França

O Reencontro, de Martin Provost

Algumas situações não deixam mentir: O Reencontro, de Martin Provost, é um típico drama sobre superação, no qual uma personagem precisa morrer para outra se libertar. É um produto visto outras tantas vezes no cinema recente, com atores corretos nos lugares corretos, uma direção sem ousadias, além de mensagens que abundam.

Ao centro está a personagem de Catherine Frot, Claire Breton, a quem as mudanças vêm em enxurrada. A começar pelo trabalho, em um clínica prestes a fechar; depois pelo filho, que confessa à mãe que será pai (o tempo passou, ela será avó); e também pela presença de um novo amor, encarnado aqui pelo sempre competente Olivier Gourmet.

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O choque principal, contudo, dá-se pelo retorno inesperado de Béatrice (Catherine Deneuve), a ex-mulher de seu falecido pai, que carrega um câncer. A presença dessa mulher poderia, em outro caso, mudar nada ou pouca coisa na vida de Claire: seria fácil ignorar alguém que ficou sumida por décadas. Mas o momento delicado da outra impõe a aproximação.

Delicado, o filme passa a expor as diferenças, o espelho invertido. Claire é alguém de vida simples, previsível, que passou as últimas décadas fazendo o mesmo trabalho. Ela atua como parteira na já citada clínica que fechará as portas. Béatrice embute aí um chacoalhão: vive seus dias como os últimos, como aventura, além de cultivar práticas comuns àqueles com as finanças em risco, como apostar alto em jogos de carta.

A situação de Béatrice, para Claire, é ainda mais delicada quando se descobre que seu ex-marido – um famoso nadador ao qual foi dedicada, inclusive, uma página na Wikipédia, como a filha faz questão de destacar – tirou a própria vida quando foi deixado por ela. Motivos de sobra para repelência convertem-se em proximidade. É quando o filme decai.

Há uma necessidade de buscar mensagens de superação que poderiam ficar implícitas em situações cotidianas, como os nascimentos das crianças, mostrados mais de uma vez, e que por si só carregam a ideia da vida que se recicla – a despeito da morte que se aproxima, inevitável, a da personagem aventureira que se recusa a deixar de fumar e beber.

No recente Truman, por exemplo, essas questões são lançadas ao lado. É o destino do cão, Truman, que importa mais – à medida que o drama da morte, inevitável, desenha-se sem pressa. E, principalmente, sem apelação. Mas O Reencontro – ainda que não seja pesado – prefere a pequena comédia que brota de situações manjadas, para mostrar que as mulheres, apesar de tudo, estão vivendo. Vivem assim, com problemas, com pequenos acidentes de carro (intencionais) e a cama que quebra no momento do sexo (e gera risadas).

Todo esse emaranhado – a aparência da imperfeição que leva à beleza, à redenção necessária que se reduz ao anel passado de mão em mão pelas mulheres, o símbolo da ligação entre ambas – resulta em um filme apenas agradável, feito com sensibilidade, nunca marcante.

No confronto entre Catherines, duas mulheres diferentes saltam à tela. Frot é uma atriz completa, humana em pequenos gestos, que pode viver uma péssima artista (em Marguerite) com grandeza e fragilidade. Deneuve segue caminho contrário: é o mito que se esforça para ser humano, real, cuja morte, aqui, sequer será compartilhada.

(Sage femme, Martin Provost, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

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Um Instante de Amor, de Nicole Garcia

Jovem e Bela, de François Ozon

A jovem e bela protagonista não expressa sentimentos com facilidade. Sua frieza incomoda. Em sua primeira experiência sexual, com um belo rapaz alemão, à beira-mar, ela volta o olhar para o céu, para o lado; vê a si mesma, como se outra parte de seu ser a encarasse, a fizesse sentir vergonha. Talvez seja o momento em que descobre a ausência do prazer.

Ou, em Jovem e Bela, de François Ozon, não sentir o prazer que esperava sentir. Vive naquele amor de verão sua primeira decepção: o mundo ao redor, afinal, não é belo ou colorido como uma casa de bonecas, os irmãos mais novos não são tão inocentes quanto parecem, as mães e os padrastos não são corretos como deveriam.

