Robert Altman

15 grandes cineastas que foram indicados ao Oscar, mas nunca ganharam o prêmio

A lista poderia ser maior. Há outros mestres que receberam indicações, perderam e devem ser lembrados, nomes como Krzysztof Kieslowski e Hiroshi Teshigahara. Na outra ponta há figuras medíocres que já levaram o prêmio. Vão dizer que são coisas do momento, com filmes que estavam na crista da onda e ganharam tudo (ou quase). Pode ser.

E há outros casos curiosos, não menos injustos. Um deles é o de Charles Chaplin. Apesar de ter vencido pela música de Luzes da Ribalta e ter ganhado um merecido honorário, Chaplin nunca foi indicado como melhor diretor. O que explica sua ausência nesta lista – como a de realizadores como Buñuel, Visconti, entre tantos outros.

Robert Altman

A carreira de Altman é extensa, cheia de momentos geniais, entre comédias, dramas e até faroestes. Poderia ter ganhado o Oscar em diferentes momentos. E merecia por alguns, como em 1976, quando concorria por Nashville, ou em 2002, quando viu Ron Howard abocanhar a estatueta pelo drama Uma Mente Brilhante, ocasião em que concorria pelo extraordinário Assassinato em Gosford Park.

assassinato em gosford park

Michelangelo Antonioni

O mestre da melancolia, realizador com extremo controle do tempo e que atravessou diferentes países com filmes provocadores e que captaram o espírito de seu tempo. Blow-Up passa-se na agitada Londres dos anos 60. Deu ao diretor sua única indicação. O filme acompanha os passos de um fotógrafo de moda (David Hemmings) em busca de realidade, em noites em albergues ou no possível registro de um assassinato.

profissão repórter5

Ingmar Bergman

Indicado três vezes como melhor diretor, por Gritos e Sussurros, Face a Face e Fanny & Alexander, Bergman é um gênio. Quase ninguém duvida disso. No entanto, o Oscar nunca o premiou na categoria, preferindo cineastas hoje pouco lembrados, George Roy Hill, John G. Avildsen e James L. Brooks, respectivamente. Se é possível compensar, os filmes de Bergman ganharam quatro vezes na categoria de estrangeiro.

fanny-e-alexander

John Cassavetes

O pai do cinema independente americano chegou ao Oscar primeiro como ator, com a indicação de coadjuvante por Os Doze Condenados. Pouco depois, em 1975, recebeu sua única indicação como diretor, dessa vez pelo incrível Uma Mulher Sob Influência. O filme, contudo, ficou fora da categoria principal. Na ocasião, a Academia preferiu indicar o quadradão Inferno na Torre, filme catástrofe de grande orçamento.

john-cassavetes

Federico Fellini

Talvez o diretor italiano mais importante da história, indicado quatro vezes ao Oscar, por quatro obras-primas: A Doce Vida, Oito e Meio, Satyricon e Amarcord. Seu estilo tornar-se-ia adjetivo: o felliniano. E são vários os diretores que ainda tentam perseguir a marca. Alguns resolveram adaptar suas histórias para os palcos ou mesmo para o cinema, como é o caso de Bob Fosse, em diferentes momentos.

amarcord3

Howard Hawks

Amado pelos críticos da revista Cahiers du Cinéma, nem sempre foi reconhecido como um autor nos Estados Unidos. Indicado ao Oscar uma única vez, pelo belo Sargento York. Foi parceiro de atores como Bogart e dirigiu um pouco de tudo: filmes de gangster, screwball, dramas de guerra e alguns dos melhores faroestes americanos. Os franceses estavam certos: Hawks não era mero diretor de encomenda.

howard-hawks

Alfred Hitchcock

Outro cuja marca virou adjetivo. Outro que ora ou outra aparece copiado, ou repaginado em filmes modernos, sobretudo os que investem no suspense. Hitchcock foi indicado ao Oscar em diferentes momentos de sua carreira nos Estados Unidos, entre eles por seu primeiro filme em Hollywood, Rebecca, a Mulher Inesquecível, e, mais tarde, pelo sucesso comercial Psicose. Ganhou em 1968 o prêmio Irving G. Thalberg.

alfred-hitchcock

Stanley Kubrick

O cineasta ganhou o Oscar apenas uma vez, pelos efeitos especiais de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Foi nomeado quatro vezes como diretor, por Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Seria lembrado, ainda mais uma vez, pelo roteiro de Nascido para Matar. Nenhuma vez agraciado com um honorário. Kubrick tem uma carreira exemplar e que atravessa décadas, dos anos 50 aos 90.

