Joe Pesci

Cassino, de Martin Scorsese

Homens fortes costumam se curvar a mulheres belas. Inexplicavelmente, tornam-se idiotas, servis. Pouco antes de Cassino, Sharon Stone colocou um bando deles aos seus pés com apenas uma cruzada de pernas – sem usar calcinha, é verdade – em Instinto Selvagem. Martin Scorsese possibilitou que ela continuasse sua destruição.

A vítima da vez é o gerente de um cassino em Las Vegas, o homem mais esperto de sua espécie, ao qual alguns figurões recorriam, em outros tempos, para saber o resultado das apostas. E Sam “Ace” Rothstein (Robert De Niro) não se saia mal. Acertava todas. O rato dos jogos é o homem perfeito para dirigir um cassino na terra do consumo.

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Em Las Vegas – cidade resumida a um ponto de luz visto do alto, à noite, e com um deserto escuro à volta -, Ace funda pouco a pouco seu jeito infalível de trabalhar: comparece no local diariamente, vê de perto as falcatruas e a sorte (quando há) e sabe lidar com cada uma das peças, ou funcionários, dessa casa de jogos.

Ao longo das narrações, dos cortes rápidos, do ritmo frenético que pouco se viu nos filmes de Scorsese (o que também dá a impressão de algum descontrole), desfila ao espectador uma linha de montagem: é o dinheiro, em forma de moedas, que corre por uma esteira, ou, à mesa, os maços de dólares que se avolumam, depois levados ao armário.

Ace explica essa “produção” do dinheiro, do cliente que não pode ganhar muito, e que sempre deve perder, ao poderoso mafioso em outra cidade, no Kansas, à espera das notas. O financiamento da máfia é relatado com distância: o espectador, no fundo, não sabe quem são aqueles homens no topo da pirâmide. Seres como o Marlon Brando de O Poderoso Chefão.

Mas o cineasta prefere a figura ao meio: nem o bandido barato visto no maravilhoso Caminhos Perigosos nem o chefão de outros vários filmes de máfia. Ace, com seu olhar gatuno, com seu faro sem falhas, pode ser o homem que sofre nas mãos de uma mulher, o homem verdadeiro que se confessa a ela quando pretende se casar, ao mesmo tempo o homem que enche essa mesma dama de roupas, joias, dólares.

É rico o suficiente para entretê-la e representar a perdição do mundo consumista. E, sobretudo, é palpável. De certa forma, o tipo impresso por De Niro – como o de Stone, ou o de Joe Pesci – foi gestado antes, em outros filmes de Scorsese ou não. O espectador já conhece essas pessoas e o enredo de traições que pouco a pouco ganha espaço.

Em suas noites de trabalho, voltado às pessoas em roletas, mesas de cartas ou pequenas máquinas, Ace descobre Ginger McKenna (Sharon Stone). Pior: sabe tudo o que ela – perto ou distante – representa. Sexo, dinheiro, luxúria, mentira – tudo em uma única figura. Scorsese antecipa isso quando a loura joga as fichas ao alto.

A ostentação, o barulho, também a diversão. Ace inclina-se, não resiste. O espectador entende, ou não: como alguém tão esperto, com tantas mulheres ao lado, tantas noites, poderia se deixar enganar facilmente? É o mistério do filme, e que carrega alguns nacos de humanidade. É também necessário dizer que Stone não é uma mulher qualquer.

Em Cassino, ainda há Joe Pesci, James Woods, além de outros coadjuvantes típicos. Os suspeitos de sempre. Veloz, o filme é, em momentos, uma delícia. É também um desfile de exageros, a tentativa de Scorsese superar o que já fez sobre esse mesmo universo: dinheiro a mais, mortes a mais, traições a mais.

Em declaração a Richard Schickel em Conversas com Scorsese, o cineasta afirma que nesse universo “não existe uma coisa como lei, não existe nada. A coisa simplesmente vai. E depois eles se autoimplodem”. A derrocada começa a tomar forma com a aparição de Ginger. Perfeita às aparências, um pouco como Las Vegas, cidade iluminada que a embrulha.

