Perdido em Marte

Alien: Covenant, de Ridley Scott

Realizador de grandes filmes no início da carreira, entre eles Alien, o Oitavo Passageiro, Ridley Scott vira-se como pode com a violência abusiva. É com ela que tenta causa medo ou trazer alguma emoção, em vão, ao longo de Alien: Covenant.

Entre o filme de 1979 e o mais recente existe um abismo. No salto de um para o outro, percebe-se que Scott mudou radicalmente sua forma de fazer cinema, trocando os silêncios e o suspense pelo sangue em excesso. Não é fácil entender o que aconteceu com ele, que também tem no currículo Blade Runner, o Caçador de Androides.

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Scott desaprendeu. Faz hoje um cinema apenas voltado a chacoalhar a plateia, em linha de produção, com explosões gratuitas e aventuras sem qualquer preocupação em criar um universo que cerque o espectador a ponto de não escapar (o que fez tão bem em Alien, o Oitavo Passageiro, sem dúvida um grande filme).

O título de seu novo trabalho refere-se a uma nave que, durante uma viagem para colonizar um planeta, termina encontrando outro. Seus tripulantes resolvem descer em solo estranho, um local nublado cercado por tempestades atmosféricas e com vegetação próxima à da Terra. O local esconde as temidas criaturas. O que vem a seguir é correria.

Covenant é pueril e choca não necessariamente pelo excesso, mas pelo mau gosto, pela dificuldade de preparar o espectador às doses de sangue dos ataques alienígenas. É uma desculpa para reviver a temida criatura cuja primeira aparição, da barriga de John Hurt, no primeiro filme, deu vez a uma das cenas mais famosas do cinema moderno.

Scott, a partir do roteiro de John Logan e Dante Harper, chega a reviver esse mesmo momento, como se precisasse superá-lo. Por se aproximar do ridículo, é como uma referência saída de uma paródia, pequeno signo perdido e óbvio. Tal aparição é agora constrangedora: o monstro rompe o peito da vítima, levanta-se do interior do corpo e acena ao seu criador, o androide interpretado por Michael Fassbender.

O ator, por sinal, será a tentativa de conferir – mais uma vez em vão – alguma profundidade à história. Esse lado um pouco filosófico nada tem a acrescentar (como se viu antes em Prometheus, também de Scott): é apenas um capricho entre esguichos de sangue e mordidas, entre os tiros e a correria que o filme busca atingir.

Não é a primeira vez que Scott rende-se ao caminho mais fácil. Como em Êxodo: Deuses e Reis ou Perdido em Marte, adere ao espetáculo barato, tenta ser épico pelos caminhos errados, em filmes lotados de diálogos canhestros e drama superficial. Em Covenant, a carnificina levada à frente pela criatura pode, inclusive, produzir o efeito contrário ao qual ambiciona: arrancar risos do espectador, tamanha a artificialidade.

(Idem, Ridley Scott, 2017)

Nota: ☆☆☆☆☆

Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

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Seis filmes ruins e recentes dirigidos por grandes cineastas

A História do Cinema mostrou, em diferentes momentos, que mesmo alguns grandes mestres podem fazer filmes sofríveis. No caso de alguns cineastas, isso felizmente não é – ou não foi – muito comum. Em seus tropeços, realizadores de carreiras consolidadas fazem o público desanimar ainda mais: como é possível algo desprezível de um Polanski ou um Woody Allen? É bom lembrar: existem bons diretores e grandes diretores. A lista abaixo traz seis grandes nomes em momentos menores, até esquecíveis.

