Martin Scorsese

Os 100 melhores filmes dos anos 90

Há um filme ou mesmo uma cena capaz de definir uma década? Nos anos 90, há Pulp Fiction e a sequência de dança de John Travolta e Uma Thurman. Ou uma cadeira de rodas em chamas, a circular o Cristo invertido, em plena Guerra da Bósnia, em Underground – Mentiras de Guerra. Ou a chuva sobre Tim Robbins, enfim livre, em Um Sonho de Liberdade. Ou um homem com a perna levantada, prestes a dar um passo, ultrapassar uma fronteira, em O Passo Suspenso da Cegonha.

Há, ao longo de dez anos, uma coleção de momentos marcantes. Nos anos 90 não é diferente: é a década de Tarantino, do retorno triunfal de Robert Altman e Terrence Malick, da revelação do cinema iraniano ao mundo todo, como também a do mestre polonês Kieslowski (que logo morreria). A década do movimento Dogma 95 e da revelação dos orientais Tsai Ming-liang, Jia Zhangke e Naomi Kawase. Não restam dúvidas sobre a grandeza da década, como confirma a lista abaixo.

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100) Temporada de Caça, de Paul Schrader

99) Amateur, de Hal Hartley

98) Contato, de Robert Zemeckis

97) O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

96) Uma Garota Solitária, de Benoît Jacquot

95) Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis

94) Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

93) Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda

92) Bom Trabalho, de Claire Denis

91) Magnólia, de Paul Thomas Anderson

90) Baraka, de Ron Fricke

89) Ghost in the Shell: O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii

88) E a Vida Continua, de Abbas Kiarostami

87) Medo e Delírio, de Terry Gilliam

86) Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo, de Carlos Reichenbach

85) Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteira, de Jia Zhangke

84) A Estrada Perdida, de David Lynch

83) O Ferrão da Morte, de Kôhei Oguri

82) Quando Tudo Começa, de Bertrand Tavernier

81) Cidade das Sombras, de Alex Proyas

80) Maridos e Esposas, de Woody Allen

79) O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

78) Mal do Século, de Todd Haynes

77) Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica

76) Exótica, de Atom Egoyan

75) A Isca, de Bertrand Tavernier

74) Leolo, de Jean-Claude Lauzon

73) O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

72) eXistenZ, de David Cronenberg

71) O Vício, de Abel Ferrara

70) Festa de Família, de Thomas Vinterberg

69) Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

68) Fogo Contra Fogo, de Michael Mann

67) A Igualdade é Branca, de Krzysztof Kieslowski

66) Felicidade, de Todd Solondz

65) Violência Gratuita, de Michael Haneke

64) Vive L’Amour, de Tsai Ming-liang

63) Violento e Profano, de Gary Oldman

62) Sonatine, de Takeshi Kitano

61) De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

60) Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

59) Um Homem Com Duas Vidas, de Jaco Van Dormael

58) Mistérios e Paixões, de David Cronenberg

57) Suzaku, de Naomi Kawase

56) Central do Brasil, de Walter Salles

55) À Beira da Loucura, de John Carpenter

54) Conto de Inverno, de Eric Rohmer

53) Alma Corsária, de Carlos Reichenbach

52) Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis

51) Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg

50) A Eternidade e um Dia, de Theodoros Angelopoulos

49) Segredos e Mentiras, de Mike Leigh

48) JFK – A Pergunta que Não Quer Calar, de Oliver Stone

47) Água Fria, de Olivier Assayas

46) Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

45) Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

44) O Processo do Desejo, de Marco Bellocchio

43) O Espelho, de Jafar Panahi

42) O Pagamento Final, de Brian De Palma

41) Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai

40) Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson

39) A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo, de Aki Kaurismäki

38) Corvos, de Dorota Kedzierzawska

37) Flores de Xangai, de Hou Hsiao-Hsien

36) Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

35) Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol

34) O Sonho Azul, de Tian Zhuangzhuang

33) Os Imorais, de Stephen Frears

32) Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou

31) Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont

30) O Rei de Nova York, de Abel Ferrara

29) Fargo, de Joel Coen

28) Ondas do Destino, de Lars Von Trier

27) Adeus ao Sul, de Hou Hsiao-Hsien

26) Vício Frenético, de Abel Ferrara

25) Basquete Blues, de Steve James

24) A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski

23) A Lista de Schindler, de Steven Spielberg

22) Sátántangó, de Béla Tarr

21) O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

20) Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

19) Naked, de Mike Leigh

18) A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

17) O Fim de um Longo Dia, de Terence Davies

16) Amores Expressos, de Wong Kar-Wai

15) Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

14) O Jogador, de Robert Altman

13) Van Gogh, de Maurice Pialat

12) O Piano, de Jane Campion

11) Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood

10) O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme

A jovem Clarice Starling é colocada para investigar os ataques de um assassino em série e, para solucionar o caso, vê-se envolvida com outro assassino, o temido Hannibal Lecter. Assustador e hipnótico, quase não deixa retomar o fôlego. Vencedor de cinco Oscar.

9) Close-Up, de Abbas Kiarostami

Homem passa-se por um diretor de cinema, o conhecido Mohsen Makhmalbaf, em história baseada em caso real. O mestre Kiarostami convida o verdadeiro impostor a reviver o caso, em mais um grande filme iraniano que retorna o foco para o próprio cinema.

8) Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino

Cães de Aluguel foi apenas a antessala para esse filme explosivo e original, que valeu a seu jovem diretor – cuja trajetória mítica ora ou outra aponta ao balconista de vídeo-locadora – a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Violento, rápido e embalado por uma narrativa não linear.

