Ridley Scott

Dez filmes de 2017 que prometeram muito e entregaram pouco (ou nada)

Todos os filmes abaixo foram lançados no Brasil em 2017. Todos – embalados por boas críticas e prêmios, além da participação em importantes festivais – prometiam, no mínimo, alguma empolgação. E todos, de alguma forma, terminaram se revelando verdadeiros fiascos. Detalhe: a lista é fruto de uma opinião pessoal.

10) A Criada, de Park Chan-wook

Sobram tentativas de criar cenas impactantes, e de mesclá-las a momentos eróticos. De mão pesada, sempre com previsíveis reviravoltas, mulheres pequenas e perigosas, o diretor coreano não faz mais que outro vazio exercício de estilo. Leia a crítica

9) Corra!, de Jordan Peele

Outro exemplo de filme superestimado. Em um tempo em que pouco ou quase nada chama a atenção, é natural que algo como Corra! passa-se por “original” ou “impactante”. Não que a ideia seja ruim. Falta alma, transborda artificialismo. Leia a crítica

8) Lion: Uma Jornada para Casa, de Garth Davis

Tão elogiado, chegou a ser indicado ao Oscar. Dá para entender, e reforça a ideia de que a Academia não é sinônimo de qualidade. Melhor com crianças do que com adultos, o filme está cheio de imagens belas e situações manjadas. Leia a crítica

7) De Canção em Canção, de Terrence Malick

Malick esteve outras vezes próximo do vazio. E por pouco não caiu nele. Em De Canção em Canção a queda é inevitável: consegue ser ainda pior que o anterior, Cavaleiro de Copas, com seus modelos em situações cotidianas, fingindo naturalidade. Leia a crítica

6) Passageiros, de Morten Tyldum

Outra boa ideia desperdiçada. Os belos do momento (Jennifer Lawrence e Chris Pratt) estão isolados no espaço. Aprendem a se amar. Amarrado ao filme de gênero, sem ousadias, o longa naufraga como mais um entretenimento passageiro, entre tantos. Leia a crítica

5) Aliados, de Robert Zemeckis

Outra junção de astros que não deu certo. A cena de sexo entre Brad Pitt e Marion Cotillard pode figurar entre as piores da História do Cinema, quando estão sozinhos no deserto. Misto de história de amor e paranoia, sem qualquer graça ou paixão. Leia a crítica

4) Até o Último Homem, de Mel Gibson

O tipo de material que clama pela guerra enquanto finge criticá-la, com sua personagem certa e irretocável, o bom menino cristão, sonho de consumo para qualquer mãe em busca do bom partido para a filha. Gibson, de novo, cheio de arroubos dramáticos. Leia a crítica

3) Alien: Covenant, de Ridley Scott

O público deu sorte: Ridley Scott ficou fora da direção de Blade Runner 2049, o qual assina apenas como produtor. Há um bom tempo o cineasta de Alien, o Oitavo Passageiro não consegue emplacar nada de interessante, como se vê em Covenant. Leia a crítica

2) It: A Coisa, de Andy Muschietti

Fenômeno de bilheteria, o filme prova que o gênero terror está vivo como nunca. Em cena, um punhado de sustos, um palhaço irritante e algumas crianças graciosas que, em algum lugar do passado, para boa parte do público já viu em ação. Leia a crítica

1) Mãe!, de Darren Aronofsky

Nenhum filme foi tão discutido em 2017 (até o momento) quanto Mãe! Há quem ame, há quem deteste. Aronofsky lançou mão da câmera trepidante, de um pouco de escuro, do isolamento, além de uma personagem feminina sempre a apanhar, sempre a última a saber. Mais uma bobagem vendida como “grande arte”. Leia a crítica

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Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O caçador de andróides, 30 anos antes, descobriu o amor improvável, acidental, enquanto trabalhava em uma investigação. O caçador que surge 30 anos à frente garante o amor a partir de uma companheira digital, em holograma, comprada para lhe fazer companhia. Os tempos mudaram. A tecnologia é tão natural quanto opressiva.

O rapaz, o novo caçador, chama-se K. A companheira que se desenha, nascida em luzes, pretende fazê-lo acreditar ser especial: pessoas assim, argumenta ela, precisam ter um nome de verdade. Ele aceita mudar. Passa a atender por Joe. É, em Blade Runner 2049, continuação do cult de 1982, um de seus avanços – talvez o principal – rumo à humanidade, à face que assume frente ao mundo ao redor.

