Izïa Higelin

O feminino e o masculino em dois filmes franceses recentes

O feminino, em A Vida de uma Mulher, leva à aproximação, à tela fechada, à falta de profundidade visual, à intimidade e ao sofrimento; o masculino, em Rodin, leva aos gestos bruscos do homem ao centro, o artista que colecionou algumas amantes – entre elas Camille Claudel, a mais conhecida – e mantinha um ar rude e impenetrável.

A exposição desses dois lados, em dois filmes franceses recentes, revela a opção de seus diretores no tratamento dos sexos, não raro a partir de opções estéticas interessantes. O primeiro, Stéphane Brizé, opta pela forma realista, pela câmera livre, às vezes pela aparência de que a feiura pode habitar locais impensáveis: como se vê em A Vida de Uma Mulher, tais escolhas levam à degradação da personagem.

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Nesse universo feminino cercado por mentiras, a protagonista, Jeanne (Judith Chemla), casa-se jovem, após retornar do internato religioso, e logo descobre a traição do marido (Swann Arlaud). Para sua surpresa, o que a leva a um surto e uma fuga em meio à noite fria, o marido engravidou a criada da casa.

Com a intervenção de um reverendo, sob o olhar desconfiado do pai e da mãe, a moça resolve dar uma segunda chance ao rapaz. A felicidade parece retornar. Dura pouco, logo desaba: Jeanne descobre que a nova amante do marido é uma amiga casada, que passou alguns dias se divertindo em sua propriedade.

A vida dessa mulher é entrecortada por lembranças, com a imagem dela já velha, no frio, a imagem do futuro: é a vida de quem teve de viver à sombra de homens (o marido traidor, depois o filho mentiroso) e punida pelos erros dos outros, com segredos que lhe causam dor (como, por exemplo, as cartas do amante de sua mãe).

As lembranças são evocadas com luz forte, mar azul, natureza verde; o presente e seus problemas carregam sombras, chuva, o mar revolto e talvez mais distante do que pareça no momento em que Jeanne caminha pela praia na companhia do pai abatido.

Brizé traduz essas transformações com proximidade, ao passo que o feminino é sempre seu foco: a mulher que resiste a despeito das condições e regras sociais, a despeito das imposições da igreja e, sobretudo, ao fim, da distância do filho. Mulher obrigada a crer no retorno do rapaz que pouco aparece e que, mais tarde, muda-se para a Inglaterra com outra mulher, envolve-se em jogos e contrai dívidas.

A opção pela proximidade e pela câmera trepidante de Brizé segue à contramão do visual adotado por Jacques Doillon em Rodin. Se no primeiro a necessidade de penetrar o ambiente íntimo da mulher e sua degradação é justificada pela câmera intrusa, no segundo o universo masculino pede distância e mistério.

Não por acaso, Doillon não deseja explicar a personagem central, nem justificar seus atos frente às mulheres ou às suas obras (ambas, a certa altura, parecem se misturar). Seu Auguste Rodin (Vincent Lindon) é bruto em cada centímetro, em cada gesto, na maneira como toca a argila ou o corpo de Camille (Izïa Higelin), na cama.

É, nesse caso, a exposição do universo masculino que, pela profundidade de campo adotada, será fundido ao cenário de obras de arte, de peças, de partes de peças que rementem a partes de corpos, ou mesmo de outras formas. Tudo nesse belo filme remete à distância e à indiferença de Rodin em relação ao outro (ou à outra).

A exposição desse mundo masculino, ainda que a interpretação de Lindon nunca seja descartável, deve-se, sobretudo, às opções de Doillon, à sua necessidade de embutir mistério e conferir ao homem o que o público espera: os contornos do gênio, os gestos desse ser distante que rodeia e encara suas obras como se tivessem vida própria.

O tratamento de Brizé em relação a Jeanne é inversamente proporcional: aproxima-se muito para, com o aparente desleixo da câmera, deixar ver a “vida de uma mulher”, a pessoa sem qualquer sinal mítico, mas a mulher que sofre pelas relações que a cercam, cuja vida – ao contrário da de Rodin – é alienada à dos outros.

Na abertura do filme de Doillon, o grande artista prepara A Porta do Inferno, uma de suas obras mais famosas. Ao espectador, graças ao efeito da profundidade de campo, a peça parece ter o mesmo tamanho da personagem. Quando outros homens aparecem em cena, logo se vê o efeito visual e o artista apequena-se.

