guerra

Antes da Chuva, de Milcho Manchevski

As três histórias de Antes da Chuva terminam com mortes. Na primeira, a de uma menina albanesa; na segunda, a de um homem inglês; na terceira, a de um fotógrafo que acaba de retornar à pequena vila em que cresceu, na Macedônia, local tomado por conflitos entre clãs, em clima de separação então predominante na região dos Bálcãs.

O diretor Milcho Manchevski escreveu o roteiro em forma circular, ao passo que a primeira história encontra a última. Em algum momento, a impressão – apesar da divisão por capítulos e a inserção de novas personagens – é de continuidade. Por outro lado, algo é colocado propositalmente fora do lugar. O tempo é embaralhado.

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É o que se vê, por exemplo, no momento em que a editora de uma agência de notícias (Katrin Cartlidge) vê fotos de acontecimentos que, na cronologia do filme, ainda não aconteceram. Nesse sentido, a estrutura circular não deixa ver o início ou o fim, e o tempo parece ser reorganizado de forma a embutir algum mistério.

A primeira história, Palavras, é sobre a ausência do fala. Um jovem monge (Grégoire Colin) esconde uma menina albanesa acusada de matar um homem e perseguida pelos membros de outro clã. Quando ela é descoberta por outros monges, a rapaz e sua protegida precisam deixar o local e terminam encontrando a família dela.

As imagens da garota morta serão vistas, a quilômetros de distância, na Inglaterra, pela já citada editora da agência de notícias. Outras imagens de guerra e de pessoas mortas, em locais provavelmente diferentes, serão vistas também por essa mulher em um momento único de sua vida, quando descobre estar grávida.

Em Faces, os rostos de ódio, nas fotografias, antecedem o rosto desfigurado do marido, o qual a mulher grávida terá de encarar. O conflito dos Bálcãs chega à Inglaterra através de dois estrangeiros que brigam em um restaurante, conflito que termina com tiros e mortos. Amante do fotógrafo que decidiu retornar à Macedônia, a editora revelava a gravidez ao marido e tentava dar fim ao relacionamento.

Mais do que pela aparência de continuidade entre uma parte e outra, Antes da Chuva revela seu significado pelos títulos dos capítulos: o resultado de um mundo em conflito, imerso em sangue e extremismo. Não por acaso, a palavra é suprimida (pelo monge que faz voto de silêncio), a face é desfigurada e as fotos, rasgadas.

Ao fotógrafo macedônio Aleksander (Rade Serbedzija), as fotos perderam o sentido. Talvez não sejam capazes de reproduzir o horror, ou apenas forneçam uma representação distante do real. Para piorar, ele sente-se culpado pela morte de um homem, executado para que pudesse captar uma imagem desejada.

Aleksander está à frente da terceira história, Fotos (e também aparece nas duas anteriores). De volta à pequena vila em que cresceu, ele encontra um local dividido entre macedônios e albaneses, cristãos ortodoxos e mulçumanos. Aleksander deseja reencontrar uma amiga de infância, um amor perdido, justamente uma albanesa.

E é justamente a mãe da menina procurada pelos macedônios, morta pelo próprio irmão no primeiro capítulo. Não é a única vez em que a bala é oferecida por um conterrâneo ou familiar. Nesse filme instigante, com montagem acelerada e, por isso, com efeitos estranhos e aparência descontrolada, o inocente é a primeira e última vítima.

(Before the Rain, Milcho Manchevski, 1994)

Nota: ★★★★☆

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Um Dia Perfeito, de Fernando León de Aranoa

Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins

O melhor de Mulher-Maravilha encontra-se em seu miolo. Nem nos primeiros momentos, à beira da cafonice, no treinamento da heroína; nem no encerramento que, de novo, reduz-se à briga fantasiosa entre deuses, artificial e sem emoção. Mesmo com momentos inspirados, não escapa à vala comum a filmes do tipo.

Sobre a abertura: a futura Mulher-Maravilha, Diana, vive em um reino de mulheres, de paraíso à vista (mar azul e infinito) e sol constante. É preparada por outras belas guerreiras, sob os olhos da mãe, para a guerra que, sabe o espectador, é inevitável. O paraíso logo rui e a moça é obrigada a migrar ao mundo real.

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O encerramento restitui a membrana do início, o mundo abertamente mágico, o surgimento de um deus que se assume vilão: a guerra que sempre esteve por lá, e que continuaria para sempre, ora ou outra dando as caras, ganha então um corpo. E o filme de Patty Jenkins prefere o contorno digital a qualquer sinal de emoção verdadeira.

A atriz que interpreta a Mulher-Maravilha, já revelada em Batman vs. Superman, é Gal Gadot. Seu rosto arredondado e sorriso infantil conferem-lhe jeito irresistível. Não se duvida que tenha saído de um paraíso escondido no oceano, e que esteve por muito tempo sob uma membrana, protegida, em um reino de bondade e justiça.

Não se duvida que Gadot possa ser a Mulher-Maravilha que nunca de dobrará ao cinismo, que descobrirá que a guerra, mais do que em um monstro metálico, reside nas ações humanas, no universo borrado das pessoas de carne e osso. Pois seu rosto infantil coloca-a justamente no ponto desejado, longe do realismo e da dubiedade.

É um dos problemas dos filmes de super-heróis da atualidade – ou mesmo dos mais antigos. Christopher Reeve, o eterno Superman, também tinha um pouco dessa forma virgem, esse jeito ingênuo e desavisado que o tornava, muito mais que Henry Cavill, alguém talhado para assegurar os limites do universo mágico.

Enquanto, nas trincheiras, os homens avolumam-se para apenas continuar ali, atirando ao outro lado ao mesmo tempo em que esperam o armistício, a mulher tem a resposta prática: libera do buraco escuro sua força – e ira – à medida que retorna ao alto, caminha pela lama e, com seu escudo e braceletes, defende-se dos tiros.

Mais que heroína, no filme de Patty Jenkins a Mulher-Maravilha assegura o lugar da mulher na guerra, ou na posição do homem. A mulher, antes, existia apenas no belo universo em que se voltava a si mesma, às outras, distante dos homens. Nesse filme bobo, ela vivia protegida sob a já citada membrana, em seu paraíso.

Sua forma ingênua fica cada vez mais saliente após um homem romper essa membrana – mesmo que o roteiro tente mostrar que ela sabe muito sobre tudo, que leu milhares de livros para confrontar o sexo oposto. Não convence. A Mulher-Maravilha é alguém distante das sombras do lado de fora, da neblina atravessada pelos navios alemães que logo penetram a mesma membrana.

A heroína descobre sua missão: passar para o outro lado e terminar a guerra. Encontrar a personificação da mesma, Ares, o deus expulso por Zeus e que deve ser confrontado, ao fim, por uma amazona. Contra o homem maldoso, desmiolado, que provoca a guerra (ou o deus escondido na forma masculina), a mulher leva a paz.

No mundo real, à exceção da Mulher-Maravilha, qualquer mulher é pequena e secundária, até mesmo a cientista vilã de rosto desfigurado – que faz pensar em Olhos Sem Rosto e, por consequência, em A Pele que Habito. Tal monstruosidade é justamente o contraponto à angelical Gadot, a menina que não se conforma com os adultos malfeitos e, veja só, termina apaixonada por um deles.

(Wonder Woman, Patty Jenkins, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

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Batman vs Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder

Guernica, de Emir Kusturica

Abordar o curta-metragem de Emir Kusturica sem levar em conta o significado da pintura de Pablo Picasso é impossível. O filme de estreia do cineasta sérvio é de 1978, sobre um garoto judeu que, após ver o famoso quadro, decide criar uma obra feita de colagens com fotos, em clara ligação com o cubismo e com o próprio Picasso.

Enquanto faz a preparação do quadro, com partes de fotografias distribuídas pelas paredes de seu apartamento, seu pai e sua mãe são examinados e interrogados por um médico alemão, que questiona detalhes da anatomia dela. O filme é ambientado no período em que os nazistas estão no poder. O médico mostra aversão aos judeus.

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O quadro de Picasso é a maneira de o menino descobrir os horrores da guerra. Seu pai, com quem vai ao museu no início do filme, tenta esconder os problemas do mundo: 20 anos antes de A Vida é Bela, há aqui um pai usando um pouco de imaginação para que o filho não saiba da perseguição ao redor e não se sinta diferente.

Antes de entrar no museu, o menino questiona o pai sobre a alternância do dia e da noite. O homem explica que a Terra gira e, por isso, que a luz do sol recai sobre toda a superfície, permitindo sua presença em todos os continentes, todos os dias. A mensagem é óbvia: o sol nasce para todos, a escuridão também.

Próxima ao quadro, a criança é minúscula. Ela volta o olhar para cima para contemplar a pintura de Picasso, feita em 1937, pouco depois dos bombardeios na pequena cidade basca de Guernica, símbolo máximo – no quadro e na história – da covardia da guerra.

Na célebre imagem cubista, uma mãe com o filho morto nos braços – que lembra a Pietá de Michelangelo – divide espaço com um touro, um soldado estirado no chão, um cavalo e outras vítimas do ataque. São faces de desespero, em preto e branco, com bocas abertas e olhos ao céu. É, no curta de Kusturica, o ensaio do horror que ecoa – ou ecoará – na vida do menino judeu com seu pai e sua mãe, prestes a fugir, aos quais a arte é talvez a última forma de resistência.

(Idem, Emir Kusturica, 1978)

Nota: ★★★★☆

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Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima

Entre os filmes de Nagisa Oshima, Três Bêbados Ressuscitados é talvez o mais desafiador. Não pela violência ou pelo debate que deseja suscitar, mas pela aparência de absurdo, pelo surrealismo, uma comédia de aventuras típica das novas ondas da época.

Em cena, três jovens japoneses tentam se salvar após serem confundidos com coreanos. Na praia, dois deles têm as roupas trocadas. Os verdadeiros coreanos deixam dinheiro no local, sobre a areia. A confusão logo se expõe: os jovens tentam comprar cigarros e levantam suspeitas do vendedor, que liga para a polícia.

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O trio é interpretado pelos músicos do The Folk Crusaders, pouco chegados à seriedade, com cabelo tigelinha e mínimas expressões além de um sorriso distante. À câmera, são jovens livres como os Beatles, quase em uma versão japonesa – porém politizada – de Os Reis do Iê-Iê-Iê, o sucesso de Richard Lester de 1964.

Três Bêbados Ressuscitados foi lançado no Japão em 1968, pouco depois de o fotógrafo americano Eddie Adams captar sua imagem mais famosa, Execução em Saigon, em fevereiro daquele mesmo ano. A imagem mostra o exato momento em que um vietcongue é assassinado por um general, com um tiro na cabeça.

Ela integra um dos momentos finais desse filme provocador. Oshima expõe não apenas o momento do tiro: uma reprodução em cores da fotografia de Adams, observada pelos jovens no interior do trem, simula a ideia de movimento, da chegada da vítima à própria queda, enquanto é cercada por soldados. A pintura da foto é exposta em um grande muro, à frente do qual um coreano é executado por autoridades japonesas.

A obra de Oshima reflete a fotografia às vezes como comédia, de forma a provocar: os três jovens – talvez embriagados, não se sabe – tentam simular o rosto do vietcongue no momento do tiro, de sua execução, retorcendo a boca e outros músculos da face. A execução será vista em outros momentos, nas investidas de coreanos contra japoneses e também o contrário, como se passa nos já citados momentos finais.

Do que trata o filme? Identidade, ou de sua confusão. É sobre se sentir estrangeiro em seu próprio país, ser transformado no “outro” a ser executado entre as fileiras de coreanos que foram lutar na Guerra do Vietnã, em apoio ao governo americano.

O trio termina nessa luta, ao menos em sonho. Oshima chega à teatralidade exagerada, em comunhão com os absurdos que sua obra expõe. A certa altura, os jovens conhecem uma garota coreana, seu pai adotivo e abusador (com tapa-olho e gancho no braço) e os dois coreanos que vieram para o Japão como clandestinos para fugir da guerra.

O filme retorna ao início quando atinge a metade: os mesmos três garotos estão à praia, com roupas trocadas, e o que poderia ser a reprise da mesma história encontra variações. Oshima conta outra história e ao mesmo tempo a mesma. Em ambas, coreanos e japoneses trocam de posições e são executados.

A discriminação aos coreanos no Japão é um assunto caro a Oshima. Segundo o diretor, os coreanos refletem os próprios japoneses (ou deveriam). “Olhando para os coreanos, podemos nos encontrar. Sempre pensei que devíamos olhar para os coreanos, é preciso reconhecer que eles existem, especialmente os coreanos no Japão. Eles estão sempre muito deprimidos, porque são discriminados, eu quis me solidarizar com eles, contra o Japão”, disse o diretor, em entrevista a Lucia Nagib.

O filme foi lançado logo após O Enforcamento, um dos melhores trabalhos do cineasta japonês. Nele, um coreano é condenado à forca e sobrevive, mas fica sem memória. As autoridades japonesas tentam fazê-lo recordar sua identidade e seu crime para que assim possam tentar matá-lo novamente. Essa tentativa de regressão leva à crítica de Oshima sobre a condição do coreano na sociedade japonesa.

Com câmera na mão, o trio do Folk Crusaders sai às ruas e aborda os transeuntes. Três Bêbados Ressuscitados ganha contornos de documentário. Eles perguntam às pessoas se elas são japonesas. “Não, sou coreano”, diz uma delas. “Por quê?” “Porque sim”. É justamente o ator Do-yun Yu, o protagonista de O Enforcamento.

(Kaette kita yopparai, Nagisa Oshima, 1968)

Nota: ★★★★☆

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Paraíso, de Andrey Konchalovskiy

Os mortos relatam suas experiências à câmera. Justificam alguns de seus atos, acompanhados por expressões de dor e arrependimento. O interessante recurso narrativo às vezes soa cansativo e aos poucos consegue dar mais profundidade a Paraíso.

A protagonista é a russa Olga (Yuliya Vysotskaya), presa ao ajudar crianças judias na França ocupada e levada depois a um campo de concentração. Mulher forte que talvez sonhe com um paraíso possível em meio à dor: frente a frente com Deus, ela talvez tenha dúvidas se é ou não digna do reino dos céus.

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Evidente que a passagem será reservada para poucos. Olga é vítima. Presa, é interrogada pelo capitão da polícia francesa e tenta comprar a liberdade de um amigo por meio de seu corpo, seu sexo, em uma cena incrível na qual ergue a saia para a autoridade. A câmera, posicionada ao alto, dá a ideia de vigilância, de intrusão.

O capitão (Philippe Duquesne) terá vida curta. Além de que vive com a mulher e com o filho pequeno, dele se sabe pouco. O diretor Andrey Konchalovskiy escreveu o roteiro de Paraíso com Elena Kiseleva e confere algum peso à personagem, um francês corrompido que tenta não enxergar os problemas à sua volta.

Interessante notar que, nas andanças com o filho, eles param em frente a um grande formigueiro. A imagem dá destaque às formigas, às pequenas partes vivas e em movimento nesse mundo em guerra, à sombra do Holocausto. Mundo no qual algumas pessoas serão menos que insetos, e no qual quase tudo é reduzido a partículas.

As formigas, as toneladas de metal, os vários óculos que formam uma montanha, as malas abertas, empilhadas, das vítimas judias levadas aos campos de concentração. Após a morte do capitão por forças de resistência, Olga será levada a um desses locais.

As sequências do campo de concentração são fortes. A fotografia em preto e branco, de Aleksandr Simonov, revela a bagunça, o desajuste, o desespero das mulheres cercadas por grades, madeira, homens violentos e cães, mulheres que precisam saquear cadáveres para vestir novos calçados e até para tomar um pouco de sopa.

À miséria Konchalovskiy retorna não para apresentar mais um entre tantos filmes sobre o Holocausto. Paraíso leva à situação de duas pessoas diferentes – uma autoridade nazista e a mulher presa – que, a certa altura, precisam aceitar a própria morte.

Olga reencontra Khelmut (Christian Clauss), rapaz de descendência aristocrática que tenta descobrir casos de corrupção entre trabalhadores e internos do campo de concentração. Ambos trocaram momentos e tiveram um breve romance na Itália, em algum verão passado, e voltam a se encontrar no pior lugar do mundo.

As personagens são construídas de forma ambígua, a começar por ele. Em suas confissões à tela, como se falasse a um velho filme com defeitos – e como se Deus estivesse a captar esses relatos em película –, ele não esconde adoração ao nazismo.

Para ele, o paraíso sonhado pelos nazistas viria com o extermínio dos judeus, sendo o sangue um estágio para se chegar a um mundo melhor. Guerras vêm e vão, diz um homem. No fundo, ao também aceitar o próprio fim, o som do vento que abre a janela, os fantasmas que o perseguem na floresta, depois o barulho das bombas, é como se Khelmut enfim reconhecesse que a ideia de paraíso é o devaneio de um louco.

Entre o policial francês, a mulher presa e o oficial alemão, Konchalovskiy constrói um filme de diferentes olhares, sobre o sentimento de um fim inevitável e sobre como os relatos – sinceros, sem floreios – fazem das pessoas muito mais do que partículas.

(Ray, Andrey Konchalovskiy, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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O Filho de Saul, de László Nemes