identidade

Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O movimento de Marina Vidal pelas ruas remete tanto à necessidade de chegar a um destino quanto à de se perder, ou recomeçar. Pois nesse caminho, não raras vezes, ela deverá questionar a si mesma, deverá olhar no espelho, encontrar a fuga ou o fecho que dá vez à sua história, seu ser: quem é ela talvez seja o grande mistério.

Não se trata da identidade que carrega no documento, ou da transformação física que expõe. O que está em jogo, em Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, é a identidade que se projeta no espelho, e o que ela diz sobre a alma da mulher em questão, essa mulher fantástica que, do dia para a noite, viu-se sem o homem que amava.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Viu-se perdida, por isso, nas ruas de uma cidade grande, entre pequenas corridas e passos rápidos, para ir a tantos lugares e a lugar algum. Nesse meio, até mesmo o vento será capaz de segurá-la, não uma rajada qualquer: a ventania que, a certa altura, serve à representação perfeita da natureza – o corpo, a condição – contra o desejo de seguir em frente.

Nem a natureza será capaz de segurar a mulher. Nem o que talvez ainda carregue – ou esconde, sem muita opção – entre as pernas. Pois o que vê, ao olhar em direção ao próprio sexo, na sequência mais importante do filme, é justamente seu reflexo. Deitada na cama, perto do encerramento, Marina coloca um pequeno espelho entre as pernas. No lugar do falo o que salta é sua face, seu reflexo, o da mulher fantástica em questão.

Sua situação não é das melhores: certa noite, em seu aniversário regado à festa, ela vê-se com o companheiro à beira da morte. Depois, no hospital, descobre que ele morreu. Vêm as perguntas à protagonista transexual: por que teria ido embora do hospital tão rapidamente? Por que o homem carregava hematomas no corpo?

O espectador sabe todas as respostas, acompanhou o périplo da heroína. Aos outros, Marina é vista como possível profissional do sexo, aproveitadora, carregando o estereótipo que tanto se leva aos transexuais. Nesse meio de intimações e dúvidas, a inocente é obrigada a se ver no espelho de novo, a repensar seu local nessa sociedade.

O diretor Lelio já havia mergulhado no universo feminino no belo Gloria, sobre uma mulher, a personagem-título, também em uma jornada de descobrimento. À parte a questão feminina, em Uma Mulher Fantástica resta sempre o reflexo distorcido, ou a reprodução da máscara do monstro, a forma como é vista por muitos.

Em um momento forte, Marina é colocada à força no interior de um carro por dois homens, enquanto um terceiro dirige. Quem está ao volante é o filho de seu companheiro morto. Os homens passam uma fita adesiva ao redor de sua face. A câmera aproxima-se. O monstro nasce da pele que salta, dessa face que não esconde o susto, o medo, a dor.

Face, por sinal, quase sempre sofrida, paralisada, de pouco ou nenhum desejo. Marina cria para si própria – no rosto bloqueado e abatido – a forma de quem parece ter vivido demais, ou de quem desistiu de viver. Não é uma expressão erotizada; é uma expressão feminina, de alguém que acaba de nascer e se volta ao redor como se tudo fosse novidade. Faz lembrar – não apenas pela aparência – a moça que renasce em Fale com Ela, de Almodóvar.

A protagonista é interpretada pela atriz e cantora lírica Daniela Vega. Sua presença torna o filme ainda maior. Suas palavras, quando explode, não deixam dúvidas sobre o que quer, e sua caminhada não abre novas interpretações a respeito do amor que sente pelo homem morto. A história de uma mulher que renasce, que se redefine, contra os monstros que impõem padrões, seu espaço envernizado, cheios de hipocrisia.

(Una Mujer Fantástica, Sebastián Lelio, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
20 grandes comédias que perderam o Oscar

Anúncios

A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A médica e protagonista Jenny Davin (Adèle Haenel) procura por uma identidade. Após saber que uma imigrante morreu e que poderia salvá-la, ela não ambiciona descobrir quem é o assassino, ou seus motivos. Deseja apenas chegar ao nome da vítima.

Move, assim, A Garota Desconhecida, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que não é mais um suspense envolvendo imigrantes e desumanização. O nome é o primeiro passo – e o último – para conferir um fio de humanidade à mulher morta.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-garota-desconhecida1

Algumas revelações surgem à moça na clínica em que trabalha, na qual atende imigrantes com medo de ir ao hospital e serem deportados. O que parece preguiça do roteiro ganha novo contorno: os Dardenne exploram um universo que pertence apenas à médica, colada à câmera, em cena o tempo todo e ao mesmo tempo desconhecida.

Como outros filmes dos irmãos, há uma jornada, pessoas diversas batendo à porta, retornos constantes aos mesmos locais e às mesmas personagens. Situação, de novo, de clausura, com câmera a flagrar detalhes, a respiração, o incansável retorno ao celular e os “tempos mortos”. O visual realista exclui luzes fortes, não há trilha sonora.