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A mesma jovem que vive, ou não, esse amor de verão, uma adolescente um pouco sem rumo, prefere radicalizar: torna-se prostituta aos 17 anos. Vivida por Marine Vacth, Isabelle torna-se Léa, cresce alguns centímetros com o scarpin, veste terninho, solta os cabelos, diz ter 20 anos. É a garota dos desejos – e sonhos – de muitos homens mais velhos. Faz sucesso.

A verdadeira – sabe-se lá se existe, ou quem é – usa roupas de colegial, jeans, jaqueta um pouco longa, prende os cabelos e, perto da mãe e do padrasto, parece sempre menor, encolhida, às vezes criança. Vacth segue o conselho de Ozon: mantém-se em silêncio para provocar esse choque, para abrir essa possibilidade de transformação.

A referência à Bela da Tarde de Luis Buñuel vai muito além do título: como a musa Catherine Deneuve, a adolescente de Ozon conserva duas características: prostitui-se na parte da tarde e não esconde a indiferença em relação aos outros e aos seus sentimentos (parece ser má, mas talvez seja apenas fria e direta, ou real).

Isabelle busca mais do que dinheiro em suas investidas na prostituição. Ao seu psicólogo, mais tarde, confessa sentir prazer no perigo que a profissão carrega, a aventura que a leva sempre a um novo quarto, a um novo homem, ao inesperado. Não se trata apenas de buscar prazer ilimitado e com dinheiro; para Isabelle, a prostituição permite viver fora de seu “círculo perfeito”, o da aparente família perfeita.

E, nesse ponto, faz pensar de novo na personagem de Deneuve na obra de Buñuel: a menina rica, casada com um médico correto, em uma grande casa, que passa suas tardes em um bordel discreto, em Paris, para escapar da vida monótona e realizar suas fantasias. Mas no mundo de Isabelle permite-se ainda maior esconderijo. Graças à internet, os encontros são marcados a distância. Dispensa-se o ambiente do bordel.

Na ausência dos sentimentos da protagonista, Ozon oferece personagens secundárias frágeis, a começar pela mãe, interpretada por Géraldine Pailhas. A mãe tenta entender a opção da filha, tenta resolver seu “problema”, às vezes levando o espectador ao caminho mais cômodo e o retirando do mistério da personagem central. Ozon expõe uma normalidade ilusória. Como bem sabe Isabelle e o espectador de Jovem e Bela, a mãe também esconde segredos.

(Jeune & jolie, François Ozon, 2013)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
8 Mulheres, de François Ozon

Pola X, de Leos Carax

O garoto louro, rico, escritor sob pseudônimo, “o mais famoso de sua geração”, sonha com a imagem de uma menina morena, alguém que logo encontrará. Ela persegue-o. Ele deseja saber o que há por trás dessa imagem. Na sequência mais importante de Pola X, a menina enfim revela seu segredo: por uma floresta, à noite, ela diz ser sua irmã.

É também nessa floresta, por alguns minutos, entre alguns poucos cortes, que a câmera de Leos Carax não deixa o casal escapar. A menina relembra seu passado, na casa de idosos, depois na de um homem francês (possivelmente o pai do rapaz, já morto), mais tarde em um país distante que sofreu com o ataque de bombas, talvez com a guerra.

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A menina é, ao mesmo tempo, a refugiada e a irmã. Simboliza o encontro e a perda, o sangue e a distância. Não há garantias de que seja, realmente, a irmã do protagonista. Ainda assim, suas palavras e sua sinceridade, toda transmitida à base de dor inegável, serão suficientes para que ele saia de casa e passe a viver com ela – da riqueza e do conforto à incerteza das ruas.

O garoto deseja encontrar a “verdade”, ou descortinar a “mentira”. Claro que tais noções assumem alguma confusão, ou geram diferentes interpretações. O mais tentador é encarar a vida rica e fechada do castelo como mentira, o ambiente protegido e distante do mundo – dos refugiados, dos becos de Paris ou de qualquer grande cidade.

Em Pola X, Pierre (Guillaume Depardieu) vive com a mãe, a bela Marie (Catherine Deneuve). Ambos se tratam como irmãos. Da grande casa, em sua moto, segue ainda cedo à casa da noiva, a bela e também loura Lucie (Delphine Chuillot). Essa vida de sonhos deixa ver instabilidades, ou estranhezas, esconderijos; é uma vida que esconde segredos.

