fotos de bastidores

Bastidores: Stalker

Pareceu-me muito importante que o filme respeitasse a regra das três unidades: de tempo, espaço e ação. Se, em O Espelho, eu estava interessado em introduzir cenas de documentários, sonho, realidade, esperança, conjeturas e recordações sucedendo-se umas às outras naquela confusão de situações que colocam o herói em confronto com as inelutáveis questões da existência, em Stalker eu queria que não houvesse nenhum lapso de tempo entre as tomadas. Meu desejo era que o tempo e seu fluir fossem revelados, que tivessem existência própria no interior de cada quadro; para que as articulações entre as tomadas fossem nada mais que a continuidade da ação, que não implicassem nenhum deslocamento temporal, e para que não funcionassem como um mecanismo para selecionar e organizar dramaticamente o material – eu queria que o filme todo desse a impressão de ter sido feito numa única tomada. Uma abordagem simples e ascética como essa parece-me rica em possibilidades. Para ter um mínimo de efeitos exteriores, eliminei tudo que pude do roteiro. Por uma questão de princípio eu quis evitar que o espectador fosse distraído ou surpreendido por mudanças inexploradas de cena, pela geografia da ação e por um enredo muito elaborado – eu queria que a totalidade da composição fosse simples e silenciosa.

Andrei Tarkovski, cineasta, realizador de Stalker, em seu livro Esculpir o Tempo (Editora Martins Fontes, pgs. 234 e 235). Abaixo, Tarkovski durante dois momentos das filmagens de sua obra, lançada em 1979.

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Bastidores: Aurora

Sunrise, filmado embora no lago Arrowhead, é um filme implantado em décors totalmente alemães (a aldeia e a cidade foram construídas casa a casa por uma equipe germânica). Na ficha técnica, quase todos os nomes são alemães. É uma adaptação da novela de Hermann Sudermann (1857 – 1928), Viagem a Tilsit, que figura na coletânea Histórias Lituanas. Americanos, no filme, quase só atores.

Os protagonistas – Janet Gaynor e George O’Brien – eram, então, celebérrimos. Mas Janet Gaynor – a Indre de Sunrise – com a cabeleira loura postiça, é a mais letal visão das virgens germânicas. A mais mozartiana das stars, “oiseaux si tous les ans”, com pintas nos olhos e a coleção de saleiros, sorriso imenso nas bocas do corpo, é a imagem, aparentemente louçã e distantemente doentia de Goethe e as jungfrau de Schiller. Só quem lhes ignora a pele e o perfume se pode sentir não ocultamente comovido. Homo americanus, ator de Ford, George O’Brien foi dobrado ao peso do próprio corpo para “representar as costas”. Dele, fica sobretudo o volume, a massa (diz-se que Murnau lhe meteu 10 kg de chumbo nos sapatos para obter a imagem de gorila, pernas afastadíssimas). Entre o casal – casal campônio – interpõe-se, vampiro ávido, Margaret Livingstone, bicho da terral vil e não pequena, rastejando como a serpente bíblica, muito semelhante a Louise Brooks.

João Bénard da Costa, crítico de cinema, sobre a obra-prima de F. W. Murnau, em crítica reproduzida on-line pela Revista Foco (leia o texto completo aqui). Abaixo, Murnau “esforça-se” para ouvir seu trio de atores, nos bastidores de Aurora.

aurora

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Forças do expressionismo

Bastidores: Wilder e Monroe

Caso se queira escolher a cena mais típica de Hollywood, entre todos os grandes filmes típicos de Hollywood, esta seria certamente a cena de Marilyn sobre o respiradouro do metrô de Nova York, com o vento provocado pelo trem lhe levantando o vestido, e sua feição maravilhosa, à vontade e libidinosa – este seria o ícone de Hollywood, o leitmotiv de MM, o nascimento de uma nova Vênus sobre o poço de ventilação do metrô, uma nova Vênus surgindo do mar de sonhos do cinema.

