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Guernica, de Emir Kusturica

Abordar o curta-metragem de Emir Kusturica sem levar em conta o significado da pintura de Pablo Picasso é impossível. O filme de estreia do cineasta sérvio é de 1978, sobre um garoto judeu que, após ver o famoso quadro, decide criar uma obra feita de colagens com fotos, em clara ligação com o cubismo e com o próprio Picasso.

Enquanto faz a preparação do quadro, com partes de fotografias distribuídas pelas paredes de seu apartamento, seu pai e sua mãe são examinados e interrogados por um médico alemão, que questiona detalhes da anatomia dela. O filme é ambientado no período em que os nazistas estão no poder. O médico mostra aversão aos judeus.

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O quadro de Picasso é a maneira de o menino descobrir os horrores da guerra. Seu pai, com quem vai ao museu no início do filme, tenta esconder os problemas do mundo: 20 anos antes de A Vida é Bela, há aqui um pai usando um pouco de imaginação para que o filho não saiba da perseguição ao redor e não se sinta diferente.

Antes de entrar no museu, o menino questiona o pai sobre a alternância do dia e da noite. O homem explica que a Terra gira e, por isso, que a luz do sol recai sobre toda a superfície, permitindo sua presença em todos os continentes, todos os dias. A mensagem é óbvia: o sol nasce para todos, a escuridão também.

Próxima ao quadro, a criança é minúscula. Ela volta o olhar para cima para contemplar a pintura de Picasso, feita em 1937, pouco depois dos bombardeios na pequena cidade basca de Guernica, símbolo máximo – no quadro e na história – da covardia da guerra.

Na célebre imagem cubista, uma mãe com o filho morto nos braços – que lembra a Pietá de Michelangelo – divide espaço com um touro, um soldado estirado no chão, um cavalo e outras vítimas do ataque. São faces de desespero, em preto e branco, com bocas abertas e olhos ao céu. É, no curta de Kusturica, o ensaio do horror que ecoa – ou ecoará – na vida do menino judeu com seu pai e sua mãe, prestes a fugir, aos quais a arte é talvez a última forma de resistência.

(Idem, Emir Kusturica, 1978)

Nota: ★★★★☆

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Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima

Entre os filmes de Nagisa Oshima, Três Bêbados Ressuscitados é talvez o mais desafiador. Não pela violência ou pelo debate que deseja suscitar, mas pela aparência de absurdo, pelo surrealismo, uma comédia de aventuras típica das novas ondas da época.

Em cena, três jovens japoneses tentam se salvar após serem confundidos com coreanos. Na praia, dois deles têm as roupas trocadas. Os verdadeiros coreanos deixam dinheiro no local, sobre a areia. A confusão logo se expõe: os jovens tentam comprar cigarros e levantam suspeitas do vendedor, que liga para a polícia.

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O trio é interpretado pelos músicos do The Folk Crusaders, pouco chegados à seriedade, com cabelo tigelinha e mínimas expressões além de um sorriso distante. À câmera, são jovens livres como os Beatles, quase em uma versão japonesa – porém politizada – de Os Reis do Iê-Iê-Iê, o sucesso de Richard Lester de 1964.

Três Bêbados Ressuscitados foi lançado no Japão em 1968, pouco depois de o fotógrafo americano Eddie Adams captar sua imagem mais famosa, Execução em Saigon, em fevereiro daquele mesmo ano. A imagem mostra o exato momento em que um vietcongue é assassinado por um general, com um tiro na cabeça.

Ela integra um dos momentos finais desse filme provocador. Oshima expõe não apenas o momento do tiro: uma reprodução em cores da fotografia de Adams, observada pelos jovens no interior do trem, simula a ideia de movimento, da chegada da vítima à própria queda, enquanto é cercada por soldados. A pintura da foto é exposta em um grande muro, à frente do qual um coreano é executado por autoridades japonesas.

A obra de Oshima reflete a fotografia às vezes como comédia, de forma a provocar: os três jovens – talvez embriagados, não se sabe – tentam simular o rosto do vietcongue no momento do tiro, de sua execução, retorcendo a boca e outros músculos da face. A execução será vista em outros momentos, nas investidas de coreanos contra japoneses e também o contrário, como se passa nos já citados momentos finais.

Do que trata o filme? Identidade, ou de sua confusão. É sobre se sentir estrangeiro em seu próprio país, ser transformado no “outro” a ser executado entre as fileiras de coreanos que foram lutar na Guerra do Vietnã, em apoio ao governo americano.

