Pedro Almodóvar

Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O movimento de Marina Vidal pelas ruas remete tanto à necessidade de chegar a um destino quanto à de se perder, ou recomeçar. Pois nesse caminho, não raras vezes, ela deverá questionar a si mesma, deverá olhar no espelho, encontrar a fuga ou o fecho que dá vez à sua história, seu ser: quem é ela talvez seja o grande mistério.

Não se trata da identidade que carrega no documento, ou da transformação física que expõe. O que está em jogo, em Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, é a identidade que se projeta no espelho, e o que ela diz sobre a alma da mulher em questão, essa mulher fantástica que, do dia para a noite, viu-se sem o homem que amava.

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Viu-se perdida, por isso, nas ruas de uma cidade grande, entre pequenas corridas e passos rápidos, para ir a tantos lugares e a lugar algum. Nesse meio, até mesmo o vento será capaz de segurá-la, não uma rajada qualquer: a ventania que, a certa altura, serve à representação perfeita da natureza – o corpo, a condição – contra o desejo de seguir em frente.

Nem a natureza será capaz de segurar a mulher. Nem o que talvez ainda carregue – ou esconde, sem muita opção – entre as pernas. Pois o que vê, ao olhar em direção ao próprio sexo, na sequência mais importante do filme, é justamente seu reflexo. Deitada na cama, perto do encerramento, Marina coloca um pequeno espelho entre as pernas. No lugar do falo o que salta é sua face, seu reflexo, o da mulher fantástica em questão.

Sua situação não é das melhores: certa noite, em seu aniversário regado à festa, ela vê-se com o companheiro à beira da morte. Depois, no hospital, descobre que ele morreu. Vêm as perguntas à protagonista transexual: por que teria ido embora do hospital tão rapidamente? Por que o homem carregava hematomas no corpo?

O espectador sabe todas as respostas, acompanhou o périplo da heroína. Aos outros, Marina é vista como possível profissional do sexo, aproveitadora, carregando o estereótipo que tanto se leva aos transexuais. Nesse meio de intimações e dúvidas, a inocente é obrigada a se ver no espelho de novo, a repensar seu local nessa sociedade.

O diretor Lelio já havia mergulhado no universo feminino no belo Gloria, sobre uma mulher, a personagem-título, também em uma jornada de descobrimento. À parte a questão feminina, em Uma Mulher Fantástica resta sempre o reflexo distorcido, ou a reprodução da máscara do monstro, a forma como é vista por muitos.

Em um momento forte, Marina é colocada à força no interior de um carro por dois homens, enquanto um terceiro dirige. Quem está ao volante é o filho de seu companheiro morto. Os homens passam uma fita adesiva ao redor de sua face. A câmera aproxima-se. O monstro nasce da pele que salta, dessa face que não esconde o susto, o medo, a dor.

Face, por sinal, quase sempre sofrida, paralisada, de pouco ou nenhum desejo. Marina cria para si própria – no rosto bloqueado e abatido – a forma de quem parece ter vivido demais, ou de quem desistiu de viver. Não é uma expressão erotizada; é uma expressão feminina, de alguém que acaba de nascer e se volta ao redor como se tudo fosse novidade. Faz lembrar – não apenas pela aparência – a moça que renasce em Fale com Ela, de Almodóvar.

A protagonista é interpretada pela atriz e cantora lírica Daniela Vega. Sua presença torna o filme ainda maior. Suas palavras, quando explode, não deixam dúvidas sobre o que quer, e sua caminhada não abre novas interpretações a respeito do amor que sente pelo homem morto. A história de uma mulher que renasce, que se redefine, contra os monstros que impõem padrões, seu espaço envernizado, cheios de hipocrisia.

(Una Mujer Fantástica, Sebastián Lelio, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Julieta, de Pedro Almodóvar

A divisão da personagem central, Julieta, leva a mulheres diferentes: primeiro à apaixonante Adriana Ugarte, mais tarde à culpada Emma Suárez. Antes de contar como perdeu a filha, a protagonista conta sua história, sobre perdas e paixões.