7) A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

A terceira e melhor parte da incrível Trilogia das Cores. É também o último filme de seu diretor, que morreria pouco depois. Na trama, uma modelo atropela um cão. Em sua busca pelo dono, ela termina na casa de um juiz ranzinza que tem o hábito de espionar os próprios vizinhos.

6) Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese

Talvez seja a última obra-prima de Scorsese. Um de seus filmes mais completos, no qual se lança em terreno que conhece bem: a máfia. Tem Ray Liotta no papel do jovem apaixonado pelo mundo do crime, De Niro à vontade como um chefão e assassino, além do demoníaco Joe Pesci.

5) Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Um filme sobre a memória, sobre um grupo de jovens envolvidos com gangues, mas também descobrindo o primeiro amor. Yang faz um belo retrato da juventude sem esquecer as dores familiares. Um dos pontos altos é a sequência da chacina noturna, filmada com pouca luz.

4) A Bela Intrigante, de Jacques Rivette

O que procura todo artista? A obra perfeita? A necessidade de dividi-la com o público? Rivette questiona tudo isso na relação de um pintor com sua musa. É também um filme sobre o corpo, sobre a criação artística, com longas cenas nas quais a câmera limita-se a captar o tempo.

3) Short Cuts – Cenas da Vida, de Robert Altman

Mais uma vez debruçado sobre uma penca de personagens, Altman entrega um filme com vidas cruzadas. Começa com helicópteros fazendo uma pulverização sobre Los Angeles e termina com um terremoto. Mistura comédia à tragédia a partir das histórias de Raymond Carver.

2) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O terceiro filme de uma trilogia iniciada com Onde Fica a Casa do Meu Amigo? e cuja parte do meio é E a Vida Continua. Em cena, um rapaz tenta se declarar e se aproximar da mulher que ama durante a realização de um filme. É a única oportunidade para revelar seus sentimentos.

1) Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

Pode-se esperar qualquer coisa de Cronenberg, menos um universo de pessoas normais, ou próximas a isso. Em Crash, sua obra-prima, ele une com perfeição o universo do desejo carnal à tara pela velocidade, pelo risco, pela morte. Em cena, um rapaz vê-se enredado a um grupo que tem como prazer a reconstituição de famosos acidentes de carro e o risco que oferecem. Carne e máquina, ao gosto de Cronenberg.

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Oito grandes filmes sobre o mal-estar da vida urbana

A cidade grande é o ambiente perfeito para histórias de pessoas solitárias, invisíveis, em busca de afeto. Histórias sobre impessoalidade, niilismo, dor, perda, sobre vidas contra a frieza ao redor. Na lista abaixo, a violência divide espaço com a tragédia familiar, o desejo de fugir com a fuga ao sexo. Grandes filmes sobre a vida moderna e seus espaços.

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A Turba, de King Vidor

No interior dos grandes prédios, homens em fila se assemelham a formigas. Nessa obra-prima de Vidor, o protagonista (James Murray) muda-se para a metrópole e encara o competitivo mercado de trabalho. Mais tarde, ele casa-se e tem filhos. As condições financeiras não mudam tanto. E, para piorar, sofre uma tragédia na família.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder

Os escritórios de Nova York foram inspirados nos espaços de A Turba. A esse mal-estar gerado pela arquitetura, Wilder acrescenta a vida de homens e mulheres em encontros corriqueiros, seres solitários que se esbarram apenas no elevador. Por ali, o protagonista (Jack Lemmon) aluga seu apartamento para encontros de amigos do trabalho.

São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person

A trajetória de Carlos (Walmor Chagas), funcionário de uma grande empresa, pouco a pouco cansado de sua vida. No filme de Person, os sinais da grande cidade já podem ser vistos na incrível cena de abertura, com o reflexo dos prédios no vidro do apartamento, enquanto o casal briga em seu interior. Obra-prima do cinema nacional.

Playtime – Tempo de Diversão, de Jacques Tati

O senhor Hulot (Tati) mete-se em outra confusão, dessa vez entre prédios futuristas, no trânsito, em salas envidraçadas, um restaurante e um aeroporto. Acinzentado, o filme reproduz um universo de pessoas presas a pequenos quadrados, ou a girar em círculos, como se vê em uma das cenas finais. Apesar de cômico, a crítica é contundente.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Travis (Robert De Niro) vaga por dias e noites de Nova York em seu táxi. Esbarra em bandidos, cafetões, políticos influentes e uma prostituta que deseja salvar. Quando percebe que está sendo cercado por tudo o que há de pior nessa cidade, arma-se e parte para a luta. Marco dos anos 70, é o filme mais importante da carreira de Scorsese.

Os Terroristas, de Edward Yang

Diferentes personagens esbarram-se nesse grande filme taiwanês. Há, por exemplo, a mulher que sonha em escrever seu livro, seu marido que almeja um cargo melhor na empresa, ou mesmo o fotógrafo confinado em um quarto escuro, com suas fotos e, a certa altura, ao lado de uma fugitiva. A cidade é quadriculada, a vida tem frieza.

Naked, de Mike Leigh

Algumas horas na companhia de Johnny (David Thewlis), um homem que abusou de uma mulher, furtou um carro e mudou de cidade. Um homem desesperado, cujas palavras são armas contra os outros – e contra o espectador. De Manchester a Londres, ele encontra todo o tipo de gente. Como ele, os demais não encontram qualquer saída.

