Oscar

Jack Nicholson, 80 anos

Qual o segredo de seu apelo?

Eu não sei. Quando era adolescente e no começo de meus 20 anos, meus amigos costumavam me chamar de “O Grande Sedutor” – mesmo que eles soubessem que eu não era definitivamente nada atraente – porque parece que eu possuo alguma coisa invisível, mas infalível.

E agora, como ator, você é pago por isso. A sedução é seu negócio.

(Risos) Certo. Mas não quero forçar minha vontade em cima de ninguém. Quero ter a vontade. Quero que seja do modo que é, e acredite em mim, do jeito que é (abre um enorme sorriso) é bom pra caramba.

Jack Nicholson, ator e diretor, em entrevista para Nancy Collins, na revista Rolling Stone (29 de março de 1984; a entrevista foi reproduzida no livro As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stone, editora Larousse, pg. 198). A entrevista ocorreu às vésperas da cerimônia do Oscar de 1984, na qual Nicholson recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante por Laços de Ternura, de James L. Brooks. Abaixo, o ator em um de seus trabalhos mais famosos, Um Estranho no Ninho, de Milos Forman.

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Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington

No fundo de casa, construindo sua cerca, Troy Maxson não percebe que o mundo mudou. Pode olhar por outro ângulo e ainda assim é provável que fracasse: de sua agradável varanda ou da traseira do caminhão de lixo sobre a qual trabalha.

Fica até certa dúvida sobre essa dificuldade de ver, relacionada a Troy, em Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington (também o protagonista). E isso dá a ideia do terreno em questão, sob o olhar e as intenções de uma personagem problemática, quase sempre a guiar o espectador.

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O público não terá apenas ele. Mas é com Troy que se avança: a cada erro ou fala alta, a cada gesto de ignorância que desestabiliza, vem – contra ele – a figura da esposa, a grande mãe interpretada com garra por Viola Davis. Segunda ela, o mundo mudou; segundo ele, os negros continuam a não ter espaço na sociedade dos brancos.

Ao fim, difícil não reparar em duas fotos na casa de Troy, ao lado da porta que dá para os fundos, com dois homens famosos e assassinados: Martin Luther King Jr. e John F. Kennedy, suposta conjugação para um mundo possível entre brancos e negros.

A família, com ou sem Troy, busca essa esperança. Talvez seja o pai problemático e rançoso que evite ver tamanha esperança: no fundo, ele crê em uma vida estacionada, na prisão que se materializa, que se metaforiza, na forma das cercas que impõe aos limites do quintal, no mesmo fundo que serve para suas entradas, no mesmo atalho às ruas.

Pois é no fundo, no canto esquecido da casa (ou nem tanto), que se travam os grandes dramas – e o local em que a família enfim se vê unida (mas não totalmente) para assistir ao espetáculo da luz, sinal de alguém que, enfim, encontrou sua entrada no paraíso. E é pelo improvável que o sinal será dado: o irmão de Troy com problemas mentais, Gabriel (Mykelti Williamson), que força a trombeta em direção ao céu.

O mundo realmente mudou? Troy, de entregador de lixo, torna-se motorista. Ganha e perde. Ao fim, ele confessa que dirigir pode parecer mais nobre ao homem negro ao qual antes apenas o lixo era legado, mas em contrapartida não fala mais com ninguém durante as viagens de trabalho. O que ajuda em seu comum amargor.

O protagonista – que, apesar de exagerado, nunca se perde em caricatura graças ao talento de Washington – recusa-se a enxergar as mudanças. Não aceita que o filho mais novo seja jogador de futebol. Ele próprio tentou ser um jogador de beisebol e fracassou. Sua versão é sempre a mesma: aos negros restam poucos espaços nas partidas.

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A mulher argumenta que as coisas mudaram. O filho também. Para confrontar o pai, cita diversos jogadores negros de sucesso. E sequer importa o esporte. O clima de rivalidade, de ódio, é expresso aos cantos, na relação entre negros. É interessante notar como surge pouco a pouco, nas armadilhas que as personagens criam para si mesmas.