iluminado4

Akira Kurosawa

O prêmio de filme estrangeiro caiu no colo de Kurosawa quando a categoria nem existia, no anos 50, por Rashomon. Venceu na mesma categoria com a produção soviética Dersu Uzala, de 1975, e a única indicação do “imperador” chegou tarde, em 1986, pelo monumental RAN. O cineasta recebeu o honorário em 1990, entregue por George Lucas e Steven Spielberg, que inegavelmente beberam em sua fonte.

ran

Ernst Lubitsch

De tão bom com as comédias, acabou sendo identificado pelo “toque de Lubitsch”. Tornou-se marca. E, não raro, sinônimo de sofisticação. Foi indicado ao Oscar três vezes, incluindo por um de seus últimos filmes – não o mais inspirado –, O Diabo Disse: Não! Como outros desta lista, contentou-se com um honorário, entregue em 1947. Morreu no mesmo ano, em novembro, em Hollywood.

ernst-lubitsch

Sidney Lumet

Também fez um pouco de tudo, navegou entre gêneros. Já disseram, por isso, que não era um autor. Mas Lumet, pelo menos entre indicados, nunca foi esquecido pelos membros da Academia. Faltou o prêmio, veio apenas o honorário. Esteve quatro vezes no páreo como diretor: 12 Homens e uma Sentença, Um Dia de Cão, Rede de Intrigas e O Veredicto. Diversos atores ganharam a estatueta trabalhando em seus filmes.

o-veredicto

Otto Preminger

Indicado por Laura e, quase vinte anos depois, pelo belo drama O Cardeal, Preminger é um dos mestres do cinema americano que, como Hawks, merecia ser mais lembrado, principalmente em sua época. O incrível Anatomia de um Crime foi indicado como melhor filme em 1960, mas o cineasta, na ocasião, injustamente ficou de fora da categoria de direção. A obra recebeu sete indicações, mas não ganhou nada.

santa-joana

Jean Renoir

Caso curioso: o francês foi indicado apenas uma vez, e por uma produção americana. Amor à Terra é de 1945 e não foi nomeado a melhor filme. Mestre absoluto, filho do pintor Pierre-Auguste Renoir, o diretor fez obras-primas como A Grande Ilusão, A Besta Humana, A Regra do Jogo e, mais tarde, O Rio Sagrado – no qual um certo Satyajit Ray aparece como assistente de direção. Veio, como consolo, um honorário em 1975.

jean renoir

François Truffaut

Outro francês indicado apenas uma vez, em 1975, por A Noite Americana. A indicação veio um ano depois de o filme ter vencido o prêmio na categoria de estrangeiro. À época, Truffaut já havia realizado grandes obras e era um nome conhecido na América. Fez, entre outros, Os Incompreendidos, Jules e Jim e O Garoto Selvagem. A Noite Americana é um de seus melhores, no qual também se vê o Truffaut ator.

a noite americana

Orson Welles

No já citado A Noite Americana há uma homenagem a Welles: Truffaut sonha que está roubando os stills de Cidadão Kane, na porta do cinema, quando era apenas uma criança. Pois Kane ainda povoa o imaginário cinéfilo: é um dos maiores de todos os tempos e deu a Welles sua única indicação ao Oscar de diretor. Perdeu, e só voltou aos holofotes da Academia em 1971, quando ganhou uma estatueta honorária.

cidadao-kane

Veja também:
Os dez melhores filmes de François Truffaut
Os cinco melhores filmes de Stanley Kubrick

Uma Confusão Confuciana, de Edward Yang

As personagens de Uma Confusão Confuciana tentam ser mais que cópias. Tentam ser autênticas na cidade grande em que tudo é um pouco parecido, na qual impera a moda, a busca pelo amor constante – e rápido – por ruas cheias e restaurantes iluminados.

Vida um pouco padronizada. Mulheres semelhantes, homens idem. A impressão é a de se andar muito sem sair do lugar. Um filme brilhante em que o melhor está nas pequenas reações, na constatação de que o foco é a natureza humana, seus tropeços e jogos de aparência. O diretor Edward Yang não leva a um enredo definido.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

uma-confusao-confuciana

Alguns grandes cineastas ousaram filmar a sociedade, o grupo, a forma aparentemente comportada dos relacionamentos, dos encontros e desencontros, em palavras que logo são negadas. Vem à mente Robert Altman e seu incrível Short Cuts – Cenas da Vida.

É às cenas da vida que Yang desloca-se: personagens que declaram amor a outras e que logo estão em novas companhias, em busca de novidades nessa grande Taipei em que quase tudo parece fruto de acidentes, em que tudo depende do inesperado.

O roteiro é livre. Yang não julga as personagens e trabalha com segurança no campo da comédia, sem apelar ao riso fácil. Leva à graça de um jogo em que os adultos parecem crianças, de um lado para outro, noites em claro, sem saber o que fazer.

