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Os anjos de Wim Wenders pairam sobre Berlim

Levado a observar a humanidade por milênios, o anjo cansa de ser anjo. Quer ser homem, quer sentir sabores, ver cores, esfregar uma mão contra a outra para se esquentar um pouco e escapar do frio. Essas pequenas ações seduzem os imortais, sobre prédios e estátuas, ao longo de Asas do Desejo, de 1987.

Wim Wenders, com roteiro escrito em parceria com Peter Handke e Richard Reitinger, aposta justamente na observação. A maior parte do filme centra-se no olhar dos anjos, ao mesmo tempo estranho e que sempre esteve por lá – ou por aqui, perto e longe –, desde o início da vida, do surgimento do homem, das guerras.

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São dois anjos que ocupam o centro: Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander). Acompanham a vida dos outros, dos viajantes que chegam a Berlim de avião aos viajantes em pequenos trajetos, de carro ou a caminhar entre escombros, próximos do muro – ou dos muros – que dividem a cidade e as pessoas.

Os anjos assistem à história, não a sentem. Sabem inclusive como teve início o problema da humanidade, a certa altura relembrado por Damiel. Quando o homem decidiu deixar seu círculo e ser livre, correndo de maneira diferente e para longe, começou a guerra. Ele ousou cruzar uma fronteira. “Voaram pedras”, recorda o anjo.

Asas do Desejo é justamente sobre atravessar uma fronteira. À época, Berlim era dividida por um muro – e este dividia o mundo todo. Wenders capta esse sentimento de maneira exemplar e o metaforiza no desejo do anjo, o de cruzar uma fronteira e sentir a história na pele. Ou simplesmente de se tornar humano e sentir o que está do outro lado e que tanto seduz. Ver o mundo por outro ponto de vista.

Transformado em homem, o anjo passa a sentir o mundo como uma criança – como se visse algo que seus olhos ainda não tinham visto. Passa a ver a cor, a sentir o gosto do café, a sangrar. Feito homem, o anjo retorna ao estado infantil, à sensibilidade que falta ao adulto. “Quando a criança era criança”, repete o narrador e protagonista ao explorar o olhar que restitui graça à vida, na reta final do grande filme de Wenders.

Ainda anjo, Damiel descobre a trapezista Marion (Solveig Dommartin). Como outros artistas, ela está ancorada em Berlim, em apresentações povoadas pelo olhar das crianças. E veste asas de anjo enquanto move-se no trapézio, enquanto divide seus pensamentos – como outros seres de passagem – com os anjos e com o espectador.

A trapezista espera por Damiel. Sabe que surgirá alguém em seu caminho, na jornada vai além do filme de amor ou aventura espiritual: é, ainda mais, sobre o encontro entre lados que não se tocavam antes de cruzar uma fronteira, ou um muro.

É o que torna, por consequência, sua continuação tão inferior. Lançado em 1993, seis anos depois de Asas do Desejo, Tão Longe, Tão Perto reduz-se a uma aventura física sobre um anjo que se torna homem e descobre os vícios e os problemas do mundo real. O protagonista agora é Cassiel, seguido pelo anjo Raphaela (Nastassja Kinski).

Diferente do anterior, a continuação mantém-se em cores em sua maior parte. Ou seja, situa-se mais no mundo real do que no universo dos anjos. Retornam personagens anteriores, como o próprio Damiel, agora dono de uma pizzaria, casado Marion e pai de uma filha; e também o ator Peter Falk, vivido pelo verdadeiro.

Ao invés de uma aproximação à vida das pessoas a partir dos anjos, Wenders aposta em um mergulho nos problemas de um mundo não mais dividido por um muro, após o colapso do bloco socialista. É o terreno no qual Cassiel embriagar-se-á antes de se envolver com um traficante de armas e filmes pornográficos.

No alto dos prédios e nas estátuas, os anjos conversam sobre a civilização. Raphaela questiona Cassiel por que as pessoas estão mais distantes e por que é mais difícil tocá-las. O outro explica que essas pessoas acreditam mais no mundo físico, menos no espiritual – o que, completa ela, levou-as a criarem imagens de tudo.