Mesmo confinado a pequenos espaços, às vezes se abrindo às ruas ou à porta dos fundos do trabalho de Troy, Um Limite Entre Nós é dinâmico em sua construção visual. O excesso de diálogos não leva à aparência teatral. Em cena, pessoas simples tropeçam no drama que vive por ali, à espreita, antes em silêncio.

As cercas no fundo da casa servirão de impedimento ao mal que ronda os espaços externos, ou para aprisionar aqueles que vivem ou viveram naquele local. Caso do filho que se torna militar, levado a descobrir que nunca poderá se ver livre da sombra do pai repleto de defeitos com quem travou brigas no fundo da casa.

Há ainda a questão religiosa. Troy desafia a morte enquanto Gabriel, com sua trombeta gasta, diz lutar para expulsar os cães do inferno. A religião será um sustento, a possibilidade de encontrar o paraíso para além daquelas cercas, ou daquele céu.

(Fences, Denzel Washington, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Ser negro (em quatro dramas que concorrem ao Oscar 2017)

15 grandes cineastas que foram indicados ao Oscar, mas nunca ganharam o prêmio

A lista poderia ser maior. Há outros mestres que receberam indicações, perderam e devem ser lembrados, nomes como Krzysztof Kieslowski e Hiroshi Teshigahara. Na outra ponta há figuras medíocres que já levaram o prêmio. Vão dizer que são coisas do momento, com filmes que estavam na crista da onda e ganharam tudo (ou quase). Pode ser.

E há outros casos curiosos, não menos injustos. Um deles é o de Charles Chaplin. Apesar de ter vencido pela música de Luzes da Ribalta e ter ganhado um merecido honorário, Chaplin nunca foi indicado como melhor diretor. O que explica sua ausência nesta lista – como a de realizadores como Buñuel, Visconti, entre tantos outros.

Robert Altman

A carreira de Altman é extensa, cheia de momentos geniais, entre comédias, dramas e até faroestes. Poderia ter ganhado o Oscar em diferentes momentos. E merecia por alguns, como em 1976, quando concorria por Nashville, ou em 2002, quando viu Ron Howard abocanhar a estatueta pelo drama Uma Mente Brilhante, ocasião em que concorria pelo extraordinário Assassinato em Gosford Park.

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Michelangelo Antonioni

O mestre da melancolia, realizador com extremo controle do tempo e que atravessou diferentes países com filmes provocadores e que captaram o espírito de seu tempo. Blow-Up passa-se na agitada Londres dos anos 60. Deu ao diretor sua única indicação. O filme acompanha os passos de um fotógrafo de moda (David Hemmings) em busca de realidade, em noites em albergues ou no possível registro de um assassinato.

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Ingmar Bergman

Indicado três vezes como melhor diretor, por Gritos e Sussurros, Face a Face e Fanny & Alexander, Bergman é um gênio. Quase ninguém duvida disso. No entanto, o Oscar nunca o premiou na categoria, preferindo cineastas hoje pouco lembrados, George Roy Hill, John G. Avildsen e James L. Brooks, respectivamente. Se é possível compensar, os filmes de Bergman ganharam quatro vezes na categoria de estrangeiro.

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John Cassavetes

O pai do cinema independente americano chegou ao Oscar primeiro como ator, com a indicação de coadjuvante por Os Doze Condenados. Pouco depois, em 1975, recebeu sua única indicação como diretor, dessa vez pelo incrível Uma Mulher Sob Influência. O filme, contudo, ficou fora da categoria principal. Na ocasião, a Academia preferiu indicar o quadradão Inferno na Torre, filme catástrofe de grande orçamento.

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Federico Fellini

Talvez o diretor italiano mais importante da história, indicado quatro vezes ao Oscar, por quatro obras-primas: A Doce Vida, Oito e Meio, Satyricon e Amarcord. Seu estilo tornar-se-ia adjetivo: o felliniano. E são vários os diretores que ainda tentam perseguir a marca. Alguns resolveram adaptar suas histórias para os palcos ou mesmo para o cinema, como é o caso de Bob Fosse, em diferentes momentos.