Mais do que dar grandiosidade a um ou pequenez a outro, o efeito ajuda a compreender Rodin como parte inseparável daquele universo, daquelas peças. O homem torna-se ainda mais bruto em contato com suas estátuas. E raros são os momentos em que ele mostra sensibilidade, como na cena em que visita a exposição de Camille. Com os olhos marejados, o artista observa a estátua de uma mulher nua em busca de um abraço.

Em outro momento, Rodin utiliza uma mulher grávida como modelo para chegar à forma da estatua de Balzac. A imagem não poderia ser mais representativa: a mulher grávida é apenas o molde, o mais importante é a estátua ao fundo. E em outro, ainda mais curioso, o protagonista corta a cabeça de uma estátua feminina, feita em argila, poucos segundos depois de uma mulher elogiar suas formas.

Mesmo com tantas diferenças, não se trata de dizer que um filme apresenta uma mulher fraca e que o outro é misógino. Longe disso. Os trabalhos de Brizé e Doillon possibilitam o mergulho no masculino e no feminino, nas formas que definem um e outro. Assistir ambos em sequência faz enxergar o abismo que os separa.

(Une vie, Stéphane Brizé, 2016)
(Idem, Jacques Doillon, 2017)

Notas:
A Vida de uma Mulher: ★★★★☆
Rodin: ★★★☆☆

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Um Belo Verão, de Catherine Corsini

A moça do campo fala de suas raízes com paixão, sente prazer em tocar a terra. Diferente do que esperavam os pais conservadores, ela tem atração por mulheres. E nos anos 70 de Um Belo Verão, termina incluída no movimento feminista francês.

Ao que parece, Delphine (Izïa Higelin) é estimulada por uma companheira a ir para a cidade grande. Tal moça, ainda na abertura, diz que o destino das mulheres do campo é conhecido: podem ficar e se casar com algum rapaz por ali ou podem fugir.

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Mas a “fuga” não leva muito longe no filme de Catherine Corsini: as moças são vítimas dos sentimentos e, à frente, uma delas vive um período no mundo rural da companheira, no qual alguns habitantes condenam o amor entre pessoas do mesmo sexo.

Na cidade, Delphine conhece a bela Carole (Cécile De France), loura, de cabelo cacheado, que, com algumas amigas, toca o corpo dos homens, ainda no início, como forma de protesto. A explicação é dela: confronta-os com o que gostam de fazer.

Os confrontos continuam. Delphine, tragada pelas novidades, pelos movimentos de exaltação feminina, embarca. Logo está apaixonada por Carole, que não vê e tenta não sentir nada. E, ao ter um beijo roubado, a primeira reação é repelir a companheira.

Depois, quando a outra insiste, a moça loura acaba cedendo. Percebe que gosta de mulheres como gosta de homens. Ou mais. Depois, passa a gostar de Delphine, mais tarde se apaixona – para sua própria estranheza, sem ao certo conseguir se explicar.

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Não é a moça do campo que passa pelo descobrimento, é a da cidade. A inversão confere ao drama de Corsini interessantes questionamentos sobre suas personagens centrais. Ainda que se abra com Delphine, é com Carole que o filme chega a seu espírito: o ponto em que a mulher emancipada ainda tem algo a descobrir.

A outra, do campo, mantém certa barreira: ainda tem algo natural, meio infantil. Tem ainda que crescer um pouco, segundo a cineasta Corsini. A outra, da cidade, ao mesmo tempo em que parece ter crescido, ter descoberto tanto, vê-se obrigada a seguir ao campo, a fazer um percurso estranho: quando se ama é necessário ceder.

Carole aceita interpretar o papel de amiga. Na fazenda, ambas se encontram à noite, escondidas da mãe de Delphine, ou mesmo em locais distantes, campos e lagos.

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Com a moça da cidade à frente, Um Belo Verão ganha peso, o que é ajudado pela direção segura de Corsini, com sequências pulsantes das jovens feministas na França. Como Depois de Maio, o filme consegue captar o sentimento da época.

Inevitável perceber as distâncias entre o rural e o urbano, diferentes espaços pelos quais transita Delphine, depois Carole. A primeira entende que pertence mais ao campo, menos à cidade: a certa altura, prefere ficar por ali, ser quem sempre foi.

O pai de Delphine está doente, não fala, é o olhar que nada vê, ou o olhar desprovido de julgamento. Em um filme sobre difíceis revelações, resta a ele o papel de ouvinte da moça que visita sua casa, que antes acreditava saber muito – ou tudo – sobre si própria.

(La belle saison, Catherine Corsini, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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