Shame, de Steve McQueen

O homem ao centro, na pele de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Não consegue parar de consumi-lo – de maneira física ou visual. Em suas andanças, McQueen registra uma cidade impessoal, de pessoas em busca de prazeres e encontros momentâneos – embaladas pela canção “New York, New York”, na voz de Carey Mulligan.

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James Gray: era uma vez na América

Cinema de gênero é quase exceção entre os melhores cineastas que começaram a fazer filmes nas últimas décadas. James Gray, por isso, pode ser considerado um autor raro, um diretor em busca do velho romantismo fechado, dedicado a contar histórias, que parece não esconder nada do espectador. Tudo é entregue à tela, sem rodeios.

Suas histórias envolvem família, amores perdidos, situações cotidianas com jovens delinquentes. Tentam recuperar certo espírito americano de perda, em filmes sobre seres hostilizados em seu próprio seio, sobre tradições desequilibradas, com situações que levam ao “efeito simples” da bandidagem, o “nós contra eles”.

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É provável que Gray estivesse pensando em Terry Malloy, a personagem de Marlon Brando em Sindicato de Ladrões, quando criou – em parceria com o diretor e roteirista Matt Reeves – o jovem Leo Handler (Mark Wahlberg) de Caminho Sem Volta.

Leo teve problemas com as autoridades, pagou pelos erros. Basta seu olhar, no interior do metrô, ainda na abertura, para saber um pouco do que passou. Um policial à frente, no mesmo vagão, causa-lhe incômodo. Trocam olhares de desconfiança, o que dá novas pistas sobre a personagem em questão, que acaba de retornar da cadeia.

Não por acaso, a primeira imagem do filme mostra a saída da escuridão, quando o trem deixa o túnel e chega à luz. O filme todo será assim: um conflito entre luzes e sombras, o que representa a própria condição de seu jovem protagonista sem sorte.

Contra Leo não está apenas a polícia, mas todo um sistema que inclui a máfia, os políticos, a justiça e mesmo a família. Ao fim, todos darão as mãos em um tratado macabro. E a Leo resta o sentimento de que será como sempre foi, não muito diferente de outros subalternos, alguém que nada pode fazer contra os chefes do bairro.

Malloy vem à mente. A grande personagem de Marlon Brando, que havia conferido ao cinema certa ambiguidade típica ao jovem, está ligada às personagens de Gray. Mesclam-se nelas a desconfiança em relação a tudo, a consciência e a busca pela justiça.

Elia Kazan joga nas costas de seu protagonista a luta inglória contra o sistema mafioso que domina os portos. Contra Leo está a corrupção na rede do metrô de Nova York. Ele descobre o pior sobre o melhor amigo, também sobre seu tio, um mafioso que vive à base da imagem do bom homem de negócios.

A saída da escuridão torna Leo alguém mais frágil, alguém que renasce vazio àquele mundo de surpresas, de festas e novidades, no qual tudo parece fácil e à mão. Leo será vítima dos desejos: o amor que tem pela sua própria prima, a bela Erica (Charlize Theron), e a confiança no amigo Willie (Joaquin Phoenix).

A aparência de facilidades, contudo, não é sedutora: Gray filma os ambientes como em típicos filmes de máfia, o que leva a pensar, de forma automática, em O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Salas escuras com homens que tramam o destino dos outros, com detalhes vermelhos ao fundo e mulheres do lado de fora.

Gray declara-se fã de Coppola. Diferente do mestre, suas personagens são mais leves, menos comprometidas com o universo fechado da máfia. Ora ou outra escapam às ruas, onde, no caso de Leo, encontram problemas. É na companhia de Willie que ele envolve-se em um crime. A fatura tem peso: um segurança morto e um policial em coma.

Do dia para noite, Leo torna-se um indesejado: seus problemas chegam aos espaços do tio, e os laços de sangue passam a traí-lo. Seus problemas são semelhantes aos de Malloy, que não pode ser outra coisa aos olhos da máfia senão um garoto de recados.

Curioso notar o conselho de seu tio Frank (James Caan) quando o menino pede-lhe ajuda. Frank diz que Leo deve fazer um curso e se tornar maquinista. O conselho tem duplo significado: deseja manter Leo em uma posição social inferior (o que já tem) e, no caso do poderoso tio, revela um homem preocupado.

Frank, apesar de vilão, carrega essa ambiguidade: ele deseja que o menino não se envolva com a máfia e que se torne maquinista. Por outro lado, Leo inclina-se ao caminho mais curto: deseja, como Willie, ter mais dinheiro, mais poder e, talvez, conquistar o coração de alguém como Erica. Ou o da própria.

Seu sentimento pela moça é claro. À frente, Willie descobre que eles já tiveram um curto romance no passado. Mas Erica não ama mais Leo. Seu coração agora é de Willie. Esse triângulo levará a uma briga entre os homens, na rua, filmada a distância.

Tal como Malloy, Leo terá de mudar de lado para conseguir impor o que entende como justiça. Diferente de Malloy, em um tempo com mais politização e, ao que parece, corrupção, terá de aceitar um acordo entre empresas que disputam o controle dos metrôs – um acordo que beneficiará a todos, principalmente os criminosos.

De quebra, Leo ainda tem uma mãe doente, situação semelhante à dos irmãos do primeiro filme de Gray, Fuga para Odessa, separados pela criminalidade. O mais novo, Reuben (Edward Furlong), ficou com os pais em uma Nova York fria, de contornos envelhecidos, que remete à mesma América de Caminho Sem Volta: local sem muitas opções e no qual os bandidos misturam-se às pessoas comuns.

O irmão de Reuben é um matador de aluguel que decidiu reaparecer, ou que simplesmente reapareceu por acaso durante um de seus serviços. É Joshua (Tim Roth), raivoso e adepto à lei das ruas, às vezes (poucas) um sentimental.

Fuga para Odessa valeu a Gray o Leão de Prata no Festival de Veneza, o que o levou a Caminho Sem Volta. Fiel a seus temas e estilo, Gray – a exemplo de realizadores como Martin Scorsese e Sidney Lumet – conta histórias em um terreno que conhece. Cresceu justamente no Queens, onde sua segunda obra é ambientada.

Na ocasião do lançamento de Caminho Sem Volta, a Miramax queria cortar parte do filme. Gray foi duro e recusou: queria o filme como havia idealizado. Em Cannes, na competição pela Palma de Ouro, o longa foi recebido com frieza.

Os temas e os sentimentos aos quais o filme apela – a dificuldade para encontrar um lugar no mundo, para sobreviver às ruas, para se enquadrar à própria família – já estavam em Fuga para Odessa. Seu sentimento de exclusão, em clima frio, ajuda a explicar as personagens. É indicativo que essa obra de estreia comece com Reuben na sala de cinema, vendo um filme.

A película queima durante a sessão e resume o que vem pela frente: a imagem inexata, distorcida, coberta. E será justamente Reuben a vítima desse obstáculo, quando é confundido com um bandido e morto por um tiro. A bala atravessa um lençol branco antes de lhe atingir. Sua sombra poderia indicar qualquer um, qualquer ser.

Ele, como Leo, é vítima dos pecados alheios. Aparente inocente em um universo dominado pela bandidagem, a mesma que lhe fornece um passaporte. Para Reuben, a oportunidade de ficar com seu irmão, alguém que ainda ama; para Leo, a oportunidade de ter algo e talvez conquistar Erica, ou apenas fugir da escuridão.

O fim da luz em Caminho Sem Volta é como a película que queima: um convite à frustração, ao nada, a porta de saída de um mundo atraente mas perigoso.

Fuga para Odessa inclui as cobranças do pai (a figura de autoridade que também tem seus pecados) e as dores da mãe. O pai é vivido por Maximilian Schell, a mãe por Vanessa Redgrave. Quando ela tem seus ataques de dor, o pai acode-lhe. Ao mesmo tempo, Reuben vê a relação pela pequena abertura da porta, pela luz que escapa do lugar. O amor converte-se em sofrimento. A família está desintegrada.

Os Donos da Noite, terceiro filme de Gray, é também sobre personagens presas às luzes e sombras. Retornam Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg nos papéis de irmãos vivendo em universos opostos: um é gerente de uma casa noturna, chegado a drogas e diversão, o outro um policial honesto e pai de família.

A máfia volta à cena e, para Gray, oferece a quebra de divisões: está dentro e fora de casa, nas pessoas que se ama, nos melhores amigos, nas noites de festa. Os opostos tocam-se pelos efeitos da urbanização e da religiosidade, entre violência e gestos de amor, com a presença de seres que não se definem, a exemplo de Leo ou Joshua.

O dono das contradições é Bobby Green (Phoenix), filho de policiais e a serviço da máfia. Compõem sua rotina homens de moral duvidosa. Há, de resto, alguns “intrusos”, entre eles o pai e o irmão, ora ou outro para fazê-lo lembrar do caminho certo.

Bobby é gerente de uma casa noturna e, com alguma frequência, tem de se colocar no meio de brigas e retirar mulheres com os seios à mostra de cima do balcão. Ao aceitar voltar à (velha) família, embarca em outro universo, em outra festa, na qual o irmão e o pai revelam-lhe outros costumes, o caminho do qual destoa.

Em suas contradições, Bobby é sempre o mais interessante, o mais comprometido com a desgraça que se avizinha, pois será ele, de certa forma, o responsável por ela.

Imerso em seu mundo de pecados e permissões, ele não pode, de cara, aceitar um pedido do pai e do irmão. Bobby é convidado a ajudar a polícia a prender um poderoso traficante que frequenta a casa noturna em que trabalha. É nesse pedido que os mundos tocam-se: o momento em que Gray fará uma mistura à sombra da religião.

É na igreja, a certa altura, que o pai, Burt Grusinsky (Robert Duvall), explicará a situação que os envolve: ou se está de um lado ou de outro, com Deus ou com o Diabo. Bobby, na divisão do tabuleiro, não encontra fuga: será condenado a sofrer ao não estar nem de um lado nem de outro, ao apresentar em si próprio a confusão.

É como o Leo de Caminho Sem Volta, renegado, entre as luzes e a escuridão. É o mais interessante em cena e, felizmente, será assim até o fechamento: talvez à exceção dos últimos segundos, nunca parecerá um policial ou um verdadeiro vilão. Na primeira parte da obra, a personagem caminha sempre ao pecado e à contestação: não resiste à imagem do corpo feminino e tampouco liga quando deve brigar com o irmão, que certa noite faz uma batida policial em sua casa noturna. Enfurece-se quando perde a autoridade.

Será tragado, depois, à resignação: terá de entender que, quando seu pai e seu irmão travam uma guerra, não resta outra opção: deverá estar do lado da família. O lado errado fornecia-lhe delícias, mas, aos olhos de Deus, será sempre o lado errado. Não há o que fazer. E Gray sacrifica as delícias da vida sob a influência da religiosidade.

Nova York continua suja em Os Donos da Noite, no fim dos anos 80, e uma avalanche de cocaína ganha espaço enquanto se fixa a aparência de liberdade nas festas em casas fechadas, de luz escassa, ao som de “Heart of Glass”. É ao som dessa música, após velhas fotos do velho mundo policial, nos créditos, que surge o protagonista. Bobby vai das sombras à luz – seguindo o movimento de Leo, do túnel à claridade.

Como em Caminho Sem Volta, esse movimento evidencia sua condição. Ao sair das sombras, ainda na abertura, Bobby é levado ao desejo, ao corpo da namorada Amada (Eva Mendes). Ela insinua-se, leva as mãos ao meio das pernas e deixa suas partes intimas saltarem à tela levemente. O rapaz desliza a mão e a boca pela sua superfície.

Gray estabelece o universo de Bobby como o da permissividade, da sexualidade como liberdade, contraponto ao universo de sua família. Não por acaso, a certa altura Bobby insinua que o irmão deseja ter uma mulher como a sua, sexualmente desejável.

Sua namorada também será estranha àquele meio de homens brancos: é uma latina cuja descendência, à frente, é lembrada pelo pai, que talvez desejasse ao filho uma companheira com outras raízes, uma mulher branca. Amada é quem revela, em carne, a forma de um mundo atraente, à parte, um espaço de estrangeiros e exotismo.

Em Os Donos da Noite, o protagonista morrerá caso não aceite seu destino, caso não recuse os pecados da vida mundana. Como ocorreu a Leo e a Terry Malloy, ele será dominado pelas dores da consciência. E a religião encontra ali seu espaço.

No clássico filme de Kazan, lançado em 1954, é justamente um padre (Karl Malden) o responsável por organizar uma reunião entre trabalhadores, no interior de uma igreja, para que se juntem contra os homens poderosos e corruptos da região portuária.

Pois há algo religioso na caminhada de Bobby, como na de Leo e de Terry – que precisam sangrar para serem aceitos e perdoados pelos outros, e talvez por Deus.

Durante o funeral do velho Burt, ao som das celebrações policiais, Gray mostra a locomotiva ao fundo. Pode ser a mesma do filme anterior, que traz a personagem das sombras à luz, à tentativa de se livrar do passado que a atormentava.

Esse passado inclui drogas e facilidades, bandidos com jeito camarada, dinheiro e sucesso. Inclui também as músicas das casas noturnas nas quais Leo e Bobby embrenham-se na busca do desconhecido, na tentativa de esquecer, talvez, os problemas de fora. E existem ali as mulheres, misto de amor, desejo e perigo.

Janela indiscreta

O protagonista seguinte de Gray é um rapaz desajustado, um suicida. Leonard, à frente de Amantes, não amadureceu por completo e ainda vive à sombra da família – igualmente à sombra da dor de ter perdido a mulher que amava.

Logo na abertura, ele carrega uma capa plástica que cobre a roupa e na qual se lê uma declaração de amor à cidade de Nova York – o emaranhado de prédios e urbanização, sempre às sombras, com becos e festas regadas à dança frenética.

Leonard é vivido por Joaquin Phoenix, ator de quase todos os seus filmes (à exceção do primeiro longa-metragem, Fuga para Odessa). O astro é perfeito ao papel do rapaz deslocado, meio infantil, cuja vida tem significado apenas quando se ama. E isso ajuda a entender, talvez, por que Leonard é um suicida: ele é alguém que ainda acredita em um amor profundo o suficiente para sacrificar a vida, como em antigas tragédias.

Fadado ao sofrimento, Leonard vaga por aquela cidade fria, no inverno que aqui aproxima e separa os corpos em medida semelhante. Mais uma vez, Gray mostra uma comunidade fechada e com seus próprios hábitos. Como em seu primeiro longa-metragem, retornam os comerciantes judeus.

Mas Gray retira uma característica comum a seus filmes passados: a máfia. O problema agora é de sentimentos, em uma obra sobre um homem só, tendo de lidar com seu peso e seus conflitos internos. Ficam apenas problemas amorosos e conflitos entre gerações. Leonard, a certa altura, envolve-se com uma moça judia, filha de um poderoso comerciante que faz negócios com seu pai. Ela é Sandra (Vinessa Shaw).

Representa tudo o que ele podia esperar: é uma mulher companheira, dedicada, reconhece seus problemas passados e, de quebra, diz que deseja cuidar dele. No entanto, o protagonista não é capaz de amar Sandra. Seus problemas remetem ao passado: Leonard não pôde ficar com a mulher que amava porque não podiam ter filhos.

Ao que parece, a questão familiar e mesmo a cultural sobrepõem-se ao amor dele, fazendo mudar sua vida, fazendo com que retornasse àquele estado anterior, ao rapaz que ainda vive com os pais, trancado no quarto, adolescente deslocado que busca nos menores hábitos a saída para esquecer os acordos do mundo externo.

Sem muitos mimos, mas tratado sempre com atenção, para Leonard ou se ama ou não se vive. A certa altura, sua vida muda quando entra em cena uma bela mulher loura (em oposição à morena Sandra), a problemática e sensual Michelle (Gwyneth Paltrow).

Perto mas longe: Michelle vive no mesmo prédio de Leonard, algumas escadas acima, e de sua janela – um pouco mais ao alto – dá para ver o quarto do protagonista. Ele ama-a incondicionalmente em seu estado infantil e contido, em sua maneira extremista de ver o mundo, o que o leva à tentativa de suicídio.