Os Dardenne retornam ao cinema rígido que faziam em longas como Rosetta, O Filho e A Criança. Mais tarde, com O Garoto da Bicicleta, explorariam o drama com música. Algo se transformava nessa filmografia repleta de trabalhos importantes e premiados.

Com A Garota Desconhecida, levam à médica, talvez à verdadeira desconhecida que circula pelas casas dos pacientes. Nunca chega a ser uma heroína. É pequena, fria como seu universo, a dizer palavras repetidas a quem interpela, a fumar em sua janela.

Certa noite, enquanto conversa com um estudante de medicina e colega de trabalho, Jenny recusa-se a atender a campainha da clínica. Descobre, pela polícia, que uma mulher em busca de socorro foi assassinada. Justamente quem batia à porta.

A opção dos Dardenne continua a mesma: a aproximação à personagem não deixará saber nunca quem ela é, o que pensa. O acesso, apesar de tamanha proximidade, é impedido: a médica fornece apenas sua caminhada e o filme espalha humanismo a conta-gotas, até chegar ao momento do abraço, no encerramento.

a-garota-desconhecida2

A busca pelo nome da vítima leva Jenny a diferentes locais, a personagens diversas. Leva a um nome que talvez não seja o verdadeiro, ao cemitério no qual a mulher será enterrada, ao mesmo estudante de medicina (Olivier Bonnaud) – em local afastado – que desistiu da profissão após não conseguir atender um menino que convulsionava.

O início, quando Jenny e o estudante atendem um homem, o tema do filme e o próprio cinema dos Dardenne são expostos: eles silenciam para ouvir a respiração – ou mais: o interior do paciente – e chegar ao diagnóstico. É sobre atingir esse espaço invisível.

No interior vazio apenas às aparências há mais a encontrar: os cineastas deixam sempre os rastros de cansaço da protagonista, e cada retorno ao mesmo ponto, cada giro em falso, cada movimento sem sentido tornam a viagem mais dolorosa.

Diferente de outros filmes dos cineastas, A Garota Desconhecida é otimista. A protagonista justifica essa guinada: mesmo distante, ela deixa-se agarrar. Ao se sentir culpada pela morte de uma mulher, aceita a jornada por um mínimo que não pode ser ignorado, algo cada vez mais em desuso: o nome. Ou, antes, o humano.

(La fille inconnue, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A aventura acidental em dois filmes de Jacques Rivette

Dez loiras fatais do cinema

Elas compõem o grupo das damas fatais, ou femme fatales, que por muito tempo povoou o cinema noir americano. São mulheres perigosas, capazes de tornar a vida dos companheiros um verdadeiro inferno. Boa parte delas não ama. Algumas ainda mostram sentimentos e podem se transformar ao fim. Abaixo, dez loiras de filmes inesquecíveis.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

O diretor Billy Wilder confessou que a peruca loira era proposital. A ideia era tornar Stanwyck uma “mulher barata”. Sua composição é assustadora e histórica.

Barbara Stanwyck

Cora Smith (Lana Turner) em O Destino Bate à Sua Porta

Difícil esquecer a primeira aparição de Smith, a loira aproveitadora em um restaurante à beira da estrada, casada com o homem errado, sob os flertes de John Garfield.

o destino bate à sua porta

Elsa Bannister (Rita Hayworth) em A Dama de Shangai

Tão perfeita quanto Hayworth no papel – o oposto da Gilda de cabelos volumosos – é o “pato” interpretado por Orson Welles, também diretor e então marido da atriz.

a dama de shangai

Gabrielle (Gaby Rodgers) em A Morte Num Beijo

A falsidade e o desejo ficam claros na forma como ela alisa a mala, a suposta Caixa de Pandora. Ela engana o anti-herói de Ralph Meeker e, a certa altura, ousa abrir a caixa.

a morte num beijo

Madeleine/Judy (Kim Novak) em Um Corpo que Cai

Em meio ao jogo que inclui o medo de altura do herói de James Stewart, ela terá novamente de assumir os cabelos loiros ao fim, ser sua velha personagem.

um corpo que cai

Marnie Edgar (Tippi Hedren) em Marnie, Confissões de uma Ladra

O terreno é, de novo, o de Hitchcock, com suas relações psicanalíticas, sobre uma ladra compulsiva e um ricaço que talvez deseje fazer amor com ela enquanto esteja roubando.

marnie

Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

Não é muito bonita. Torna-se cada vez mais estranha, repulsiva: mata pequenos animais, faz jogos com a mulher do amante e até leva o filho dele para passear.

atração fatal

Catherine Tramell (Sharon Stone) em Instinto Selvagem

Lembrada pela cruzada de pernas, Stone está à vontade e se deixa levar pelo jogo perigoso. Paul Verhoeven acerta o tom nessa homenagem aos homens fracos do cinema.

