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De Canção em Canção, de Terrence Malick

Muito se disse sobre a beleza das imagens nos filmes de Terrence Malick. De Terra de Ninguém ao recente De Canção em Canção, é difícil negá-la. Mesmo com transformações ao longo das obras, todas revelam pensamentos de seres distintos, com narrações – ou divagações – sobre a existência, o outro, o mundo ao redor.

Em resumo, o cinema de Malick, do melhor ao pior trabalho, é uma investigação interminável sobre a existência. A partir de A Árvore da Vida, fica mais fragmentado, com rupturas temporais, navegações rumo ao infinito, à natureza, aos seres convertidos em modelos de homem, mulher, família, ou velhice e infância.

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Há, por exemplo, o Brad Pitt que encarna o pai autoritário em A Árvore da Vida, ou o Javier Bardem que sintetiza a própria igreja em Amor Pleno. A Michael Fassbender ou Ryan Gosling, em De Canção em Canção, há também algum papel, algum modelo a desempenhar, como, em menor medida, à verdadeira protagonista da obra: Rooney Mara.

Nem o uso da grande-angular do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki faz de Mara alguém maior. É pequena, frágil, com o olhar de criança perdida, forma de boneca. Em cena, ela envolve-se com dois homens, depois com uma mulher. Representa, mais do que todos, o questionamento de Malick sobre qual rumo tomar, como viver.

“Qualquer experiência é melhor que nenhuma experiência”, diz ela, Faye, namorada de um músico (Gosling) e amante de um produtor cultural (Fassbender). Malick poderia ter feito – e não fez – um filme sobre o mundo dos artistas, roqueiros e tal; preferiu o cenário como fundo, e lançou seus seres aos bastidores, aos cantos, à observação.

De Canção em Canção é talvez o pior filme de Malick (até o momento), no qual resta apenas a beleza das imagens. É pouco. Um filme em que a montagem fragmenta o pouco que se vê de uma “história” – e que ajuda a entender o também irregular Cavaleiro de Copas, trabalho anterior do cineasta, sobre o mundo vazio das celebridades.

A montagem presta-se ao trabalho de lançar o espectador a qualquer outro ponto, outra situação, sem deixá-lo saber mais: é o ponto central – pelo menos em De Canção em Canção – de um cinema de estilo, de gesto, de poses, de modelos. Pessoas belas vagando pela natureza bela, em carros belos, casas belas. Gente rica e vazia atrás das respostas às suas perguntas, mergulhada em narrações.

A montagem mais separa do que une, em um emaranhado de vidas do qual – mesmo com tantas questões, tanta suposta profundidade – menos se sabe a cada novo passo. O fim talvez seja o início. As cartas estão embaralhadas. Fassbender interpreta o esperto da vez, o explorador, o empresário que lucra com a multidão dos shows – a humanidade invadida em movimentos selvagens, a turba descontrolada que grita ao espectador.

“Somos a humanidade”, é como se dissessem, e como o diretor deseja fazer crer. Uma balada cool de gente moderna que ora ou outra toma uma guitarra ou um violão e resolve fazer música, ou apenas pose para Malick e Lubezki. Acrescentam-se ao bolo figuras reais, artistas excêntricos, um pouco filósofos, a dar suporte às beldades protagonistas. Mistura conhecida e cansativa, com beleza e vazio à farta.

(Song to Song, Terrence Malick, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

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Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick

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Janis: Little Girl Blue, de Amy Berg

A superfície de Janis: Little Girl Blue é conhecida: trata da trajetória de uma menina famosa envolvida com drogas, amalucada, sempre emotiva.

A pequena menina triste, no documentário de Amy Berg, lamenta sua solidão. E o espectador questiona por que a cantora parece ter tudo e nada, por que, mesmo tão entregue, tão “fácil”, é ainda distante, indecifrável.

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janis foto

As várias vozes que exploram a carreira de Janis Joplin não dão conta de defini-la. Os melhores momentos do filme estão na explosão das antigas imagens, cuja granulação dá um tom especial, delirante, somado às músicas de Janis e seu jeito característico.

Importante não se deixar contaminar pela ideia de que Janis era, desde o início, diferente de todos. Eis um vício comum a trabalhos do tipo, voltados a figuras famosas, ou ícones que tiveram mortes trágicas. No caso de Janis, o mito ainda se fortalece com a morte precoce, aos 27 anos, idade comum para se morrer entre famosos.

A passagem pela infância é rápida. Mais tarde, com uma amiga, Janis viu uma apresentação de Bob Dylan. Próxima ao cantor, ela teria dito que sonhava fazer sucesso. “No futuro, todos faremos sucesso”, Dylan teria respondido.

Se não serviu para todos serviu para Janis. A cantora alcançou fama de maneira meteórica, teve vários companheiros, formou duas bandas e esteve em palcos ocupados por outras lendas da música, como no Festival de Woodstock – tudo isso com 27 anos.

