Os Suspeitos

Ainda é possível falar do ator Kevin Spacey?

Dá para separar a pessoa do ser fictício que ela encarna, o homem em sua vida particular do homem visto nas telas do cinema? Para muita gente – sobretudo aos extremistas do mundo virtual – a resposta é “não”. Ocorreu com artistas extraordinários, cujos nomes foram envolvidos em escândalos. Ocorreu recentemente com o ator Kevin Spacey.

Você pode não gostar de pessoas que praticam assédio sexual. Entendo, pois também não gosto. Talvez você seja homofóbico, o que é um problema seu (não do ator), e talvez você não goste de homossexuais que revelam sua opção sexual para tentar tirar a atenção de outra questão – como tristemente fez Spacey após ser acusado de assédio.

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Questões pessoais à parte, algo não se pode negar: Spacey é um grande ator, independente do que faz ou fez em sua vida pessoal, independente do mal que causou a outras pessoas. Não que a arte seja mais importante que a vida e, por isso, capaz de suavizar o ato criminoso. (Um médico que estupra uma mulher à noite e salva uma vida de manhã não merece absolvição. Deve pagar por seus atos como qualquer pessoa.)

Necessário, sim, tentar separar ficção e realidade quando se trata de uma arte como o cinema, calcada na representação: o ator, parte de uma obra, pertence a um mundo fictício no qual existe como personagem, ao qual é levado, profissionalmente, para desempenhar outra vida e, como provou Spacey mais de uma vez, possivelmente fazer com excelência e vigor.

Não é possível amar menos o Kevin Spacey preso à tela – em Beleza Americana, Seven – Os Sete Crimes Capitais e Os Suspeitos (três filmes em que ele faz figuras curiosas ou dignas de total reprovação) – porque o homem Kevin Spacey cometeu erros na vida real, no universo tangível em que todos, sem exceção, estão sob a batuta da lei.

E, goste você do ator ou não, muitos de seus filmes seguirão vivos. Muitos seguirão assim também graças a ele, para a sorte de seu espectador e dos fãs de cinema, como este autor. Verdade, também, que há algum tempo Spacey não entrega um grande filme, ou uma grande atuação, sendo mais lembrado como o protagonista da série House of Cards.

Nos anos 90, o ator colecionou interpretações extraordinárias e, à medida que perdia espaço na linha de frente de Hollywood, passou a coadjuvante de luxo, geralmente na pele de chefões do crime ou homens odiosos. É verdade que Spacey sempre caiu bem nesse tipo de personagem, o ser arrogante que o espectador sonha destroçar.

Como esquecer, por exemplo, o tom calmo de seu serial killer em Seven, nos diálogos finais com Brad Pitt? Em uma situação como aquela, quem não puxaria o gatilho? Parte da grandeza dessa sequência se deve a Spacey. O ator certo para o (pequeno) papel certo. E, mais tarde, em outro papel menor, mas de grande importância: o humano entre tantos tubarões em Margin Call – O Dia Antes do Fim. Justamente Spacey.

Não só de vilões e seres asquerosos ele viveu. Mas, em todos os casos, viveu outras vidas, de seres que só existem nos limites das telas do cinema ou da televisão. Nada a ver com a vida pessoal, com o homem que agora é o centro das notícias que mesclam o mundo do espetáculo às páginas policiais, ao lado de um certo Harvey Weinstein.

Importante não perder o ator de vista. O homem e seus crimes devem ser deixados à esfera jurídica. Não se trata de perdoar, tampouco de incriminar. Daqui a décadas, quando Spacey não estiver mais entre nós, alguns de seus filmes permanecerão vivos, como os de outros grandes atores que já morreram. Para a alegria dos cinéfilos.

Veja também:
Os cinco melhores filmes com Kevin Spacey

Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

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Religiosos e intolerantes

O filho fica assustado quando seu pai, Keller, faz da morte de um cervo, em Os Suspeitos, a oportunidade para celebrar a grandeza do homem branco. O que está em jogo para esse pai, personagem de Hugh Jackman, é a importância de defender seu território, sua família, seus valores, mesmo que isso signifique aderir à violência.

No filme de Denis Villeneuve, Keller e o amigo Franklin (Terrence Howard) têm suas filhas sequestradas em pleno Dia de Ação de Graças. A polícia chega a um suspeito (Paul Dano), o dono do veículo que estava circulando pela pacata vizinhança.

