história de amor

A Bela e a Fera, de Jean Cocteau

A moça bondosa, Bela, fica entre a fera que se aproxima do homem e o homem que se aproxima da fera. Dois homens cruzam seu caminho, ou duas bestas que não são meros animais, que ultrapassam o desejo pela carne alheia. Bela, para devolver a vida ao pai (outro homem), precisa se render à criatura e a seu castelo mágico.

Do conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, a história coloca a mulher ao centro de um jogo de homens, de desejos e interesses. Em cena, a fera que pode voltar a ser príncipe, que pede a mulher em casamento toda noite, que resiste a devorá-la para provar ser um pouco mais que um selvagem em roupas extravagantes e luxuosas.

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Pela beleza que expõe, a de Jean Marais, há o rapaz que deseja Bela (Josette Day), amigo de seu irmão e de suas falantes (e mesquinhas) irmãs, Avenant. Como se sabe, ao tal restam atributos físicos. E só. Pelo pai, o típico pensador que se envolve em enrascadas, inclinado à filha incumbida de seus cuidados, vê-se a dependência.

Bela é vítima desse meio de homens. E, em A Bela e a Fera, de Jean Cocteau, encontra seu caminho ao paraíso, ao fim, justamente pelos braços do príncipe, do homem, da figura que antes se escondia na besta. Enfim, a fera é o homem. Não há muito o que fazer. As famosas versões seguintes, da Disney, manteriam a situação.

A versão de Cocteau é a melhor. Um filme estranho que se inicia com o mundo real, desordenado, pelo qual a câmera fracassa ao tentar manter a beleza que o material exige: esse declive, como se sabe, é proposital. Cocteau filma, primeiro, a bagunça, as crianças adultas em figurinos enormes, entre flechadas que erram o alvo, entre mulheres que se preparam para alguma celebração à qual não se incluem facilmente.

Vêm o castelo, o efeito mágico: pelas imagens, pelos cenários, pelas estátuas e paredes que ganham vida, tudo funciona. O que mantém esses quase humanos no mesmo ambiente da Fera, quase homem, não é aqui explicado. É certo que todos precisam assumir a face humana, que o grande castelo esconde tesouros vigiados pelas mesmas estátuas, e que o homem de fora, indesejado, baterá à porta para tentar roubá-los.

Os castiçais são elevados por braços, a bebida chega ao copo por outros. O rosto da estátua move-se de repente, solta fumaça pelo nariz. O presente que a Fera dá para a Bela, a certa altura, será um belo colar apenas nesse reino de sonhos. O tesouro alimenta a sonhadora garota apenas nos domínios daquele castelo, ou de seu corpo.

Eleita companheira da Fera, Bela resiste a amá-la. Ainda assim não teme ser devorada, confia no homem oculto sob o pelo e o couro do animal. O público estranhamente aprende a gostar da criatura: o homem que dela emana, ao fim, é chato, quadrado, um típico sonho assexuado que precisa voar às estrelas. Voa porque não existe, é certo.

Cocteau leva ao sonho dentro de outro: o castelo é perfeito apesar de seu principal – e único – anfitrião. Ou é assim justamente por sua causa. A Fera que lembra a Bela da distância entre a forma pura que se impõe, apesar de um pouco animalesca, e a humanidade repleta de problemas do lado de fora. Seu novo companheiro divide-se entre selvagem e cavalheiro. No bosque, a certa altura, será visto bebendo água, inclinado como um animal.

Além de cineasta, Cocteau era também pintor e poeta. O cinema, em suas palavras, era um dos modos de exprimir “a personagem desconhecida que o habita”. Sua versão de A Bela e a Fera é uma história romântica à beira do horror, o delírio de uma menina que se apaixona antes pela mágica, não pela criatura. Vê-se enredada pelo castelo vivo, pelo espelho que tudo revela e reflete, e pelo monstro que ousa dizer palavras fortes, aproximar-se dos românticos, morrer como miserável.

(La belle et la bête, Jean Cocteau, 1946)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Silêncio do Mar, de Jean-Pierre Melville

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Os anjos de Wim Wenders pairam sobre Berlim

Levado a observar a humanidade por milênios, o anjo cansa de ser anjo. Quer ser homem, quer sentir sabores, ver cores, esfregar uma mão contra a outra para se esquentar um pouco e escapar do frio. Essas pequenas ações seduzem os imortais, sobre prédios e estátuas, ao longo de Asas do Desejo, de 1987.