Como o recente What Happened, Miss Simone?, sobre Nina Simone, Little Girl Blue faz um retrato dos Estados Unidos em transformação, nos anos 60. O abismo entre o velho Texas de Janis e o mundo da música é evidente. O resultado é o relato emotivo, por meio de cartas à família, dessa menina triste e solitária.

Nota: ★★★☆☆

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David Bowie (1947–2016)

O filme O Homem que Caiu na Terra, estrelado de forma candente pelo David Bowie – que é bem melhor na tela do que cantando suas picaretagens eletrônicas – faz uma revelação surpreendente: que a tv foi instalada em nosso planeta por seres extraterrenos. E constata-se finalmente que o Walter Clark (até parece que o filme foi realizado em cima de sua vida) realmente não pertence à nossa espécie.

Hilton Libor, na coluna Informação, da Folha de S. Paulo, em julho de 1977.

Como se lê acima, Bowie é apenas o ponto de partida para a brincadeira do colunista. Bowie não inventou a televisão, não era um extraterrestre. Como dizem alguns, na ocasião de sua morte, não voltará ao espaço em uma nave espacial – e nunca saiu de lá, vale lembrar. Com a face coberta de glitter, em certa época, e com jeito gritante, natural que se tornasse marca.

Em O Homem que Caiu na Terra (foto abaixo), ele tem um papel especial: interpreta a si próprio. Coberto por maquiagem ou não, é gélido e às vezes confronta o espectador, como se retornasse sempre à mesma marca, o mesmo alienígena.

No filme de Nicolas Roeg, ou mais tarde em Fome de Viver, Bowie soava como mera pose, ou não mais que presença. O que não era necessariamente ruim. Suas participações ou pequenos papeis conferiam-lhe certa excentricidade. Exemplo disso é seu Pôncio Pilatos no polêmico A Última Tentação de Cristo. Podia ser qualquer um sem deixar de ser o mesmo alienígena sem sexo, brilhante e inesquecível.

o homem que caiu na terra

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Cinco atrizes que erotizaram o cinema nos anos 50

O cinema moderno tem grande dívida com algumas atrizes e seus diretores. Algumas marcaram época em mais de um filme. Para outras, bastou uma cena. Quando o cinema passou a abordar a sexualidade de maneira aberta, após o fim da Segunda Guerra Mundial, algumas mulheres desafiaram os bons costumes e o puritanismo.

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Um tempo de mudanças, da libertinagem na contramão do suposto fim do mundo, dos conflitos políticos e perseguições, como o macarthismo. Tempo de “Rock Around the Clock”, de jovens protagonistas como James Dean, de Saint-Tropez e do “viver o hoje”.

Harriet Andersson

Demorou um pouco para Mônica e o Desejo ser reconhecido como divisor de águas. Até então, nenhum filme havia tratado a sexualidade com tamanha naturalidade. Como Mônica, Harriet Andersson guarda inocência e libertinagem, e chega mesmo a encarar o espectador – no “plano mais triste da história do cinema”, como diria Jean-Luc Godard.

mônica e o desejo

Melina Mercouri

Misto da mulher livre de sua época e, ao mesmo tempo, com expressões que remetem às damas do cinema clássico, como Gilda e Lola Lola. Na pele da personagem Stella, da obra de Mihalis Kakogiannis, ela reivindica sua posição ao palco. Livre, coloca os homens a seus pés: não quer casar ou ter relacionamentos duradouros, apenas viver.

stella

Marilyn Monroe

Diferentes filmes mostram Monroe como a mulher desejável, capaz de captar o olhar da cinefilia da época. Desde Os Homens Preferem as Loiras, ou mesmo como a cantora de O Rio das Almas Perdidas, chegando à bela laçada de Nunca Fui Santa, Marilyn dá vida à deusa do sexo, de rosto angelical, ainda assim feita de pura carne.

nunca fui santa1

Brigitte Bardot

Logo na abertura de E Deus Criou a Mulher, a loura Bardot está nua, ao sol, e pede ajuda do homem para se cobrir. Assim, Roger Vadim sintetiza as mudanças da época. Ao lado da atriz, há a exploração do paraíso, Saint-Tropez, refúgio ideal nos tempos da Guerra Fria – ao qual iria Godard com seu O Desprezo, e justamente com Bardot.

e deus criou a mulher1

Jeanne Moreau

Nada poderia preparar o espectador para o escândalo de Amantes, de Louis Malle, lançado em 1958. É sobre uma mulher entediada com o casamento e à procura de novas aventuras. A certa altura, leva o amante para casa e, no dia seguinte, escolher fugir com ele. A traição é quase aventura obrigatória, inconsequente e desesperada.

amantes

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Satisfaction, 50 anos

A canção dos Rolling Stones completa 50 anos em maio de 2015. Em famosa sequência de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, Martin Sheen revê as fotos do homem que procura enquanto um jovem Laurence Fishburne dança ao som de “Satisfaction”.