É a Julieta mais velha (Suárez), escondida em óculos quadrados, cabelo curto, batido, que retorna à história da própria vida: ela recai às páginas em branco de um caderno e passa a preenchê-las, em tom à beira da obsessão, cercado de mistério.

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Na juventude, o espectador tem Ugarte, bela, de cabelos curtos, a Julieta que o diretor Pedro Almodóvar faz apaixonante, a agarrar qualquer um. Sequer precisa explicar que está nos anos 80. Seus cabelos arrepiados denunciam o tempo, também a liberdade exalada pela moça que toma um trem, certa noite, e conhece um homem interessante.

É o pescador Xoan (Daniel Grao), futuro pai de sua filha. A conexão entre ambos é imediata. O homem é casado, mas sua mulher está em coma. O reencontro entre o novo casal ocorre no momento em que a outra morre. Passam então a viver juntos.

Em Julieta, quase todas as mortes dão espaço a união ou reencontros. A protagonista une-se ao futuro marido quando um homem estranho e sozinho suicida-se na linha do trem e, depois, com a morte da mulher do companheiro.

À frente, o pai de Julieta une-se à outra mulher, sua criada, quando a mãe da personagem-título aparenta estar próxima da morte, além de senil. Mais velha, a protagonista conhecerá outro homem (Darío Grandinetti) no momento da morte da amiga e artista plástica Ava (Inma Cuesta). Ainda depois, Julieta reencontrará a filha quando é informada da morte de seu neto, por carta, já nos instantes finais.

As reviravoltas oferecem contornos de melodrama. Almodóvar, contudo, faz um filme propositalmente frio – ainda que seja difícil conter as cores fortes de seu cinema, como a intensidade de suas personagens. O diretor luta contra si mesmo.

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A começar pelo apartamento da Julieta mais velha, com ares modernos, o vermelho da parede em confronto com os tons escuros de outros espaços. Ao relembrar a filha, a protagonista percebe que não adianta duelar com a memória: junta suas coisas e se muda a um velho apartamento do mesmo prédio em que vivia.

O tema central, portanto, é o confronto com o tempo – embalado pela culpa da personagem central e a tentativa de exorcizar o passado ao jogar nas páginas em branco sua própria vida. E nesse ponto a questão fica ainda mais curiosa: tudo chega ao espectador pelo ponto de vista de Julieta, por sua maneira de ver o próprio drama – às vezes o da mulher apaixonante, às vezes o da incompreendida e à frente culpada.

No encontro com Xoan durante sua viagem, a personagem vê um cervo, do lado de fora, correndo livremente entre a neve, próximo à linha do trem. E, nessa mesma viagem, há o estranho homem que se suicida e que dividia a cabine com Julieta.

De um lado o homem sem passado, cuja bagagem não tem nada além do vazio, que escolheu morrer; do outro o cervo livre e nada consciente do risco que corre ao estar ali, próximo ao grande veículo metálico. O filme é feito dessas estranhas aproximações.

Como nos outros trabalhos de Almodóvar, as cores perseguem. O vermelho do primeiro plano, na toalha, retorna para cobrir a Julieta de Ugarte e levar à Julieta de Suárez. Ainda que não pareçam, elas são a mesma mulher.

(Idem, Pedro Almodóvar, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Cinco bons filmes recentes sobre clausura

Uma leva recente de filmes sobre personagens enclausuradas gera desconforto e diferentes questionamentos. As obras da lista abaixo possuem seres estranhos, diferentes tipos, do médico conceituado ao paranóico linha dura. As vítimas, por sua vez, precisam se adaptar ao cárcere para sobreviver e, talvez, escapar. À lista.