Wim Wenders, com roteiro escrito em parceria com Peter Handke e Richard Reitinger, aposta justamente na observação. A maior parte do filme centra-se no olhar dos anjos, ao mesmo tempo estranho e que sempre esteve por lá – ou por aqui, perto e longe –, desde o início da vida, do surgimento do homem, das guerras.

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São dois anjos que ocupam o centro: Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander). Acompanham a vida dos outros, dos viajantes que chegam a Berlim de avião aos viajantes em pequenos trajetos, de carro ou a caminhar entre escombros, próximos do muro – ou dos muros – que dividem a cidade e as pessoas.

Os anjos assistem à história, não a sentem. Sabem inclusive como teve início o problema da humanidade, a certa altura relembrado por Damiel. Quando o homem decidiu deixar seu círculo e ser livre, correndo de maneira diferente e para longe, começou a guerra. Ele ousou cruzar uma fronteira. “Voaram pedras”, recorda o anjo.

Asas do Desejo é justamente sobre atravessar uma fronteira. À época, Berlim era dividida por um muro – e este dividia o mundo todo. Wenders capta esse sentimento de maneira exemplar e o metaforiza no desejo do anjo, o de cruzar uma fronteira e sentir a história na pele. Ou simplesmente de se tornar humano e sentir o que está do outro lado e que tanto seduz. Ver o mundo por outro ponto de vista.

Transformado em homem, o anjo passa a sentir o mundo como uma criança – como se visse algo que seus olhos ainda não tinham visto. Passa a ver a cor, a sentir o gosto do café, a sangrar. Feito homem, o anjo retorna ao estado infantil, à sensibilidade que falta ao adulto. “Quando a criança era criança”, repete o narrador e protagonista ao explorar o olhar que restitui graça à vida, na reta final do grande filme de Wenders.

Ainda anjo, Damiel descobre a trapezista Marion (Solveig Dommartin). Como outros artistas, ela está ancorada em Berlim, em apresentações povoadas pelo olhar das crianças. E veste asas de anjo enquanto move-se no trapézio, enquanto divide seus pensamentos – como outros seres de passagem – com os anjos e com o espectador.

A trapezista espera por Damiel. Sabe que surgirá alguém em seu caminho, na jornada vai além do filme de amor ou aventura espiritual: é, ainda mais, sobre o encontro entre lados que não se tocavam antes de cruzar uma fronteira, ou um muro.

É o que torna, por consequência, sua continuação tão inferior. Lançado em 1993, seis anos depois de Asas do Desejo, Tão Longe, Tão Perto reduz-se a uma aventura física sobre um anjo que se torna homem e descobre os vícios e os problemas do mundo real. O protagonista agora é Cassiel, seguido pelo anjo Raphaela (Nastassja Kinski).

Diferente do anterior, a continuação mantém-se em cores em sua maior parte. Ou seja, situa-se mais no mundo real do que no universo dos anjos. Retornam personagens anteriores, como o próprio Damiel, agora dono de uma pizzaria, casado Marion e pai de uma filha; e também o ator Peter Falk, vivido pelo verdadeiro.

Ao invés de uma aproximação à vida das pessoas a partir dos anjos, Wenders aposta em um mergulho nos problemas de um mundo não mais dividido por um muro, após o colapso do bloco socialista. É o terreno no qual Cassiel embriagar-se-á antes de se envolver com um traficante de armas e filmes pornográficos.

No alto dos prédios e nas estátuas, os anjos conversam sobre a civilização. Raphaela questiona Cassiel por que as pessoas estão mais distantes e por que é mais difícil tocá-las. O outro explica que essas pessoas acreditam mais no mundo físico, menos no espiritual – o que, completa ela, levou-as a criarem imagens de tudo.

Vivia-se, àquela altura, no mundo-imagem, no mundo tecnológico. Os anjos têm razão de reclamar: o problema não era lidar com fronteiras ou muros, mas com sua total exclusão. As pessoas refugiavam-se então no abstrato, nos prazeres fáceis da pornografia. Um mundo em que tudo é pirataria e está à mão, e no qual os anjos perderam o sentido.

A relação dos alemães com o passado nazista é explorada por Wenders nos dois filmes. Em Asas do Desejo, imagens reais de algum documentário fundem-se às de um filme realizado em um prédio aos cacos. O longa feito ali, encabeçado por Falk (um anjo que decidiu se tornar homem), não poderia ser sobre outro assunto senão o nazismo.

Ainda nesse cenário, Damiel penetra o pensamento dos figurantes. Os problemas do passado nazista ecoam em seus textos. E não se sabe ao certo se esses textos pertencem às personagens do filme ou à vida real. Vida e interpretação confundem-se enquanto os anjos são convidados a ver a humanidade pela lente do cinema.

Com momentos próximos à comédia, Tão Longe, Tão Perto não tem a mesma profundidade. Levados ao estado da carne, seus anjos não estão ali apenas para encontrar (e ver) o essencial, para fornecer ao espectador o sentimento de ultrapassar a fronteira. Recorrem à aventura, até mesmo ao encerramento trágico.

(Der Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987)
(In weiter Ferne, so nah!, Wim Wenders, 1993)

Notas:
Asas do Desejo: ★★★★☆
Tão Longe, Tão Perto: ★★★☆☆

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Mulheres aprisionadas (em três grandes filmes de Zhang Yimou)

Lembranças de um Amor Eterno, de Giuseppe Tornatore

Qualquer sinal de reviravolta beira o alívio, ao público, ao longo da caminhada sentimental de Amy Ryan (Olga Kurylenko). Seu universo vira de cabeça para baixo quando o amante, um professor de astronomia, constrói para ela outra realidade.

Nesse trabalho de Giuseppe Tornatore, Lembranças de um Amor Eterno, o amante tenta seguir vivo, por certo tempo, após sua morte: é um drama sobre a impossibilidade de apenas se despedir, ou de apenas se fechar no próprio fim e aceitar o vazio.

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Pois as personagens, os amantes, preferem o discurso que remete às estrelas e seus mistérios, aos seres que nascem para o outro, à necessidade de os humanos criarem narrativas – e também charadas – para combater a constatação de que são pequenos pontos perdidos no meio do nada. É, sobretudo, sobre criar um significado.

Anunciar a morte é pouco. Despedir-se também. O amante é idealizado: busca outro caminho mesmo face à morte. E confunde a moça com seu “amor eterno”. Tornatore insiste tanto nos mesmos caminhos que sua obra não demora a enjoar. Por isso, qualquer sinal de mudança gera o citado alívio que não chega.

Ou mais: prefere andar em círculos, o que não deixa de produzir o mesmo resultado enfadonho. Para tentar se desviar do mesmo, insere questões que envolvem a família dos amantes. É a velha maneira de o falecido mostrar o caminho à amada, “torturada” a viver nesse mundo agora sem muito significado, e a buscar significados.

Ao mesmo tempo em que tenta decifrar os recados e obedecer às muitas mensagens (cada uma em seu tempo) do companheiro, a bela ao centro corre de um lado para outro, entre seus trabalhos, estudos, também aos pontos em que o amante vivia.

Longo caminho de Tornatore em busca da repetição, da melancolia da perda, do amor que sai atrás de um sentido quase à força: quando o mundo ao redor não tem qualquer sentido, essas pessoas são obrigadas a criar algo “maior”.

Seu cansativo trabalho é embalado por essa ideia: é moldado às mensagens adultas de superação, de luto, ao passo que também não dispensa os contornos extraordinários do homem especial (vivido por Jeremy Irons) que recusa a banalidade da morte.

Antes de morrer, ele criou um roteiro – com a participação dos amigos vivos – para que Amy continuasse a receber suas mensagens em vídeo e pelo celular. É como se continuasse em carne – ao mesmo tempo em que Tornatore faz o espectador crer na possibilidade desse homem reaparecer a qualquer momento.

Não aparecerá. O filme é dela, com seu luto e maneira cambaleante. Ao mesmo tempo em que tenta terminar seus estudos em astronomia, Amy trabalha como modelo e dublê em filmes. É o amante que explica sua condição: ela busca vestir outras máscaras, e não pode evitar que seu momento de dor seja ocultado.

