Margin Call – O Dia Antes do Fim

Ainda é possível falar do ator Kevin Spacey?

Dá para separar a pessoa do ser fictício que ela encarna, o homem em sua vida particular do homem visto nas telas do cinema? Para muita gente – sobretudo aos extremistas do mundo virtual – a resposta é “não”. Ocorreu com artistas extraordinários, cujos nomes foram envolvidos em escândalos. Ocorreu recentemente com o ator Kevin Spacey.

Você pode não gostar de pessoas que praticam assédio sexual. Entendo, pois também não gosto. Talvez você seja homofóbico, o que é um problema seu (não do ator), e talvez você não goste de homossexuais que revelam sua opção sexual para tentar tirar a atenção de outra questão – como tristemente fez Spacey após ser acusado de assédio.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Questões pessoais à parte, algo não se pode negar: Spacey é um grande ator, independente do que faz ou fez em sua vida pessoal, independente do mal que causou a outras pessoas. Não que a arte seja mais importante que a vida e, por isso, capaz de suavizar o ato criminoso. (Um médico que estupra uma mulher à noite e salva uma vida de manhã não merece absolvição. Deve pagar por seus atos como qualquer pessoa.)

Necessário, sim, tentar separar ficção e realidade quando se trata de uma arte como o cinema, calcada na representação: o ator, parte de uma obra, pertence a um mundo fictício no qual existe como personagem, ao qual é levado, profissionalmente, para desempenhar outra vida e, como provou Spacey mais de uma vez, possivelmente fazer com excelência e vigor.

Não é possível amar menos o Kevin Spacey preso à tela – em Beleza Americana, Seven – Os Sete Crimes Capitais e Os Suspeitos (três filmes em que ele faz figuras curiosas ou dignas de total reprovação) – porque o homem Kevin Spacey cometeu erros na vida real, no universo tangível em que todos, sem exceção, estão sob a batuta da lei.

E, goste você do ator ou não, muitos de seus filmes seguirão vivos. Muitos seguirão assim também graças a ele, para a sorte de seu espectador e dos fãs de cinema, como este autor. Verdade, também, que há algum tempo Spacey não entrega um grande filme, ou uma grande atuação, sendo mais lembrado como o protagonista da série House of Cards.

Nos anos 90, o ator colecionou interpretações extraordinárias e, à medida que perdia espaço na linha de frente de Hollywood, passou a coadjuvante de luxo, geralmente na pele de chefões do crime ou homens odiosos. É verdade que Spacey sempre caiu bem nesse tipo de personagem, o ser arrogante que o espectador sonha destroçar.

Como esquecer, por exemplo, o tom calmo de seu serial killer em Seven, nos diálogos finais com Brad Pitt? Em uma situação como aquela, quem não puxaria o gatilho? Parte da grandeza dessa sequência se deve a Spacey. O ator certo para o (pequeno) papel certo. E, mais tarde, em outro papel menor, mas de grande importância: o humano entre tantos tubarões em Margin Call – O Dia Antes do Fim. Justamente Spacey.

Não só de vilões e seres asquerosos ele viveu. Mas, em todos os casos, viveu outras vidas, de seres que só existem nos limites das telas do cinema ou da televisão. Nada a ver com a vida pessoal, com o homem que agora é o centro das notícias que mesclam o mundo do espetáculo às páginas policiais, ao lado de um certo Harvey Weinstein.

Importante não perder o ator de vista. O homem e seus crimes devem ser deixados à esfera jurídica. Não se trata de perdoar, tampouco de incriminar. Daqui a décadas, quando Spacey não estiver mais entre nós, alguns de seus filmes permanecerão vivos, como os de outros grandes atores que já morreram. Para a alegria dos cinéfilos.

Veja também:
Os cinco melhores filmes com Kevin Spacey

Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

Anúncios

Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster

O poder de Kyle Budwell (Jack O’Connell) não tem origem apenas em sua arma ou no colete com bombas colocado em seu refém. Mais do que esses itens, tem a seu favor o motivo que o levou até ali: Kyle apostou alto em ações e perdeu tudo.

Os argumentos do rapaz falido serão revelados durante um programa de televisão chamado Money Monster, do qual vem o homem que veste seu colete com bombas, sob a mira de sua pistola, o apresentador Lee Gates (George Clooney).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

jogo do dinheiro

Não leva muito tempo para que fique clara a confusão do enredo: em Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster, Kyle é menos vilão do que vítima. Semanas antes, ele resolveu seguir uma dica de Gates, que posa de guru das finanças enquanto faz piadas.

Com argumentos tentadores para vender ações e enriquecer alguns à medida que empobrece outros, o apresentador terá de duelar contra o desesperado Kyle, cuja nova condição dá-lhe argumento maior, difícil de dobrar: é vítima direta, palpável, desse show que materializa a sociedade do dinheiro sintético, encoberta pelo espetáculo.

O mais interessante no filme de Foster, portanto, é a relação entre homens, no ponto em que Gates deixa de ser apenas a imagem sólida do americano que deu certo – ou que faz dar certo – da televisão, belo homem de meia idade e bom vendedor.

O garoto é o oposto: perdeu a vida ainda cedo e, nesse jogo, ou nesse programa, usa a violência para se igualar ao outro, ou para superá-lo. Como se vê mais tarde, sua intenção não era colocar tudo pelos ares, mas colocar às claras uma fraude.

O sistema é o grande fraudador, parece dizer o rapaz no início da obra, quando invade o programa de tevê. Se por um lado a crítica é inerente, por outro o roteiro sai em busca do vilão de carne e osso, papel que resta ao dono da empresa cujas ações foram compradas por Kyle, não ao apresentador do show – ainda que indiretamente culpado.

O filme de Foster erra ao optar por mais voltas, mais personagens para além dos limites do estúdio. Erra ao apontar o dedo para um homem, não ao sistema. Ainda que emocionante, falta-lhe a coragem de obras como Margin Call – O Dia Antes do Fim.

Tão perigoso quanto o sistema financeiro é o espetáculo televisivo. A aproximação é tamanha que fica difícil separá-los. Por consequência, a mistura desemboca na dança de Gates, no sistema complexo representado como algo fácil e até divertido.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Cinco filmes recentes sobre o capitalismo selvagem