Deus da Carnificina, de Roman Polanski

Não é a primeira vez que Polanski isola algumas personagens em um único ambiente e constrói situações dramáticas e até absurdas a partir de suas relações. Isso pode ser visto, por exemplo, em A Faca na Água e A Pele de Vênus. Em Deus da Carnificina, adaptado da peça de Yasmina Reza, sobre dois casais que se encontram para discutir o problema dos filhos, a explosão de temperamentos das personagens não funciona. São seres irritados, artificiais, levados ao exagero e até mesmo com direito a vômito.

deus da carnificina

Sombras da Noite, de Tim Burton

Pode-se não amar Tim Burton. Ainda assim, é inegável que se trata de um autor. Sombras da Noite tem sua marca: seres fantásticos em uma mistura de comédia e terror. E tem Johnny Depp. As piadas não têm qualquer graça e o diretor, a certa altura, mostra estar no piloto automático. Não tem a mínima ousadia e, pior, tem pouca ou nenhuma graça. Depp interpreta um vampiro abobalhado que retorna ao mundo dos vivos após 200 anos de aprisionamento.

sombras da noite

Para Roma, com Amor, de Woody Allen

Em suas viagens pela Europa, Allen parou na Itália e fez ali seu pior filme em anos, a rivalizar com O Escorpião de Jade, de 2001. Como se sabe, Allen é um apaixonado por Fellini. Em Roma, ele novamente explora algumas vidas que se cruzam, com figuras conhecidas: um amontoado de histórias nada marcantes, entre seres desagradáveis, como Roberto Benigni, e outros que servem de mero medalhão, como a voluptuosa Penélope Cruz – para lembrar musas como Sofia Loren.

para roma

3 Corações, de Benoît Jacquot

Entre dois belos filmes, Adeus, Minha Rainha e O Diário de uma Camareira, o francês Jacquot apostou nessa história sem profundidade sobre um homem que se apaixona por uma mulher e termina casado com a irmã dela. Além do roteiro ralo, o filme tem o ator errado para o protagonista. É difícil esperar algum conflito, ou alguma profundidade que a personagem exige, em Benoît Poelvoorde. Melhor permanecer nos filmes cômicos. Para piorar, não há qualquer química entre ele e as mulheres em cena.

três corações

Êxodo: Deuses e Reis, de Ridley Scott

É difícil acreditar que o diretor de Os Duelistas e Blade Runner faria, mais tarde, bombas como Êxodo: Deuses e Reis e o recente Perdido em Marte. E Êxodo consegue ser pior que o seguinte, encabeçado por Matt Damon. A trama geral é conhecida: Moisés (Christian Bale) volta-se contra o irmão de criação, Ramsés (Joel Edgerton), vai embora de seu reino e guia os escravos à libertação. A sequência de abertura do Mar Vermelho impressiona, mas não salva a obra do fracasso.

aexodo

Tudo Vai Ficar Bem, de Wim Wenders

Outro caso a lamentar: em Tudo Vai Ficar Bem, o diretor de O Amigo Americano e Paris, Texas tem um de seus piores momentos. Leva ao drama de um escritor interpretado por James Franco, com o semblante sonolento, ligado à mãe de uma criança que atropelou. Anos mais tarde, ele é procurado pelo irmão da vítima. A beleza é oca, o filme não tem qualquer profundidade. A câmera apela a movimentos desnecessários, o que faz parecer puro exibicionismo do cineasta.

tudo vai ficar bem

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Sete bons filmes com Jessica Chastain

É uma daquelas aparições que não passam despercebidas. Quando surgiu, Jessica Chastain estava pronta para ser estrela, com traços angelicais, bela, também disposta a papéis inesperados, como se viu no fraco Histórias Cruzadas.

Para muita gente, foi em Árvore da Vida que se deu a descoberta. Mas ela esteve antes no extraordinário O Abrigo. Recentemente, Chastain não tem se preocupado apenas em ser protagonista. Suas coadjuvantes são boas até mesmo quando o material não ajuda, como no recente Perdido em Marte. Abaixo, seus melhores filmes até o momento.

O Abrigo, de Jeff Nichols

Em cena, ela interpreta a mulher de um homem paranoico, que constrói um abrigo contra furacões e outros desastres, e contra os gafanhotos que anunciam os dias finais.

o abrigo

Árvore da Vida, de Terrence Malick

O pai, vivido por Brad Pitt, parece representar o mundo bruto. Do outro lado, ela é a mãe cuja face remete ao espírito, em belas sequências desse premiado filme de Malick.