A mãe talvez seja uma amante. O plano-sequência do início, do jardim à fresta da janela, revela uma mulher deitada na cama após a saída de Pierre. A impressão é que estavam juntos. Não se sabe. Mais tarde, o protagonista ver-se-á envolvido de maneira carnal também com a irmã. Carax filma ambos, na cama, sem ocultar a penetração.

A moça, interpretada por Yekaterina Golubeva, carrega um olhar de revolta e incerteza: expressa toda a instabilidade do mundo caótico, sob bombas, que Pierre deseja invadir. Como outras personagens de Carax, o rapaz é impulsivo, explode com facilidade, é movido pela emoção e não se explica. Pode parecer tolo, ou apenas jovem demais.

À frente, os irmãos transformados em amantes terminam em uma fábrica abandonada. Cresce ali uma sociedade alternativa, com pessoas que convivem entre os espaços do galpão, pelas portas metálicas, tetos abertos, entre galinhas e cavalos. Ao que parece, é uma comunidade que se reinventa a partir de misturas, entre o futuro caótico e o arcaico, entre a arte e a truculência. É ali que Pierre confina-se para escrever.

Seu corpo muda. Ele envelhece rapidamente. Vê-se, logo, com bengala, cabelos longos, barba, óculos. Não é mais o menino angelical de antes. E contra ele insiste em retornar o mundo externo, seu velho mundo: a noiva loura que não o esqueceu e que passa a viver na mesma fábrica abandonada, além do primo efeminado, vivido por Laurent Lucas.

A relação com o primo vai além da amizade. Quando se encontram, ainda no início de Pola X, aproximam as faces, tocam o outro com sensibilidade. Carax deixa ver, de novo, algo a mais, outro entre vários mistérios que circundam esses seres impenetráveis e decididos a fugir do espaço confortável, do grande castelo afastado em que viviam.

(Idem, Leos Carax, 1999)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Leos Carax

Os filmes de Leos Carax

Enfant terrible, entre a crítica especializada, pode indicar o artista provocador, inquieto, que não cansa de surpreender. No caso do francês Leos Carax, a cada filme surge uma surpresa. É um diretor que não faz concessões. Sua obra carrega algo futurista, algo banhado na nouvelle vague, com amantes exagerados, seres que não se explicam facilmente, com velocidade e pegada pop.

Além dos filmes abaixo, Carax também fez alguns curtas-metragens e clipes para bandas e cantores famosos, como Carla Bruni e New Order.

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Boy Meets Girl (1984)

O diretor francês vai à fonte da nouvelle vague nesse belo filme de estreia. Ágil, cheio de sentimentos, com um jovem protagonista que deseja ser cineasta, vivido pelo ator predileto de Carax, Denis Lavant. Na pele de Alex, ele foi deixado pela amada e acaba encontrando uma menina que também foi abandonada pelo companheiro.

Sangue Ruim (1986)

Ao talentoso Lavant, Carax soma o grande Michel Piccoli e a então jovem musa francesa Juliette Binoche. De novo com o nome de Alex, o ator vive em um ambiente aparentemente futurista, perdeu o pai (um suicida) e se une à gangue encabeçada pela personagem de Piccoli, Marc. Por ali, Binoche insinua-se como anjo e salvação.

Os Amantes de Pont-Neuf (1991)

Os amantes em questão vivem sobre um ponte fechada, a mais antiga de Paris. Estão na cidade e não estão. Mais uma vez, o clima futurista e de degradação impõe-se no cinema de Carax. A produção foi conflituosa. A certa altura, o diretor precisou construir uma ponte falsa, em outro local, para terminar o filme. Trata-se de um belo fracasso.

Pola X (1999)

Prestes a se casar, rapaz (Guillaume Depardieu) vive em um belo castelo, ao lado de sua bela mãe (Catherine Deneuve). Sua vida desaba quando ele encontra uma menina (Yekaterina Golubeva) que diz ser sua irmã. A partir daí, ele sai de casa para viver nas ruas de Paris e termina em uma fábrica abandonada, com um grupo de excluídos.

Tokyo! (2008) (episódio Merde)

O segundo episódio desse filme curioso, dividido em três histórias, fica a cargo de Carax. Seu universo estranho volta a ganhar espaço, dessa vez com a criação da personagem Merde (vivida justamente por Lavant), que retornaria em Holy Motors. Esse ser grotesco sai do esgoto e vem à superfície de Tóquio para trazer destruição.

Holy Motors (2012)

O grande filme de Carax. A bordo de uma limousine convertida em camarim, um homem (Lavant) sai às ruas de Paris para viver, a cada parada, uma nova vida. O filme é difícil de definir e divide opiniões. Além de Lavant, estão no elenco a veterana Edith Scob (com uma referência a Olhos Sem Rosto), Eva Mendes e a cantora Kylie Minogue.

Veja também:
Os filmes de Jaco Van Dormael

8 Mulheres, de François Ozon

A tamanha artificialidade de 8 Mulheres quase não deixa ver o que há de real. Como no cinema clássico, embrenha-se nas cores, nas gracinhas, na aparência indolor – a despeito da realidade que se impõe na invasão das belas casas e das famílias aparentemente perfeitas, com dramas pouco a pouco revelados.

É importante lembrar que, como nos filmes clássicos, o visual está distante do realismo. Ao contrário, é falso a todo o momento. 8 Mulheres é embrulhado como casa de bonecas, com mulheres irretocáveis, criadas belas e sorridentes. O que há de real esconde-se justamente no falso: uma vida oculta sob o véu do sonho.

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A começar, sendo a primeira em cena, há Virginie Ledoyen, a menina bela, a filha que veste rosa, o sonho de qualquer pai e mãe. Mais tarde vêm à tona algumas revelações: ela está grávida, seu pai não é seu pai e o pai de seu filho é justamente o homem que a criou – agora morto, na cama, com uma faca cravada nas costas.

O filme gravita em torno desse crime. Em cena, a moça de figurino rosa é uma possível assassina. Há outras sete. Todas têm seus motivos para ter matado o homem sem rosto, que aparece apenas de costas. Logo vem a mãe da menina (Catherine Deneuve), misteriosa e cujas lágrimas não convencem; a avó (Danielle Darrieux), que de repente levanta da cadeira de rodas e começa a andar; a tia (Isabelle Huppert), que talvez goste mais de romances do que aparenta.

As personagens começam a se despir, pouco a pouco, à medida que o diretor François Ozon insere números musicais que, de propósito, convocam o espectador para outro universo: a contrapor o assassinato e as mentiras, o cineasta oferece o espetáculo quase hollywoodiano, forçando sempre a ver o brilho e a maquiagem, o indesejado.

A música chega a ser indigesta: de tão irônica, não fornece mais do que fuga passageira. Não produz qualquer sentimento, talvez por falar de sonhos, de amores, de tudo o que poderia ocupar aquele espaço – as cores estão prontas! – não fosse um espaço de crime e investigação, de mentiras e máscaras variadas.

Há também as criadas (Firmine Richard e Emmanuelle Béart), a irmã do homem morto (Fanny Ardant), que chega mais tarde, e sua filha (Ludivine Sagnier), uma adolescente que serve ao papel da típica coadjuvante curiosa, que faz perguntas e gosta de romances policiais. Como se verá mais tarde, ela oferecerá respostas.

A teia de situações é abertamente frágil. O filme é cômico. As mulheres – uma verdadeira coleção de estrelas do cinema francês, das mais velhas às mais jovens – brincam com o jeito feminino e não se importam em reverberar certo preconceito sobre um meio ocupado apenas por elas: a vontade de destruir as concorrentes.

A realidade, ainda que distante, ecoa no espectador, incomoda. Sob a embalagem colorida, na aparência da camada branca perfeita que recobre o carro do lado de fora, esse filme de estúdio tem mais a revelar do que se imagina. É uma brincadeira que, com algum esforço, pode ser levada a sério. Como um bom filme clássico feito de belas casas, belas mulheres, belas crianças, além de revelações incômodas.

(8 femmes, François Ozon, 2002)

Nota: ★★★☆☆

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Ato Final, de Jerzy Skolimowski