Nua, a certa altura Amy serve de molde a uma obra de arte. Ao chorar e se movimentar, com o corpo preso à borracha, ela pode ter colocado todo o trabalho a perder. Mas ocorre o oposto: o artista vê nesse “defeito” algo verdadeiro e definitivo. As emoções são impressas, e não escapam à aparente matéria sem vida.

(La corrispondenza, Giuseppe Tornatore, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho

Uma Janela para o Amor, de James Ivory

A paisagem fica dividida entre luzes e sombras após o primeiro beijo entre Lucy Honeychurch e George Emerson. Em seguida vem a chuva, a transformação: efeitos que representam as mudanças na vida da moça, com a presença do amor.

Tudo leva a essa abertura que o título antecipa em Uma Janela para o Amor, às descobertas da jovem protagonista. O problema é que ela nega a mudança, evita o belo George: mente para os outros e para si mesma, torna-se noiva de outro homem.

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uma janela para o amor

E todos os caminhos, no filme de James Ivory, indicam a certeza de que ela não pode ser de outro senão dele. Quando se beijam, ele toma-a com força. Ela deixa-se levar, como se fosse vítima, como se estivesse à beira do abuso. Finge ter o corpo mais leve do que tem, o que talvez comprove o que já se sabe: ela ama.

Ivory, a partir do roteiro de Ruth Prawer Jhabvala, baseado no livro de E.M. Forster, apresenta a tempestade sobre essa jovem. É às vezes engraçado, menos sofrível do que se espera. É um filme sobre a celebração do amor, sobre as voltas do coração para se assumir, então, o óbvio: o amor pelo outro. Apenas isso.

E por que ela demora tanto? Porque o clima é de mudanças, porque nessa roda de pessoas finas as convenções têm seu próprio peso. Como em Os Bostonianos, filme anterior de Ivory, a mulher forte choca-se com o homem de peso semelhante. Há, por isso, a dificuldade de assumir algo profundo. É ele, não ela, que coloca tudo às claras.

George tem razão: Lucy, em seu relacionamento com o efeminado e correto Cecil (Daniel Day-Lewis), não será feliz. Para o noivo, ela será apenas o presente embrulhado, o braço direito, o boneco de ventríloquo a tocar Beethoven e Schubert.

É com o piano, por sinal, que Lucy deixa ver – não para todos, apenas para alguns – a fúria que parece carregar. É essa fúria contida que torna o material de Ivory interessante, não a fúria que não se pode controlar, como na sequência em que dois italianos brigam e um termina morto, entre as andanças das personagens por Florença.

Na Itália de clima quente, de cores fortes, de homens ligados a belas mulheres em suas carruagens, é que Lucy descobrir-se-á. O filme começa com a abertura da janela, em uma pensão. Não é uma bela vista. Sua companheira, Charlotte Bartlett (Maggie Smith), reclama, durante o jantar, da falta de uma bela paisagem para apreciar.

uma janela para o amor

Ao lado do filho George, o senhor Emerson (Denholm Elliott) oferece, casos as damas aceitem, a possibilidade de fazer a troca dos quartos. Os homens possuem janelas voltadas à bela Florença. Charlotte reluta, Lucy aceita. Ambas trocam com os homens e, em seus encontros, George esculpe ou desenha para Lucy um ponto de interrogação: primeiro no prato de comida, depois atrás de um quadro fixado à parede.

O filme tem saídas deliciosas, roteiro econômico e pulos no tempo permeados por legendas que suspendem mistérios. O problema não pertence aos outros. Está dentro das personagens. Um belo exemplar de sentimentos, de labirintos internos.

A comédia de Ivory quase deixa o drama apoderar-se. Para Lucy – de olhos pequenos, de sentimentos presos e prestes a explodir –, entregar-se a George significa deixar o amor vencer a barreira que se impõe na luta entre sexos. Ela quer ser uma mulher forte, mais forte do que ele, resolvida e talvez independente.

Vivida por Helena Bonham Carter, ela exacerba-se pela música, não pelos gestos. Gosta de brincar e, ao ver o George de Julian Sands, descontrola-se: paralisa ou amolece. Importa mais o desejo que se revela nos bastidores do que o palco em que se encontra a alta sociedade, em belas casas, jardins, em seus jantares impecáveis e falas pomposas – o que não exclui a presença de um padre e, por isso, de certo moralismo.

