François Truffaut

Jeanne Moreau (1928–2017)

Generosidade, ardor, cumplicidade, compreensão pela fragilidade humana, tudo isso pode ser lido na tela quando Jeanne Moreau representa.

No caminho de meus vinte anos de cinema, as filmagens de Jules e Jim, graças a Jeanne Moreau, permanecem uma recordação luminosa, a mais luminosa.

François Truffaut, cineasta, em 7 de setembro de 1981 (O Prazer dos Olhos – Escritos Sobre Cinema; Jorge Zahar Editor, pg. 250). Truffaut dirigiu Moreau em Os Incompreendidos (no qual empresta apenas a voz), Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (foto) e A Noiva Estava de Preto.

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Campo Grande, de Sandra Kogut

O Rio de Janeiro é um canteiro de obras. As crianças perdidas quase desaparecem entre máquinas, tapumes, de um lado para outro, em busca da mãe. Campo Grande, de Sandra Kogut, insere outra questão além do tema do abandono: esses seres perdidos tornam-se partículas à margem do progresso mecânico que pede passagem.

O que explica, ao longo do filme, a dificuldade das crianças em se relacionar e fazer parte do mundo adulto. O contrário também se aplica. Esses lados, com exceção da parte final, quase sempre não se encontram, não dialogam, e isso alimenta o drama.

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A pequena Rayane (Rayane do Amaral) é deixada na porta de um prédio apenas com um bilhete. Sozinha, ela chora e é acolhida por uma mulher que vive no local. Suspeita-se que a mãe das crianças tenha alguma relação com a dona do apartamento. Logo em seguida surge o irmão um pouco mais velho, Ygor (Ygor Manoel).

Em boa parte dessa história de sons urbanos e olhares atravessados, o espectador volta-se ao ambiente infantil, às pequenas conversas e brincadeiras às quais os adultos nem sempre – ou quase nunca – têm acesso. Campo Grande é sobre o choque do mundo adulto com o infantil, também sobre como as crianças sobrevivem em reclusão.

Algumas das melhores passagens apresentam esse contato, a fala baixa do irmão para a irmã, ou mesmo a naturalidade, ao fim, com que Ygor abraça Rayane, ao se encontrarem em um abrigo municipal para crianças. Essa naturalidade, feita com certa distância, apresenta o que aqui há de melhor: as crianças são tratadas como crianças.

Nem sempre é assim no cinema. No período clássico, quase nunca. O grande cineasta François Truffaut certa vez escreveu que “há um certo número de filmes com crianças, mas poucos filmes sobre crianças”. Nem todos oferecem esse acesso à “verdade” infantil, mesmo quando os pequenos estão interpretando. Parece ser o caso aqui.

Continua Truffaut: “Como as crianças trazem consigo automaticamente a poesia, creio que convém evitar introduzir elementos poéticos num filme de crianças”. Na maior parte de seu trabalho, talvez seguindo os passos do francês, Kogut reserva à câmera alguma distância, o poder do registro. Momentos de drama dispensam essa “poesia”.

O filme pode parecer frio em certas passagens. Talvez pela necessidade de não separar nunca o drama individual do efeito físico da grande cidade sobre todos, da metrópole impessoal que se refaz apenas sob o som das máquinas e do trânsito constante.

Há ainda o drama da mulher (Carla Ribas) separada do marido, a quem as crianças são deixadas. Mais de uma vez, é vista com roupas íntimas, sozinha, como se a exposição física nunca fosse suficiente para compreendê-la. Ainda assim, não é difícil enxergar os responsáveis pela dor das personagens: distância, isolamento e ausência materna.

(Idem, Sandra Kogut, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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15 grandes cineastas que foram indicados ao Oscar, mas nunca ganharam o prêmio

A lista poderia ser maior. Há outros mestres que receberam indicações, perderam e devem ser lembrados, nomes como Krzysztof Kieslowski e Hiroshi Teshigahara. Na outra ponta há figuras medíocres que já levaram o prêmio. Vão dizer que são coisas do momento, com filmes que estavam na crista da onda e ganharam tudo (ou quase). Pode ser.

E há outros casos curiosos, não menos injustos. Um deles é o de Charles Chaplin. Apesar de ter vencido pela música de Luzes da Ribalta e ter ganhado um merecido honorário, Chaplin nunca foi indicado como melhor diretor. O que explica sua ausência nesta lista – como a de realizadores como Buñuel, Visconti, entre tantos outros.

Robert Altman

A carreira de Altman é extensa, cheia de momentos geniais, entre comédias, dramas e até faroestes. Poderia ter ganhado o Oscar em diferentes momentos. E merecia por alguns, como em 1976, quando concorria por Nashville, ou em 2002, quando viu Ron Howard abocanhar a estatueta pelo drama Uma Mente Brilhante, ocasião em que concorria pelo extraordinário Assassinato em Gosford Park.

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Michelangelo Antonioni

O mestre da melancolia, realizador com extremo controle do tempo e que atravessou diferentes países com filmes provocadores e que captaram o espírito de seu tempo. Blow-Up passa-se na agitada Londres dos anos 60. Deu ao diretor sua única indicação. O filme acompanha os passos de um fotógrafo de moda (David Hemmings) em busca de realidade, em noites em albergues ou no possível registro de um assassinato.

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Ingmar Bergman

Indicado três vezes como melhor diretor, por Gritos e Sussurros, Face a Face e Fanny & Alexander, Bergman é um gênio. Quase ninguém duvida disso. No entanto, o Oscar nunca o premiou na categoria, preferindo cineastas hoje pouco lembrados, George Roy Hill, John G. Avildsen e James L. Brooks, respectivamente. Se é possível compensar, os filmes de Bergman ganharam quatro vezes na categoria de estrangeiro.

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John Cassavetes

O pai do cinema independente americano chegou ao Oscar primeiro como ator, com a indicação de coadjuvante por Os Doze Condenados. Pouco depois, em 1975, recebeu sua única indicação como diretor, dessa vez pelo incrível Uma Mulher Sob Influência. O filme, contudo, ficou fora da categoria principal. Na ocasião, a Academia preferiu indicar o quadradão Inferno na Torre, filme catástrofe de grande orçamento.

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Federico Fellini

Talvez o diretor italiano mais importante da história, indicado quatro vezes ao Oscar, por quatro obras-primas: A Doce Vida, Oito e Meio, Satyricon e Amarcord. Seu estilo tornar-se-ia adjetivo: o felliniano. E são vários os diretores que ainda tentam perseguir a marca. Alguns resolveram adaptar suas histórias para os palcos ou mesmo para o cinema, como é o caso de Bob Fosse, em diferentes momentos.

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Howard Hawks

Amado pelos críticos da revista Cahiers du Cinéma, nem sempre foi reconhecido como um autor nos Estados Unidos. Indicado ao Oscar uma única vez, pelo belo Sargento York. Foi parceiro de atores como Bogart e dirigiu um pouco de tudo: filmes de gangster, screwball, dramas de guerra e alguns dos melhores faroestes americanos. Os franceses estavam certos: Hawks não era mero diretor de encomenda.

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Alfred Hitchcock

Outro cuja marca virou adjetivo. Outro que ora ou outra aparece copiado, ou repaginado em filmes modernos, sobretudo os que investem no suspense. Hitchcock foi indicado ao Oscar em diferentes momentos de sua carreira nos Estados Unidos, entre eles por seu primeiro filme em Hollywood, Rebecca, a Mulher Inesquecível, e, mais tarde, pelo sucesso comercial Psicose. Ganhou em 1968 o prêmio Irving G. Thalberg.

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Stanley Kubrick

O cineasta ganhou o Oscar apenas uma vez, pelos efeitos especiais de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Foi nomeado quatro vezes como diretor, por Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Seria lembrado, ainda mais uma vez, pelo roteiro de Nascido para Matar. Nenhuma vez agraciado com um honorário. Kubrick tem uma carreira exemplar e que atravessa décadas, dos anos 50 aos 90.

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Akira Kurosawa

O prêmio de filme estrangeiro caiu no colo de Kurosawa quando a categoria nem existia, no anos 50, por Rashomon. Venceu na mesma categoria com a produção soviética Dersu Uzala, de 1975, e a única indicação do “imperador” chegou tarde, em 1986, pelo monumental RAN. O cineasta recebeu o honorário em 1990, entregue por George Lucas e Steven Spielberg, que inegavelmente beberam em sua fonte.

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Ernst Lubitsch

De tão bom com as comédias, acabou sendo identificado pelo “toque de Lubitsch”. Tornou-se marca. E, não raro, sinônimo de sofisticação. Foi indicado ao Oscar três vezes, incluindo por um de seus últimos filmes – não o mais inspirado –, O Diabo Disse: Não! Como outros desta lista, contentou-se com um honorário, entregue em 1947. Morreu no mesmo ano, em novembro, em Hollywood.

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Sidney Lumet

Também fez um pouco de tudo, navegou entre gêneros. Já disseram, por isso, que não era um autor. Mas Lumet, pelo menos entre indicados, nunca foi esquecido pelos membros da Academia. Faltou o prêmio, veio apenas o honorário. Esteve quatro vezes no páreo como diretor: 12 Homens e uma Sentença, Um Dia de Cão, Rede de Intrigas e O Veredicto. Diversos atores ganharam a estatueta trabalhando em seus filmes.

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Otto Preminger

Indicado por Laura e, quase vinte anos depois, pelo belo drama O Cardeal, Preminger é um dos mestres do cinema americano que, como Hawks, merecia ser mais lembrado, principalmente em sua época. O incrível Anatomia de um Crime foi indicado como melhor filme em 1960, mas o cineasta, na ocasião, injustamente ficou de fora da categoria de direção. A obra recebeu sete indicações, mas não ganhou nada.

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Jean Renoir

Caso curioso: o francês foi indicado apenas uma vez, e por uma produção americana. Amor à Terra é de 1945 e não foi nomeado a melhor filme. Mestre absoluto, filho do pintor Pierre-Auguste Renoir, o diretor fez obras-primas como A Grande Ilusão, A Besta Humana, A Regra do Jogo e, mais tarde, O Rio Sagrado – no qual um certo Satyajit Ray aparece como assistente de direção. Veio, como consolo, um honorário em 1975.

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François Truffaut

Outro francês indicado apenas uma vez, em 1975, por A Noite Americana. A indicação veio um ano depois de o filme ter vencido o prêmio na categoria de estrangeiro. À época, Truffaut já havia realizado grandes obras e era um nome conhecido na América. Fez, entre outros, Os Incompreendidos, Jules e Jim e O Garoto Selvagem. A Noite Americana é um de seus melhores, no qual também se vê o Truffaut ator.

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Orson Welles

No já citado A Noite Americana há uma homenagem a Welles: Truffaut sonha que está roubando os stills de Cidadão Kane, na porta do cinema, quando era apenas uma criança. Pois Kane ainda povoa o imaginário cinéfilo: é um dos maiores de todos os tempos e deu a Welles sua única indicação ao Oscar de diretor. Perdeu, e só voltou aos holofotes da Academia em 1971, quando ganhou uma estatueta honorária.

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Bastidores: Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Eu disse a Spielberg: “Não sou ator. Só consigo fazer eu mesmo”. Ele disse: “Ótimo”. O filme começou a ser filmado no dia 14 de maio [de 1976], e, oh, meu deus, ainda não acabou. Deixei claro que era para me mandarem embora se eu não fosse bom. Nunca fiz nenhuma pergunta. Fiz questão de não incomodar o Spielberg. Jeanne Moreau uma vez me disse: “Em todo filme, você tem que amar todo mundo, exceto aquele que vai virar o bode expiatório”. Segui o conselho dela. Fiz de Julia Phillips, a produtora, meu bode expiatório. Toda vez que alguma coisa me desagradava, eu dizia que era sem dúvida culpa de Julia Phillips.

François Truffaut, cineasta, em declaração à jornalista Lillian Ross em 1976, em uma análise chamada François Truffaut por Lillian Ross e reproduzida na revista Serrote (número 20, julho de 2015; pg. 38). O cineasta francês e a jornalista encontraram-se cinco vezes ao longo de 16 anos. Abaixo, Truffaut com o ator Richard Dreyfuss nas filmagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

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Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

Em alguns filmes sobre extraterrestres, homens fogem de ataques e explosões. Os seres de fora se tornam indesejados e perigosos. Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau ocorre o contrário: é o protagonista, o homem incomum, que corre atrás dos visitantes em naves iluminadas, a cortar o céu.

Interpretado por Richard Dreyfuss, esse homem fica obcecado pela luz que, certa noite, cobre seu carro e queima parte de sua face. Há pouco a ser visto nesse primeiro contato. O diretor Steven Spielberg prefere distância, com luzes e sons.

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O que explica a beleza do filme. Roy Neary (Dreyfuss), o fascinado, passa a perseguir os pontos luminosos no céu. Deixa tudo para trás: família, emprego, qualquer sinal de vida estável. O que lhe interessa são os sinais de vida alienígena.

O herói passa a enxergar a imagem de uma montanha. Não se sabe como chega à personagem. Qualquer contato com qualquer matéria que dê vez ao formato do local – como o creme de barbear, o purê de batata ou mesmo a terra do quintal – passa a ser um novo aviso: trata-se do espaço que as naves escolheram para fazer contato.

E o homem perde-se, assim, para algo nada ou pouco palpável. O filme aposta nessa alucinação, à medida que sua mulher (com o tom cômico acertado de Teri Garr) percebe sua suposta loucura e desiste dele; e à medida que o herói aproxima-se de outra mulher (Melinda Dillon), mãe de uma criança abduzida e tomada pelas mesmas visões.

Ao governo, que também espera pelos alienígenas e prepara a recepção, homens como Neary não são interessantes: eles apenas ressuscitam a ideia de que a crença no impossível – como se os visitantes não estivessem muito distantes da aparição de uma santa, no topo da montanha – pode mobilizar um grupo e comprovar algo.

Sim, há algo religioso em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Seu herói torna-se um fanático levado por luzes, pela imagem de algo que não sabe explicar, algo que se forma na mesa do jantar, ou no meio de sua sala, em porções de terra vermelha.

Não há um vilão, mas um governo decidido a desviar a atenção do homem e minar sua crença, ou mesmo a de outras pessoas que, como Neary, tiveram a mesma visão. O governo entende que esse pequeno “delírio” coletivo pode ser mais perigoso do que um “delírio” maior, a mobilizar centenas de pessoas a capelas, igrejas e outros ambientes.

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Porque essas personagens podem estar certas, podem romper a ordem que o mesmo governo deseja manter: elas confirmam – e estão dispostas a perseguir, a provar – a existência de algo para além dos domínios do planeta, o que reside naquelas luzes.

Neary não é atrativo. Nada tem a oferecer além da certeza sempre tratada como delírio. Chega, sim, a ser irritante. Spielberg modula-o para romper sua estrutura social, entregando-se aos visitantes, no fim, sem qualquer preocupação com a família.

A entrega é total aos olhos do especialista francês (François Truffaut) que divide poucos momentos com Neary, mas cuja expressão aproxima-os: é alguém tão fascinado quanto o primeiro, típica personagem de Spielberg, um cientista moldado às emoções.

O diretor coloca-se entre o mundo adulto e o infantil: Contatos Imediatos tem, ao mesmo tempo, a matéria das personagens cativantes e apaixonadas e um espetáculo visual que não raro prefere o tom menor, como se os alienígenas estivessem longe de amar ou atacar os humanos abobalhados. Eles oferecem apenas um flerte.

(Close Encounters of the Third Kind, Steven Spielberg, 1977)

Nota: ★★★★☆

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