Vivia-se, àquela altura, no mundo-imagem, no mundo tecnológico. Os anjos têm razão de reclamar: o problema não era lidar com fronteiras ou muros, mas com sua total exclusão. As pessoas refugiavam-se então no abstrato, nos prazeres fáceis da pornografia. Um mundo em que tudo é pirataria e está à mão, e no qual os anjos perderam o sentido.

A relação dos alemães com o passado nazista é explorada por Wenders nos dois filmes. Em Asas do Desejo, imagens reais de algum documentário fundem-se às de um filme realizado em um prédio aos cacos. O longa feito ali, encabeçado por Falk (um anjo que decidiu se tornar homem), não poderia ser sobre outro assunto senão o nazismo.

Ainda nesse cenário, Damiel penetra o pensamento dos figurantes. Os problemas do passado nazista ecoam em seus textos. E não se sabe ao certo se esses textos pertencem às personagens do filme ou à vida real. Vida e interpretação confundem-se enquanto os anjos são convidados a ver a humanidade pela lente do cinema.

Com momentos próximos à comédia, Tão Longe, Tão Perto não tem a mesma profundidade. Levados ao estado da carne, seus anjos não estão ali apenas para encontrar (e ver) o essencial, para fornecer ao espectador o sentimento de ultrapassar a fronteira. Recorrem à aventura, até mesmo ao encerramento trágico.

(Der Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987)
(In weiter Ferne, so nah!, Wim Wenders, 1993)

Notas:
Asas do Desejo: ★★★★☆
Tão Longe, Tão Perto: ★★★☆☆

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Dez grandes filmes que investigam a natureza do mal

A lista abaixo é composta por filmes que abordam o mal em uma sociedade ou mesmo em um espaço restrito de personagens. São trabalhos diferentes, provocadores, sob o olhar de grandes cineastas. Nesses filmes, nem sempre é fácil explicar o mal: fala-se, primeiro, de sua suposta natureza, em forma perturbadora e até silenciosa.

A Grande Testemunha, de Robert Bresson

As vítimas do pecado original. O grande filme de Bresson – que acompanha um burrinho, do nascimento à morte, além das personagens que o cercam – mostra seres predestinados ao sofrimento. A eles, o mal se torna algo natural. O animal ao centro, o verdadeiro protagonista, assiste aos problemas do mundo sem poder fazer nada.

A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman

Controlar os próprios demônios. A protagonista (Liv Ullmann) relata à câmera, na abertura, o processo de loucura do companheiro (Max von Sydow). Eles vivem isolados em uma ilha, onde o homem passa a ser assediado por seres que talvez não existam, enquanto o mal se insinua em demônios que interpelam constantemente as personagens.

O Garoto Toshio, de Nagisa Oshima

A família como mal maior. O menino Toshio (Tetsuo Abe) sonha com o extraterrestre que, um dia, chegará ao planeta Terra para acabar com a maldade. O mal, aqui, nasce da família do garoto, sobretudo do pai, que o usa para simular atropelamentos e extorquir motoristas. Toshio já tem idade para entender o mal que o circunda e se refugia nos sonhos.

Lacombe Lucien, de Louis Malle

Ausência de identidade. Na França Ocupada, durante a Segunda Guerra Mundial, Lucien (Pierre Blaise) é alguém desprovido de alma. Ou apenas guiado pela necessidade de estar de um lado, um lado qualquer que possa lhe fornecer algo, uma posição. E escolhe estar com os nazistas. O mal, no filme de Malle, é fruto da alienação, do vazio.

Parceiros da Noite, de William Friedkin

O mal não está no outro. À época de seu lançamento, o filme de Friedkin foi incompreendido: parte da comunidade gay americana o acusou de mostrar o mal como fruto da homossexualidade, dos espaços que frequentava, quando, na verdade, o mal era produto do policial (Al Pacino), transformado após se aproximar do assassino que investiga.

Vá e Veja, de Elem Klimov

O mal por todos os lados. Não é necessário mais que o close de Alexei Kravchenko, o jovem protagonista, para mergulhar no mal. Está por todos os lados, nas corridas, na câmera inquieta, nos dias em que os soviéticos combatem os invasores nazistas. O mal, sem mais voltas, está na carnificina, no desespero de quem corre à margem.

Homicídio, de David Mamet

Conflitos étnicos. Um policial (Joe Mantegna) investiga a morte de uma mulher judia e encontra indícios de um grupo nazista. Mas Mamet recusa a dualidade fácil: o protagonista, um judeu, descobre que não pode confiar em ninguém, nem mesmo em seu povo, enquanto um assassino oferece-lhe a explicação sobre a “natureza do mal”.

Mal do Século, de Todd Haynes

Um mundo doente. A aparente vida perfeita de uma mulher pouco a pouco lhe causa mal-estar. Contra possíveis doenças do mundo moderno, da grande cidade, ela resolve se isolar. Com a sempre ótima Julianne Moore, o filme de Haynes é, antes, sobre uma doença social, ou sobre um mundo doente. O mal da civilização limpa e isolada.

Dogville, de Lars von Trier

O mito da sociedade acolhedora. A vítima é a loura (Nicole Kidman) que acaba de chegar a uma vila de poucos moradores. Acolhedora às aparências, essa sociedade de paredes invisíveis logo se expõe: as pessoas ali são exploradoras, malvadas, e a moça termina presa e condicionada a tarefas cruéis, enquanto todos decidem seu destino.

A Fita Branca, de Michael Haneke

O mal pertence a todos. Como von Trier, Haneke aborda uma sociedade opressora. Mas, diferente do dinamarquês, aposta nas paredes, na dificuldade de se ver tudo. O mal, nessa comunidade em que ocorrem crimes estranhos, à beira da Primeira Guerra Mundial, pertence a todos. Procurar um culpado, a certa altura, não é mais necessário.

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Paraíso, de Andrey Konchalovskiy

Os mortos relatam suas experiências à câmera. Justificam alguns de seus atos, acompanhados por expressões de dor e arrependimento. O interessante recurso narrativo às vezes soa cansativo e aos poucos consegue dar mais profundidade a Paraíso.

A protagonista é a russa Olga (Yuliya Vysotskaya), presa ao ajudar crianças judias na França ocupada e levada depois a um campo de concentração. Mulher forte que talvez sonhe com um paraíso possível em meio à dor: frente a frente com Deus, ela talvez tenha dúvidas se é ou não digna do reino dos céus.

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Evidente que a passagem será reservada para poucos. Olga é vítima. Presa, é interrogada pelo capitão da polícia francesa e tenta comprar a liberdade de um amigo por meio de seu corpo, seu sexo, em uma cena incrível na qual ergue a saia para a autoridade. A câmera, posicionada ao alto, dá a ideia de vigilância, de intrusão.

O capitão (Philippe Duquesne) terá vida curta. Além de que vive com a mulher e com o filho pequeno, dele se sabe pouco. O diretor Andrey Konchalovskiy escreveu o roteiro de Paraíso com Elena Kiseleva e confere algum peso à personagem, um francês corrompido que tenta não enxergar os problemas à sua volta.

Interessante notar que, nas andanças com o filho, eles param em frente a um grande formigueiro. A imagem dá destaque às formigas, às pequenas partes vivas e em movimento nesse mundo em guerra, à sombra do Holocausto. Mundo no qual algumas pessoas serão menos que insetos, e no qual quase tudo é reduzido a partículas.

As formigas, as toneladas de metal, os vários óculos que formam uma montanha, as malas abertas, empilhadas, das vítimas judias levadas aos campos de concentração. Após a morte do capitão por forças de resistência, Olga será levada a um desses locais.

As sequências do campo de concentração são fortes. A fotografia em preto e branco, de Aleksandr Simonov, revela a bagunça, o desajuste, o desespero das mulheres cercadas por grades, madeira, homens violentos e cães, mulheres que precisam saquear cadáveres para vestir novos calçados e até para tomar um pouco de sopa.

À miséria Konchalovskiy retorna não para apresentar mais um entre tantos filmes sobre o Holocausto. Paraíso leva à situação de duas pessoas diferentes – uma autoridade nazista e a mulher presa – que, a certa altura, precisam aceitar a própria morte.

Olga reencontra Khelmut (Christian Clauss), rapaz de descendência aristocrática que tenta descobrir casos de corrupção entre trabalhadores e internos do campo de concentração. Ambos trocaram momentos e tiveram um breve romance na Itália, em algum verão passado, e voltam a se encontrar no pior lugar do mundo.