O trio termina nessa luta, ao menos em sonho. Oshima chega à teatralidade exagerada, em comunhão com os absurdos que sua obra expõe. A certa altura, os jovens conhecem uma garota coreana, seu pai adotivo e abusador (com tapa-olho e gancho no braço) e os dois coreanos que vieram para o Japão como clandestinos para fugir da guerra.

O filme retorna ao início quando atinge a metade: os mesmos três garotos estão à praia, com roupas trocadas, e o que poderia ser a reprise da mesma história encontra variações. Oshima conta outra história e ao mesmo tempo a mesma. Em ambas, coreanos e japoneses trocam de posições e são executados.

A discriminação aos coreanos no Japão é um assunto caro a Oshima. Segundo o diretor, os coreanos refletem os próprios japoneses (ou deveriam). “Olhando para os coreanos, podemos nos encontrar. Sempre pensei que devíamos olhar para os coreanos, é preciso reconhecer que eles existem, especialmente os coreanos no Japão. Eles estão sempre muito deprimidos, porque são discriminados, eu quis me solidarizar com eles, contra o Japão”, disse o diretor, em entrevista a Lucia Nagib.

O filme foi lançado logo após O Enforcamento, um dos melhores trabalhos do cineasta japonês. Nele, um coreano é condenado à forca e sobrevive, mas fica sem memória. As autoridades japonesas tentam fazê-lo recordar sua identidade e seu crime para que assim possam tentar matá-lo novamente. Essa tentativa de regressão leva à crítica de Oshima sobre a condição do coreano na sociedade japonesa.

Com câmera na mão, o trio do Folk Crusaders sai às ruas e aborda os transeuntes. Três Bêbados Ressuscitados ganha contornos de documentário. Eles perguntam às pessoas se elas são japonesas. “Não, sou coreano”, diz uma delas. “Por quê?” “Porque sim”. É justamente o ator Do-yun Yu, o protagonista de O Enforcamento.

(Kaette kita yopparai, Nagisa Oshima, 1968)

Nota: ★★★★☆

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Paraíso, de Andrey Konchalovskiy

Os mortos relatam suas experiências à câmera. Justificam alguns de seus atos, acompanhados por expressões de dor e arrependimento. O interessante recurso narrativo às vezes soa cansativo e aos poucos consegue dar mais profundidade a Paraíso.

A protagonista é a russa Olga (Yuliya Vysotskaya), presa ao ajudar crianças judias na França ocupada e levada depois a um campo de concentração. Mulher forte que talvez sonhe com um paraíso possível em meio à dor: frente a frente com Deus, ela talvez tenha dúvidas se é ou não digna do reino dos céus.

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Evidente que a passagem será reservada para poucos. Olga é vítima. Presa, é interrogada pelo capitão da polícia francesa e tenta comprar a liberdade de um amigo por meio de seu corpo, seu sexo, em uma cena incrível na qual ergue a saia para a autoridade. A câmera, posicionada ao alto, dá a ideia de vigilância, de intrusão.

O capitão (Philippe Duquesne) terá vida curta. Além de que vive com a mulher e com o filho pequeno, dele se sabe pouco. O diretor Andrey Konchalovskiy escreveu o roteiro de Paraíso com Elena Kiseleva e confere algum peso à personagem, um francês corrompido que tenta não enxergar os problemas à sua volta.

Interessante notar que, nas andanças com o filho, eles param em frente a um grande formigueiro. A imagem dá destaque às formigas, às pequenas partes vivas e em movimento nesse mundo em guerra, à sombra do Holocausto. Mundo no qual algumas pessoas serão menos que insetos, e no qual quase tudo é reduzido a partículas.

As formigas, as toneladas de metal, os vários óculos que formam uma montanha, as malas abertas, empilhadas, das vítimas judias levadas aos campos de concentração. Após a morte do capitão por forças de resistência, Olga será levada a um desses locais.

As sequências do campo de concentração são fortes. A fotografia em preto e branco, de Aleksandr Simonov, revela a bagunça, o desajuste, o desespero das mulheres cercadas por grades, madeira, homens violentos e cães, mulheres que precisam saquear cadáveres para vestir novos calçados e até para tomar um pouco de sopa.

À miséria Konchalovskiy retorna não para apresentar mais um entre tantos filmes sobre o Holocausto. Paraíso leva à situação de duas pessoas diferentes – uma autoridade nazista e a mulher presa – que, a certa altura, precisam aceitar a própria morte.