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Precisa ser um homem, alguém com sentimentos: abre o olho, ou por ele é engolido à revelação, no início, para ver além da capa à qual foi legado. Não é máquina. É mais. Quer ser alguém para atravessar esse futuro sem saídas, de poeira, chuva ácida, radiação, de lixo e máquinas que impedem a visão que se deseja, ou com a qual se sonha.

Como o primeiro, ambientado em 2019, a continuação de Denis Villeneuve tem uma personagem que não sabe bem o que faz, onde está, e descobre suas origens. Quer dizer, o homem do filme anterior, imortalizado por Harrison Ford, apenas acreditava saber mais, ou dava as costas: sua indiferença aproximava-o dos detetives do cinema noir.

Designado ao trabalho, simplesmente executava. Caçava replicantes como parte de um dia a dia cercado por orientais, velharias, punks, belas modelos – tudo amontoado pela rua. O novo caçador sabe o que é: desde o início, como confere o público, vê-se o andróide aprisionado ao pequeno apartamento, às ordens, à namorada digital.

O amor em questão carrega certa teatralidade, certa “mão divina”. Oposto, às aparências, ao amor de Rick Deckard (Ford) por Rachael (Sean Young). Curiosamente, uma das sequências mais bonitas de 2049 mostra a moça feita em holograma fundida ao corpo de outra, uma prostituta, para conseguir tocar e satisfazer sexualmente o companheiro.

Novos tempos, novos prazeres e amores. De qualquer forma, não se nega o sentimento, a cegueira causada pelo holograma programado para dizer o que todo homem deseja ouvir. Característica humana: a crença de que é possível escapar à linha de montagem, de que é possível ser fruto de um ventre materno, reproduzido à base de uma história de amor.

O andróide de Ryan Gosling vive situação dramática: descobre a si mesmo, entre os cacos da civilização, para se sentir, mais tarde, grão de areia no universo. Descobre, nesse que pode ser o melhor filme de Villeneuve, que os humanos definem-se pela consciência da finitude, da pequenez, principalmente quando a tecnologia ajuda a ver tudo do alto ou a erguer castelos e pirâmides repletas de luzes, sobre os quais ainda resta um olho atento.

Com ele, na abertura da primeira ou da segunda parte, o convite é para entrar. Invadir o olho para ver a alma, e ver o humano. Na trama, K desloca-se ao seu interior, à história que acredita ter, a qual lhe toma ora ou outra de assalto, que acredita ter sido implantada e a qual, acredita depois, pode ter sido real. Verdadeira ou não, é o trampolim aos seus sentimentos, o que afasta o homem da máquina.

Apesar de belas sequências de ação, o que move Blade Runner 2049 é a jornada interior. Como no filme de 1982, Villeneuve está interessado em discutir se a cópia pode assumir o papel do original. Ou superá-lo. No anterior, os andróides procuravam seu criador para tentar frear a morte; 30 anos mais tarde, o replicante sai em busca do homem que acredita ser seu pai e, por ele, encontrar respostas sobre sua origem.

As perguntas lançadas pelo filme de Ridley Scott, em 1982 e em versões posteriores, seguem inquietantes. Villeneuve persiste nesse olho aberto, cheio de cores, no qual é preciso mergulhar, o do jovem caçador de andróides que se alimenta do amor para preencher o vazio, que encontra a desilusão, o erro, para enfim sentir o material do qual é feito.

(Idem, Denis Villeneuve, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott

Os andróides descobrem que viver é bom. Ou vivem para descobrir. Inevitável: desejam, por isso, viver mais, e correm atrás do criador, de respostas para uma possível longevidade. Diferente dos humanos, esses replicantes vivem apenas quatro anos, como o espectador logo descobre em Blade Runner, o Caçador de Andróides.

Quatro anos de desespero, corridos pelos perseguidos que viram muito, aos quais a humanidade passa, antes, pelo poder de ver. É o que confessa o último andróide, vivido por Rutger Hauer, em luta com o Rick Deckard de Harrison Ford: viu o impensável, no misto de horror e maravilhamento. Com sua morte morre também essa visão.

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O que explica o pressionar dos olhos quando investem contra os homens. É o que faz o líder contra seu pai, seu criador, seu deus de óculos quadriculados e lentes grossas, o gênio voltado à cama de adornos imperiais, como a de um rei, igualmente ao tabuleiro que reduz a existência à estratégia, sem dúvida ao confronto.

Precisa, antes de matar o pai, beijá-lo em desespero, pressionar seus olhos até jorrar o sangue. Morte, sim, mas precedida pela certeza do encerramento da visão, do sentido pelo qual a vida corre. Ver e continuar vendo, como parece dizer esse grande filme de Ridley Scott, a partir da obra de Philip K. Dick, repleto de características dos filmes noir.