E caso se queira recordar o papel em que Marilyn é mais Marilyn: uma figura emocionante e um clichê, sentimental e prática, bêbada e sóbria, enganada e ardentemente amada, uma tolinha e uma mulher com um coração infinitamente sábio, uma cômica capaz de arrancar lágrimas, uma garota que canta que o amor já passou para ela no momento em que volta a se apaixonar. Marilyn é uma figura ora falsa, ora verdadeira…

o pecado mora ao lado

Verdadeira: quem fala é Sugar Kane, a tocadora de guitarra e cantora da orquestra feminina em que Jack Lemmon e Tony Curtis têm de se esconder. Aqui, Marilyn é inteiramente ela mesma, e inteiramente arte cômica. Billy Wilder elaborou todas as contradições e conflitos dela para torná-la uma figura imortal. Quanto Mais Quente Melhor é o melhor filme de Marilyn Monroe, porque não é absolutamente um filme de Monroe, mas um filme de Wilder.

Hellmuth Karasek, na biografia do cineasta Billy Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura (Editora DBA; pgs. 396 e 397). Abaixo, os bastidores de O Pecado Mora ao Lado, na famosa cena do respiradouro do metrô, e Quanto Mais Quente Melhor.

quanto mais quente melhor

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Marilyn, por Norman Mailer

Bastidores: Sangue Negro

O filme baseia-se numa obra de Upton Sinclair publicada em 1927. Conta a saga da corrida ao petróleo, desde os últimos dias do século 19, por empreendedores individuais como Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis). Ele é um homem rude, que cada vez mais é levado a se comportar com rudeza. A vida o enriquece, tanto quanto o embrutece. Plainview poderia não ser muito diferente de tantos outros personagens que aprendem com a vida a ser insensíveis. Mas Anderson e Day-Lewis o transformam em algo bem diferente de um homem, fazem de Plainview uma incontrolável força da natureza. A partir daí, temos que reconhecer que todas as ilações que se fizerem com Cidadão Kane serão pertinentes. E hesito um milhão de vezes em dizer, e jamais direi em tom jocoso, nem sob tortura, que Cidadão Kane é Cidadão Kane, e Sangue Negro é Sangue Negro.

Plainview, cuja vida foca-se progressivamente para a conquista do petróleo e da fortuna, encena cada encontro de negócios que vai ter; e a companhia de seu filho é parte essencial deste show. Quando o filho fica surdo em decorrência de um acidente, Plainview não hesita em abandoná-lo – e Anderson nos dá isso com grandeza e respeito; ele nos emociona sem ousar extrair da sua plateia a lágrima fácil. A trajetória do prospector de petróleo, baseada em comprar por baixo preço enormes lotes onde haja para ele evidencias da presença do óleo, ganha hegemonia sobre todas as suas outras vontades, sobre todos os valores possíveis sobre os quais uma vida possa ser feita. Plainview é confrontado com um jovem pastor de uma igreja evangélica (Paul Dano), a quem ele pessoalmente humilhou e cuja família ele explorou financeiramente. Mas agora a questão está entregue aos desígnios de Deus e do demônio. Num momento, Plainview se converte, no outro é o pastor que confessa ser um impostor. Não há traços de verdade nem num discurso nem do outro. Há, contudo, a implacável presença do inusitado em ambos os casos. À sua maneira, esses homens estão em busca de dinheiro e dedicaram suas vidas a essa missão. E estes atores estão no limiar da perfeição.

Nelson Hoineff, crítico, jornalista e cineasta, no site Críticos (fevereiro de 2008; leia aqui o texto completo). Abaixo, Day-Lewis e o diretor Paul Thomas Anderson.

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Bastidores: A Liberdade é Azul
Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

Bastidores: Uma Aventura na África

Huston contou certa vez que ia “tocando” African Queen sem muito entusiasmo. Alguma coisa não funcionava, até que Katharine Hepburn, a co-estrela, teve o clique. Ela começou a dar a réplica a [Humphrey] Bogart usando a entonação da ex-primeira dama Eleanor Roosevelt, ele aceitou o desafio e criou-se o clima de humor ausente no roteiro de James Agee. Sempre achei a história curiosa e elucidativa de como os melhores roteiros, afinal, são ferramentas que os diretores vão usar, e até subverter, que era como faziam os grandes, na era da dominação dos estúdios, em Hollywood.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, em seu blog no portal do Estadão (abril de 2010; leia post completo aqui). Abaixo, na terceira foto, é possível ver o diretor John Huston com um rifle durante as filmagens, no Congo.

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uma aventura na áfrica3

uma aventura na áfrica

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston
O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston