Frank Sinatra

Beber, filmar e cantar

Dean [Martin] e eu fazíamos muitas piadas sobre beber. Mas, convenhamos: se tivéssemos bebido de fato tanto quanto diziam que nós bebíamos, você acha que conseguiríamos filmar durante o dia e cantar à noite – que era o que fazíamos? Eu não recomendaria que ninguém vivesse a vida assim. É preciso saber o que se pode aguentar.

Frank Sinatra, ator e cantor, em declaração reproduzida em Frank Sinatra – A Arte de Viver, de Bill Zehme (Ediouro; pg. 118). Abaixo, ele (à direita) e o parceiro de filmes e noitadas Dean Martin.

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Ava Gardner e eles

O gosto de Ava por matadores, milionários e toda uma gama de homens inapropriados era notório. Ela acreditava que a liberdade sexual era prerrogativa da mulher. Suas histórias de amor levaram seu último marido, Frank Sinatra, à beira do suicídio; seu amante Howard Hughes até as raias da loucura; e quase levaram George C. Scott a cometer um crime passional.

Peter Evans, biógrafo de Ava Gardner. Abaixo, a estrela com Frank Sinatra.

frank sinatra e ava gardner

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Frank Sinatra, 100 anos

Numa época em que os muito jovens parecem estar assumindo o controle da situação, protestando e manifestando-se e exigindo mudanças, Frank Sinatra se mantém como um fenômeno nacional, um dos poucos produtos do pré-guerra que resistiu à prova do tempo. Ele é o campeão que fez a volta triunfal, o homem que tinha tudo, perdeu tudo e depois recuperou tudo, fazendo o que poucos homens são capazes de fazer: destruiu sua vida, deixou sua família, rompeu com tudo que lhe era familiar, aprendendo nesse processo que a única maneira de conservar uma mulher é não tentar segurá-la. Agora ele goza da afeição de Nancy, de Ava e Mia, a fina flor de três gerações de mulheres, e ainda é adorado pelos filhos, tem a liberdade de um homem solteiro, não se sente velho, faz com que homens velhos se sintam jovens, faz com que eles pensem que, se Sinatra é capaz de fazer alguma coisa, ela pode ser feita; não que eles mesmos sejam capazes de fazê-la, mas agrada-lhes saber que, aos cinquenta anos, essa coisa ainda é possível.

Gay Talese, jornalista, no clássico perfil Frank Sinatra está resfriado, em 1965 (Fama e Anonimato, Companhia das Letras; pg. 259).

frank sinatra

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Três perguntas sobre Casablanca

Há muitos mistérios ligados a Casablanca, o clássico de Michael Curtiz. É sobre alguns deles que fala o escritor Renzo Mora, autor do livro Casablanca – A Criação de uma Obra-Prima Involuntária do Cinema (Editora Estronho; saiba mais aqui), com exclusividade ao blog Palavras de Cinema. O que devia ser uma entre várias produções da época a atacar os inimigos, durante a Segunda Guerra, continuou viva para além da propaganda.

O anti-herói ao centro tem seu tempo para reencontrar a mulher que ama, também para buscar a redenção e colocar à frente os problemas do mundo; os coadjuvantes são perfeitos, cada um como peça privilegiada; as frases, tão lembradas, seriam revisitadas inúmeras vezes, sendo difícil imaginar a melhor, ou a mais importante.

humphrey bogart & dooley wilson - casablanca 1943

É sobre um pouco desse grande filme – no desafio das três perguntas – que fala Renzo, para provar que o clássico segue vivo.

Ao contrário de E o Vento Levou, Casablanca era mais uma entre as várias produções da Warner de 1942. O que fez dela um filme tão especial?

Isso ninguém sabe. É uma daquelas tempestades perfeitas, que se formam sem ninguém entender. Era para ser apenas um filme a mais e nenhum dos participantes imaginava que ele pudesse ser lembrado tanto tempo depois. Bogart e Bergman riam da bobagem da premissa de uma carta irrevogável para atravessar fronteiras. Bergman só queria fazer Por Quem os Sinos Dobram e sair daquela roubada. Mas valeu o “gênio do sistema de estúdios”, essa entidade sem nome ou rosto capaz de combinar talentos e produzir resultados maiores que a soma das partes.

Por que Casablanca pode ser considerado um filme de propaganda?

Ele surge no momento em que era necessário mobilizar os americanos a combaterem os nazistas – ideia que não convencia muito a população. Para eles, aquela era uma guerra europeia da qual eles queriam distância. Por coincidência, o roteiro do filme bate na Warner no dia exato do ataque de Pearl Harbor. Deste dia em diante, Hollywood se mobilizou fortemente para que seus filmes demonizassem os nazistas. Este confronto direto vinha sendo cuidadosamente evitado, até porque, no início, Hitler – antes de revelar seu lado psicopata – tinha fãs nos Estados Unidos, como o aviador herói Charles Lindbergh, conhecido antissemita.

Várias das frases do filme entraram para a história. Qual sua favorita?

Esse é um desafio. O roteiro todo está cheio de frases brilhantes. Escolher uma em particular é impossível. No final do meu livro listo uma relação de momentos brilhantes ditos pelas personagens. O filme todo é uma aula de roteiro, indispensável para apaixonados. Curiosamente, a frase mais famosa do filme, “Play It Again, Sam”, nunca é dita. Mais um mistério.

Renzo Mora, colaborador de revistas como VIP e Playboy e autor de Cinema Falado, Sinatra – o Homem e a Música e Casablanca – A Criação de uma Obra-Prima Involuntária do Cinema.

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Dean Martin: pura diversão

A pequena cidade de Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, tem um homem à espera dos outros, espécie de guardião que fica por ali, parado, como um porteiro.

É alguém para protegê-la, um sinal aos amigos caso algum bandido apareça. É Dean Martin, como um alcoólatra e pistoleiro, tipo de herói largado, sem qualquer sinal de confiança: um herói improvável ao faroeste de contornos clássicos de Hawks.

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Na trama, ele é chamado de “Borachón”, ou, aos amigos, apenas Dude. É sua personagem mais famosa, quando, em uma carreira sólida, já havia se despregado de Jerry Lewis e feito sucesso ao lado de Frank Sinatra.

Martin e sua turma, o Rat Pack, faziam sucesso porque eram como pareciam ser: homens da noite, divertidos, sempre com uma bebida à mão. Seres galantes que, em Onze Homens e um Segredo, pareciam estar sempre se divertindo. E estavam.

Eis um dos segredos desses homens do cinema clássico: viver um jeito divertido e fazer o público crer nessa diversão. Era uma das fórmulas de Martin mesmo quando tinha de ser o “Borachón”, suposto imprestável, nada capaz – crê-se – de guardar uma cidade, uma delegacia e ser o sinal aos amigos sob os ataques de outros homens armados, os bandidos que saem em busca de seu líder preso.

Os contornos dessa história fazem parte da mitologia do oeste, sobre bandidos e mocinhos em duelo, algo como se viu – com certas diferenças – em Matar ou Morrer. Mas Martin, aqui, é a chave do enigma: um trágico engraçado, um ator tentando provar que era capaz de fazer um papel sério. Ao fim, torna-se a feliz surpresa.

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Não é fácil ser astro e coadjuvante ao mesmo tempo. No maravilhoso Deus Sabe Quanto Amei, Martin – um jogador livre – está à sombra de Sinatra.

Em Onde Começa o Inferno, está à sombra de outro grande, John Wayne, o rei dos caubóis norte-americanos. Essa fusão entre homens diferentes tem, em tela, algo curioso que Hawks faz parecer engraçado. É prazeroso, é eterno. Em uma determinada sequência, Martin e Wayne saem à noite apenas para caminhar por uma rua. Andam como lobos reconhecendo o território, enquanto o espectador acompanha.

Eram tempos de outros prazeres. Martin, nesse meio, era uma “carta na manga”, o coadjuvante prestes a roubar a cena. Quase derrotado por si mesmo, Dude sempre fará qualquer fã de faroeste lembrar a escarradeira à qual serve, no bar da abertura. O vilão ri e joga na escarradeira uma moeda. Dá a Martin uma esmola.

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Fica a impressão, em seus filmes mais conhecidos, de que não poderia sustentar o protagonista. Sua leveza faz pensar no coadjuvante de luxo, o homem para dizer as palavras certas e à espreita, o melhor amigo do herói.

Faz isso em Deus Sabe Quanto Amei, mais próximo de si mesmo, como amigo e malandro em quem o espectador ainda aceita confiar. Vive um viajante sempre pronto para encher sua mala e fugir: personagem que casa à perfeição com o espírito do homem de Sinatra, perdido e apaixonado na obra de Minnelli.

No faroeste ou no drama de amor, Martin pode ser tipos opostos sem perder a marca do homem divertido, o que se veria em Beije-me, Idiota, de Billy Wilder. Nesse caso, em uma comédia ácida com os toques sofisticados do diretor – para ser, sem medo e descontraído, o que no fundo sempre foi: ele mesmo.