Pode parecer ultrapassado com seus computadores de telas sem profundidade, com fotos físicas impressas em papel espesso, com figurinos sobre figuras furtivas que parecem ter saído do Alasca ou de qualquer outro local gelado do globo. A começar pelo ambiente, nada é agradável: não há verde, chove sem parar, o neon ocupa todos os cantos, e da cidade escura, sem nunca ver a luz do sol, sobe o fogo das torres.

Ainda assim os androides desejam continuar vivendo: já viram o suficiente – e o pior, entre um ambiente hostil e desagradável – para fazerem suas escolhas. Melhor ficar por ali, de olhos abertos, do que aceitar o fim, o desligamento. Os replicantes talvez sejam ocupados por sonhos, ou talvez não durmam: talvez sonhem acordados.

Deckard, que também pode ser um replicante, sonha com o unicórnio. À frente, o animal inexistente é reduzido ao origami no chão, na porta de seu apartamento, no encerramento do filme. À tela, o herói que não quer ser herói, sem empolgação para o trabalho que lhe é dado: caçar quatro andróides que se rebelaram contra o sistema.

Nesse filme que não chega a ser um noir, tampouco um terror, e cuja ficção científica outra vez revolve um mundo fracassado, o espectador tem seus motivos para ter pena e sofrer com os replicantes. Nenhum deles – nem a Pris de Daryl Hannah – chega a ser um vilão. E é a ela que a obra reserva a morte mais brutal, momento em que se debate no chão – uma máquina em pane, uma vida que se encerra.

Mesmo o duelo final não afirma o esperado, a luta do bem contra o mal. Mas, em cena, a luta da máquina que deseja provar – com seus uivos, como um lobo atrás da presa – que pode ser clemente, o homem que Deckard – fraco, desarmado, sangrando – não esperava encontrar. É ao caçador de andróides que o replicante mira os olhos, a quem, sob a chuva, leva a pomba, dono das palavras que tocam o poder de ver.

Ainda os olhos: no início, entre um corte e outro, o olho e a pupila ocupam a tela. Como se nada escapasse a ele, ou como se dele, primeiro, emergisse a vida. Não à toa, é pelo olho que os replicantes são testados. Os caçadores tentam encontrar, a partir da dilatação ou não da pupila, traços de emoção, de humanidade.

Nesse filme de múltiplas camadas, o visual não para de lançar novos impedimentos aos olhos do público. Luzes, água, sujeira, maquiagem, quinquilharias, além de painéis gigantes que engolfam os veículos voadores e a multidão pelas ruas. Ao fundo, a figura assustadora de Edward James Olmos, outro mistério com forma humana.

Do alto, naves convidam à fuga: deixar o planeta, ir para outro agora colonizado, pode ser um bom negócio. E deve custar caro. O planeta Terra tornou-se um problema, espaço que contrapõe o fechamento da primeira versão, de 1982, quando Deckard e sua amada, Rachael (Sean Young), voam à salvação. Na versão do diretor, o encerramento comunga com o amargor que cerca a obra. O espaço entre a porta e o elevador delimita a prisão, antes da chegada abrupta dos créditos e a certeza de que o casal está abandonado à própria sorte.

(Blade Runner, Ridley Scott, 1982)

Nota: ★★★★★

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Vida, de Daniel Espinosa

A personagem de Jake Gyllenhaal não teve muito sucesso em seu contato com os humanos. Entre os tripulantes em órbita no espaço, em Vida, é ela quem está ali há mais tempo. Em momentos rápidos, o astronauta queixa-se da civilização. No filme do sueco Daniel Espinosa, ele prefere o espaço e o som que quase não se ouve, ou apenas o silêncio.

Pois o fracasso do contato com o outro transfere-se ao ambiente isolado, quando os mesmos tripulantes, astronautas, procuram o contato com o desconhecido: a primeira criatura alienígena reconhecida, o primeiro sinal de vida fora da Terra. O que deveria ser a prova dos avanços científicos revela-se o oposto: não demora para que os tripulantes estejam em luta pela própria vida, em embates que levam à selvageria.

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A opção da personagem de Gyllenhaal e os ataques do monstro pouco a pouco formado suscitam – juntos ou separados – questões de interesse: vale a pena buscar o contato com o outro? Melhor é o isolamento em alguma ilha remota, em alguma máquina para além das fronteiras da Terra? É possível evitar o ataque e a presença do desconhecido?

A criatura – antes pequena, aparentemente bela, depois um monstro assustador com a forma de um polvo, rápido e até mesmo com alguma inteligência – prova que a procura pelo “outro” – seja lá o que isso signifique – sempre leva à perturbação, à invasão de um território inóspito e invariavelmente ao embate. É tão histórico quanto científico.

