morte

Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

A interpretação do vermelho aparece com certa frequência em análises de filmes. No cinema de Scorsese, por exemplo, fala-se do vermelho como aproximação da violência e mesmo da culpa católica. Há uma infinidade de exemplos. A lista abaixo traz apenas sete, a partir de filmes que se servem dessa cor – alguns mais, outros menos – como elemento de linguagem, com papel fundamental na história retratada.

Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Desde os créditos é possível ver tons avermelhados entre as folhas da árvore, mais tarde pela luz da pequena janela, quando a mãe consola a filha; ou o vermelho do vestido de Cary (Jane Wyman), ainda no início, ou o da roupa xadrez do homem que ela ama (Rock Hudson). E, ao fim, o vermelho que recobre a televisão e emoldura a mulher.

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Vincent Price é o príncipe Próspero e talvez o próprio Demônio neste que pode ser o melhor filme de Corman. O vermelho chega primeiro em seu traje, na floresta entre sombras, quando dá uma rosa aos condenados que passam por ali. Também o vermelho do cômodo secreto, do figurino de uma protegida, a cor como aproximação da morte.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

O filme envolve uma família monstruosa e tem direção de fotografia de Sven Nykvist, colaborador habitual de Bergman. O vermelho recobre os cenários. Entre suas possíveis representações, uma frase do cineasta sueco talvez forneça a mais exata: “Acho que o interior da alma humana se parece com uma membrana vermelha”.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Em um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, o vermelho persegue as personagens a todo o momento: da tinta que cai sobre a foto, na abertura (e que antecipa a morte da filha), à capa vermelha que surge com frequência pelas vielas e espaços de Veneza. O vermelho como sinal do terror, do espírito da filha ou de algum psicopata.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Do sangue na faca ao sangue no vidro, com a mulher morta, o vermelho em questão é o escuro, como aponta o título original. Ou seja, o vermelho sangue. Entre os tantos momentos que evocam a cor, nenhum consegue resultado semelhante ao da palestra, na abertura, em um teatro, quando a médium (Macha Méril) entra na mente do assassino.

Sorgo Vermelho, de Zhang Yimou

O vermelho que recobre a heroína (Gong Li), no início, denota seu aprisionamento, seu sacrifício. O vermelho, no encerramento, estará por todos os lados quando os homens do campo decidem confrontar os japoneses que invadiram a China, momento em que a cor ocupa o céu e a terra, ao passo que pai e filho caminham sobre o sangue.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

O projeto de Kieslowski, com três filmes banhados nas cores da bandeira francesa, termina com o vermelho. É o melhor dos três. Em cena, uma modelo (Irène Jacob) sente-se atraída ao mundo de sombras de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Essa aproximação provoca mudanças em sua vida, em um filme sobre unificação.

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Personal Shopper, de Olivier Assayas

Ser uma personal shopper significa estar à sombra de alguém. No caso de Maureen Cartwright (Kristen Stewart), significa quase nunca encontrar seu pagador e, ao mesmo tempo, servi-lo como substituto: comprar as roupas que ele não tem tempo para comprar, estar em alguns lugares apenas para marcar seu espaço.

É o que ocorre, a certa altura, quando Maureen é obrigada a servir de modelo fotográfica, ao marcar os locais em que sua contratante, a celebridade, deveria estar. A isso, em Personal Shopper, de Olivier Assayas, acrescentam-se o dom paranormal e o drama pessoal da protagonista.

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Maureen tem o poder de se comunicar com os mortos. Seu irmão gêmeo, Lewis, morreu há pouco tempo, depois de sofrer um ataque cardíaco. A moça vive com receio de morrer da mesma causa e está à sombra de um fantasma que quase nunca se revela. Maureen é condenada a viver à margem dos demais, em busca de um espírito, ao mesmo tempo como peça sem vida para uma celebridade.

Assayas restitui o clima de seu filme anterior, Acima das Nuvens, com mal-estar semelhante: as mulheres em cena eram sujeitadas a personagens substitutas (no palco, na vida) e buscavam refúgio em um local distante. Havia o contato entre a celebridade, a pequena celebridade e a assistente da primeira (a própria Stewart), em uma relação de dependência e dor, sob os sinais da passagem do tempo.

Em Personal Shopper, Assayas mergulha ainda mais na apreensão da personagem feminina solitária. Ela perdeu o irmão, às vezes se encontra com a namorada do falecido (que já tem novo namorado) e conversa com um amigo pelo computador. De um lado para outro, percorre lojas caras, até mesmo entre países, para vestir a chefe que quase nunca encontra, tão artificial quanto o espírito que persegue.

É de um mundo às sombras que Assayas fala aqui, em um filme que não escapa nunca à frieza e aos ambientes quadrados, sem vida. Os fantasmas – verdadeiros ou em carne – tentam, com algum esforço, aparecer para Maureen, condenada ao vazio.

Não por acaso, a relação dela com algo desemboca no celular. A moça passa a receber mensagens estranhas, de alguém ou alguma coisa que não se apresenta. Para Assayas, é o próprio mundo moderno e sua impessoalidade que brotam daquele aparelho cujo som repetitivo aflige o espectador: no fundo, diz o cineasta, as pessoas não suportam ouvir os mesmos sons cotidianos, os mesmos sinais, mas ainda continuam presas a eles, vítimas desses estímulos aparentemente banais.

Apesar dos fantasmas e de seus sinais, o que mais interessa em Personal Shopper são os fantasmas de carne e o osso, em uma vida material – e sexualmente distante, como na sequência em que Maureen veste a roupa da patroa para se masturbar – que leva invariavelmente ao nada, ou ao movimento que busca, talvez em vão, um significado.

Paris é uma cidade fria, um pouco aterrorizante. Seu terror, contudo, não está ligado aos códigos do gênero. Em certo sentido, o filme de Assayas é mais dramático que assustador: seus espíritos, verdadeiros ou não, oferecem o terror como sinal último de uma existência, como se algo perdido (o irmão, uma vida comum) flertasse com a moça desanimada, sofrendo com frequência, levada a teclar com o desconhecido em um aparelho sem vida, sob os mesmos sons e estímulos.

(Idem, Olivier Assayas, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Truman, de Cesc Gay

Desviar do drama é difícil, para não dizer impossível. Em sua abordagem sobre a morte, Truman ao menos deixa ver alguma graça e, sem apelar à pieguice com o público (tampouco, aqui, com o leitor), carrega momentos com certa lição de vida.

O protagonista é Tomás (Javier Cámara). O centro das atenções é seu amigo Julian (Ricardo Darín), que está morrendo de câncer. O filme aborda a dificuldade – ou não, no caso do segundo – de aceitar a morte. É difícil para os amigos, para os outros, para quem fica, para todos que, mais de uma vez, param para se lamentar a Julian. As expressões e palavras são sempre um pouco parecidas.

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Há outro problema no filme: o cão Truman. É grande, um pouco velho. Dificilmente se acostumará com facilidade a outro dono. Cães, sabem os donos, aprendem a viver com certas pessoas, custam a desaprender. No caso de Julian, será necessário encontrar um novo lar para Truman, então seu companheiro fiel.

Julian já aceitou a morte. Recusa-se a fazer quimioterapia. Segundo ele, é sofrer sem sentido, o fim é inevitável. Melhor viver menos e sofrer menos. Nem todos os amigos entendem, ainda que Tomás encontre nessa decisão – mesmo sem esboçar com clareza o que pensa – um gesto de coragem. A admiração é contida, vive nos olhos.

O drama é sincero, nunca apela à lágrima fácil. A certa altura, Julian chora pelo cão, não por si próprio. Ao que parece, já se convenceu da própria condição; mais aqui difícil é lidar com a opinião alheia, além de encontrar um destino para seu querido animal.

Tómas viaja do Canadá à Espanha para passar quatro dias com o amigo. Sabe da decisão do outro antes mesmo de chegar. Os dias seguintes resumem-se aos encontros com várias pessoas, incluindo uma viagem à Holanda para reencontrar o filho de Julian.

São diferentes em tudo: Tómas é contido, polido, ao que parece tem um casamento estável longe dali; Julian é solteiro, boêmio, e tem Truman como única companhia. Apesar de não ter grande peso dramático no filme, o destino do cão é o obstáculo encontrado pelo roteiro para guiar essa história e fornecer mais substância além da morte incontornável. E, a cada volta à tela, o animal parece dizer algo.

A partir de momentos que preferem reações sinceras ao exagero, o diretor Cesc Gay retira ótimo equilíbrio. Muito se deve, claro, à presença de atores extraordinários. Darin nunca é frágil em excesso, ao passo que Cámara luta o tempo todo para não deixar ver seu sofrimento – luta tão difícil contra a outra, contra a própria morte.

(Idem, Cesc Gay, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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O Clã, de Pablo Trapero

Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan

Ao sair da sala de atendimento do hospital, após sofrer um acidente de trem, o segurança David Dunn (Bruce Willis) é observado com estranheza pelos parentes de outras vítimas. O clima é de espanto, o que logo se explica: ele é o único sobrevivente.

O hospital é um pouco escuro, mais do que se imagina, e a estrutura de Corpo Fechado é um pouco assim: ainda que se fale sempre na possibilidade da existência de heróis – mais do que de vilões –, esse estranho universo não tem cores fortes. Restam incertezas.

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O filme de M. Night Shyamalan é sobre a tentativa de encontrar – ou de criar – super-heróis. Trata de pessoas que precisam deles, além de pessoas que acreditam estar, talvez, um degrau acima na escala de força, sem entender por que são escolhidas.

A começar por David, homem aparentemente comum cuja vida é transformada após o acidente de trem. O filme começa com essa viagem, quando ele conversa com uma bela moça que, por acaso, senta ao seu lado. Trocam palavras antes de ela sair do local.

A reação à presença dela, pelo menos ao público, não é discreta: ele retira a aliança de casamento enquanto a moça acomoda-se. A atitude de David revela seu lado inesperado, ou apenas inesperado a quem pode ser um herói: ele é normal, imperfeito.

Não significa que possa ser desculpado. A intenção do diretor é outra: Shyamalan lança seu suposto herói em um universo real. David conversa com essa mulher, a passageira, e retira dela alguns sorrisos. Quando a conversa avança, a moça entende que é a hora de freá-lo: avisa que é casada e sai para sentar em outro lugar.

A sequência é importante para compreender Corpo Fechado: trata-se de uma obra em que as personagens não se encaixam, na qual se evoca o desconforto, em situações inesperadas porque estranhamente comuns e até desagradáveis.

Quem tenta convencer David sobre sua composição sobre-humana é Elijah Price (Samuel L. Jackson), com uma doença rara que torna seus ossos mais fracos. Ao contrário de David, ele quebra-se com facilidade.

A sequência de abertura, uma das mais fortes, mostra os momentos que sucedem o nascimento de Elijah. Novamente, o desconforto: ele nasce em um local público, com as pernas e os braços quebrados. Mais tarde, torna-se pouco sociável devido à sua condição; na juventude, é encorajado pela mãe a ler histórias em quadrinhos.

Essas histórias oferecem esperança, a ideia de que o mundo só poder ser um pouco melhor – ou funcionar, à contramão da normalidade e seu desconforto – com a presença de seres com poderes sobrenaturais, os super-heróis. Elijah apega-se à ideia. Ou entende que heróis só podem existir quando existem vilões. É o custo de sua crença: destruir para encontrar, levar ao sofrimento para satisfazer seus desejos. Ao longo da vida, Elijah procura o extraordinário em meio às falhas humanas, como em catástrofes.

O herói depende do vilão, e o espelho entre ambos só pode estar quebrado. Tocam-se para se afastar. O vilão escolheu existir, escolheu fazer o mal; o herói foi convocado, não teve qualquer escolha. Isso talvez explique por que os heróis sofrem mais.

O caso de David, quando encontra seus poderes, traz ainda mais sofrimento: ele tem de carregar os crimes do mundo, enxergá-los, enquanto seu filho – a visão infantil entregue ao espectador – espera dele o que todo filho espera do pai: a formação do herói.

Na ocasião de seu lançamento, Corpo Fechado foi interpretado como um filme sobre racismo. A leitura é interessante quando se pensa em Elijah, cuja força está no ódio, no ressentimento, nas características que fizeram dele um vilão, a apelar ao mal. A intolerância pode ser contagiante, presente nos menos prováveis.

(Unbreakable, M. Night Shyamalan, 2000)

Nota: ★★★★☆

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Logan, de James Mangold

Lembranças de um Amor Eterno, de Giuseppe Tornatore

Qualquer sinal de reviravolta beira o alívio, ao público, ao longo da caminhada sentimental de Amy Ryan (Olga Kurylenko). Seu universo vira de cabeça para baixo quando o amante, um professor de astronomia, constrói para ela outra realidade.

Nesse trabalho de Giuseppe Tornatore, Lembranças de um Amor Eterno, o amante tenta seguir vivo, por certo tempo, após sua morte: é um drama sobre a impossibilidade de apenas se despedir, ou de apenas se fechar no próprio fim e aceitar o vazio.

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Pois as personagens, os amantes, preferem o discurso que remete às estrelas e seus mistérios, aos seres que nascem para o outro, à necessidade de os humanos criarem narrativas – e também charadas – para combater a constatação de que são pequenos pontos perdidos no meio do nada. É, sobretudo, sobre criar um significado.

Anunciar a morte é pouco. Despedir-se também. O amante é idealizado: busca outro caminho mesmo face à morte. E confunde a moça com seu “amor eterno”. Tornatore insiste tanto nos mesmos caminhos que sua obra não demora a enjoar. Por isso, qualquer sinal de mudança gera o citado alívio que não chega.

Ou mais: prefere andar em círculos, o que não deixa de produzir o mesmo resultado enfadonho. Para tentar se desviar do mesmo, insere questões que envolvem a família dos amantes. É a velha maneira de o falecido mostrar o caminho à amada, “torturada” a viver nesse mundo agora sem muito significado, e a buscar significados.

Ao mesmo tempo em que tenta decifrar os recados e obedecer às muitas mensagens (cada uma em seu tempo) do companheiro, a bela ao centro corre de um lado para outro, entre seus trabalhos, estudos, também aos pontos em que o amante vivia.

Longo caminho de Tornatore em busca da repetição, da melancolia da perda, do amor que sai atrás de um sentido quase à força: quando o mundo ao redor não tem qualquer sentido, essas pessoas são obrigadas a criar algo “maior”.

Seu cansativo trabalho é embalado por essa ideia: é moldado às mensagens adultas de superação, de luto, ao passo que também não dispensa os contornos extraordinários do homem especial (vivido por Jeremy Irons) que recusa a banalidade da morte.

Antes de morrer, ele criou um roteiro – com a participação dos amigos vivos – para que Amy continuasse a receber suas mensagens em vídeo e pelo celular. É como se continuasse em carne – ao mesmo tempo em que Tornatore faz o espectador crer na possibilidade desse homem reaparecer a qualquer momento.

Não aparecerá. O filme é dela, com seu luto e maneira cambaleante. Ao mesmo tempo em que tenta terminar seus estudos em astronomia, Amy trabalha como modelo e dublê em filmes. É o amante que explica sua condição: ela busca vestir outras máscaras, e não pode evitar que seu momento de dor seja ocultado.

Nua, a certa altura Amy serve de molde a uma obra de arte. Ao chorar e se movimentar, com o corpo preso à borracha, ela pode ter colocado todo o trabalho a perder. Mas ocorre o oposto: o artista vê nesse “defeito” algo verdadeiro e definitivo. As emoções são impressas, e não escapam à aparente matéria sem vida.

(La corrispondenza, Giuseppe Tornatore, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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