E esses adultos representam um estágio final na sociedade apresentada por Yang em diferentes filmes – em filmografia pequena, porém sólida. Diferentes dos amantes de Os Terroristas, ou dos jovens apaixonados e engajados de Um Dia Quente de Verão.

Uma personagem, ainda nos primeiros minutos, tem uma frase interessante para definir o espírito do filme e de seus seres: “A emoção não apenas se tornou uma desculpa, ela pode ser falsificada”. Em outro momento, outra observação esclarecedora: “A emoção é um investimento, talvez um produto, e o amor é seu retorno”.

O que todos buscam, ou vivem, é a emoção. Uma Confusão Confuciana apresenta esse jogo de corridas e retornos, o cruzamento entre todas as personagens. Há, por exemplo, a bela Qiqi (Shiang-chyi Chen), que namora Ming (Wei-Ming Wang) e, mais tarde, que termina se aproximando de um escritor recluso recém-separado da irmã de Molly (Shu-Chun Ni), que vem a ser a chefe de Qiqi e que, em outro momento, perto do fim, tem uma relação rápida com Ming.

uma-confusao-confuciana3

A primeira frase, após a citação de um diálogo entre Confúcio e seus súditos, dá ideia do que trata esse filme curioso: “Entre a vida e o teatro, qual a diferença?”, questiona o artista Birdy (Ye-Ming Wang), andando de patins em um de seus cenários.

O meio taiwanês apresentado é o da modernidade, das misturas, do artista que pretende fazer teatro popular para chegar à grande massa: a arte, diz ele, deve ser um pouco como a política em seu poder de comunicação – pois talvez não haja grande diferença entre o artista e o político nessa sociedade supostamente democrática.

Ao passo que tentam instituir o fim das diferenças e a emoção como produto necessário, curiosamente essas personagens ainda seguem vítimas de seus instintos, pouco ou nada resolvidas no plano pessoal. Vivem de relações fast-food.

Yang estabelece um contraponto entre contradições sociais e relacionamentos velozes, entre o fundo – nos grandes prédios, nas famílias separadas, no trabalho, no trânsito – e a frente – as várias personagens que formam esse painel.

A protagonista possível é Qiqi, moça sensível e que, na última cena, retorna para lembrar o outro cinema de Yang: o momento em que se vê o afeto, algo raro em um filme sobre o vazio dos relacionamentos na grande cidade, na vida moderna.

(Du li shi dai, Edward Yang, 1994)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bob, Carol, Ted e Alice, de Paul Mazursky

Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

o-grande-gabbo2

O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

o-medico-e-o-monstro

O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

o homem que nunca pecou

Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

um-corpo-que-cai

Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

quando-duas-mulheres-pecam

O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

o-segundo-rosto

Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

peppermint2

Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

partner

Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

performance

Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

irmas-diabolicas

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

profissão repórter

Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

tres-mulheres

Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

gemeos

A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

a-dupla-vida-de-veronique

Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

clube da luta

Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

cidade dos sonhos

Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

adaptação

O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

o-rabo-do-tigre1

O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

o-homem-duplicado

Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

viva a liberdade

O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

o-duplo

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

birdman

Veja também:
Peppermint Frappé, de Carlos Saura
O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

Amarga Esperança, de Nicholas Ray

As mulheres possuem consciência em Amarga Esperança. Os homens quase sempre surgem vazios. Essa característica confere ainda mais importância ao filme de Nicholas Ray, com jovens pistoleiros que antecipam Mortalmente Perigosa e Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas – nos quais as mulheres têm mais peso.

Cathy O’Donnell, não à toa, é o primeiro nome nos créditos – tal como Ida Lupino em O Último Refúgio, um filme de homens com um cão simpático e feito anos antes. Ray dá-lhe peso, amostra de que àquele mundo bandido – com o olhar da dama, que inclusive fecha o filme com grandeza – há sensibilidade e paixão feminina.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

amarga esperança1

É a mulher responsável por resgatar o rapaz à noite, com o pé machucado, após ele sair da prisão e esperar por ajuda. Por ali ronda um cão, animal que simboliza a vida dos amantes, vista depois.

O filme retoma o sentimento visto em Vive-se Uma Só Vez, de Fritz Lang, história de amor entre criminosos em um mundo de injustiças. Ray amplia a abordagem a partir da obra de Edward Anderson (mais tarde levada às telas por Robert Altman). Enquanto homens discutem um assalto a banco, enquanto trocam olhares com ódio a saltar pela saliva, é a terna Keechie (O’Donnell) que traz consciência.

Guia ao anti-herói, ao rapaz sem emoção de Farley Granger, automático, magro, belo, às vezes simplista, sem o ar destrutivo visto mais tarde em outros pistoleiros. Granger cairia melhor ao estilo afundado em dubiedade sexual nos filmes de Hitchcock, como o assassino de Festim Diabólico, ou como o jovem rico envolvido em uma trama de crimes trocados em Pacto Sinistro.