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Howard Hawks

Amado pelos críticos da revista Cahiers du Cinéma, nem sempre foi reconhecido como um autor nos Estados Unidos. Indicado ao Oscar uma única vez, pelo belo Sargento York. Foi parceiro de atores como Bogart e dirigiu um pouco de tudo: filmes de gangster, screwball, dramas de guerra e alguns dos melhores faroestes americanos. Os franceses estavam certos: Hawks não era mero diretor de encomenda.

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Alfred Hitchcock

Outro cuja marca virou adjetivo. Outro que ora ou outra aparece copiado, ou repaginado em filmes modernos, sobretudo os que investem no suspense. Hitchcock foi indicado ao Oscar em diferentes momentos de sua carreira nos Estados Unidos, entre eles por seu primeiro filme em Hollywood, Rebecca, a Mulher Inesquecível, e, mais tarde, pelo sucesso comercial Psicose. Ganhou em 1968 o prêmio Irving G. Thalberg.

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Stanley Kubrick

O cineasta ganhou o Oscar apenas uma vez, pelos efeitos especiais de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Foi nomeado quatro vezes como diretor, por Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Seria lembrado, ainda mais uma vez, pelo roteiro de Nascido para Matar. Nenhuma vez agraciado com um honorário. Kubrick tem uma carreira exemplar e que atravessa décadas, dos anos 50 aos 90.

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Akira Kurosawa

O prêmio de filme estrangeiro caiu no colo de Kurosawa quando a categoria nem existia, no anos 50, por Rashomon. Venceu na mesma categoria com a produção soviética Dersu Uzala, de 1975, e a única indicação do “imperador” chegou tarde, em 1986, pelo monumental RAN. O cineasta recebeu o honorário em 1990, entregue por George Lucas e Steven Spielberg, que inegavelmente beberam em sua fonte.

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Ernst Lubitsch

De tão bom com as comédias, acabou sendo identificado pelo “toque de Lubitsch”. Tornou-se marca. E, não raro, sinônimo de sofisticação. Foi indicado ao Oscar três vezes, incluindo por um de seus últimos filmes – não o mais inspirado –, O Diabo Disse: Não! Como outros desta lista, contentou-se com um honorário, entregue em 1947. Morreu no mesmo ano, em novembro, em Hollywood.

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Sidney Lumet

Também fez um pouco de tudo, navegou entre gêneros. Já disseram, por isso, que não era um autor. Mas Lumet, pelo menos entre indicados, nunca foi esquecido pelos membros da Academia. Faltou o prêmio, veio apenas o honorário. Esteve quatro vezes no páreo como diretor: 12 Homens e uma Sentença, Um Dia de Cão, Rede de Intrigas e O Veredicto. Diversos atores ganharam a estatueta trabalhando em seus filmes.

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Otto Preminger

Indicado por Laura e, quase vinte anos depois, pelo belo drama O Cardeal, Preminger é um dos mestres do cinema americano que, como Hawks, merecia ser mais lembrado, principalmente em sua época. O incrível Anatomia de um Crime foi indicado como melhor filme em 1960, mas o cineasta, na ocasião, injustamente ficou de fora da categoria de direção. A obra recebeu sete indicações, mas não ganhou nada.

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Jean Renoir

Caso curioso: o francês foi indicado apenas uma vez, e por uma produção americana. Amor à Terra é de 1945 e não foi nomeado a melhor filme. Mestre absoluto, filho do pintor Pierre-Auguste Renoir, o diretor fez obras-primas como A Grande Ilusão, A Besta Humana, A Regra do Jogo e, mais tarde, O Rio Sagrado – no qual um certo Satyajit Ray aparece como assistente de direção. Veio, como consolo, um honorário em 1975.

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François Truffaut

Outro francês indicado apenas uma vez, em 1975, por A Noite Americana. A indicação veio um ano depois de o filme ter vencido o prêmio na categoria de estrangeiro. À época, Truffaut já havia realizado grandes obras e era um nome conhecido na América. Fez, entre outros, Os Incompreendidos, Jules e Jim e O Garoto Selvagem. A Noite Americana é um de seus melhores, no qual também se vê o Truffaut ator.