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Ao passo que os dias correm, o protagonista perde as esperanças, cansa de esperar por uma ação das autoridades. Sai ele próprio atrás do principal suspeito. Aposta na violência, em um filme que funde a imagem do cervo abatido à oração religiosa.

Em A Caça, de Thomas Vinterberg, o ponto de vista é o da vítima, não o da sociedade intolerante, mas as peças em jogo não diferem muito: o professor Lucas (Mads Mikkelsen) é acusado pelos moradores de sua cidade – incluindo seu círculo de amizades – de ter abusado de uma criança. Sua vida torna-se um inferno.

O fim desemboca na religião: Lucas vê-se no interior de uma igreja, cercado ironicamente por pessoas intolerantes. Nem sempre visual e palavras acompanham ações. O protagonista de A Caça também foi criado segundo a cultura do tiro, de homens que ocupam a floresta para caçar animais. E faz pensar nos camaradas de O Franco Atirador, de Michael Cimino, metalúrgicos de uma pequena cidade americana que lutam no Vietnã. De volta para casa, eles não conseguem mais se socializar.

Os Suspeitos e A Caça abordam a intolerância. Neles, o espírito do caçador contra os “monstros da floresta” ganha relevo. Os vilões permanecem distantes, nem sempre identificados – como se vê no momento em que alguém atira na direção de Lucas.

sobre meninos e lobos

O clima frio e a ausência de vilões estão também em Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood, a partir do livro de Dennis Lehane. De novo em tom obscuro, com personagens borradas, sobre um garoto sequestrado na infância e, na vida adulta, transformado no principal suspeito do assassinato da filha de seu amigo.

Interessa menos aos autores dessas obras a abordagem do sequestro ou as acusações de pedofilia e assassinato. Examinam, antes, a fragilidade do grupo e o aparente reconforto da vingança, o “olho por olho, dente por dente” de uma cultura moldada à violência e à oração, ao conforto de uma “justiça” imediata e do possível perdão.

Por isso, o Keller de Hugh Jackman aproxima-se do protagonista de Sobre Meninos e Lobos, Jimmy Markum (Sean Penn). Até certo ponto, é difícil condená-los. O drama torna-os mais palatáveis: são monstros “humanos”, pais de família que não suportam essa sociedade às sombras. São autoritários, caçadores em meio à floresta.

Foto 1: Os Suspeitos
Foto 2: Sobre Meninos e Lobos

Veja também:
A Caça, de Thomas Vinterberg

Os filmes de Denis Villeneuve

A cada filme, o cineasta canadense mostra pouca disposição a fazer concessões, com um cinema nem sempre fácil. Em tempos de infantilização, deixa ver obras fortes sobre temas adultos, confiando no público. Suas incursões são variadas, de tragédias reais, feitas com frieza e realismo, à adaptação de um livro do português José Saramago.

A lista abaixo não coloca seus filmes em ranking. Apenas traz realizações que já deixam marcas inegáveis, entre o interessante e o contundente. (Atualizado em 30 de outubro de 2017)

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32 de Agosto na Terra (1998)

Começa bem, com um acidente de carro e uma mulher aprisionada no veículo. Estava embriagada ou apenas com sono? Dormiu após o acidente ou estava desmaiada? Após sair do carro, cancelar a viagem e se demitir, a bela Simone (Pascale Bussières) resolve mudar sua vida: na companhia do melhor amigo (talvez o homem que ama), viaja para os Estados Unidos para ter um filho. Apesar de bons momentos, não empolga.

32 de agosto na terra

Polytechnique (2009)

Em preto e branco, o cineasta apresenta a história real do massacre na Escola Politécnica de Montréal, em 1989. Na ocasião, um rapaz avesso ao movimento feminista entrou armado na escola e começou a fazer vítimas, sobretudo mulheres. A bela fotografia transmite frieza e torna a experiência assustadora. Filme que não chega a se aprofundar nas personagens e difícil de ver mais de uma vez.

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Incêndios (2010)

Em drama calculado, com toques políticos, os filhos descobrem a história da mãe na ocasião de sua morte. Enquanto a filha deseja ir em frente, o rapaz tem suas dúvidas. É sobre o mundo marcado por extremismos políticos e religiosos, no qual imagens divinas dividem espaço com armas – e, ainda mais, no qual a vítima sempre é a mulher, a mãe, com seus traços enigmáticos, conhecida como “a mulher que canta”.