Em Amarga Esperança, o rapaz ainda guarda caráter e bondade. É o que faz Keechie sentir-se atraída: uma visão diferente entre tantos homens sujos, desleixados, como o pai, um embriagado. Os dois companheiros de Bowie (Granger) rascunham o que se espera desse contraponto entre sexos: o inferno, a escória.

amarga esperança3

Keechie oferece o outro lado: esperança, casamento, o filho – a porta ao mundo que ambos estranham e até rejeitam a determinada altura. Essa história de fuga a dois, com polícia no encalço, é fruto da Depressão, como outros filmes de temática semelhante.

Ao fim, Ray expõe o rosto enigmático da moça que descobre o amor, em meio ao gesto trágico, em meio à covardia dos policiais, enquanto ambos – ele e ela – encontram-se sob as sombras das árvores, à noite, entregues por outra mulher, a traidora Mattie (Helen Craig).

A versão de Altman, Renegados Até a Última Rajada, é mais crua, com personagens distantes. Nela, subverte-se o drama clássico do qual Ray, até certo ponto, não pôde se despregar. Ambas belas e diferentes. Ray aposta no romance e na aventura. Altman prefere um retrato da Depressão, com um dos encerramentos mais poderosos do cinema americano nos anos 1970. O que Ray deixa é um rosto e, com ele, um resumo: todas as amarguras, as dores e, talvez, o renascimento da menina que saiu de casa para amar e encontrou o mundo adulto.

(They Live by Night, Nicholas Ray, 1948)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

Altman e a ausência de história

É provável que se clame por mais alma, menos corpo, em De Corpo e Alma. O argumento comum, no filme de Robert Altman, é que falta uma história. Surge nesse ponto uma discussão recorrente: existe um modelo certo para contar histórias, como se devessem estar amarradas a conhecidas situações dramáticas?

O filme de Altman, pouco lembrado, é o exemplar perfeito da suposta “falta de história”: um painel ao modo do cineasta, às vezes quase um documentário sobre o balé, no qual sua câmera passa pelos bastidores e palcos, pelos pedaços de vida.

de corpo e alma

Tal forma seria vista em outros de seus trabalhos. Sabe-se que Altman relutou em aceitar dirigir De Corpo e Alma, o que só ocorreu após a insistência da atriz central, Neve Campbell, que, como se vê, tem formação de bailarina.

E para esse trabalho que não nasceu com ele, de um desejo profundo, o diretor levou tudo de si: em cada pequena parte, mesmo nas apresentações de balé, vê-se seu estilo inconfundível. É a forma como rouba apenas o ponto de partida para depois se impor.

Nesse sentido, Altman pode ser visto como “contrabandista”, em definição de Martin Scorsese: o cineasta que não deixa escapar seu estilo mesmo com material alheio, ainda que em poucas ocasiões possa ter sido acusado de se vender para seguir trabalhando.

Não é o caso de De Corpo e Alma, nem de filmes célebres como Voar é com os Pássaros (abaixo) ou O Perigoso Adeus, nos anos 70, ou, mais tarde, Kansas City, nos 90. Para o cineasta, Chandler era apenas o ponto de partida para jogar ao espectador algo que pode ser definido como “registro sobre a vida”, ou “ensaio”, e não contar “história” alguma.

voar é com os pássaros

Em Nashville, quase tudo é ensaio. Nesse campo, o erro muitas vezes conta mais, revela verdades contra o pavor da simetria, do espetáculo perfeitamente coreografado. Não à toa, há algo de propositalmente disforme em Voar é com os Pássaros, Oeste Selvagem, Cerimônia de Casamento e, entre outros, A Última Noite, sua despedida.

Resta, de um lado, a suposta ausência de história; de outro, a inegável presença dessa estrutura para lá de particular, a forma autoral que diferencia o cineasta americano de tantos outros e o coloca, sem surpresas, como um dos maiores de seu tempo.

É verdade que De Corpo e Alma tem mais corpo: suas personagens não se explicam, não há mergulho em seus dramas. Ora ou outra se vê algum problema, logo passageiro, e o casal ao centro tampouco terá os esperados conflitos e reconciliações.

O balé é a desculpa. Enquanto o espetáculo corre em sua perfeição, Altman joga seu olhar aos bastidores. Um dos técnicos indica as entradas, as luzes, os truques do palco. Na plateia, a voz das personagens ganha destaque. Uma tempestade aproxima-se durante a apresentação a céu aberto. O que seria banal faz toda a diferença.

Veja também:
Bastidores: Três Mulheres
Três perguntas sobre Robert Altman