árvore da vida

Os Infratores, de John Hillcoat

Nesse interessante filme de gângster, a atriz é a bela que se infiltra em uma família, entre irmãos, e que precisa mostrar força em um ambiente tipicamente masculino.

os infratores

A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow

História supostamente verdadeira, sobre como a agente Maya (Chastain), de contornos heroicos, conseguiu chegar ao esconderijo do terrorista Osama bin Laden.

a hora mais escura

Miss Julie, de Liv Ullmann

Dirigida pela grande dama de Bergman, a partir de um texto de Strindberg, ela é a dona da grande casa em conflito com o criado (Colin Farrell). Em cena, romance e diferenças sociais.

miss julie

O Ano Mais Violento, de J.C. Chandor

Belo filme passado na Nova York dos anos 80, quando um empresário tenta se desviar da corrupção, sobreviver à concorrência e lidar com a ambiciosa esposa (Chastain).

o ano mais violento

A Colina Escarlate, de Guillermo del Toro

Boa surpresa de 2015, sobre uma menina (Mia Wasikowska) apaixonada pelo homem errado, e tendo de lidar com a personagem de Chastain, a estranha irmã do rapaz.

a colina escarlate

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Dez filmes de 2015 que prometem muito e entregam pouco

Há filmes que não prometem nada e revelam boas surpresas. Houve casos assim em 2015, como Kingsman: Serviço Secreto e A Colina Escarlate – apenas para citar dois.

Há também aqueles que geram expectativas, muitas vezes embalados por uma velha grife de sucesso, e chegam ao fim da corrida sem fôlego. Entregam pouco, quase nada. Houve vários casos assim em 2015. Abaixo, os dez mais gritantes – a partir de uma escolha pessoal, pois há na lista filmes elogiados pela crítica e pelo público.

10) Corações de Ferro, de David Ayer

O astro Brad Pitt é um militar à frente de um tanque de guerra nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, em um filme que não escapa aos manjados atos de bravura.

Wardaddy (Brad Pitt) with Norman (Logan Lerman) in Columbia Pictures' FURY.

9) Chappie, de Neill Blomkamp

Com bons efeitos e sequências de ação, o badalado diretor de Distrito 9 de novo volta suas garras às grandes corporações, à luta entre opressores e oprimidos.

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8) A Dama Dourada, de Simon Curtis

Uma entre tantas produções sobre o nazismo e em busca de um caminho original. Ao que parece, tenta repetir a fórmula de Philomena, mas sem o mesmo êxito.

dama dourada

7) Peter Pan, de Joe Wright

Carregado de maquiagem e na pele do pirata Barba Negra, Hugh Jackman não coloca medo em ninguém nesse filme sobre o início da história do jovem herói.

peter pan

6) Samba, de Olivier Nakache e Eric Toledano

Os diretores realizaram antes o agradável Intocáveis. Na nova produção, abordam a imigração na França atual e erram na abordagem do drama e da comédia.

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5) Selma: Uma Luta pela Igualdade, de Ava DuVernay

O típico drama quadrado, feito na medida para o Oscar, cheio de momentos edificantes. O fim não seria diferente: é Martin Luther King discursando na porta da Casa Branca.

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4) Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros, de Colin Trevorrow

Das partes anteriores, apenas a primeira vela a lembrança. Por isso, esperava-se um retorna às origens. Resta ao fim apenas a aventura juvenil com monstros gigantes.

jurassic world

3) Grandes Olhos, de Tim Burton

Os erros do diretor são evidentes: fora de seu universo mágico, ele não sustenta a história real, apelando às figuras caricatas, às velhas reviravoltas dramáticas.

grandes olhos

2) A Travessia, de Robert Zemeckis

O diretor de Forrest Gump consegue apenas a profundidade visual, com boa recriação das Torres Gêmeas. Faltou a profundidade humana.

a travessia

1) Perdido em Marte, de Ridley Scott

O ponto de partida é incrível: astronauta deixado em Marte busca meios para sobreviver. Com todos os vícios do cinemão americano – como os aplausos constantes dos cientistas da Nasa, o bom humor do astronauta isolado, as explicações do roteiro preguiçoso –, o filme de Scott não é mais que entretenimento passageiro.

perdido em marte

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