O Passado Vivo

Stroheim segundo Jean Renoir

Ele me ensinou muita coisa. O mais importante desses ensinamentos talvez seja que a realidade só passa a ter valor quando submetida a uma transposição. Em outras palavras, só é artista aquele que consegue criar seu pequeno mundo. Não é nem em Paris, nem em Viena, nem em Monte Carlo ou Atlanta que vivem os personagens de Stroheim, de Chaplin, de Griffith. Eles vivem no mundo de Stroheim, de Chaplin, de Griffith.

Mais tarde, tive a honra de ter Stroheim como intérprete de A Grande Ilusão. Ele fez tudo para me fazer esquecer que ele havia sido um dos profetas de nossa profissão. Sou-lhe grato por isso, mas menos que pelas lições essenciais que ele me dera, vinte anos antes.

Jean Renoir, cineasta, em texto escrito no início de 1959 e reproduzido no livro O Passado Vivo, reunião de artigos do próprio Renoir (Editora Nova Fronteira; pg. 117). Abaixo, Stroheim, Jean Gabin e Pierre Fresnay dividem a cena em A Grande Ilusão.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-grande-ilusao

Veja também:
15 comédias malucas e inesquecíveis do cinema clássico

Anúncios

O papel do ator

Dois mestres: Alfred Hitchcock e Jean Renoir. Contemporâneos, fizeram cinemas distintos e, por motivos diferentes, foram trabalhar nos Estados Unidos nos anos 40. Entre suas diferenças está o tratamento ao ator: para Hitchcock, como se comprova em seus filmes, o ator está sempre a serviço da técnica; em Renoir vê-se o oposto.

As citações abaixo dão ideia de como encaravam essa arte, a de interpretar, e como a incorporavam ao cinema. Falam de atores em filmes que quase sempre não figuram entre seus mais famosos: Um Casal do Barulho (foto), de Hitchcock, e Toni, de Renoir.

Quando cheguei ao estúdio no primeiro dia de filmagem, Carole Lombard tinha mandado construir uma jaula com três compartimentos, e dentro havia três vacas vivas, cada uma exibindo, em volta do pescoço, uma grande rodela branca, cada uma com um nome: Carole Lombard, Robert Montgomery e Gene Raymond [atitude em resposta à polêmica frase de Hitchcock: “Todos os atores são gado”].

Fiz o filme como cortesia para com Carole Lombard. Ela me pediu para realizá-lo. O roteiro já estava escrito, e apenas entrei para filmar. Ela tinha ouvido falar da minha observação de que “atores deveriam ser tratados como gado”, de modo que, quando cheguei ao set, deparei-me com um pequeno curral com algum gado dentro. Foi ela quem arranjou aquilo.

Alfred Hitchcock, cineasta, em duas entrevistas que contêm as citações. A primeira foi dada a François Truffaut, que se transformou em um livro referencial, Hitchcock/Truffaut (Companhia das Letras; pg. 140). A segunda foi dada ao cineasta e crítico Peter Bogdanovich, em conversas feitas entre janeiro de 1961 e maio de 1972, e está publicada no livro Afinal, Quem Faz os Filmes (Companhia das Letras; pg. 591).

Eu acho que não é o ator que tem de ficar à disposição da técnica, mas a técnica que deve se dobrar ao jogo do ator. Em troca dessa liberdade material, esse método exige do intérprete uma fidelidade absoluta ao espírito do roteiro, e rigorosa disciplina moral.

Jean Renoir, cineasta, em um artigo escrito em março de 1935, na ocasião do lançamento de Toni e reproduzido no livro O Passado Vivo (Nova Fronteira; pg. 25).

um casal do barulho

Veja também:
Toni, de Jean Renoir
Pelos olhos de Hitchcock

A arte da vagabundagem

Há um artigo, no jornal de hoje, que explica muito bem o que foi Boudu. É a definição de “vagabundagem” pelas autoridades policiais de Los Angeles. A definição é: “ficar à toa, ficar andando, estacionar indefinidamente, andar ou dirigir ao acaso sem objetivo justificável de um ponto de vista legal”. Em Boudu, conto a história de um homem que corresponde exatamente a essa definição de vagabundo. Acho que a vagabundagem está na base de qualquer grande civilização. Se pensarmos na história do mundo, uma de suas aventuras mais extraordinárias é a história da civilização grega. E que faziam os gregos na Ágora? Vagabundavam, nem mais nem menos. O resultado se chama Péricles, Aristófanes, Platão… A vagabundagem é essencial. Meu filme Boudu é apenas a história de um homem vagabundando.

Jean Renoir, sobre seu grande filme Boudu Salvo das Águas. Trecho extraído do artigo Como realizei Boudu, em Film Society Review, publicado em fevereiro de 1967 e mais tarde no livro O Passado Vivo (Editora Nova Fronteira).

boudu salvo das águas