Hellmuth Karasek

Farrapo Humano, de Billy Wilder

O homem em questão, embriagado, não tem poder sobre si mesmo. Cambaleia, vive às sombras, furta uma bolsa para conseguir dinheiro, depois chega a roubar uma garrafa de uma loja como se estivesse armado. Não está. Ainda não. Basta o olhar de Ray Milland, o embriagado em questão, para que o balconista entregue a garrafa.

Depois de Farrapo Humano, de Billy Wilder, o “bêbado” passou a “alcoólatra”. Sinal dos tempos. Não que não fosse necessário falar de alcoolismo e seus males. O filme de Wilder é um retrato forte sobre o problema, passado em apenas um fim de semana e na companhia do homem entregue à própria sorte, sem poder sobre o corpo e a mente.

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Um filme que chamou a atenção do público, da crítica e dos prêmios. Um filme que terminou imortalizado – ou quase isso – devido à coragem de se colocar como um divisor de águas. Até então, existiam os bêbados felizes. Farrapo Humano levou ao alcoólatra prestes a tomar a arma e puxar o gatilho, preso às sombras da grande cidade.

Em Billy Wilder: E o Resto é Loucura, Hellmuth Karasek aponta à transformação, ao cinema antes e depois do filme: “No cinema, os bêbados eram esperados em casa por suas mulheres, que ficavam à espreita atrás da porta, com o rolo de macarrão na mão”. Os bêbados faziam sucesso. Chaplin ganharia fama e fortuna no papel do descontrolado Vagabundo, com pouca força para sustentar o peso, ainda assim leve, engraçado em sua forma trôpega.

Em Farrapo Humano, um certo Don Birnam eleva-se à tela como um monstro: expande os braços um pouco ao alto, firma os lábios para dizer palavras que o levam a pontos do outro lado do mundo, o olhar que borbulha de paixão enquanto encara, como se fosse o último gole, o pequeno copo de bebida posto sobre o balcão. Não fraqueja: vira inteiro.

O destino do alcoólatra, de todas suas certezas a todas suas fraquezas, aos tropeços, ao crime, à miséria, ao hospital para ser trancado, depois aos braços de alguma dama disposta a amar esse novo vagabundo. O triste retrato de um certo homem da cidade, um como tantos, a quem resta encarar a cidade da janela, a grande metrópole.

Pois Wilder voltaria à grande cidade em Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Algo aproxima esses filmes. São irmãos. Um como drama profundo, sobre aprisionamento; o outro como comédia sobre o ridículo da vida moderna, no qual homens assemelham-se a formigas, gente que encontra o prazer, de novo, em algum bar ainda aberto em pleno Natal, para se escorar no Papai Noel igualmente à beira do balcão.

O homem moderno, diz Wilder, não vive. Soçobra. Escora-se. Precisa de alguma injeção de ânimo constante, de alguma fórmula para o lábio não tombar – o que Milland faz com maestria. O roteiro é conhecido: da ideia de força, com o copo à mão, passa à fraqueza absoluta, à escuridão do cômodo e aos delírios com pequenos animais.

Se por momentos a cidade é filmada de maneira realista, em outros as sombras levam Farrapo Humano ao campo expressionista. A trilha sonora assemelha-se à de um filme de ficção científica, chega mesmo a incomodar o público, como se martelasse ali a estaca que atinge a mesma personagem, o que lhe imobiliza o filme inteiro.

Estranho jogo em que o movimento não permite que se saia do lugar. É a amostra maior do problema retratado, da passagem do bêbado para o alcoólatra. Se antes o Vagabundo de Chaplin era capaz de flutuar, o homem moderno de Milland vê-se em lama espessa, no labirinto em que é apenas, e pouco a pouco, um corpo sem vida.

(The Lost Weekend, Billy Wilder, 1945)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Wilder e Monroe

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Bastidores: Wilder e Monroe

Caso se queira escolher a cena mais típica de Hollywood, entre todos os grandes filmes típicos de Hollywood, esta seria certamente a cena de Marilyn sobre o respiradouro do metrô de Nova York, com o vento provocado pelo trem lhe levantando o vestido, e sua feição maravilhosa, à vontade e libidinosa – este seria o ícone de Hollywood, o leitmotiv de MM, o nascimento de uma nova Vênus sobre o poço de ventilação do metrô, uma nova Vênus surgindo do mar de sonhos do cinema.

E caso se queira recordar o papel em que Marilyn é mais Marilyn: uma figura emocionante e um clichê, sentimental e prática, bêbada e sóbria, enganada e ardentemente amada, uma tolinha e uma mulher com um coração infinitamente sábio, uma cômica capaz de arrancar lágrimas, uma garota que canta que o amor já passou para ela no momento em que volta a se apaixonar. Marilyn é uma figura ora falsa, ora verdadeira…

o pecado mora ao lado

Verdadeira: quem fala é Sugar Kane, a tocadora de guitarra e cantora da orquestra feminina em que Jack Lemmon e Tony Curtis têm de se esconder. Aqui, Marilyn é inteiramente ela mesma, e inteiramente arte cômica. Billy Wilder elaborou todas as contradições e conflitos dela para torná-la uma figura imortal. Quanto Mais Quente Melhor é o melhor filme de Marilyn Monroe, porque não é absolutamente um filme de Monroe, mas um filme de Wilder.

Hellmuth Karasek, na biografia do cineasta Billy Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura (Editora DBA; pgs. 396 e 397). Abaixo, os bastidores de O Pecado Mora ao Lado, na famosa cena do respiradouro do metrô, e Quanto Mais Quente Melhor.

quanto mais quente melhor

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Marilyn, por Norman Mailer