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Orson Welles

No já citado A Noite Americana há uma homenagem a Welles: Truffaut sonha que está roubando os stills de Cidadão Kane, na porta do cinema, quando era apenas uma criança. Pois Kane ainda povoa o imaginário cinéfilo: é um dos maiores de todos os tempos e deu a Welles sua única indicação ao Oscar de diretor. Perdeu, e só voltou aos holofotes da Academia em 1971, quando ganhou uma estatueta honorária.

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Veja também:
Os dez melhores filmes de François Truffaut
Os cinco melhores filmes de Stanley Kubrick

Ser negro (em quatro dramas que concorrem ao Oscar 2017)

Após uma edição em que a ausência de atores negros gerou protestos contra as escolhas do Oscar, 2017 traz diversos concorrentes negros entre seus indicados. Para além do prêmio, chama a atenção como esses filmes abordam a posição do negro na sociedade americana, entre questões passadas e históricas e outras atuais.

Um drama comum percorre esses longas, mesmo quando não há brancos malvados a investir contra as personagens centrais: o sentimento de exclusão. Cada um dos filmes, com suas características próprias, fala do ódio direto ou indireto gerado pela diferença.

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O ator e diretor Denzel Washington está à frente de Um Limite Entre Nós. É um dos atores mais famosos do mundo, “modelo do homem negro”, servindo à imperfeição de sua personagem, homem de meia-idade que transforma a vida de sua família com regras e o ódio que adotou em anos de vida, na convivência com os brancos.

Segundo ele, ao filho e à mulher fiel, os negros nunca terão as mesmas oportunidades que os brancos: um jogador de beisebol negro, por melhor que seja, nunca terá o lugar reservado ao atleta branco e medíocre. É o que deseja passar ao filho mais novo, que sonha em ser jogador de futebol americano – contra as intenções do pai.

O filme todo é ambientando em um círculo de pessoas negras, em difícil convivência, nas intempéries que levam a embates, sempre sob o ranço que esvaia da personagem de Washington, que agride o filho, trai a mulher, mas nunca chega ao vilão esperado. Seu filme não comete os erros de Estrelas Além do Tempo.

E, de novo ao contrário do filme de Theodore Melfi, suas figuras não estão escondidas. Estiveram sempre ali, com seus problemas comuns, no mesmo bairro comum, com os encontros no fundo da casa, no qual o mesmo pai ergue cercas para se proteger do mundo externo – ou talvez para impedir a passagem para o lado de fora.

Em Estrelas Além do Tempo, três mulheres negras que trabalham na Nasa lutam por mais espaço. Cada uma em uma área, com dificuldades em uma época em que brancos e negros não frequentavam o mesmo banheiro e não usavam a mesma cafeteira.

Esse conflito dá-se em paralelo a outro: a corrida espacial, também nos anos 60, quando todos olhavam ao céu – ou à televisão – em busca da imagem do astronauta, ou de sua estufa. O filme diz que a corrida espacial poderia, à época, unir negros e brancos, com suas personagens de contornos rasos e idealizadas.

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A subida do foguete, pela televisão, não empolga as personagens de Loving, outro drama ambientado nos anos 60. Em cena, um casal inter-racial é preso em uma época em que um relacionamento do tipo era crime. Dá para entender o desdém em relação à corrida espacial: os problemas sociais eram maiores. Olhavam ao lado, não ao céu.

Pois olhar para o lado é reconhecer o problema em seu próprio gueto, o que, em alguns desses filmes, leva ao sentimento de exclusão. Moonlight: Sob a Luz do Luar trata desse sentimento e, como Um Limite Entre Nós, seu conflito trava-se no espaço ocupado apenas por negros. São bairros de classe média baixa, com o foco em um garoto, da pré-adolescência à vida adulta. E ultrapassa o drama do racismo.

Moonlight é o melhor desses dramas de Oscar justamente por escapar do estereótipo, pela naturalidade. O sentimento do jovem negro é exposto na busca de identidade, pela maneira triste como encontra espaço para ser quem verdadeiramente é apenas pelo que os outros parecem não aceitar: a homossexualidade.