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Os Suspeitos (2013)

Com um elenco de estrelas, o cineasta mergulha na intolerância americana, em suas obsessões expostas quando duas crianças são sequestradas. O pai (Hugh Jackman), cansado de esperar pelo trabalho policial, tenta resolver as coisas em seus termos. A cada investida, o filme vai liberando novas camadas, e, mais de uma vez, o espectador vê-se desorientado. Há sempre a impressão de um labirinto. Filme poderoso, talvez o melhor de Villeneuve.

os suspeitos

O Homem Duplicado (2013)

O momento em que Villeneuve deixa ver com precisão sua frieza, seu gosto pelo enigma – presente também no filme anterior – e com espaço para um encerramento, no mínimo, estranho. Não faltam pessoas tentando decifrar essa história, a partir do livro de José Saramago: o caminhar do professor (Jake Gyllenhaal) que descobre ter um duplo no mundo, idêntico mas oposto, de vida um pouco rebelde.

o homem duplicado

Sicario: Terra de Ninguém (2015)

Às aparências, um filme sobre o tráfico de drogas. Nessa indústria infernal, em constante guerra, o cenário é a fronteira entre Estados Unidos e México: espaço para policiais destreinados, para as vítimas de sempre (os pobres mexicanos ou os donos dos cartéis concorrentes) e vingadores com alguma razão pessoal. Emily Blunt tem um momento forte, mas quem rouba a cena é Benicio Del Toro, como o matador de passado sombrio e quase sempre violento.

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A Chegada (2016)

Naves alienígenas aparecem em diferentes pontos do planeta. Nos Estados Unidos, os militares convocam uma linguista (Amy Adams) para tentar fazer contato com os seres de sete pernas em uma câmara escura, no interior da nave. Aos poucos, essa ficção científica leva mais e mais à sua protagonista, que perdeu uma filha e vive entre a experiência traumática e um novo diálogo possível com os estranhos visitantes.

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Blade Runner 2049 (2017)

O ápice da carreira de Villeneuve dá-se em uma ação arriscada: a continuação de um filme cult e consagrado lançado em 1982, com direção de Ridley Scott, Blade Runner – O Caçador de Androides. Provou que é possível continuar sem copiar, fazer referência sem depender do anterior e ainda avançar, lançar questões, e manter o mistério que cercava a identidade do protagonista da primeira parte.

Veja também:
Os filmes de Xavier Dolan
Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve

20 ótimos filmes americanos que não foram indicados ao Oscar (nos últimos dez anos)

Mais grave que não premiar um grande filme indicado é sequer incluí-lo em sua lista de melhores do ano. Pois o cinéfilo deve se acostumar: a cada ano, os “esquecimentos” do Oscar parecem mais gritantes. Abaixo, uma lista de 20 filmes marcantes (alguns grandes, outros ótimos) que não integraram a categoria principal do mais famoso prêmio do cinema. Alguns não foram lembrados em uma categoria sequer.

Syriana, de Stephen Gaghan

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Marcas da Violência, de David Cronenberg

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Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster

mais estranho que a ficção

Voo United 93, de Paul Greengrass

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A Última Noite, de Robert Altman

a última noite

Zodíaco, de David Fincher

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Não Estou Lá, de Todd Haynes

não estou lá

O Visitante, de Thomas McCarthy

o visitante

Amantes, de James Gray

amantes

Star Trek, de J.J. Abrams

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Além da Vida, de Clint Eastwood

além da vida

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

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Drive, de Nicolas Winding Refn

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Killer Joe – Matador de Aluguel, de William Friedkin

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O Abrigo, de Jeff Nichols

o abrigo

O Mestre, de Paul Thomas Anderson

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Frances Ha, de Noah Baumbach

frances ha

Blue Jasmine, de Woody Allen

blue jasmine

Os Suspeitos, de Denis Villeneuve

os suspeitos

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, de Ethan e Joel Coen

Inside Llewyn Davis

Veja também:
Os 20 melhores filmes nomeados ao Oscar nos últimos dez anos

Nos bastidores dos indicados ao Oscar 2014