Olga reencontra Khelmut (Christian Clauss), rapaz de descendência aristocrática que tenta descobrir casos de corrupção entre trabalhadores e internos do campo de concentração. Ambos trocaram momentos e tiveram um breve romance na Itália, em algum verão passado, e voltam a se encontrar no pior lugar do mundo.

As personagens são construídas de forma ambígua, a começar por ele. Em suas confissões à tela, como se falasse a um velho filme com defeitos – e como se Deus estivesse a captar esses relatos em película –, ele não esconde adoração ao nazismo.

Para ele, o paraíso sonhado pelos nazistas viria com o extermínio dos judeus, sendo o sangue um estágio para se chegar a um mundo melhor. Guerras vêm e vão, diz um homem. No fundo, ao também aceitar o próprio fim, o som do vento que abre a janela, os fantasmas que o perseguem na floresta, depois o barulho das bombas, é como se Khelmut enfim reconhecesse que a ideia de paraíso é o devaneio de um louco.

Entre o policial francês, a mulher presa e o oficial alemão, Konchalovskiy constrói um filme de diferentes olhares, sobre o sentimento de um fim inevitável e sobre como os relatos – sinceros, sem floreios – fazem das pessoas muito mais do que partículas.

(Ray, Andrey Konchalovskiy, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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O Filho de Saul, de László Nemes

Império do Sol, de Steven Spielberg

Ao olhar para o céu, o garoto Jim encontra algo divino. Ele ama aviões, sonha com eles em Império do Sol. E, até certa altura, não tem ideia da gravidade desses tempos de guerra. Essa ilusão (ou barreira) é comum à filmografia do diretor Steven Spielberg: a inocência contra o mal, com personagens que resistem à vida adulta.

O jovem trocou Deus pelos aviões: são estes que lhe confortam em um mundo estranho, objetos voadores que lhe oferecem um pouco de fantasia. Dá para imaginar o poder que os mesmos têm sobre uma criança como Jim. Nesse mundo em guerra, o menino declara-se ateu em certo momento. Prefere crer no que vê, no que ocupa o céu.

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Em sua jornada, Jim terá de respeitar os japoneses que maltratam ocidentais em um campo de concentração na China, durante a ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial. Esse respeito, é certo, tem a ver com o poder dos aviões japoneses. Chega mesmo a admirar os pilotos suicidas em direção ao ar e à morte. Bate continência.

O menino vivia em uma grande casa, com fartura, criados, brincadeiras: provava a vida que só podia ter para dentro de seus muros. Para fora, a fome está por todos os lados, a começar pelo rosto de desespero do mendigo à beira de seu muro. Pelas ruas, com o pai e a mãe em um grande carro, ele assiste à miséria através da janela.

Império do Sol revisita o cinema de David Lean. A abertura retira algo de A Ponte do Rio Kwai. No filme de 1957, cruzes são vistas à beira da estrada de ferro nos primeiros instantes, em interessante junção entre a morte e o progresso. O mesmo faz Spielberg, a partir da obra de J.G. Ballard e com roteiro de Tom Stoppard: mostra caixões boiando enquanto um grande barco corta águas turvas.

À frente, Jim, sua família e outros ricos ocidentais fantasiam-se para uma festa. Passam entre a multidão vestidos de pirata e palhaço, com cores fortes. Tentam, sem que Spielberg precise dar explicações, não enxergar os problemas: nada melhor que uma festa em que ninguém precisa de um verdadeiro rosto, uma forma acabada.

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Contraste interessante, por exemplo, pode ser visto em outro momento: o grande cartaz de E o Vento Levou na parede de um prédio, cores contra a fumaça, a falta de sol, a tristeza e a miséria: o cinema americano clássico, em pintura colorida, contra a realidade da guerra. O escapismo. Nessas ruas, o menino luta para ser visto, para se “render”.

Se em algum ponto o filme parece perder a humanidade, em outros restam momentos de força graças ao jovem Christian Bale, em bela interpretação como o pequeno herói. Para Spielberg, a criança resiste ao cinismo de seres como Basie (John Malkovich), o americano que vive por viver, sobrevive por esporte, de costas ao problema.