instinto selvagem

Lynn Bracken (Kim Basinger) em Los Angeles: Cidade Proibida

Hollywood abriga figuras falsas, prostitutas com rostos de atrizes. É o caso de Bracken, sósia de Veronica Lake, que coloca os dois protagonistas e policiais a seus pés.

los angeles cidade proibida

Laure/Lily (Rebecca Romijn) em Femme Fatale

Os filmes de Brian De Palma sempre foram acusados de beber na fonte de Hitchcock. Os ingredientes são irresistíveis: a bela fatal, o mundo do cinema e identidades trocadas.

femme fatale

Veja também:
Oito filmes recentes sobre a difícil relação entre mãe e filho

Batman vs Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder

Um assustado Bruce Wayne corre pela cidade em ruínas, lança-se na poeira, nos escombros, e depois observa Superman em luta com um ser de outro planeta. É o encerramento de O Homem de Aço pelo ponto de vista de outro herói, Batman.

Dessa união entre universos, ponto de partida de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, tem-se o resumo do que vem pela frente: o que mais importa é Batman, ainda que todo o resto pertença a Superman, como seu universo e seu vilão, Lex Luthor.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

batman vs superman

Os problemas ainda rondam o mundo de Superman, mais que o de Batman, ainda que o segundo seja mais perturbado, entre sonhos, caminhadas sob pouca luz, passagem por túmulos e talvez a crença de que algo sobrenatural seja possível, e deva ser temido.

Pois quando Bruce Wayne descobre sua ligação com o morcego, ou com os morcegos, ainda criança, ele é levado pela força dos seres subterrâneos: em estranha composição, a sugerir o sobrenatural, o menino levita com a força do vento criada pelos bichos.

Sai daí, talvez, a crença de algo mais – não meramente humano e relacionado à tecnologia exacerbada – e que o faça sentir medo de Superman. “Medo” talvez não seja a palavra certa: Batman não consegue entender esse redemoinho estranho, a beleza que expõe o rosto, que parte do céu ensolarado, e que representa seu exato oposto.

Afinal, o Homem de Aço é um alienígena e, por mais paradoxal que pareça, representa o “humano perfeito”: forte, justo, belo e às vezes até humilde. Alguém cuja máscara não o esconde em excesso, alguém que parece um homem. Apenas os óculos separam o sério Clark Kent de Superman – o que sem dúvida é ingênuo.

batman vs superman2

De Wayne a Batman, a passagem é maior: veste-se máscara espessa para esconder o humano do herói. Mais tarde, quando decide enfim lutar com Superman, a máscara será ainda mais pesada: tentará se tornar o próprio “homem de aço”.

E se essas representações parecem tão excitantes, o filme de Zack Snyder nada faz senão lançá-las a um tolo espetáculo de correria, escuridão (literal) e heróis tentando resolver seus problemas enquanto são previsivelmente marionetes do vilão.

Ninguém duvida que Lex Luthor (Jesse Eisenberg), o adolescente desmiolado, seja capaz de controlá-los. Pois é o que um filme como tal representa: o controle absoluto do adolescente, então dotado de poder, para quem não existe nada mais do que bem e mal, dia e noite, Deus e o homem. Ou seja, tudo será maniqueísta.

Até sua metade, Batman vs Superman tenta trabalhar suas peças com calma. O tabuleiro do conflito desenha-se com intensidade e sabor. A calma dá vez à correria quando se espera justamente algumas palavras de Superman, ao ser interrogado no Capitólio.

batman vs superman3

Menos palavras, mais ações: o local do depoimento, da suposta afirmação humana do alienígena, é reduzido às cinzas, e entre o fogo é possível ver o rosto desapontado de Superman. A partir de então, Snyder, para fazer tudo se encaixar em pouco tempo, apela à ação descerebrada, composições nas quais é preciso forçar a vista para ver algo.

A Mulher Maravilha (Gal Gadot) nada tem a oferecer senão o convite a seu filme solo; Louis Lane (Amy Adams) será apenas uma garota de recados, para explicar algumas situações ao público; e Lex tenta causar medo com seus dedos agitados, sem sucesso.

De Henry Cavill vê-se o mesmo. A novidade, Ben Affleck, poderia convencer fosse ela apenas a identidade secreta. Mas Wayne deve ser obscuro, perturbado, pois, caso contrário, sua natureza não se justifica: por que um milionário vestiria uma fantasia de morcego e sairia pela noite para combater o crime e restabelecer o equilíbrio?

A pergunta não cabe, argumenta um fã de quadrinhos. A natureza dos heróis é como parece ser. Pois o mundo deles talvez seja um pouco mais plano. Ao contrário de Watchmen, também de Snyder, no qual os super-heróis tentam invadir o universo dos humanos, em Batman vs Superman os humanos fracassam nessa tentativa de invasão.

(Batman v Superman: Dawn of Justice, Zack Snyder, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Cinco distopias adolescentes do cinema atual