Leonard entende o mundo a partir das emoções, não dos acordos ou das conveniências. Não consegue ser racional. E, com Michelle, parte para festas, para dançar e beber. Sempre ocupará uma segunda posição na vida da vizinha: não um novo amor, mas uma amizade, alguém que serve para a mulher desabafar os problemas.

Michelle desestabiliza, é a mulher que assombra, a moça que coloca a vida do protagonista de cabeça para baixo. Ao fim, quando vai até ele para dar a pior das notícias, emerge das sombras como um anjo do mal. E quando Leonard segue-a até o metrô, no início desse relacionamento, terá de entrar na escuridão. Repete-se o movimento entre luzes e sombras que marca os filmes de Gray.

O amor é tão trágico quanto os laços entre homens em suas famílias e redes criminosas, em seus negócios proibidos. Como outras personagens do cineasta, Leonard segue caminho oposto aos cínicos em pipocam na tela, atraente com suas dúvidas e crises.

O que talvez explique a paixão de Sandra, a moça que deseja não apenas um homem, mas alguém para cuidar, tornando-se mãe. E talvez Leonard deseje ser cuidado, alimentado por uma mulher – como parece indicar a sequência em que Michelle, da janela, mostra-lhe o seio. Ao mesmo tempo materna e erótica.

A mulher problemática já foi vista em outras obras de Gray. Em Caminho Sem Volta havia a Erica de Charlize Theron, a moça rebelde que não suportava os problemas do namorado, ao mesmo tempo dentro e fora do mundo marginal. Em Os Donos da Noite havia a latina Eva Mendes, Amada, tão “estrangeira” quanto Michelle. É como os pais das personagens de Phoenix recebem essas mulheres: estranhas demais para seus filhos, “estrangeiras” o suficiente para colocarem fim a uma linhagem “pura”.

Mais importante que a questão religiosa em Os Donos da Noite é a questão cultural, a permissão para fazer parte e a aceitação observadas também em Amantes. Crescer, diz Gray, é entender (e seguir) as tradições, seus arranjos, à contramão do coração. Quando retorna para Sandra, aparentemente recuperado, o rapaz mostra estar próximo, enfim, da maturidade.

O amor é a corrida a algo que insinua proximidade – a alguns metros, em uma janela indiscreta –, ao mesmo tempo distante e ilusório. Esse amor revela-se apenas uma paixão momentânea, um estágio, e talvez tenha prazo de validade.

Das danças na casa noturna aos gestos de reclusão, no quarto, grudado ao travesseiro, Leonard é alguém cujo amor leva à metamorfose, às várias faces em uma, ao mapa humano que não deixa saída. E isso talvez explique seu desejo pela morte, no início, e sua vitória ao fim: o desejo de viver. Aceita a segurança, o amor do outro.

Às origens

Com Era Uma Vez em Nova York, James Gray mostra a dor de quem carrega o pecado, a busca por se “limpar” em um universo que despeja sempre o que há de pior: a sujeira que se vê em um país em transformação, em uma terra escura e de conflitos.

O que se sobressai é o conflito às vezes íntimo, o da moça imigrante que não pode ser, de cara, alguém como todas as outras moças, mas alguém que, para sobreviver, terá de ser como todas: uma mulher que se entrega aos homens por dinheiro, que sabe que, para sobreviver nessa terra de dinheiro que é a América, terá de pecar.

A América, diz Gray, foi forjada à base do pecado, e nem por isso a religião escapou dali. Ao contrário, persiste. Era Uma Vez em Nova York, sua obra mais completa, tem a ambição de lançar luz ao passado para que seja possível entender sua filmografia. Com essa obra completa e extraordinária, o cineasta faz o que Scorsese tentou com Gangues de Nova York e não conseguiu: mostrar o que dá forma àquela América na qual a lealdade familiar mescla-se à bandidagem.

Ao mesmo tempo uma síntese de tudo o que vem antes, Era Uma Vez em Nova York é um resultado, o capítulo seguinte de uma obra consistente, apenas de altos, sem os pontos baixos comuns a outros diretores americanos pressionados pelo mercado. Gray revela-se – àqueles que ainda não acreditavam – um autor. Um diretor sem medo de reviver uma nova cópia, fiel a seu universo de criminosos e tradições.

A abertura de Era Uma Vez em Nova York faz pensar em O Poderoso Chefão – Parte 2. O diretor nunca escondeu sua admiração por Coppola, que se dedicou, com sua famosa trilogia, a examinar (também) as bases que formaram os Estados Unidos, a confusão aparentemente organizada e reduzida aos balbucios de Marlon Brando (na primeira parte), a um jovem De Niro em busca de vingança sobre os telhados de Nova York.

São imagens que povoam a mente dos cinéfilos: demonstrações sobre os imigrantes nessa América que traz um pouco de tudo, do mafioso velho e aparentemente confiável ao assassino que, na verdade, é justamente o passado desse mesmo homem velho.

Copolla, com maravilhosas metamorfoses, com seu drama mesclado ao épico, é seguido de perto por Gray. Era Uma Vez em Nova York é o resultado de uma carreira voltada a discutir a vida de criminosos apaixonados, em dívida com suas raízes, levados ao extremo do pecado (como a execução presenciada pelo irmão em Fuga para Odessa), também sobre a entrega total a uma missão, à paixão da existência que está sempre tão próxima ao fim (como parece ser o caso do ambíguo Leonard de Amantes).