Não é novidade que a criatura rebelar-se-á. É o que move o filme. A vida, mais que a morte. Nesse caso, o inimigo deseja apenas sobreviver, como lembra o cientista que o maneja, que o distrai, que o adula, que vê naquela pequena criatura em formação o que a ciência não poderia deixar de ver, fosse o que fosse: o que há de mais belo.

Após alguns ataques, a criatura escapa. Sobrevive. Vive. Estará por todos os cantos. E os tripulantes, um a um, são abatidos por esse ser que insiste em continuar. Irônico, por isso, que alguns tripulantes, ora ou outra, estejam dispostos a dar a vida para evitar que o monstro chegue a Terra. A criatura não tem consciência, quer apenas sobreviver.

Pela estrutura, pela confinamento, pelo contato com o desconhecido e mesmo pela insistência do monstro em invadir corpos, o filme de Espinosa tem sido comparado a Alien – O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Mas há uma diferença entre ambos: enquanto no novo todos os tripulantes estão em missão com o objetivo de encontrar o alienígena, no antigo o monstro toma todos (ou quase) de assalto. Não era convidado.

Em Vida, o alien é recebido, alimentado, aquecido. Ainda que levassem em conta a possibilidade de um ser hostil, prevalece nos homens a espera pela bondade, pelo bom contato. Em um filme como tal – que se resolve bem do início ao fim, ainda que as personagens despejem pouca ou nenhuma humanidade – isso é impossível.

(Life, Daniel Espinosa, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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Alien: Covenant, de Ridley Scott
Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

Alien: Covenant, de Ridley Scott

Realizador de grandes filmes no início da carreira, entre eles Alien, o Oitavo Passageiro, Ridley Scott vira-se como pode com a violência abusiva. É com ela que tenta causa medo ou trazer alguma emoção, em vão, ao longo de Alien: Covenant.

Entre o filme de 1979 e o mais recente existe um abismo. No salto de um para o outro, percebe-se que Scott mudou radicalmente sua forma de fazer cinema, trocando os silêncios e o suspense pelo sangue em excesso. Não é fácil entender o que aconteceu com ele, que também tem no currículo Blade Runner, o Caçador de Androides.

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Scott desaprendeu. Faz hoje um cinema apenas voltado a chacoalhar a plateia, em linha de produção, com explosões gratuitas e aventuras sem qualquer preocupação em criar um universo que cerque o espectador a ponto de não escapar (o que fez tão bem em Alien, o Oitavo Passageiro, sem dúvida um grande filme).

O título de seu novo trabalho refere-se a uma nave que, durante uma viagem para colonizar um planeta, termina encontrando outro. Seus tripulantes resolvem descer em solo estranho, um local nublado cercado por tempestades atmosféricas e com vegetação próxima à da Terra. O local esconde as temidas criaturas. O que vem a seguir é correria.

Covenant é pueril e choca não necessariamente pelo excesso, mas pelo mau gosto, pela dificuldade de preparar o espectador às doses de sangue dos ataques alienígenas. É uma desculpa para reviver a temida criatura cuja primeira aparição, da barriga de John Hurt, no primeiro filme, deu vez a uma das cenas mais famosas do cinema moderno.

Scott, a partir do roteiro de John Logan e Dante Harper, chega a reviver esse mesmo momento, como se precisasse superá-lo. Por se aproximar do ridículo, é como uma referência saída de uma paródia, pequeno signo perdido e óbvio. Tal aparição é agora constrangedora: o monstro rompe o peito da vítima, levanta-se do interior do corpo e acena ao seu criador, o androide interpretado por Michael Fassbender.

O ator, por sinal, será a tentativa de conferir – mais uma vez em vão – alguma profundidade à história. Esse lado um pouco filosófico nada tem a acrescentar (como se viu antes em Prometheus, também de Scott): é apenas um capricho entre esguichos de sangue e mordidas, entre os tiros e a correria que o filme busca atingir.

Não é a primeira vez que Scott rende-se ao caminho mais fácil. Como em Êxodo: Deuses e Reis ou Perdido em Marte, adere ao espetáculo barato, tenta ser épico pelos caminhos errados, em filmes lotados de diálogos canhestros e drama superficial. Em Covenant, a carnificina levada à frente pela criatura pode, inclusive, produzir o efeito contrário ao qual ambiciona: arrancar risos do espectador, tamanha a artificialidade.

(Idem, Ridley Scott, 2017)

Nota: ☆☆☆☆☆

Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott