nazismo

O Silêncio do Mar, de Jean-Pierre Melville

Quem narra os acontecimentos é o francês. O alemão toma a palavra em alguns momentos, pela memória do outro, nos dias em que viveu sob seu teto, na França ocupada. O francês – fora raras e importantes exceções – fala apenas ao espectador. O alemão quer falar mais, quer se fazer sentir, e termina vítima do inegável amor dirigido àquele local.

Em seu longa-metragem de estreia, Jean-Pierre Melville narra os dias de inverno, alguns de primavera, quando um oficial alemão hospedou-se, sem ser convidado, na casa de um senhor francês de pouca expressão. Ou de poucas palavras, como se verá. Nasce desse cruzamento entre silêncio e apontamentos verbais a relação que move O Silêncio do Mar.

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O alemão fala o tempo todo. O francês, ao lado da sobrinha, emudece. Ambos não dizem nada enquanto o visitante – ou, melhor ainda, o invasor – faz observações sobre a cultura que passa a conhecer, a França com que sonhava. Em suas memórias, ele relata a curiosidade de conhecer o outro país, também a advertência que recebeu do pai: se for para ir à França, que vá fardado. A guerra o fez cumprir a ordem.

A guerra é pouco vista, tal como Paris, capital à qual segue o alemão, em algumas passagens, para desfilar em frente aos monumentos, com olhar de descoberta. O filme é melhor em suas passagens na casa do francês, local afastado, inicialmente coberto por neve. Melville transmite o silêncio, o isolamento, a secura, o frio.

Às vezes toca a estética naturalista de Renoir, em seus filmes dos anos 30. Corpos que parecem se mover mais rápido, a possível indiferença de boa parte dessas pessoas que, na verdade, não precisa mostrar seus sentimentos. Por isso, o olhar do francês ao alemão, nos momentos finais, equipara-se ao olhar do casal que se forma, a despeito da guerra, no encerramento de A Grande Ilusão.

É de um humanismo impensável, mas saboroso, capaz de produzir a catarse pela qual o público espera. O encontro entre sentimentos, ou apenas a sua demonstração – do francês ao alemão, ou vice-versa. É um filme sobre a ocupação alemã que não deixa de apresentar a humanidade do invasor, tampouco seu olhar de superioridade.

Interpretado por Howard Vernon, o alemão Werner von Ebrennac surge no meio da noite, passa pela porta como um vampiro. A luz explode em seu rosto. Ao contrário dos donos da casa, pessoas comuns e silenciosas, ele produz um efeito cinematográfico, como se quase levasse o espectador – à força – ao filme de gênero. Por outro lado, não chega a ser o rascunho comum do nazista malvado visto em outros filmes, como em Roma, Cidade Aberta.

O nazista, aqui, aprecia a arte francesa, e sofre com a possibilidade de seu fim. Não esconde a dor ao olhar para os parceiros de farda, trancafiados em uma sala, enquanto discutem o fim da soberania do ocupado: nada de livros exportados, nada dessa cultura considerada inferior e perigosa. O alemão culto sabe da perda para a humanidade.

De olho na biblioteca do francês, vivido por Jean-Marie Robain, enumera os grandes escritores contidos ali. Vai a Shakespeare, depois, ou à Inglaterra, e à Alemanha, claro, e seu Goethe. Os países – e seus seres – são divididos por artistas, obras, legados incontestáveis. Ninguém lhes retira a grandeza, muito menos a guerra.

Aos quais, salienta-se, não servem as divisões. Esse filme sobre a ocupação faz da pequena casa de campo a própria França, de seus donos o povo rendido, de seu invasor o alemão que percebe, mesmo com tanto a falar, tanto a apreciar, que não faz parte desse espaço. O inverno possibilita-lhe um paralelo infeliz, ao dizer que a Alemanha “é como um touro forte e atarracado, que precisa de toda sua energia para viver”, ou seja, a força para escapar da neve, ao passo que a França “é o espírito, o pensamento sutil e poético”.

O início oferece uma resposta interessante: da mala de um homem que pode ser membro da Resistência retira-se um livro, justamente a obra que dá corpo ao filme, de Vercors, adaptada por Melville. A arma converte-se em livro, em arte, em “pensamento sutil e poético”: é o item necessário a esses dias de luta contra invasores fardados.