América de confusões à qual é levada a polonesa Ewa Cybulska (Marion Cotillard), na qual o sol quase não aparece. A Estátua da Liberdade está um pouco distante. Faz frio, como em outros filmes de Gray, e há alguma hostilidade na chegada, no porto em que os imigrantes são examinados e, se necessário, separados e barrados.

Ewa veio à América com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), de quem é separada quando as autoridades descobrem que a segunda tem tuberculose. Sem a irmã, Ewa consegue chegar à cidade com a ajuda de um homem aparentemente bom, Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), ao mesmo tempo em que Magda é detida para ser tratada.

Em sua passagem à suposta liberdade, a protagonista só encontra mais e mais prisões. E sua irmã continua em “terra de ninguém”, sem voltar para trás ou seguir para frente, alguém sem pátria. Gray apresenta – desde cedo, com a Estátua da Liberdade distante e a ausência de luz – uma crítica à América cinzenta, na qual as oportunidades e liberdades são revestidas pela propaganda dos supostos nativos e exploradores.

Bruno não foge à regra. Tal como Ewa, metamorfoseia-se para viver. Ela, ao mesmo tempo santa e pecadora. Ele, ao mesmo tempo monstruoso e compreensivo. A reunião de formas diferentes em uma só pessoa tem justificativa: a sobrevivência.

Não se vive nesse novo país senão por esse viés. É isso o que faz da inocente Ewa – a mais inocente de todas as mulheres de Gray – uma pecadora. Pois terá de trabalhar para Bruno e se tornar mais do que uma de suas dançarinas: terá de se tornar – sob o forte efeito de maquiagem e roupas extravagantes – uma prostituta.

Nesse período de formação de um país tal como se verá mais tarde, pecadores e santos vivem em um só ser. É o que Ewa prova indiretamente, enquanto os supostos religiosos – como seu tio, um homem bruto – revelam-se intolerantes. A situação de Ewa é ainda pior quando é acusada de ser uma mulher fácil, de moral duvidosa.

“É pecado tentar sobreviver?”, questiona ela, à tia, quando precisa de um pouco de dinheiro, perto do fim, para pagar pela liberdade da irmã. Apenas o dinheiro fornece saídas nessa América em formação: é tomado pelos guardas corruptos, pelos policiais, até mesmo pela moça ao centro. Vale tudo para tê-lo e sobreviver.

Mais interessante é Bruno, vivido por Phoenix, o ator definitivo de Gray. Todo seu aparente equilíbrio cai por terra com a chegada de Ewa. A bela Ewa será a mulher a desequilibrar seu paraíso, ainda que sem intenção. O fato é que Ewa não tem desejos aparentes, é retraída e contrasta tudo o que é necessário para sobreviver naquele meio: ela não tem vocação para o pecado.

Encontrar tal vocação é esbarra no pecado. Quando nega um abraço de Bruno, a moça é maltratada, jogada ao canto e tem seu crime – o furto de dinheiro – revelado. Será julgada, levada a dançar em um cabaré ocupado por homens gritões, mostrados com pouca luz entre a plateia enquanto as mulheres dançam.

Não há possibilidade para Ewa. Resta-lhe apenas Bruno, o indesejado, o único capaz de ajudá-la, ao fim, a salvar sua irmã. Bruno é o acesso ao mal que se deve carregar, necessariamente, para escapar com vida nesse novo país. É a mesma contradição de O Poderoso Chefão, também de Era Uma Vez na América, de Sergio Leone (resultado de faroestes anteriores em que a América revelava-se em seu gênero mais caro).

Para complicar, Gray traz ainda um terceiro personagem fundamental em Era Uma Vez em Nova York. Trata-se do mágico Orlando (Jeremy Renner), cujo nome verdadeiro é Emil. Descontraído, ele chama a atenção de Ewa. Ao mesmo tempo um mentiroso como pede a profissão, é sincero e que crê na liberdade dela.

É também o primo de Bruno. Alguém que desperta a fantasia do impossível, da ilusão, alguém que leva a mulher à fuga quando o espaço ao redor, concreto e obscuro, não possibilita a esperança. É o oposto de Bruno: alguém que não precisa ser perdoado, que leva à salvação, que não tem traços religiosos.

A cada encontro com Bruno, Orlando é obrigado a fugir. Depois de uma briga entre primos, Bruno termina preso. No dia em que sai da cadeia, é Ewa quem está por ali, como um animal à espera do dono. Uma relação de entrega, um pouco irracional.

Ao fim de Era Uma Vez em Nova York, Gray coloca em cena, no mesmo quadro, o caminhar de Bruno à prisão, em reflexo, e a fuga de Ewa e sua irmã, com o barco, pelo mar, através da janela. Enquanto o homem é o próprio universo escuro e interior, Ewa é a parte exterior, de volta ao mar, sabe-se lá para qual destino.

O sacrifício de uns permite a sobrevivência de outros. Gray, com essa imagem-síntese, explica toda sua filmografia. Pois o sacrifício esteve em todos os seus filmes: o de Reuben em Fuga para Odessa, o de Erica em Caminho Sem Volta, o de Burt em Os Donos da Noite e o do próprio Leonard, o rapaz com tendências suicidas de Amantes. À contramão, outros, como Ewa, encontram a saída.

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James Gray é um cineasta americano nascido em Nova York, em 1969. Dirigiu apenas seis longas-metragens até o momento. (Observação: este ensaio foi escrito antes da estreia de Z: A Cidade Perdida no Brasil.)

