Michael Fassbender

Alien: Covenant, de Ridley Scott

Realizador de grandes filmes no início da carreira, entre eles Alien, o Oitavo Passageiro, Ridley Scott vira-se como pode com a violência abusiva. É com ela que tenta causa medo ou trazer alguma emoção, em vão, ao longo de Alien: Covenant.

Entre o filme de 1979 e o mais recente existe um abismo. No salto de um para o outro, percebe-se que Scott mudou radicalmente sua forma de fazer cinema, trocando os silêncios e o suspense pelo sangue em excesso. Não é fácil entender o que aconteceu com ele, que também tem no currículo Blade Runner, o Caçador de Androides.

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Scott desaprendeu. Faz hoje um cinema apenas voltado a chacoalhar a plateia, em linha de produção, com explosões gratuitas e aventuras sem qualquer preocupação em criar um universo que cerque o espectador a ponto de não escapar (o que fez tão bem em Alien, o Oitavo Passageiro, sem dúvida um grande filme).

O título de seu novo trabalho refere-se a uma nave que, durante uma viagem para colonizar um planeta, termina encontrando outro. Seus tripulantes resolvem descer em solo estranho, um local nublado cercado por tempestades atmosféricas e com vegetação próxima à da Terra. O local esconde as temidas criaturas. O que vem a seguir é correria.

Covenant é pueril e choca não necessariamente pelo excesso, mas pelo mau gosto, pela dificuldade de preparar o espectador às doses de sangue dos ataques alienígenas. É uma desculpa para reviver a temida criatura cuja primeira aparição, da barriga de John Hurt, no primeiro filme, deu vez a uma das cenas mais famosas do cinema moderno.

Scott, a partir do roteiro de John Logan e Dante Harper, chega a reviver esse mesmo momento, como se precisasse superá-lo. Por se aproximar do ridículo, é como uma referência saída de uma paródia, pequeno signo perdido e óbvio. Tal aparição é agora constrangedora: o monstro rompe o peito da vítima, levanta-se do interior do corpo e acena ao seu criador, o androide interpretado por Michael Fassbender.

O ator, por sinal, será a tentativa de conferir – mais uma vez em vão – alguma profundidade à história. Esse lado um pouco filosófico nada tem a acrescentar (como se viu antes em Prometheus, também de Scott): é apenas um capricho entre esguichos de sangue e mordidas, entre os tiros e a correria que o filme busca atingir.

Não é a primeira vez que Scott rende-se ao caminho mais fácil. Como em Êxodo: Deuses e Reis ou Perdido em Marte, adere ao espetáculo barato, tenta ser épico pelos caminhos errados, em filmes lotados de diálogos canhestros e drama superficial. Em Covenant, a carnificina levada à frente pela criatura pode, inclusive, produzir o efeito contrário ao qual ambiciona: arrancar risos do espectador, tamanha a artificialidade.

(Idem, Ridley Scott, 2017)

Nota: ☆☆☆☆☆

Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

As melhores atuações de 2016

Não dá para reclamar da safra. Nem de filmes nem de atuações. Foi um ano forte principalmente para as mulheres, para algumas veteranas que retornaram com grande força e foram – e seguem sendo – reconhecidas. Entre os homens há veteranos e rostos menos conhecidos. São figuras que conferem alma e grandeza a essas obras.

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Melhor atriz

A francesa Isabelle Huppert sangra, sofre, atrai homens e brinca com as personagens que desfilam ao seu lado. O sofrimento de Sonia Braga, a Clara de Aquarius, é de outra natureza: tem a ver com seu passado, com seu apartamento. Decidida a quebrar barreiras, mas sofrendo com o marido também livre, está a incrível Trine Dyrholm de A Comunidade – a melhor coisa do filme. Ao contrário dessa mulher experiente está a Rooney Mara de Carol. Para completar, a forte Amy Adams de A Chegada.

Amy Adams em A Chegada

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Isabelle Huppert em Elle

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Rooney Mara em Carol

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Sonia Braga em Aquarius

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Trine Dyrholm em A Comunidade

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Outros destaques: Cate Blanchett em Carol; Catherine Frot em Marguerite; Emmanuelle Bercot em Meu Rei; Kate Beckinsale em Amor & Amizade.

