memória

George A. Romero (1940–2017)

Nós simplesmente não queríamos restaurar a ordem. O ponto era esse. Uma das nossas maiores queixas, minha maior queixa sobre o terror, cinema fantasia, geralmente é que você o faz para perturbar a paz reinante, para perturbar o desenrolar do mundo. E, tradicionalmente, no final, restaura-se tudo. E você diz: “Por que tivemos de passar por isso, afinal?” Então, eu pensei: “Tenho que deixar o mundo bagunçado, em primeiro lugar”.

George A. Romero, cineasta, sobre seu filme mais famoso, também o primeiro, A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. A fala foi extraída do material extra da coleção Zumbis no Cinema, da Versátil Home Vídeo. Romero deu a declaração em agosto de 2007, em uma conversa no Bloor Cinema, em Toronto, no Canadá, aberta ao público. Abaixo, o diretor no set de A Noite dos Mortos-Vivos (à esquerda, com uma lata de tinta vermelha).

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Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

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Emmanuelle Riva (1927–2017)

Alguns ensaios e críticas célebres sobre Hiroshima, Meu Amor atropelam seus atores. Concentram-se em Resnais, em Duras, na estrutura revolucionária, poética, da obra francesa de 1959, no calor das transformações do cinema. Emmanuelle Riva é a francesa que se envolve com um japonês em Hiroshima, à sombra das lembranças.

Lugar pior para evocar o passado não havia. E nele, antes com o corpo coberto de areia, está ela, ainda no primeiro plano, a se confessar e ouvir o amante japonês (Eiji Okada). Mulher sem maquiagem, sem aparente fantasia ou glamour. Apenas sofrimento. É o que se encontra após a retirada da camada de areia dos primeiros instantes.

Nem Antonio Moniz Vianna nem Paulo Emílio Sales Gomes lançar-se-iam à atriz – que ainda faria outros grandes filmes, nem sempre lembrados, como Léon Morin – O Padre, de Melville. Ainda assim, ela está lá, sua narração também: dá vez às lembranças de Nevers e as traz para Hiroshima, cidade na qual a memória é inescapável.

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Debbie Reynolds (1932–2016)

Debbie Reynolds era uma novata que já atuara em cinco papéis de menor importância, e esta era a sua maior oportunidade. Ela tinha que se sobressair junto de dois veteranos bailarinos, e conseguiu; notem a determinação do seu atrevido e pequeno rosto quando ela dá passos largos no momento em que, todos juntos, se encaminham para um sofá na apresentação do número “Good Morning”.

Roger Ebert, crítico de cinema, em uma análise de Cantando na Chuva publicada em A Magia do Cinema (Ediouro; pgs. 103 e 104).

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Espaços, memórias e confissões (em quatro filmes recentes)

Ao contrário do cineasta Manoel de Oliveira em Visita ou Memórias e Confissões, a Clara de Aquarius não demora a aparecer em cena, a ocupar espaços, a percorrê-los no filme brasileiro de Kleber Mendonça Filho. Clara luta para permanecer, não deseja vender seu imóvel; Oliveira promove sua despedida: teve de vender a grande casa.

Os dois espaços – a antiga casa de Oliveira, onde viveu por 40 anos, e o apartamento de Clara – abrigam a memória dessas personagens. Sim, Oliveira surge como personagem, como parte do espaço, com a memória posta, viva, sem saber o que viria depois.

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Seu filme – feito em 1982 e apresentado ao público apenas em 2015, após a morte do diretor – não se prende apenas à grande casa. Parte dela. É sobre a memória do cineasta, sobre a família, a esposa Maria Isabel, o passado de Portugal, sua prisão, os amigos artistas e, claro, o cinema – o espaço no qual a ficção, diz ele, torna-se realidade.

O espaço de Clara – sua memória, seu passado – vale toda sua luta: última a deixar o prédio, receberá ali, à porta, a visita dos empreiteiros de fala devagar, com propostas em envelopes, e que pouco a pouco apelam mais e mais: ela descobre que esses homens são criminosos. Atentam contra seu passado, sua vida, a qual sempre volta ao apartamento.

Próximo ao documentário, Oliveira existe, ao contrário de Clara (vivida por Sonia Braga). Mas a ideia de ambos sobre o espaço ao redor torna a memória outra personagem. No caso do apartamento dela, adianta-se no olhar da tia, no início do filme, quando se lembra de sua vida sexual e pregressa. A memória é revelada ao acaso, após ela observar um velho móvel do local. O objeto continuará ali décadas depois.