Os amantes terminam em carícias, à beira da janela, na junção entre a descoberta do mundo externo e os prazeres do privado: naquele meio em que amar é uma saída à liberdade, não à servidão. Com delicadeza, graça e até ousadia.

(A Room with a View, James Ivory, 1985)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Mulher do Lado, de François Truffaut

O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

A mulher casada, mesmo em claro desejo, agride o amante na primeira vez em que se beijam, ou instantes antes. Essa relação é sempre cheia de conflitos: o corpo da mulher, com suas curvas, é o equivalente “menor” do deserto em tempos de guerra.

Corpo claro como areia, deitado no momento em que o mesmo amante, em O Paciente Inglês, elege seu ponto preferido, a possuir: o pequeno declínio pouco abaixo do pescoço, próximo ao peito. Desde os primeiros instantes desse belo filme de Anthony Minghella, fica claro que se trata de descobrir aquele deserto, aquele corpo.

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Na abertura, o avião do mesmo homem sobrevoa o deserto. Outros homens, soldados, atiram. O avião cai. Não é difícil saber que ele perdeu – ou já havia perdido – a mulher, e menos ainda perceber que tudo o que veio antes não deu certo. Resta-lhe a memória.

O corpo é conflituoso, como antecipam os golpes dela (antes de ceder a ele) ou mesmo a tentativa dele em escapar da amada, em encontrar uma forma, em vão, de se desviar. Ela volta. E o momento em que o encara, pelo espaço da porta, enquanto a personagem está deitada, justamente antes do primeiro contato, beira a miragem.

Essa história de amor proibido, em terreno arenoso, é relembrada pelo mesmo homem condenado à cama, à sua destruição, na pouca vida que lhe resta: ironicamente, ele vê-se preso ao próprio corpo, corpo que perdeu parte de suas características, deformado pelas queimaduras e ao qual a natureza impõe outro desenho.

Ele (Ralph Fiennes) relembra sua história de amor, a última de suas histórias no deserto, enquanto é acompanhado e tratado por uma enfermeira (Juliette Binoche). Se nas lembranças o filme de Minghella move-se aos perigos de invadir terreno proibido (a mulher, a guerra), na segunda parte aborda da tentativa de escapar do conflito.

A casa afastada é a forma encontrada por essa sorridente enfermeira – apesar de tudo – para trancar sua maldição, ou para se isolar dos outros e assim diminuir as baixas da guerra. De novo, em vão. Às pessoas que segue leva os problemas: o namorado morre em batalha, a amiga loura morre na explosão de uma mina terrestre.

A grande casa, a parada, torna-se túmulo das lembranças, do paciente, talvez das relações dessa mesma mulher que ainda encontra espaço para um novo romance – justamente com um desarmador de bombas. Difícil imaginar profissão mais ingrata.

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O filme de Minghella é amargo mas belo. Sua beleza vem tanto do que é evidente – das imagens de John Seale, ou das fusões entre quadros, entre tempos, pela edição do mestre Walter Murch – quanto do que pouco se evidencia em palavras, a tentativa de invadir, e viver, em um mundo cujas regras são quebradas a todo instante.

O conflito para tomar o corpo (como prazer insubstituível, incontrolado) e o conflito, em outra ponta, para tomar o deserto, para guerrear, para descobrir a caverna que esconde desenhos de seres em mergulho, a mesma caverna que servirá de refúgio ao corpo da mulher e desenhista, a amante interpretada por Kristin Scott Thomas.

O pincel, nos créditos de abertura, traça justamente as formas do corpo feminino. E a transição de Murch, na sequência, faz emergir o deserto. O mesmo corpo continua a “navegar” pelas dunas até desaparecer, dando vez ao avião, depois ao conflito.

A fusão de tantos elementos à qual chega o diretor produz um filme belo em que o homem, preso em seu corpo de novas formas, é condenado a lembrar da mulher amada. Sua face queimada sequer deixa ver se a memória produz-lhe prazer ou dor.

(The English Patient, Anthony Minghella, 1996)

Nota: ★★★★☆

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Os dez melhores filmes com Juliette Binoche