Melhor atriz coadjuvante

Algum tempo sem fazer algo relevante no cinema, Jane Fonda vem em uma pequena participação como a atriz decadente de Juventude. Em busca de um recomeço está a sentimental mas fechada Micaela Ramazzotti. Magaly Solier, em A Passageira, também move sua história, uma história que remete ao passado, aos tempos do militarismo no Peru. Passado, também, que serve a ótima Rinko Kikuchi. No caso de Shirley Henderson, o que se impõe é a imaginação, em uma terra de ogros, bruxas e reis.

Jane Fonda em Juventude

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Magaly Solier em A Passageira

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Micaela Ramazzotti em Loucas de Alegria

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Rinko Kikuchi em Ninguém Deseja a Noite

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Shirley Henderson em O Conto dos Contos

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Outros destaques: Cécile De France em Um Belo Verão; Jennifer Jason Leigh em Os Oito Odiados; Kate Winslet em Steve Jobs; Laura Linney em Animais Noturnos; Maeve Jinkings em Boi Neon.

Melhor ator

O Oscar nem sempre acerta. Michael Fassbender merecia o prêmio de melhor ator. E por que esqueceram o incrível Michael Caine? É um pai, como é também o ótimo Géza Röhrig de O Filho de Saul, no pior ambiente do mundo: um campo de concentração. Outro que se envolve com a mesma questão histórica é o veterano Christopher Plummer. Para completar o time, o protagonista de O Valor de um Homem, alguém simples que resolve enfrentar o sistema.

Christopher Plummer em Memórias Secretas

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Géza Röhrig em O Filho de Saul

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Michael Caine em Juventude

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Michael Fassbender em Steve Jobs

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Vincent Lindon em O Valor de um Homem

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Outros destaques: Alfredo Castro em De Longe Te Observo; Bryan Cranston em Trumbo – Lista Negra; Leonardo DiCaprio em O Regresso; Niels Arestrup em Diplomacia; Tom Hanks em Sully; Viggo Mortensen em Capitão Fantástico.

Melhor ator coadjuvante

Interpretar Deus não é fácil. Alguns atores topam o desafio no campo da comédia: podem ser um Deus emburrado e até malvado. Ao deus mercado, em Wall Street, há dois homens um pouco diferentes, que nunca se encontram. E há também um cineasta, mais sonhador que o amigo com quem divide alguns dias em uma casa de repouso em Juventude. Da Venezuela vem um ator surpreendente, Luis Silva, como o delinquente que vê sua vida mudar ao conhecer um homem mais velho.

Benoît Poelvoorde em O Novíssimo Testamento

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Christian Bale em A Grande Aposta

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Harvey Keitel em Juventude

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Luis Silva em De Longe Te Observo

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Steve Carell em A Grande Aposta

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Outros destaques: Aaron Taylor-Johnson em Animais Noturnos; John Goodman em Rua Cloverfield, 10; Lázaro Ramos em Mundo Cão; Mark Ruffalo em Spotlight – Segredos Revelados; Michael Shannon em Animais Noturnos; Tom Hardy em O Regresso.

Veja também:
As melhores atuações de 2015

A Luz Entre Oceanos, de Derek Cianfrance

Impossível se isolar em A Luz Entre Oceanos. Primeiro, há o soldado que retorna da guerra, que aceita ficar sozinho em um local afastado da Austrália, trabalhando como zelador em um farol; depois, o casal que tenta ter um filho e não consegue, e que, ao encontrar uma criança perdida, decide adotá-la secretamente.

Aos dois casos há o farol, o sinal de vida, a luz que não permite que o resto do mundo esqueça esses seres: seja o soldado longe da agitação, da vida comum, seja o casal que mente a todos sobre o filho que não gerou e que retirou das águas do mar.

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O soldado é também o homem que compõe esse casal, Tom Sherbourne (Michael Fassbender). Não se sabe ao certo o que o levou a fugir, ao isolamento. Mal conquista o emprego, Tom depara-se com o irrecusável: a bela e jovem Isabel (Alicia Vikander).

Decidem se casar. Ela aceita se mudar ao local isolado, frio, cuja luz forte vem sempre do farol. É o sinal aos outros, ao mundo, de que ainda há alguém por ali – igualmente a impossibilidade de se isolar dos problemas, da perseguição dos outros e de si mesmo.