(Le silence de la mer, Jean-Pierre Melville, 1949)

Nota: ★★★★☆

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Os anjos de Wim Wenders pairam sobre Berlim

Levado a observar a humanidade por milênios, o anjo cansa de ser anjo. Quer ser homem, quer sentir sabores, ver cores, esfregar uma mão contra a outra para se esquentar um pouco e escapar do frio. Essas pequenas ações seduzem os imortais, sobre prédios e estátuas, ao longo de Asas do Desejo, de 1987.

Wim Wenders, com roteiro escrito em parceria com Peter Handke e Richard Reitinger, aposta justamente na observação. A maior parte do filme centra-se no olhar dos anjos, ao mesmo tempo estranho e que sempre esteve por lá – ou por aqui, perto e longe –, desde o início da vida, do surgimento do homem, das guerras.

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São dois anjos que ocupam o centro: Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander). Acompanham a vida dos outros, dos viajantes que chegam a Berlim de avião aos viajantes em pequenos trajetos, de carro ou a caminhar entre escombros, próximos do muro – ou dos muros – que divide a cidade e as pessoas.

Os anjos assistem à história, não a sentem. Sabem inclusive como teve início o problema da humanidade, a certa altura relembrado por Damiel. Quando o homem decidiu deixar seu círculo e ser livre, correndo de maneira diferente e para longe, começou a guerra. Ele ousou cruzar uma fronteira. “Voaram pedras”, recorda o anjo.

Asas do Desejo é justamente sobre atravessar uma fronteira. À época, Berlim era dividida por um muro – e este dividia o mundo todo. Wenders capta esse sentimento de maneira exemplar e o metaforiza no desejo do anjo, o de cruzar uma fronteira e sentir a história na pele. Ou simplesmente de se tornar humano e sentir o que está do outro lado e que tanto seduz. Ver o mundo por outro ponto de vista.

Transformado em homem, o anjo passa a sentir o mundo como uma criança – como se visse algo que seus olhos ainda não tinham visto. Passa a ver a cor, a sentir o gosto do café, a sangrar. Feito homem, o anjo retorna ao estado infantil, à sensibilidade que falta ao adulto. “Quando a criança era criança”, repete o narrador e protagonista ao explorar o olhar que restitui graça à vida, na reta final do grande filme de Wenders.

Ainda anjo, Damiel descobre a trapezista Marion (Solveig Dommartin). Como outros artistas, ela está ancorada em Berlim, em apresentações povoadas pelo olhar das crianças. E veste asas de anjo enquanto move-se no trapézio, enquanto divide seus pensamentos – como outros seres de passagem – com os anjos e com o espectador.

A trapezista espera por Damiel. Sabe que surgirá alguém em seu caminho, na jornada vai além do filme de amor ou aventura espiritual: é, ainda mais, sobre o encontro entre lados que não se tocavam antes de cruzar uma fronteira, ou um muro.

É o que torna, por consequência, sua continuação tão inferior. Lançado em 1993, seis anos depois de Asas do Desejo, Tão Longe, Tão Perto reduz-se a uma aventura física sobre um anjo que se torna homem e descobre os vícios e os problemas do mundo real. O protagonista agora é Cassiel, seguido pelo anjo Raphaela (Nastassja Kinski).

Diferente do anterior, a continuação mantém-se em cores em sua maior parte. Ou seja, situa-se mais no mundo real do que no universo dos anjos. Retornam personagens anteriores, como o próprio Damiel, agora dono de uma pizzaria, casado Marion e pai de uma filha; e também o ator Peter Falk, vivido pelo verdadeiro.

Ao invés de uma aproximação à vida das pessoas a partir dos anjos, Wenders aposta em um mergulho nos problemas de um mundo não mais dividido por um muro, após o colapso do bloco socialista. É o terreno no qual Cassiel embriagar-se-á antes de se envolver com um traficante de armas e filmes pornográficos.

No alto dos prédios e nas estátuas, os anjos conversam sobre a civilização. Raphaela questiona Cassiel por que as pessoas estão mais distantes e por que é mais difícil tocá-las. O outro explica que essas pessoas acreditam mais no mundo físico, menos no espiritual – o que, completa ela, levou-as a criarem imagens de tudo.

Vivia-se, àquela altura, no mundo-imagem, no mundo tecnológico. Os anjos têm razão de reclamar: o problema não era lidar com fronteiras ou muros, mas com sua total exclusão. As pessoas refugiavam-se então no abstrato, nos prazeres fáceis da pornografia. Um mundo em que tudo é pirataria e está à mão, e no qual os anjos perderam o sentido.

A relação dos alemães com o passado nazista é explorada por Wenders nos dois filmes. Em Asas do Desejo, imagens reais de algum documentário fundem-se às de um filme realizado em um prédio aos cacos. O longa feito ali, encabeçado por Falk (um anjo que decidiu se tornar homem), não poderia ser sobre outro assunto senão o nazismo.

Ainda nesse cenário, Damiel penetra o pensamento dos figurantes. Os problemas do passado nazista ecoam em seus textos. E não se sabe ao certo se esses textos pertencem às personagens do filme ou à vida real. Vida e interpretação confundem-se enquanto os anjos são convidados a ver a humanidade pela lente do cinema.

Com momentos próximos à comédia, Tão Longe, Tão Perto não tem a mesma profundidade. Levados ao estado da carne, seus anjos não estão ali apenas para encontrar (e ver) o essencial, para fornecer ao espectador o sentimento de ultrapassar a fronteira. Recorrem à aventura, até mesmo ao encerramento trágico.

(Der Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987)
(In weiter Ferne, so nah!, Wim Wenders, 1993)

Notas:
Asas do Desejo: ★★★★☆
Tão Longe, Tão Perto: ★★★☆☆

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Dez grandes filmes que investigam a natureza do mal

A lista abaixo é composta por filmes que abordam o mal em uma sociedade ou mesmo em um espaço restrito de personagens. São trabalhos diferentes, provocadores, sob o olhar de grandes cineastas. Nesses filmes, nem sempre é fácil explicar o mal: fala-se, primeiro, de sua suposta natureza, em forma perturbadora e até silenciosa.

A Grande Testemunha, de Robert Bresson

As vítimas do pecado original. O grande filme de Bresson – que acompanha um burrinho, do nascimento à morte, além das personagens que o cercam – mostra seres predestinados ao sofrimento. A eles, o mal se torna algo natural. O animal ao centro, o verdadeiro protagonista, assiste aos problemas do mundo sem poder fazer nada.

A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman

Controlar os próprios demônios. A protagonista (Liv Ullmann) relata à câmera, na abertura, o processo de loucura do companheiro (Max von Sydow). Eles vivem isolados em uma ilha, onde o homem passa a ser assediado por seres que talvez não existam, enquanto o mal se insinua em demônios que interpelam constantemente as personagens.

O Garoto Toshio, de Nagisa Oshima

A família como mal maior. O menino Toshio (Tetsuo Abe) sonha com o extraterrestre que, um dia, chegará ao planeta Terra para acabar com a maldade. O mal, aqui, nasce da família do garoto, sobretudo do pai, que o usa para simular atropelamentos e extorquir motoristas. Toshio já tem idade para entender o mal que o circunda e se refugia nos sonhos.

Lacombe Lucien, de Louis Malle

Ausência de identidade. Na França Ocupada, durante a Segunda Guerra Mundial, Lucien (Pierre Blaise) é alguém desprovido de alma. Ou apenas guiado pela necessidade de estar de um lado, um lado qualquer que possa lhe fornecer algo, uma posição. E escolhe estar com os nazistas. O mal, no filme de Malle, é fruto da alienação, do vazio.

Parceiros da Noite, de William Friedkin

O mal não está no outro. À época de seu lançamento, o filme de Friedkin foi incompreendido: parte da comunidade gay americana o acusou de mostrar o mal como fruto da homossexualidade, dos espaços que frequentava, quando, na verdade, o mal era produto do policial (Al Pacino), transformado após se aproximar do assassino que investiga.

Vá e Veja, de Elem Klimov

O mal por todos os lados. Não é necessário mais que o close de Alexei Kravchenko, o jovem protagonista, para mergulhar no mal. Está por todos os lados, nas corridas, na câmera inquieta, nos dias em que os soviéticos combatem os invasores nazistas. O mal, sem mais voltas, está na carnificina, no desespero de quem corre à margem.

Homicídio, de David Mamet

Conflitos étnicos. Um policial (Joe Mantegna) investiga a morte de uma mulher judia e encontra indícios de um grupo nazista. Mas Mamet recusa a dualidade fácil: o protagonista, um judeu, descobre que não pode confiar em ninguém, nem mesmo em seu povo, enquanto um assassino oferece-lhe a explicação sobre a “natureza do mal”.

Mal do Século, de Todd Haynes

Um mundo doente. A aparente vida perfeita de uma mulher pouco a pouco lhe causa mal-estar. Contra possíveis doenças do mundo moderno, da grande cidade, ela resolve se isolar. Com a sempre ótima Julianne Moore, o filme de Haynes é, antes, sobre uma doença social, ou sobre um mundo doente. O mal da civilização limpa e isolada.

Dogville, de Lars von Trier

O mito da sociedade acolhedora. A vítima é a loura (Nicole Kidman) que acaba de chegar a uma vila de poucos moradores. Acolhedora às aparências, essa sociedade de paredes invisíveis logo se expõe: as pessoas ali são exploradoras, malvadas, e a moça termina presa e condicionada a tarefas cruéis, enquanto todos decidem seu destino.

A Fita Branca, de Michael Haneke

O mal pertence a todos. Como von Trier, Haneke aborda uma sociedade opressora. Mas, diferente do dinamarquês, aposta nas paredes, na dificuldade de se ver tudo. O mal, nessa comunidade em que ocorrem crimes estranhos, à beira da Primeira Guerra Mundial, pertence a todos. Procurar um culpado, a certa altura, não é mais necessário.

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Paraíso, de Andrey Konchalovskiy

Os mortos relatam suas experiências à câmera. Justificam alguns de seus atos, acompanhados por expressões de dor e arrependimento. O interessante recurso narrativo às vezes soa cansativo e aos poucos consegue dar mais profundidade a Paraíso.

A protagonista é a russa Olga (Yuliya Vysotskaya), presa ao ajudar crianças judias na França ocupada e levada depois a um campo de concentração. Mulher forte que talvez sonhe com um paraíso possível em meio à dor: frente a frente com Deus, ela talvez tenha dúvidas se é ou não digna do reino dos céus.

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Evidente que a passagem será reservada para poucos. Olga é vítima. Presa, é interrogada pelo capitão da polícia francesa e tenta comprar a liberdade de um amigo por meio de seu corpo, seu sexo, em uma cena incrível na qual ergue a saia para a autoridade. A câmera, posicionada ao alto, dá a ideia de vigilância, de intrusão.

O capitão (Philippe Duquesne) terá vida curta. Além de que vive com a mulher e com o filho pequeno, dele se sabe pouco. O diretor Andrey Konchalovskiy escreveu o roteiro de Paraíso com Elena Kiseleva e confere algum peso à personagem, um francês corrompido que tenta não enxergar os problemas à sua volta.

Interessante notar que, nas andanças com o filho, eles param em frente a um grande formigueiro. A imagem dá destaque às formigas, às pequenas partes vivas e em movimento nesse mundo em guerra, à sombra do Holocausto. Mundo no qual algumas pessoas serão menos que insetos, e no qual quase tudo é reduzido a partículas.

As formigas, as toneladas de metal, os vários óculos que formam uma montanha, as malas abertas, empilhadas, das vítimas judias levadas aos campos de concentração. Após a morte do capitão por forças de resistência, Olga será levada a um desses locais.

As sequências do campo de concentração são fortes. A fotografia em preto e branco, de Aleksandr Simonov, revela a bagunça, o desajuste, o desespero das mulheres cercadas por grades, madeira, homens violentos e cães, mulheres que precisam saquear cadáveres para vestir novos calçados e até para tomar um pouco de sopa.

À miséria Konchalovskiy retorna não para apresentar mais um entre tantos filmes sobre o Holocausto. Paraíso leva à situação de duas pessoas diferentes – uma autoridade nazista e a mulher presa – que, a certa altura, precisam aceitar a própria morte.

Olga reencontra Khelmut (Christian Clauss), rapaz de descendência aristocrática que tenta descobrir casos de corrupção entre trabalhadores e internos do campo de concentração. Ambos trocaram momentos e tiveram um breve romance na Itália, em algum verão passado, e voltam a se encontrar no pior lugar do mundo.

As personagens são construídas de forma ambígua, a começar por ele. Em suas confissões à tela, como se falasse a um velho filme com defeitos – e como se Deus estivesse a captar esses relatos em película –, ele não esconde adoração ao nazismo.

Para ele, o paraíso sonhado pelos nazistas viria com o extermínio dos judeus, sendo o sangue um estágio para se chegar a um mundo melhor. Guerras vêm e vão, diz um homem. No fundo, ao também aceitar o próprio fim, o som do vento que abre a janela, os fantasmas que o perseguem na floresta, depois o barulho das bombas, é como se Khelmut enfim reconhecesse que a ideia de paraíso é o devaneio de um louco.

Entre o policial francês, a mulher presa e o oficial alemão, Konchalovskiy constrói um filme de diferentes olhares, sobre o sentimento de um fim inevitável e sobre como os relatos – sinceros, sem floreios – fazem das pessoas muito mais do que partículas.

(Ray, Andrey Konchalovskiy, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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A Mulher na Lua, de Fritz Lang

A ciência é um problema, diz Fritz Lang. Sempre leva a conflitos, a cientistas que parecem burocratas, a bandidos que se esforçam para roubar planos importantes. De cabelos oleosos, de corte impecável, eles antecipam a imagem dos nazistas.

E chegam mesmo a se transformar ao longo de A Mulher na Lua, de 1929, no qual a dama de traje masculino assume contornos angelicais, a santa que promete o recomeço ao fincar os pés – e sua câmera – na Lua, com os homens a cercá-la: é a possibilidade de uma nova vida no astro vizinho, local que talvez possua ouro.

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a mulher na lua

Os criminosos pretendem chegar à Lua para explorá-la. Os mocinhos – incluindo um doutor de cabelo bagunçado, homem estranho que mais tarde é seduzido pelo ouro – para impulsionarem a ciência. Os bandidos roubam os planos dos heróis. Todos embarcam para o espaço a bordo do foguete cuja forma antecipa os verdadeiros.

O filme de Lang prevê o futuro: costuma ser creditada ao cineasta a invenção da contagem regressiva, depois adotada pelos cientistas. Suas personagens não usam roupas especiais, à exceção do doutor de cabelo bagunçado, em uma espécie de escafandro quando salta em solo lunar, o primeiro a circular por ali.

Pela nave, as personagens dependem de agarradores no chão e no teto. Sim, a ausência de gravidade é abordada, ainda que nem sempre pareça presente em todos os momentos. Grande filme, A Mulher na Lua não se preocupa em ser verossímil, sobretudo porque foi realizado em uma época em que se baseava em pura imaginação.

Lang tem a saída perfeita para qualquer crítica à aparência absurda: o menino que carrega as histórias fantásticas, histórias em quadrinhos que apontam à impossibilidade de saber qualquer coisa sobre o astro vizinho da Terra, sobre o ponto luminoso que mais parece um queijo furado e que, aos olhos das personagens, a certa altura passa como rolo compressor sobre o planeta de origem.

Para Lang, a partir da obra de sua então esposa Thea von Harbou, qualquer coisa seria possível nessa terra estranha. Converte-a em um espaço de montanhas e deserto, de cavernas com líquido borbulhante, com lama e ouro em excesso entre rochas.

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A primeira parte do filme expõe os criminosos, seus furtos, e o triângulo amoroso formado pelo protagonista Helius (Willy Fritsch), sua amada Friede (Gerda Maurus) e o amigo Hans (Gustav von Wangenheim). Algumas representações de Metrópolis estão por ali. Entre elas, a mulher como força de libertação do herói, o ser puro, distante, a quem o tesouro lunar está nas imagens: ela é a responsável por filmar a Lua.

Entre maquetes e cenários curiosos, Lang constrói uma obra que não cai em excessos. Pode parecer exagerado e artificial, como seria, mais tarde, O Planeta dos Vampiros, do italiano Mario Bava. Por outro lado, Lang leva o material a sério e contra a ciência perigosa lança personagens carregadas de emoção, às vezes até infantis.

O excesso de sentimentalismo não se dá ao acaso. O cinema mudo não permite que ele perca-se em palavras bobas: está todo no olhar, na maneira, por exemplo, como a mulher aguarda o homem, em um dos últimos planos, para viverem naquele novo espaço de ouro em cavernas e de ninguém, talvez o novo Jardim do Éden.

O cineasta celebra a viagem ao espaço como algo puramente simbólico, viagem de descoberta. Não é a ciência o que mais importa aqui. O que está em jogo é descobrir algo além do plano conhecido, além da Terra: a ficção e a aventura nas revistas fantásticas carregadas pela criança.

(Frau im Mond, Fritz Lang, 1929)

Nota: ★★★★☆

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