Michael, de Markus Schleinzer

Garoto é aprisionado por um homem (Michael Fuith) que procura agir como seu responsável. Não raro o filme de Markus Schleinzer causa mal-estar, com sequências frias, algumas a provocar revolta. O algoz tem aqui sua rotina revelada, com as relações de trabalho e o retorno constante ao quarto onde está o menino. Antes de dirigir esse longa-metragem, Schleinzer foi diretor de elenco de Michael Haneke, famoso por filmes como Violência Gratuita.

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A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar

O diretor espanhol inspira-se em obras antigas de horror, sobretudo em Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju. Antonio Banderas é um conceituado cirurgião plástico que tem a filha abusada por um rapaz. Em busca de vingança, ele aprisiona o jovem e passa a fazer experiências que incluem mudança de pele e sexo. O terreno é típico do diretor: incluir alguns exageros, cores explosivas e momentos delirantes. A bela Elena Anaya divide a cena com Banderas.

a pele que habito

Ex-Machina: Instinto Artificial, de Alex Garland

A grande casa e a natureza ao redor revelam um futuro sedutor. É para esse local de sonhos que o jovem Caleb (Domhnall Gleeson) é enviado, após passar em um concurso e ser convidado a dividir alguns dias com o gênio e dono de sua empresa, Nathan (Oscar Isaac). À relação entre eles é adicionada a figura feminina, a androide de nome sugestivo, Ava (Alicia Vikander). Essa inteligência artificial deseja ser livre, e será como todos ao redor: uma estrategista.

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O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

O filme foi sensação na temporada do Oscar 2016 e saiu da premiação com a estatueta de melhor atriz para Brie Larson. Após viver aprisionada por seis anos em um pequeno quarto, Ma (Larson) cria planos para o pequeno filho escapar do local. Nascido ali, Jack (Jacob Tremblay) não conhece outro ambiente. Transcendê-lo significa imaginar. Ao passar ao outro lado, ele descobrirá as dificuldades de viver em universo concreto, não meramente imaginado.

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Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg

Até certo ponto, o espectador não sabe se a clausura é fruto de paranoia ou se há algo perigoso – uma guerra química, alienígenas, uma doença mortal – do outro lado das paredes do abrigo. O filme de Trachtenberg repousa sob esse mistério, enquanto se acompanha cada novo lance pelo ponto de vista da protagonista, vivida pela bela Mary Elizabeth Winstead. Quem a mantém aprisionada é o estranho Howard (John Goodman), com suas regras e passado incerto.

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Dez grandes filmes sobre amor obsessivo

O amor tem diferentes faces. No cinema, há ternura e loucura, com pertencimento ou repelência. Em exagero, o amor pode ser destrutivo. Alguns amantes, como se vê nos filmes abaixo, estão dispostos a morrer pelo outro, ou mesmo a amar um espírito. Estão à beira da loucura, às vezes sem caminho, às vezes sem respostas. Abaixo, dez exemplos de grandes filmes nos quais o amor é colocado de cabeça para baixo. Contudo, continua por ali, ainda que difícil de enxergar.

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O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler

Apesar de tanto amor, o filme de Wyler tem pitadas de vingança – com Laurence Olivier como o pobretão que retorna rico para tomar seu grande amor. Um clássico sobre amores e fantasmas, sobre eternidade.

o morro dos ventos uivantes

O Retrato de Jennie, de William Dieterle

Mais do que sobre amor, é sobre um homem obcecado pela beleza, pela mulher de outro tempo que aparece para ele e por quem se vê apaixonado. De encerramento delirante, foi elogiado por Luis Buñuel.

o retrato de jennie

Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

A história de uma mulher obcecada por um quadro, de um homem obcecado por ela e pelo medo de altura. Os caminhos inusitados dão vez a uma grande história de amor. Com a linda Kim Novak.

um corpo que cai

Lolita, de Stanley Kubrick

O homem mais velho faz de tudo para estar perto da adolescente, antes sua enteada e depois sua amante. À época, no começo dos anos 60, Kubrick tratou o romance até com certa leveza para driblar a censura.