Com o casamento vem o desejo de ter um filho. Isabel não consegue ser mãe por duas vezes. Duas cruzes são colocadas no alto de um morro, sob o vento forte e sob o olhar da mesma mulher, inconformada com tal fracasso, a viver seguida por traumas.

É o filho seguinte que pode suprir a perda do passado, o filho que não vem. E, quando vem, vem pelos mares frios, em um pequeno barco. Uma criança (uma menina) que não pertence ao casal. Frente à vontade irrefreável de Isabel, o novo pai aceita o crime, mas não sem algum peso na consciência. O casal fica com a criança perdida.

No barco, com ela, havia um homem morto. O casal decide enterrá-lo por ali. O que poderia ser a solução de um problema torna-se o início de outro: é Tom o verdadeiro vigilante da história, o farol ao qual o drama retorna. Ele não suporta viver aquela farsa.

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Em idas à pequena cidade, ao encontro da família de Isabel e dos sinais da civilização, Tom também cava problemas: ele, certo dia, conhece a verdadeira mãe de sua pequena filha tomada do mar, mulher (Rachel Weisz) que ainda sofre com a tragédia dos desaparecidos no oceano, seu bebê e o companheiro alemão.

O diretor Derek Cianfrance evita o excesso dramático do qual ora ou outra poderia ser vítima. Ainda que um realizador competente, como revelam seus filmes anteriores, aqui o resultado é irregular. O excesso de bondade das personagens, de todos os lados, somado a situações conhecidas, torna o filme um pouco cansativo.

O casal trai a si mesmo ao se render às regras do mundo para longe do farol: primeiro, com ele, a impossibilidade de esconder a existência do filho de outra mulher; depois, com ela, a dificuldade para reconhecer o amor que sente pelo companheiro. O farol cumpre sua função: expõe, sinaliza, aponta à vida e aos problemas que se revelam inerentes, em um paraíso frio nunca isolado ou esquecido.

(The Light Between Oceans, Derek Cianfrance, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
O Lugar Onde Tudo Termina, de Derek Cianfrance

Sete bons filmes recentes sobre solidão e isolamento

Nem todas as personagens abaixo estão isoladas em cena. Em muitos casos ocorre exatamente o oposto. Suas relações passageiras dão a falsa ideia de que há sempre companhia, mas a solidão ainda assim persiste: são personagens que perderam companheiros, em depressão, pessoas à margem, que não conseguem se socializar ou que simplesmente desistiram dos outros e jogaram tudo para o alto.

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Na Natureza Selvagem, de Sean Penn

A história de Chris McCandless (Emile Hirsch), rapaz que rasga o RG, abandona a vida social e se muda para um local distante. Apesar do encontro com figuras distintas ao longo de sua jornada, esse road movie não deixa de apresentar seu isolamento, sua dificuldade em se relacionar, e um final melancólico em meio ao nada.

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Aquário, de Andrea Arnold

A rotina repetitiva de uma garota (Katie Jarvis) de classe média baixa, na Inglaterra: suas brigas com outras garotas, sua tentativa de libertar um cavalo amarrado, suas danças e, mais tarde, os flertes com o novo namorado da mãe, interpretado por Michael Fassbender. A relação com esse novo homem será de descobertas e decepções.

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Lunar, de Duncan Jones

Sozinho em uma estação lunar, no futuro, o astronauta (Sam Rockwell) relaciona-se apenas com uma máquina (a voz de Kevin Spacey) e, depois, descobre-se parte de uma engrenagem perversa. Não se desconfia de sua humanidade, e é ela que explode contra o ambiente branco e metálico, contra a terra acinzentada, o vazio do lado de fora.

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Shame, de Steve McQueen

A certa altura de Shame, o protagonista (Fassbender) corre pelas ruas de Nova York, à noite, para lugar algum. O exercício físico é sua desculpa. E a câmera acompanha essa corrida por quarteirões, dá ideia de seu vazio. A saber: trata-se de um filme sobre um homem viciado em sexo, com dificuldade para encontrar relacionamentos duradouros.

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Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie

Outro caso em que as personagens possuem nada mais que o sexo. E a impressão é de que algo sempre se perde, de que nada persiste – o que a imagem final, a da queda da escuridão, pouco a pouco, só faz ratificar. Homens encontram-se à beira de um lago apenas para sexo casual. Mas um crime muda a rotina desse suposto paraíso.

