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Bastidores: O Franco Atirador

O que me surpreende que nenhum crítico haja notado não é o conteúdo fascistoide (ridículo), racista e historicamente absurdo do filme. É que o sr. Cimino é um diretor de péssima qualidade, não tem a menor noção de desenvolvimento, de organicidade. Não sabe estabelecer uma personagem.

Paulo Francis, jornalista e escritor, no jornal Folha de S. Paulo (8 de abril de 1979). O artigo foi reproduzido no livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo (organização de Nelson de Sá; pg. 110).

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O Bandido, de Alberto Lattuada

Em O Bandido, de Alberto Lattuada, as mulheres surgem para destruir a vida do protagonista: uma como a irmã corrompida, que se torna prostituta após a guerra; a outra como amante inconfiável e sedutora.

Com elas, ou por elas, Ernesto (Amedeo Nazzari) tentará sobreviver em um país ainda em reconstrução e encontrará sua desgraça. Ele retornou da guerra na companhia de um amigo e acreditava encontrar uma Itália melhor e mais justa. Ele engana-se, torna-se bandido.

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Na abertura, o trem é uma esperança em meio à névoa. Lattuada capta o desespero dos viajantes, uns sobre as outros, em busca de um espaço para dormir ou para fugir. Ernesto está entre eles: é o único com o rosto na janela, o mais ansioso para reencontrar sua terra. Ele e amigo Carlo (Carlo Campanini) conseguem deixar o trem e, de carona em um caminhão, chegam à grande cidade.

O protagonista fica no meio urbano. Carlo vai ao meio rural, para perto da filha e de outras pessoas. Um escolhe fugir, o outro lutar. Tais diferenças, à frente, farão todo o sentido, já que a cidade, para Lattuada, é essencial ao movimento de sua história – na qual Ernesto vai do apogeu na vida criminosa à derrocada.

Certa noite, como um vagabundo às beiradas, ele encontra a carteira da mulher de um criminoso. É Lidia (Anna Magnani), com quem logo estará aos beijos, com quem descobrirá seu lado bandido.

É a primeira parte da imersão à tragédia. A segunda ocorre quando, pela rua, ele vê uma bela mulher caminhar pela escuridão – em locais quase sempre escuros, becos, escadas apertadas até quartos com cafetões e mulheres exuberantes. Essa dama seguida passo a passo – e desejada – é a irmã que Ernesto acreditava ter perdido, Maria (Carla Del Poggio), prostituta no pós-guerra.

Uma Itália despedaçada, sem esperança, contra a Itália que os homens desejavam encontrar ao voltar da guerra. Tornar-se bandido – ou prostituta – resulta do encontro com a realidade. A ironia é que Ernesto foi treinado para matar pelo governo, para defender uma bandeira. Antes com permissão para isso, ele torna-se perseguido.

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Sua história impressiona Lidia, mulher de beijos a diferentes homens, descontraída, com o jeito imponente que Magnani confere com facilidade. Não deixa o público respirar. Perto dela, até mesmo Ernesto – com seu bigode fino, seu jeito falso (mais tarde levado a Noites de Cabíria) – fica pequeno.

Bandido, o protagonista vê-se de cabelo impecável, com belo terno, sapatos lustrados. Lattuada ainda deixa ver nele certo idealismo, quando compra brinquedos para enviar à filha de Carlo, ou quando – em uma daquelas coincidências difíceis de digerir – encontra a mesma menina em uma montanha.

Em outro momento, leva o dinheiro roubado de ricaços a um beco escuro. Chama mendigos e faz a festa de todos ao lançar notas ao alto. Há quem grite que ficou, do dia para a noite, milionário em um instante. O bandido talvez não seja assim tão mau.

A Itália encontrada por Ernesto é a das diferenças, também a da intolerância. Nela, o homem ganha diferentes camadas, alguém que deseja e ao mesmo tempo condena a irmã, que não se aceita por completo. Assassino e protetor, justo e bandido. Um novo homem para uma nação em pedaços.

(Il bandito, Alberto Lattuada, 1946)

Nota: ★★★★☆

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Atores vivendo atores (em seis filmes recentes)

Atores convivem com conflitos e demônios. Alguns são excêntricos, vivem interpretando, como Norma Desmond no clássico Crepúsculo dos Deuses. Nesse filme de 1950, Billy Wilder parece ter criado o estereótipo da estrela em crise. A sensação de proximidade à loucura é constante.

Nos anos seguintes, atores interpretaram atores de maneiras diversas no universo da sétima arte, em personagens do teatro, do cinema ou mesmo da televisão. Seis exemplos recentes, na lista abaixo, mostram atores que se aventuram entre o real e a ficção.

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Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman

O protagonista, diretor de teatro interpretado por Philip Seymour Hoffman, perde a mulher, a filha e ganha um prêmio em dinheiro. Com ele, investe em seu próximo trabalho: a montagem de sua própria vida. Ali, pessoas que antes ocupavam seu dia a dia são levadas ao palco, ou ao grande galpão no qual Nova York é diminuída. Em seu primeiro filme na direção, Kaufman explora o desejo pelo controle em um universo às vezes em miniatura, às vezes gigante.

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Vocês Ainda Não Viram Nada, de Alain Resnais

Outra incursão entre vida e arte, ou no ponto em que tudo é parte de um único jogo, um único truque. Passa-se em um castelo, no qual um grupo de atores é convidado por um dramaturgo a assistir um filme, a montagem do espetáculo em que todos atuaram no passado. Resnais coloca esses atores novamente frente a frente, obrigados a reviver suas personagens. Fusão interessante entre teatro e cinema, em outro trabalho original do criador de O Ano Passado em Marienbad.

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A Pele de Vênus, de Roman Polanski

Um diretor de teatro sem muita paciência (Mathieu Amalric) cede seu tempo à candidata a personagem central de uma adaptação de A Vênus das Peles. Ela (Emmanuelle Seigner) pouco a pouco o domina. Transforma-o em objeto, enquanto Polanski explora a interessante batalha entre sexos: a certa altura, a mulher bela e predadora passa então a conduzir a leitura da peça e chega a sugerir uma nova cena. Ele não resiste e é dominado.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Gerou amor e ódio entre a crítica brasileira: há quem tenha visto um trabalho original sobre o teatro e com críticas ao cinema; outros enxergaram puro espetáculo vazio. Famoso pelo papel do super-herói Birdman nos cinemas, Riggan (Michael Keaton) tenta a volta por cima a partir de uma adaptação de Raymond Carver. Entre palco e bastidores, delírios e golpes de realidade, ele reencontra o estranho caminho do sucesso, não sem reencontrar sua velha personagem.

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Acima das Nuvens, de Olivier Assayas

A atriz interpretada por Juliette Binoche, Maria Enders, confronta a passagem do tempo quando morre um de seus amigos, famoso dramaturgo. Na esteira desse drama, Maria deverá retornar à antiga peça que lhe deu fama, dessa vez em outra personagem. O papel que antes a projetou cai agora no colo de uma jovem atriz em ascensão, com os traços que Hollywood adora, interpretada por Chloë Grace Moretz (em ascensão na vida real). A preparação para o trabalho exigirá de Maria um pouco de confinamento, na companhia da secretária, a jovem Valentine (Kristen Stewart).

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Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

Após décadas entre altos e baixos, Bogdanovich revisita a comédia screwball, o cinema de Hawks (como não lembrar Suprema Conquista?) e o mundo excêntrico dos artistas. A atriz em ascensão, nesse caso, é uma ex-prostituta (Imogen Poots). Ela conta suas memórias – sua versão – para uma jornalista. Em um de seus trabalhos noturnos, teria recebido ajuda de um diretor de teatro e, mais tarde, em um teste, conquista todos com sua naturalidade – para o desespero do mesmo diretor. Ninguém esconde a farsa, todos interpretam.

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Bastidores: Meu Ódio Será Sua Herança

O romantismo às vezes delirante é a tônica de sua filmografia, e particularmente de The Wild Bunch. Lá estão seus temas básicos – individualismo exacerbado, amor à natureza, culto do marginal, recuperação do passado lendário, atração pela morte, revolta anárquica contra a sociedade industrial que aniquila o relacionamento direto entre os homens, antes regulado por leis simples, embora duras, e fáceis de compreender. Quando matar e morrer parecia um esporte heroico submetido a um código de lealdade.

Eduardo Coutinho, cineasta e crítico de cinema, sobre o cineasta Sam Peckinpah e sua obra-prima Meu Ódio Será Sua Herança, para o Jornal do Brasil (abril de 1974). Abaixo, a presença de Peckinpah durante as filmagens.

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Bastidores: Spartacus

As filmagens tiveram imensos problemas. Jean Simmons teve de ser operada de urgência, Douglas chegava muitas vezes atrasado ao e apanhou um vírus durante dez dias, Ustinov, Olivier e Laughton tinham compromissos urgentes pelo mundo e Tony Curtis tinha um pé engessado por ter torcido o tendão de Aquiles. Além disso, Trumbo fazia alterações no roteiro todos os dias.

Paul Duncan, em Stanley Kubrick – Filmografia Completa (Taschen; pg. 61).

Em Spartacus, tentei tornar a história o mais autêntica possível. Eu tinha que lutar, principalmente, contra um roteiro bobo.

Stanley Kubrick, em entrevista a Michel Ciment, em 1972, após o lançamento de Laranja Mecânica, em Conversas com Kubrick (Cosac Naify; pg. 118). O roteirista do filme é Dalton Trumbo, que esteve na lista negra de Hollywood na época do macarthismo e foi contratado – como Kubrick, que substituiu o experiente Anthony Mann – pelo astro Kirk Douglas.

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Nascido para Matar, de Stanley Kubrick