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Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

A interpretação do vermelho aparece com certa frequência em análises de filmes. No cinema de Scorsese, por exemplo, fala-se do vermelho como aproximação da violência e mesmo da culpa católica. Há uma infinidade de exemplos. A lista abaixo traz apenas sete, a partir de filmes que se servem dessa cor – alguns mais, outros menos – como elemento de linguagem, com papel fundamental na história retratada.

Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Desde os créditos é possível ver tons avermelhados entre as folhas da árvore, mais tarde pela luz da pequena janela, quando a mãe consola a filha; ou o vermelho do vestido de Cary (Jane Wyman), ainda no início, ou o da roupa xadrez do homem que ela ama (Rock Hudson). E, ao fim, o vermelho que recobre a televisão e emoldura a mulher.

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Vincent Price é o príncipe Próspero e talvez o próprio Demônio neste que pode ser o melhor filme de Corman. O vermelho chega primeiro em seu traje, na floresta entre sombras, quando dá uma rosa aos condenados que passam por ali. Também o vermelho do cômodo secreto, do figurino de uma protegida, a cor como aproximação da morte.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

O filme envolve uma família monstruosa e tem direção de fotografia de Sven Nykvist, colaborador habitual de Bergman. O vermelho recobre os cenários. Entre suas possíveis representações, uma frase do cineasta sueco talvez forneça a mais exata: “Acho que o interior da alma humana se parece com uma membrana vermelha”.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Em um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, o vermelho persegue as personagens a todo o momento: da tinta que cai sobre a foto, na abertura (e que antecipa a morte da filha), à capa vermelha que surge com frequência pelas vielas e espaços de Veneza. O vermelho como sinal do terror, do espírito da filha ou de algum psicopata.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Do sangue na faca ao sangue no vidro, com a mulher morta, o vermelho em questão é o escuro, como aponta o título original. Ou seja, o vermelho sangue. Entre os tantos momentos que evocam a cor, nenhum consegue resultado semelhante ao da palestra, na abertura, em um teatro, quando a médium (Macha Méril) entra na mente do assassino.

Sorgo Vermelho, de Zhang Yimou

O vermelho que recobre a heroína (Gong Li), no início, denota seu aprisionamento, seu sacrifício. O vermelho, no encerramento, estará por todos os lados quando os homens do campo decidem confrontar os japoneses que invadiram a China, momento em que a cor ocupa o céu e a terra, ao passo que pai e filho caminham sobre o sangue.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

O projeto de Kieslowski, com três filmes banhados nas cores da bandeira francesa, termina com o vermelho. É o melhor dos três. Em cena, uma modelo (Irène Jacob) sente-se atraída ao mundo de sombras de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Essa aproximação provoca mudanças em sua vida, em um filme sobre unificação.

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As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

Por muito tempo, comédias têm sido associadas apenas a filmes que fazem rir. Ou que fazem rir em excesso a partir de gestos físicos e piadas fáceis. Há também a ideia de que a comédia não pertence ao plano real: vale rir de tudo, claro, pois tudo é assumidamente falso. Tais ideias, em certa medida, ligam-se à forma americana de fazer comédia, que legou o pastelão, a screwball, a comédia física que não se faz mais.

Mas a comédia vai além: a constatação do absurdo, até o espectador corar, também é fazer comédia. Absurdo que tem inegável dívida com a realidade, e que pode ser tão cruel, tão estranhamente atual, que o espectador não tem gargalhadas, mas o leve sorriso de canto de boca. A constatação do sarcasmo. E talvez deixe o cinema até um pouco triste, em alguns casos com a certeza de ter assistido a um gênero nobre. (Observação: a lista abaixo é puramente pessoal.)

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50) Frank, de Lenny Abrahamson

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49) Trapaça, de David O. Russell

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48) O que Resta do Tempo, de Elia Suleiman

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47) Meia-Noite em Paris, de Woody Allen

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46) O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

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45) Além do Arco-Íris, de Agnès Jaoui

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44) Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele

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43) Soul Kitchen, de Fatih Akin

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42) Minhas Tardes com Margueritte, de Jean Becker

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41) Contos da Era Dourada, de vários diretores

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40) Tangerina, de Sean Baker

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39) Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro C. Martins

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38) Mistress America, de Noah Baumbach

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37) Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

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36) Tudo Pode dar Certo, de Woody Allen

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35) Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

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34) Vocês, os Vivos, de Roy Andersson

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33) Nebraska, de Alexander Payne

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32) Rainha & País, de John Boorman

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31) Dois Caras Legais, de Shane Black

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30) Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein

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29) Marguerite, de Xavier Giannoli

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28) Na Mira do Chefe, de Martin McDonagh

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27) Café Society, de Woody Allen

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26) Queime Depois de Ler, de Ethan Coen e Joel Coen

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25) O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

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24) O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

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23) Ela, de Spike Jonze

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22) Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

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21) Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

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20) O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

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19) A Grande Aposta, de Adam McKay

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18) O Porto, de Aki Kaurismäki

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17) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

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16) Em Outro País, de Hong Sang-soo

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15) Frances Ha, de Noah Baumbach

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14) Blue Jasmine, de Woody Allen

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13) Amor & Amizade, de Whit Stillman

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12) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

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11) Ervas Daninhas, de Alain Resnais

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10) O Artista, de Michel Hazanavicius

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9) Força Maior, de Ruben Östlund

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8) Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, de Roy Andersson

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7) Toni Erdmann, de Maren Ade

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6) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

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5) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

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4) O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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3) Sieranevada, de Cristi Puiu

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2) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

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1) Habemus Papam, de Nanni Moretti

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