lolita

A História de Adèle H., de François Truffaut

O amor em suas últimas consequências. A personagem-título, filha do escritor Victor Hugo, sai da Europa e vai para o Canadá tentar encontrar seu grande amor. É quando começa a jornada de sofrimento.

a história de adèle h

O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima

Considerado pornográfico, é um dos filmes mais corajosos e controversos da história do cinema. Oshima funde amor à loucura e leva os amantes à tragédia, forma de possuir o outro por inteiro.

império dos sentidos

Esse Obscuro Objeto de Desejo, de Luis Buñuel

Como no poderoso e anterior O Alucinado, o diretor narra a vida de um homem impotente, em desespero e dominado por uma mulher. Buñuel utiliza duas atrizes diferentes para a mesma personagem.

esse obscuro objeto de desejo

A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

Pintor solitário presencia o resgate de uma garota, retirada da água quase morta. Mais tarde obcecado, ele passa a perseguir a jovem (a bela Ornella Mutti) que, com frequência, mostra-se descontrolada.

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Ondas do Destino, de Lars Von Trier

Uma mulher aceita sair com outros homens apenas para satisfazer os desejos do marido tetraplégico, que depois ouve seus relatos. Os limites do amor e a hipocrisia religiosa fazem parte desse grande filme.

ondas do destino

Fale com Ela, de Pedro Almodóvar

Enfermeiro efeminado e amante da arte apaixona-se por sua paciente. O problema é que ela encontra-se presa a uma cama, em coma. Isso não o impede de lhe contar histórias. O melhor filme de Almodóvar.

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Os filmes de Xavier Dolan

Com cinco filmes na carreira, o canadense Xavier Dolan não fez pouco. Afinal, trata-se de um realizador de apenas 26 anos. Sua obra é frequentemente considerada histérica, com personagens feitas de gritos e explosões. São histórias tem a família ao fundo, também questões que envolvem a homossexualidade. Devido ao sucesso e aos vários prêmios na bagagem, o pequeno notável assinará em breve sua primeira produção americana. A expectativa é grande.

Eu Matei Minha Mãe (2009)

O jovem cineasta também acumula aqui o papel central, o roteiro, a co-produção e o figurino da obra. Com apenas 19 anos, faz um pouco de tudo. O filme foi um sucesso. Às vezes é leve, amoroso, e em outros momentos tem lá seus exageros. É sobre um garoto e sua relação tumultuada com a própria mãe (Anne Dorval).

eu matei minha mãe

Amores Imaginários (2010)

A evolução é evidente: do drama com tons escuros, passa à comédia leve. Há quem veja toques de Almodóvar por aqui. Dois amigos (um deles vivido pelo próprio diretor) estão apaixonados pelo mesmo rapaz, interpretado por um menino indecifrável, Niels Schneider, renovação do Tadzio de Morte em Veneza – mas de forma alegre.

amores imaginários

Laurence Anyways (2012)

Mais uma obra madura, forte, dessa vez com a sexualidade assumindo importância central para Dolan. O protagonista, o professor Laurence, resolve se transformar: certo dia, passa a vestir roupas femininas, adere a outro universo. Nem todo mundo aceita. E há aqueles que estranham a mudança, como sua amada Fred (Suzanne Clément).

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Tom na Fazenda (2013)

Trata-se do melhor momento de Dolan, curiosamente o único filme do cineasta ainda não lançado comercialmente no Brasil. É o mais duro, o mais direto. Envolve um rapaz (Dolan, de novo) que vai ao velório do companheiro, em ambiente rural, estranho, e ali se cerca de problemas ao se envolver com a família do morto.

tom na fazenda

Mommy (2014)

Mesmo de fora do Oscar de filme estrangeiro, valeu a Dolan o prêmio do Júri em Cannes (dividido com Godard e seu Adeus à Linguagem). Mais uma vez, o cineasta retorna à difícil relação entre mãe e filho, como em seu trabalho de abertura. Mas vai além: insere mais uma personagem nessa relação, a vizinha. O resultado surpreende.

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