(Casino, Martin Scorsese, 1995)

Nota: ★★★☆☆

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Bastidores: Cassino

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Meu Primo Vinny, de Jonathan Lynn

Tribunais são ótimos espaços para fazer comédia. O cinema americano soube aproveitá-los, às vezes até de forma absurda, em tempos diferentes, como no clássico Diabo a Quatro, com os Irmãos Marx, ou mais tarde no musical Chicago, de 2002.

É o espaço no qual a farsa serve à perfeição: todos precisam, por obrigação do local, manter a pompa, o terno impecável, a forma cordial, jurídica, que o ritual exige. Todos são moldados à interpretação, o que torna o casal de Meu Primo Vinny um contraste.

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O protagonista e sua noiva, interpretados pelos faladores Joe Pesci e Marisa Tomei, preferem o improviso. São pessoas exageradas da cidade grande, a confrontar os sulistas de um pequeno município em que ocorreu um crime brutal.

Vinny (Pesci), um advogado que nunca salvou ninguém da cadeira-elétrica, ou mesmo de outro destino infeliz, vai para essa cidade defender o primo Bill (Ralph Macchio), acusado de matar o balconista de um mercado na companhia do amigo Stan (Mitchell Whitfield). O espectador sabe que ambos são inocentes. O filme move-se não para a inocência da dupla, mas para a comédia que nasce da formação de Vinny.

A comédia possibilita o exagero, brinca com inversões: apesar da bota com ponta de ferro, lustrada, Vinny não é o típico caipira. Não pertence a esse local pequeno, com barro por todos os lados, no qual sempre alguns sons insistem em tirá-lo da cama.

É sobre o confronto entre dois países diferentes em um, da falsa moralidade dos juízes que insistem em tentar desmascarar homens que se assumem falsos (não os que fazem o contrário), sobre o esporte preferido de parte dos americanos: prender pessoas.

Não basta uma vez. Vinny será preso pelo menos três, será levado à cadeia por não se vestir adequadamente no tribunal, por dizer palavras excluídas do vocabulário do juiz bonachão da pequena cidade em que se desenrola esse caso cheio de detalhes.

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E será na prisão, a certa altura desse filme de surpresas, que ele consegue, enfim, ter sua noite de sono tranquila – mesmo entre os sons de uma possível rebelião. É nesses sons que ele encontra, talvez, a América que conhece, o barulho ao qual está adaptado.

Ele recorre até mesmo à gordurosa culinária sulista para provar a inocência dos jovens acusados de homicídio. Vale quase tudo para vencer o caso. A comédia permite concessões: as piadas no tribunal, ao fim, são parte de um absurdo que guarda algo real, como no momento em que uma senhora pacata pede que os acusados sejam “fritados”.

Tomei ganhou um inesperado Oscar interpretando a namorada de Vinny, Mona Lisa Vito, coadjuvante que rouba a cena, dotada de timing perfeito para interagir com o expressivo Pesci. Suas roupas extravagantes, sua maneira de se exibir e sua forma de resolver os problemas sem muito esforço dão a ela um toque especial.

Mesmo com momentos artificiais, o filme de Jonathan Lynn, a começar por Tomei, faz boa comédia sem esforço. O riso vem fácil. Suas pequenas partes dizem muito sobre o que está em jogo: a necessidade de encontrar culpados a todo custo, de “fritar” alguém.

(My Cousin Vinny, Jonathan Lynn, 1992)

Nota: ★★★☆☆

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O boxe, o afeto e a penitência

As personagens de Menina de Ouro encontram afeto graças ao boxe. No filme de Clint Eastwood, não se trata do afeto entre lutadores, mas entre a atleta e seu treinador, a moça doce e o homem mais velho, em relação de contornos paternais.

Frankie Dunn (o próprio Eastwood) é o tipo ranzinza que ainda não fez as pazes com a vida: depois de tantos anos, continua o mesmo, sem evidenciar os problemas do passado, com idas frequentes à igreja talvez em busca de respostas e perdão.