As personagens são construídas de forma ambígua, a começar por ele. Em suas confissões à tela, como se falasse a um velho filme com defeitos – e como se Deus estivesse a captar esses relatos em película –, ele não esconde adoração ao nazismo.

Para ele, o paraíso sonhado pelos nazistas viria com o extermínio dos judeus, sendo o sangue um estágio para se chegar a um mundo melhor. Guerras vêm e vão, diz um homem. No fundo, ao também aceitar o próprio fim, o som do vento que abre a janela, os fantasmas que o perseguem na floresta, depois o barulho das bombas, é como se Khelmut enfim reconhecesse que a ideia de paraíso é o devaneio de um louco.

Entre o policial francês, a mulher presa e o oficial alemão, Konchalovskiy constrói um filme de diferentes olhares, sobre o sentimento de um fim inevitável e sobre como os relatos – sinceros, sem floreios – fazem das pessoas muito mais do que partículas.

(Ray, Andrey Konchalovskiy, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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A Mulher na Lua, de Fritz Lang

A ciência é um problema, diz Fritz Lang. Sempre leva a conflitos, a cientistas que parecem burocratas, a bandidos que se esforçam para roubar planos importantes. De cabelos oleosos, de corte impecável, eles antecipam a imagem dos nazistas.

E chegam mesmo a se transformar ao longo de A Mulher na Lua, de 1929, no qual a dama de traje masculino assume contornos angelicais, a santa que promete o recomeço ao fincar os pés – e sua câmera – na Lua, com os homens a cercá-la: é a possibilidade de uma nova vida no astro vizinho, local que talvez possua ouro.

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Os criminosos pretendem chegar à Lua para explorá-la. Os mocinhos – incluindo um doutor de cabelo bagunçado, homem estranho que mais tarde é seduzido pelo ouro – para impulsionarem a ciência. Os bandidos roubam os planos dos heróis. Todos embarcam para o espaço a bordo do foguete cuja forma antecipa os verdadeiros.

O filme de Lang prevê o futuro: costuma ser creditada ao cineasta a invenção da contagem regressiva, depois adotada pelos cientistas. Suas personagens não usam roupas especiais, à exceção do doutor de cabelo bagunçado, em uma espécie de escafandro quando salta em solo lunar, o primeiro a circular por ali.

Pela nave, as personagens dependem de agarradores no chão e no teto. Sim, a ausência de gravidade é abordada, ainda que nem sempre pareça presente em todos os momentos. Grande filme, A Mulher na Lua não se preocupa em ser verossímil, sobretudo porque foi realizado em uma época em que se baseava em pura imaginação.

Lang tem a saída perfeita para qualquer crítica à aparência absurda: o menino que carrega as histórias fantásticas, histórias em quadrinhos que apontam à impossibilidade de saber qualquer coisa sobre o astro vizinho da Terra, sobre o ponto luminoso que mais parece um queijo furado e que, aos olhos das personagens, a certa altura passa como rolo compressor sobre o planeta de origem.

Para Lang, a partir da obra de sua então esposa Thea von Harbou, qualquer coisa seria possível nessa terra estranha. Converte-a em um espaço de montanhas e deserto, de cavernas com líquido borbulhante, com lama e ouro em excesso entre rochas.

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A primeira parte do filme expõe os criminosos, seus furtos, e o triângulo amoroso formado pelo protagonista Helius (Willy Fritsch), sua amada Friede (Gerda Maurus) e o amigo Hans (Gustav von Wangenheim). Algumas representações de Metrópolis estão por ali. Entre elas, a mulher como força de libertação do herói, o ser puro, distante, a quem o tesouro lunar está nas imagens: ela é a responsável por filmar a Lua.

Entre maquetes e cenários curiosos, Lang constrói uma obra que não cai em excessos. Pode parecer exagerado e artificial, como seria, mais tarde, O Planeta dos Vampiros, do italiano Mario Bava. Por outro lado, Lang leva o material a sério e contra a ciência perigosa lança personagens carregadas de emoção, às vezes até infantis.

O excesso de sentimentalismo não se dá ao acaso. O cinema mudo não permite que ele perca-se em palavras bobas: está todo no olhar, na maneira, por exemplo, como a mulher aguarda o homem, em um dos últimos planos, para viverem naquele novo espaço de ouro em cavernas e de ninguém, talvez o novo Jardim do Éden.