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Oslo, 31 de Agosto, de Joachim Trier

A partir da obra de Pierre Drieu La Rochelle, que também serviu para Trinta Anos Esta Noite, de Malle, o cineasta dinamarquês percorre um dia na vida de um jovem. Em recuperação de seu vício em drogas, Anders (Anders Danielsen Lie) sai para uma entrevista de emprego, reencontra amigos e descobre como é difícil a ressocialização.

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Ela, de Spike Jonze

Para preencher seu vazio, o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) aceita como companhia uma inteligência artificial que carrega no bolso, em seu celular, com a voz provocante de Scarlett Johansson. Mas Samantha – ao mesmo tempo distante e sempre presente – torna-se mais que uma fuga de ocasião: torna-se alguém para se apaixonar.

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Veja também:
Ninfetas (em 15 filmes)
O terror do isolamento

Aquário, de Andrea Arnold

A jornada de Mia (Katie Jarvis) é essencialmente física. A primeira impressão – com suas danças, caminhadas, seus xingamentos constantes a qualquer um – é de que será difícil penetrá-la e saber algo além da rebelde sem causa, típica adolescente.

O contrário aos poucos se impõe em Aquário, de Andrea Arnold, cuja estrutura faz pensar nos filmes dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. A menina aproxima-se, ainda cedo, de um cavalo amarrado, em sua andança, e deseja libertar o animal.

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O uso do velho cavalo dá humanização à personagem com certa facilidade. A aproximação é fundamental – ao cavalo e, por extensão, à menina. O que poderia fazer o animal depois de solto? Para onde seria levado? Mia foca apenas a liberdade, não suas consequências. A protagonista é movida por impulsos.

E por desentendimentos, por tropeços, como se verá na relação – ao centro da obra – com o novo namorado de sua mãe. Ele, Conor (Michael Fassbender), parece ver nela algo mais, talvez porque Mia mostre sinais de sua sexualidade, de seus desejos.

Mesmo com pouco a dizer, seu olhar deixa vê-la: ela passa a sentir atração pelo homem que aparece em sua cozinha com o tronco à mostra, que pede para que ela dance, e que, sem qualquer pudor pela aproximação da mãe, observa-a com inegável desejo.

Claro que a relação consome-se, certa noite, como parecem ser os “acidentes” movidos ao descontrole da adolescente, e do homem que age como tal. Será a descoberta da sexualidade para Mia, ainda que para Conor não passe de uma transa rápida.

Qualquer movimento da menina, seguido por seu olhar, nunca será automático; nenhum aparente acaso, ou tropeço, dá-se à toa na obra de Arnold. Os seres em cena desvencilham-se com a mesma velocidade que se unem, com algum sinal de amor.

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A menina pede dinheiro a Conor sem vergonha. Chega furtar alguns trocados de sua carteira. À frente, após fazer sexo com ele, invade a casa do homem que entrou em sua vida e na de sua mãe com velocidade e corpo em evidência.

Ao descobrir que ele tem família, Mia tem a ideia de lhe roubar a filha pequena. Corre com a criança em direção às águas geladas do mar ou de algum lago que faz fronteira àquelas casas aparentemente iguais, naquele mundo de classe média.

Chega a jogar a menina na água gelada, talvez porque a água, aqui, é ou foi um elemento de união. Na água, antes, Mia aproximou-se de Conor, quando este pegou um peixe para depois matá-lo. Nesse momento, Arnold enquadra ambos com certa distância, com o reflexo do sol no lago, para evidenciar a imersão dela no espaço dele.

A direção consciente, em busca de um filme realista, que não visa agradar o público, quase declina aos conhecidos sinais do drama. Um problema, ao fim, sempre virá seguido de outro, como se tudo não passasse de um teste para a jovem Mia.

Ainda assim, o filme mantém-se forte até o fechamento, comprovando a boa mão da diretora. Ao reproduzir um “aquário”, fala de seres com poucas chances de fuga, expõe menor humanismo entre personagens, mas, por invasão dos pequenos cômodos, com dança e olhares vagos, lança inegável vida ao espectador.

(Fish Tank, Andrea Arnold, 2009)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot