada, em partes, a desafiar a ordem, mas obrigada a recuar quando o marido une provas contra ela, devido à relação com Therese, para assim ter a guarda da menina.

carol1

Ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades desse mundo feito às aparências, Carol é também para Therese o caminho inevitável à repressão: tudo o que a rodeia – suas festas, seu meio, as intermináveis cerimônias – remetem ao atraso.

Em momento exemplar, Haynes filma Carol em uma festa, pelo lado de fora da casa, enquanto a personagem conversa com outra mulher em uma janela. Quando a outra fala sobre fumar escondida do marido, Carol afasta-se para o espaço da outra janela.

Soluções simples e visualmente interessantes, em um drama forte, que não precisa mais que alguns movimentos e expressões, ou às vezes o silêncio, para entregar o necessário sobre as mulheres ao centro. Filme feminino, delicado, sobre se libertar.

Mais interessante é a ótica de Therese, o ponto central. A obra de Haynes, com ela, coloca-se nesse momento de mudança – o que explica o final feliz. É com a jovem que o espectador fará perguntas, que encontrará a fonte do sofrimento: é alguém que tenta entender seus sentimentos enquanto se depara com as regras da sociedade em questão.

Não é de estranhar que Therese oferece, sem esforço, a imagem da mulher emancipada: diz à companheira, a certa altura, que sempre esteve sozinha entre a multidão, destinada, em outro caso, à vida medíocre de tantas outras, felizmente no caminho contrário.

(Idem, Todd Haynes, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Todd Haynes

Os filmes de Todd Haynes

A ousadia de filmes como Veneno e Não Estou Lá divide espaço na filmografia de Haynes com o melodrama à maneira de Douglas Sirk, com os preconceitos da sociedade americana, em obras como Longe do Paraíso e Carol. Um diretor mutante e capaz de retirar interpretações inesquecíveis de seus elencos. Abaixo, o blog traz seus principais trabalhos para o cinema.

Veneno (1991)

O longa-metragem de estreia de Haynes deixa claro seu lado experimental: são três histórias visualmente distintas, a partir de textos de Jean Genet, em cores e em preto e branco. Em uma delas, um homem faz uma experiência científica e fica leproso; em outra, um presidiário tem experiências homossexuais e lembra o passado; na terceira, o cineasta desenvolve um falso documentário sobre um garoto que fugiu de casa.

veneno

Mal do Século (1995)

Após trabalhar com Robert Altman e Louis Malle, Julianne Moore encara uma personagem desafiadora no grande filme de Haynes. Poderoso mergulho no mal-estar social criado na América rica e branca dos anos pós-Aids, a partir da paranoia de pessoas que pensavam estar doentes. Na pele de uma dama da alta sociedade, Moore é a personagem central que entra em processo de loucura e se isola.

mal do século

Velvet Goldmine (1998)

O cenário é a Inglaterra dos anos do glam rock, no início dos anos 70, tempo de artistas como David Bowie e Iggy Pop. Os excessos, as frases de efeito, as drogas: uma reunião de situações fortes, às vezes engraçadas, quando ter estilo era uma forma de viver. Em paralelo, nos anos 80, um jornalista tenta investigar o que teria ocorrido a uma das lendas dessa época – em uma narrativa que remete a Cidadão Kane.

velvet goldmine

Longe do Paraíso (2002)

A inspiração é Douglas Sirk e seus inesquecíveis melodramas feitos para a Universal nos anos 30. Seus ingredientes estão ali: o amor proibido, a sociedade preconceituosa e repressiva, o falso belo mundo por trás das grandes casas, em bairros abastados. Julianne Moore volta a brilhar no papel da mulher que descobre a atração do marido por outros homens, ao mesmo tempo em que recebe a visita de um belo jardineiro.

longe do paraíso

Não Estou Lá (2007)

Parte dos fãs de Bob Dylan não aceitava sua conversão à guitarra elétrica. E isso é representado pelo momento em que o artista atira contra seus espectadores. Para diferentes fases de sua vida, diferentes atores. Estão por ali Christian Bale, Richard Gere, Heath Ledger e Cate Blanchett. A última tem um momento iluminado na pele do músico (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em passagens em preto e branco.