O menino, que foge para se ver preso, que tenta se “render” e não é visto, encontra em Basie esse cinismo típico dos mercenários americanos dispostos a qualquer coisa por dinheiro. E Basie sequer ficará bravo com o garoto quando é preso por culpa dele. Continuará em sua forma irritante de se dar bem, sua malícia que serve à situação.

A criança sobrevive graças ao mundo de sonhos que fez para si: não pode ser vista pelo inimigo em meio à sua aparência indolor, à infantilidade, mas pode surpreender com atitudes inesperadas: a maneira de cantar, ou mesmo a forma como respeita o vilão. Luta para ser alguém além de uma partícula na multidão, a qual sempre carrega ou traga o raquítico Jim, também responsável por fazer dele alguém solitário.

(Empire of the Sun, Steven Spielberg, 1987)

Nota: ★★★★☆

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O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

A mulher casada, mesmo em claro desejo, agride o amante na primeira vez em que se beijam, ou instantes antes. Essa relação é sempre cheia de conflitos: o corpo da mulher, com suas curvas, é o equivalente “menor” do deserto em tempos de guerra.

Corpo claro como areia, deitado no momento em que o mesmo amante, em O Paciente Inglês, elege seu ponto preferido, a possuir: o pequeno declínio pouco abaixo do pescoço, próximo ao peito. Desde os primeiros instantes desse belo filme de Anthony Minghella, fica claro que se trata de descobrir aquele deserto, aquele corpo.

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Na abertura, o avião do mesmo homem sobrevoa o deserto. Outros homens, soldados, atiram. O avião cai. Não é difícil saber que ele perdeu – ou já havia perdido – a mulher, e menos ainda perceber que tudo o que veio antes não deu certo. Resta-lhe a memória.

O corpo é conflituoso, como antecipam os golpes dela (antes de ceder a ele) ou mesmo a tentativa dele em escapar da amada, em encontrar uma forma, em vão, de se desviar. Ela volta. E o momento em que o encara, pelo espaço da porta, enquanto a personagem está deitada, justamente antes do primeiro contato, beira a miragem.

Essa história de amor proibido, em terreno arenoso, é relembrada pelo mesmo homem condenado à cama, à sua destruição, na pouca vida que lhe resta: ironicamente, ele vê-se preso ao próprio corpo, corpo que perdeu parte de suas características, deformado pelas queimaduras e ao qual a natureza impõe outro desenho.

Ele (Ralph Fiennes) relembra sua história de amor, a última de suas histórias no deserto, enquanto é acompanhado e tratado por uma enfermeira (Juliette Binoche). Se nas lembranças o filme de Minghella move-se aos perigos de invadir terreno proibido (a mulher, a guerra), na segunda parte aborda da tentativa de escapar do conflito.

A casa afastada é a forma encontrada por essa sorridente enfermeira – apesar de tudo – para trancar sua maldição, ou para se isolar dos outros e assim diminuir as baixas da guerra. De novo, em vão. Às pessoas que segue leva os problemas: o namorado morre em batalha, a amiga loura morre na explosão de uma mina terrestre.

A grande casa, a parada, torna-se túmulo das lembranças, do paciente, talvez das relações dessa mesma mulher que ainda encontra espaço para um novo romance – justamente com um desarmador de bombas. Difícil imaginar profissão mais ingrata.

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O filme de Minghella é amargo mas belo. Sua beleza vem tanto do que é evidente – das imagens de John Seale, ou das fusões entre quadros, entre tempos, pela edição do mestre Walter Murch – quanto do que pouco se evidencia em palavras, a tentativa de invadir, e viver, em um mundo cujas regras são quebradas a todo instante.

O conflito para tomar o corpo (como prazer insubstituível, incontrolado) e o conflito, em outra ponta, para tomar o deserto, para guerrear, para descobrir a caverna que esconde desenhos de seres em mergulho, a mesma caverna que servirá de refúgio ao corpo da mulher e desenhista, a amante interpretada por Kristin Scott Thomas.

O pincel, nos créditos de abertura, traça justamente as formas do corpo feminino. E a transição de Murch, na sequência, faz emergir o deserto. O mesmo corpo continua a “navegar” pelas dunas até desaparecer, dando vez ao avião, depois ao conflito.

A fusão de tantos elementos à qual chega o diretor produz um filme belo em que o homem, preso em seu corpo de novas formas, é condenado a lembrar da mulher amada. Sua face queimada sequer deixa ver se a memória produz-lhe prazer ou dor.

(The English Patient, Anthony Minghella, 1996)

Nota: ★★★★☆

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