O cineasta celebra a viagem ao espaço como algo puramente simbólico, viagem de descoberta. Não é a ciência o que mais importa aqui. O que está em jogo é descobrir algo além do plano conhecido, além da Terra: a ficção e a aventura nas revistas fantásticas carregadas pela criança.

(Frau im Mond, Fritz Lang, 1929)

Nota: ★★★★☆

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O Cardeal, de Otto Preminger

Seguir as regras da Igreja Católica é o desafio de Stephen Fermoyle (Tom Tryon). Antes de se tornar cardeal, ele trava embates com a política de sua instituição, com os velhos modos, com a diplomacia dos superiores. A impressão é que a Igreja sempre prefere o repouso à ação – imagem que ainda persiste para muita gente, religiosa ou não.

Desde os primeiros instantes, nos créditos, O Cardeal revela ser um filme de embates: o homem de preto caminha pelas estruturas, escadarias, ao lado de monumentos – ao mesmo tempo sobre eles, contra eles, em contraste, o pequeno contra o grande.

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É a história de Fermoyle, de mais derrotas que vitórias. As principais estão ligadas a duas mulheres. Uma delas é sua irmã, a outra é uma jovem que conhece em Viena, por quem se apaixona em um momento de dúvida sobre os rumos da vida religiosa.

A irmã está apaixonada por um rapaz judeu. Então padre, o protagonista tenta encontrar uma saída para o relacionamento, em Boston, cidade de sua família. Para tanto, o judeu deverá se converter ao catolicismo ou aceitar que os filhos sejam levados à igreja.

O impasse separa o casal. A irmã, interpretada por Carol Lynley, torna-se dançarina, cai no mundo; à frente, leva o irmão a assistir uma de suas apresentações, quando dança tango e aproxima o corpo do outro homem, ato pouco agradável ao padre.

O confronto com um novo universo também oferece, pela câmera de Otto Preminger, a entrada ao desconhecido com tamanho descomunal: em uma das melhores cenas, em plano-sequência, Fermoyle passa pela porta do teatro, espera encontrar a irmã, mas o que vê é uma cantor vestido como soldado, entre mulheres com pouca roupa.

O tamanho do espaço estranho, não mais distante, com o qual ele depara-se ao escolher os embates, mostra o quanto o alto Tryon pode ser apequenado. Ou o quanto a fotografia de Leon Shamroy valoriza o ambiente percorrido pelas personagens.

O herói consegue retirar a irmã desse meio libertino. Ela está grávida. Não se sabe quem é o pai. Levada ao hospital, ela só poderá ser salva com a morte da criança que carrega. A escolha – entre a vida dela ou a da criança – terá de ser feita pelo irmão, o padre, que segue os ensinamentos da igreja. Não matarás, aponta o mandamento.

Preminger evita o drama fácil ao deixar de lado pequenas reações, cortes fáceis, ainda que não resista, ao fim, à aproximação entre Fermoyle e a mulher que um dia amou, Annemarie (Romy Schneider), presa em Viena durante a ascensão nazista.

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A mulher representa outro drama em sua jornada. Tal como ocorreu à irmã, ele poderia tê-la salvo. Poderia ter casado com ela, no passado, e abandonado a batina. Preferiu a igreja. Ela casou-se com outro, justamente um judeu. O resto já se sabe.

O rosto de tristeza do protagonista, enquanto se torna cardeal, leva ao passado. As memórias retornam. O caminho à gratificação, ao título, justifica seu olhar de tristeza: para homens como ele, a igreja não pode tomar distância da ação, das ruas.

E ainda que esse sinal nem sempre soe como grito, nas menores passagens ele pode ser sentido, na polidez de Tom Tryon (na maneira como se despe do galã) ou mesmo ao não deixar escapar questões como a segregação racial e o totalitarismo.

Evita, felizmente, a mensagem fácil. Às vezes deixa de entregar a resolução de uma passagem, como o julgamento dos sulistas brancos que incendiaram uma igreja frequentada por negros. A obra de Preminger lança sua personagem como polo oposto aos cenários e ambientes, parte pequena entre eles, em batalha nem sempre gloriosa.

(The Cardinal, Otto Preminger, 1963)

Nota: ★★★★☆

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