O filme de Oliveira é uma confissão. Também uma entrada sem bater, sob a narração de duas personagens que o público nunca vê. Há quem as considere possíveis compradoras para a casa. Talvez. Mais provável é que representem o olhar oposto ao do cineasta: o olhar de descoberta, de invasão, o olhar que o espectador leva ao ambiente.

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O primeiro plano é externo, o do portão. Em Aquarius, o primeiro plano é o da praia, momento em que Clara – no passado – diverte-se com amigos, ao som do Queen, em um carro que corre pela areia, em clima de liberdade. Curiosamente, o filme de Mendonça Filho, como o de Oliveira, remete o espectador aos anos 80, momento em que o passado parecia mais passado, não menos palpável ou realista.

O diretor português morreu aos 106 anos. Tinha pouco mais de 70 quando fez Visita ou Memórias e Confissões. Deixou o filme guardado, à espera de sua despedida. A certa altura, confessa que problema maior é o sofrimento físico, não a morte. Sua obra é sua lembrança, a fusão do espaço físico à narração, do homem ao seu bálsamo.

Perderia a casa, parte de sua história. Clara ainda luta. Sua saída, até o fim, é incerta. Mendonça Filho apresenta, no plano final, a imagem dos cupins, próximos, a causar arrepios. O encerramento é aberto: os insetos representam o sistema predatório, avesso ao espaço da personagem e, por isso mesmo, à sua individualidade e história.

Outro filme recente leva à moradia como espaço da memória. E outra vez a personagem central precisa lidar com o passado, com seus laços familiares. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio, mostra o retorno de um jornalista ao antigo apartamento em que viveu com a mãe, antes da morte dela, e depois com o pai autoritário.

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É também um filme que se situa entre tempos, com uma narrativa que se nutre dos retornos à infância, à juventude, às descobertas, à proteção da bela mãe que se suicida pouco depois de desejar ao filho, o protagonista, “belos sonhos”.

Massimo (Valerio Mastandrea), após desviar de seu passado, precisa enfim buscar sua tranquilidade. Precisa entender os motivos da mãe, livrar-se dela (ou não), entender seu gesto – seja bravura ou covardia. A exemplo do filme de Oliveira, o de Bellocchio não se desprega da história de seu país, ao mesmo tempo em que retorna a família.

A relação de Massimo com o apartamento é de conflito, de negação: deseja não estar ali, mas é apenas ali que descobrirá as respostas às suas questões. Espalha as fotos e os objetos pelo chão. Sua história “embaralha-se”. O jornalista procura, ao mesmo tempo se desvia; é o oposto a Oliveira, que confronta e volta seu projetor ao público. Lança na tela sua história, sem receio, à base de antigas fotos e filmes da família.

Perto de deixar a antiga casa, o cineasta português confessa-se. O espaço da película, no projetor, é o espaço dessa confissão. Apenas pelo cinema será pessoal. E a história para fora, a de Portugal, é dele inseparável. A arte é inseparável, como diz a esposa Maria Isabel, em meio às suas flores: “não se pode separar o artista do homem”.

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O diretor russo Aleksandr Sokurov, com Francofonia: Louvre Sob Ocupação, oferece também um olhar pessoal a partir de reflexões sobre a perenidade da arte e a fragilidade do homem. Não chega a ser um filme sobre o autor, mas não deixa de ser pessoal. A História (em maiúscula) é aqui comparada às ondas inquietas do oceano.

Em cena, Sokurov conversa com um viajante através da tela do computador. O outro homem está em um navio, sob uma forte tempestade, com o risco de perder as obras de arte que transporta. No Louvre, a História segue viva, corre pelos espaços, impõe-se na representação de figuras históricas vivas na interpretação de atores.

A arquitetura dos homens, nos quatro filmes citados, está ligada à memória. Não podem se separar dos espaços físicos. Em um mundo cada vez mais impessoal e pouco afeito ao passado, seus autores levam a histórias de resistência.

Foto 1: Aquarius
Foto 2: Visita ou Memórias e Confissões
Foto 3: Belos Sonhos
Foto 4: Francofonia: Louvre Sob Ocupação

Veja também:
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
Francofonia: Louvre Sob Ocupação, de Aleksandr Sokurov