O filme de Barry Jenkins em algum momento toca o de Jeff Nichols, autor de Loving. São obras sobre pessoas que não pedem por complacência ou gritam pela urgência de seus problemas, e o prazer em vê-las está ligado menos à empatia que produzem, mais à situação que vivem, dramática o suficiente para questionar o espectador.

Observação: dos filmes citados, Loving é o único que não concorre ao Oscar de melhor filme; está indicado à categoria de atriz, para Ruth Negga.

Foto 1: Um Limite Entre Nós
Foto 2: Moonlight: Sob a Luz do Luar

Veja também:
Loving, de Jeff Nichols
Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi
Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

Meu Primo Vinny, de Jonathan Lynn

Tribunais são ótimos espaços para fazer comédia. O cinema americano soube aproveitá-los, às vezes até de forma absurda, em tempos diferentes, como no clássico Diabo a Quatro, com os Irmãos Marx, ou mais tarde no musical Chicago, de 2002.

É o espaço no qual a farsa serve à perfeição: todos precisam, por obrigação do local, manter a pompa, o terno impecável, a forma cordial, jurídica, que o ritual exige. Todos são moldados à interpretação, o que torna o casal de Meu Primo Vinny um contraste.

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O protagonista e sua noiva, interpretados pelos faladores Joe Pesci e Marisa Tomei, preferem o improviso. São pessoas exageradas da cidade grande, a confrontar os sulistas de um pequeno município em que ocorreu um crime brutal.

Vinny (Pesci), um advogado que nunca salvou ninguém da cadeira-elétrica, ou mesmo de outro destino infeliz, vai para essa cidade defender o primo Bill (Ralph Macchio), acusado de matar o balconista de um mercado na companhia do amigo Stan (Mitchell Whitfield). O espectador sabe que ambos são inocentes. O filme move-se não para a inocência da dupla, mas para a comédia que nasce da formação de Vinny.

A comédia possibilita o exagero, brinca com inversões: apesar da bota com ponta de ferro, lustrada, Vinny não é o típico caipira. Não pertence a esse local pequeno, com barro por todos os lados, no qual sempre alguns sons insistem em tirá-lo da cama.

É sobre o confronto entre dois países diferentes em um, da falsa moralidade dos juízes que insistem em tentar desmascarar homens que se assumem falsos (não os que fazem o contrário), sobre o esporte preferido de parte dos americanos: prender pessoas.

Não basta uma vez. Vinny será preso pelo menos três, será levado à cadeia por não se vestir adequadamente no tribunal, por dizer palavras excluídas do vocabulário do juiz bonachão da pequena cidade em que se desenrola esse caso cheio de detalhes.

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E será na prisão, a certa altura desse filme de surpresas, que ele consegue, enfim, ter sua noite de sono tranquila – mesmo entre os sons de uma possível rebelião. É nesses sons que ele encontra, talvez, a América que conhece, o barulho ao qual está adaptado.

Ele recorre até mesmo à gordurosa culinária sulista para provar a inocência dos jovens acusados de homicídio. Vale quase tudo para vencer o caso. A comédia permite concessões: as piadas no tribunal, ao fim, são parte de um absurdo que guarda algo real, como no momento em que uma senhora pacata pede que os acusados sejam “fritados”.

Tomei ganhou um inesperado Oscar interpretando a namorada de Vinny, Mona Lisa Vito, coadjuvante que rouba a cena, dotada de timing perfeito para interagir com o expressivo Pesci. Suas roupas extravagantes, sua maneira de se exibir e sua forma de resolver os problemas sem muito esforço dão a ela um toque especial.

Mesmo com momentos artificiais, o filme de Jonathan Lynn, a começar por Tomei, faz boa comédia sem esforço. O riso vem fácil. Suas pequenas partes dizem muito sobre o que está em jogo: a necessidade de encontrar culpados a todo custo, de “fritar” alguém.

(My Cousin Vinny, Jonathan Lynn, 1992)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
No Mundo da Lua, de Robert Mulligan