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No trabalho, ele treina atletas que certamente ganharão títulos, mais tarde, sob a tutela de outros homens de negócio – enquanto Dunn assiste às lutas pela televisão.

Um de seus lemas é repetido frequentemente em Menina de Ouro: “Eu não treino mulheres”. O lema será dito para que se instale, depois, a contradição: como lhe ensina a vida, mais de uma vez, homens são traídos por palavras.

O filme de Eastwood, entre socos e pessoas difíceis, aposta nas palavras de afeto. A moça a ser treinada por Dunn passa a ocupar o vazio deixado pela filha que devolve cartas ao pai. Ele guarda todas em sua caixa de sapatos, no alto do armário.

Enquanto é possível supor muito sobre Dunn, quase nada se imagina sobre Maggie Fitzgerald (Hilary Swank). Ela emerge das sombras em sua primeira aparição, como se já nascesse – à tela – com contornos de boxeadora.

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Sua alegria deixa ver alguém amável, incapaz de trocar o velho ranzinza por outro treinador. O boxe resume-se ao esconderijo possível, à ocultação do que a vida tem de pior. O que mais importa no filme de Eastwood está fora do ringue.

Além de Dunn e Maggie há uma terceira peça, tão importante quanto as outras. É o atleta aposentado Eddie, interpretado por Morgan Freeman. Cabe-lhe o papel de observador e anjo da guarda, alguém a unir os lados, a conduzir a narração.

Ele tenta fazer com que Maggie escape de Dunn, para a surpresa do público, talvez prevendo que tamanho afeto leve a um caminho difícil. Como todos, é sentimental e não deixa ver. Cego de um olho, observador, atento às histórias ao redor.

Estranho afeto, em pequenas doses, pode ser observado também em Touro Indomável (foto abaixo), de Martin Scorsese, outro grande filme sobre o universo do boxe. O protagonista, Jake La Motta (Robert De Niro), não consegue demonstrar seus sentimentos.

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Se comparado a Menina de Ouro, o caminho é oposto: o drama empurra o protagonista aparentemente sem coração ao interior do ringue, nunca para fora. Mais tarde, quando é preso, só lhe sobra socar as paredes, forma de expressar a dor.

Momento significativo à composição dessa personagem enérgica é o primeiro contato com sua futura mulher, Vickie (Cathy Moriarty). Como em outros momentos, La Motta precisa do intermédio do irmão Joey (Joe Pesci), também seu agente.

Atacado por seus próprios demônios ao longo de Touro Indomável, o protagonista leva seus arrependimentos ao ringue: entre socos e sangue, sob a câmera realista de Scorsese, chega-se então à penitência. O filme assume contornos religiosos.

O La Motta de Scorsese tem um pouco de seu próprio autor: entre mafiosos e poderosos, nas noites em bares ao som de canções românticas, ele mostra-se deslocado. À frente, tenta a redenção – já gordo e deformado – com piadas e versos ao microfone.

O inimigo desse homem descontrolado é ele próprio. Scorsese prefere o realismo frio e a decadência. Eastwood aposta no som da voz forte de Freeman e no caminhar a lugar nenhum de suas personagens, vítimas de estranho destino.

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Bastidores: Cassino

Com Cassino, Martin Scorsese, dizem, teria feito a continuação de Os Bons Companheiros. É a acusação de quem tenta diminuir a obra. Semelhantes, não iguais. Cassino deseja ampliar o olhar à máfia a partir de toda luxuria disponível, de todo poder à mão. E Sharon Stone vibrando, entre um lance e outro, resume a loucura americana.

Filme com a assinatura de Scorsese, de detalhes inesquecíveis – como a marca da poeira do veículo pelo reflexo dos óculos de Robert De Niro, ou mesmo os movimentos rápidos de câmera, tão rápidos quanto o olhar do protagonista às jogadas no interior do cassino, o que leva à descoberta de golpistas e supostos sortudos.

À época, Scorsese já havia provado ser um dos grandes no ofício da direção. De Niro e Pesci já tinham entrosamento, como se viu em Touro Indomável. E Stone era a joia a ser lapidada, perfeita à personagem.

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