não estou lá

Carol (2015)

O diretor retorna à América de hipocrisia e repressão ao abordar o caso de amor entre duas mulheres, a Carol do título, vivida por Blanchett, e a Therese de Rooney Mara. Verdadeira batalha de interpretações, enquanto a primeira luta com seus problemas familiares (com o marido, sua família, seu passado) e a segunda tenta se descobrir. Bela história sobre o universo feminino, com alta dose de sensibilidade.

carol

Veja também:
Os filmes de Denis Villeneuve

Terapia de Risco, de Steven Soderbergh

Os “efeitos colaterais” indicados pelo título original de Terapia de Risco não estão somente ligados aos medicamentos prescritos por um psiquiatra à sua paciente. O diretor Steven Soderbergh, até certa altura, faz o espectador acreditar que se trata de um filme sobre questões médicas e psicológicas.

Soderbergh, mais uma vez, vem para atacar a vida de luxo que boa parte dos americanos almeja, tal como a falta de escrúpulos para chegar até ela. Aqui, a indústria farmacêutica é apenas um fundo, ainda que não esteja isenta de um pacote de maldades.

Ninguém sai limpo no universo do diretor. Do médico à paciente, da justiça às grandes corporações – todos tem algo de podre e manipulável.

terapia de risco1

Na trama, uma garota tenta se suicidar e sofre com uma onda de depressão após seu marido deixar a cadeia, onde cumpriu pena por crimes financeiros. Ela é Emily Taylor (Rooney Mara), moça com uma vida boa e dinheiro. Em determinado momento, toda sua estrutura desmorona – seja a financeira ou a psicológica.

Hospitalizada após o acidente, ela será tratada pelo psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law), que, por sua vez, também faz serviços extras para grandes empresas farmacêuticas ao utilizar alguns de seus clientes como cobaias.

O diretor transformará o espectador em espécie de paciente de Jonathan e acompanhante de Emily: uma forma de fazê-lo acreditar que tem acesso a tudo o que está em jogo, a tudo o que aparece no relevo dessa história repleta de reviravoltas.

A apunhalada vem depois: ninguém é o que parece em Terapia de Risco – nem a bela garota atormentada (responsável por um crime enquanto estava supostamente sob o efeito de um novo medicamento), nem seu médico (em busca de inocência).

A imagem de abertura apresenta um rastro de sangue pela casa. O tal rastro leva à miniatura de um barco sobre um sofá. É um belo resumo do filme, sobre como alguns crimes são cometidos para se chegar a uma vida de luxo, sendo o barco sua representação. É nele que Emily, certa vez, sentiu as benesses da vida burguesa.

terapia de risco2

Surgem outras peças para complicar a história. A principal delas é a também psiquiatra Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), uma femme fatale a serviço de um filme frio, uma mulher sem emoções e com dificuldade até de parecer sexualmente desejável – como todas as outras personagens, vale dizer.

O diretor de Sexo, Mentiras e Videoteipe faz uma obra sombria, com um universo de monstros coberto por um véu branco, chique e indolor. Na verdade, boa parte de seu cinema tem se apoiado no desejo de descobrir o que está por trás desse véu, no interior dessa sociedade americana de gente aparentemente comum.

O trabalho anterior de Soderbergh, Magic Mike, tratava de um show adulto e masculino, no qual homens dançam para mulheres que pagam por aquela exposição. Um show que revela e esconde ao mesmo tempo: misto de gratuidade e poder em tempos de crise econômica, enquanto esses mesmos jovens sonham em prosperar.

A crítica por trás de Terapia de Risco é dirigida, sobretudo, àquele belo rostinho de anjo da menina que finge depressão, também ao médico que não quer apenas retomar o controle sobre ela, mas reconstruir a esperada imagem familiar. O fim, por isso, é tão ou mais revelador que a abertura. O jeito americano de ser venceu a batalha.