família disfuncional

Sieranevada, de Cristi Puiu

Uma família tenta, até o encerramento de Sieranevada, concluir sua refeição. Entre o início e o fim, e entre a exposição de instantes, sobra um grande filme feito quase em tempo real, sobre o encontro de seres diferentes, dos quais pouco se sabe.

Poderiam ser resumidos de forma fácil: são uma família disfuncional, de risos e lágrimas. Mas como chegar a essa definição à luz da estética de Cristi Puiu, sempre realista e natural? Legar a ela a etiqueta “disfuncional” é saída fácil, o que também leva a pensar nas comédias americanas de encontros familiares nos quais tudo dá errado.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Puiu escapa a isso. Sua comédia segue por outras vias. O plano inicial, com a câmera no mesmo eixo e sempre em movimento panorâmico, dá o tom do que vem a seguir: a câmera que segue as personagens de um lado para outro, mas nunca a se intrometer demais, a fazer ver tudo, cuja distância exemplifica a opção de seu criador.

Com Sieranevada, Puiu atinge o equilíbrio perfeito entre o que parece não ultrapassar o banal e se revela grande. Pois o banal não lhe escapa, é necessário; o que poderia parecer grande – o drama ou a comédia em excesso – serve-lhe apenas parcialmente.

Por isso as marcações são quase invisíveis. Não se sabe em que ponto o problema começa ou termina, como se a família sempre estivesse ali, sempre com seus problemas (talvez não todos), sempre a se servir de seus trejeitos. Ao fim, quando os homens riem, à mesa, atesta-se a certeza da repetição, do “filme já visto”.

Eles encontram-se para recordar um ano sem um homem – marido, pai e avô. Aguardam, até boa parte da obra, a chegada de um padre, que deverá abençoar o local, além de orar pela comida, pelas roupas, por todas as vidas que permanecem por ali.

A refeição só será servida após o ritual religioso, além de contar com a presença de um dos parentes com a roupa do homem morto – tradição que esmiúça a necessidade de cultuar os mortos, como se parte do falecido ainda perdurasse no corpo do mais jovem.

Em meio à aparente bagunça, com tropeços a cada segundo, a família tenta manter as tradições por meio desse ritual de encontro, da alimentação à mesa, da oração entre todos. O que se vê, por outro lado, é a exacerbação de características distintas, de tipos individuais que marcam o texto com o impensável: o filho burguês que retorna para casa, a mulher traída pelo marido, o militar, o médico, a senhora comunista.

Um deles não para de evocar teorias conspiratórias, recordando casos nebulosos que cercaram o 11 de setembro. A senhora comunista traz à tona os fantasmas da era Ceausescu e entra em confronto com outra convidada. A certa altura, uma jovem chega ao local na companhia de uma amiga desacordada, que teria bebido em excesso.

O confinamento não é absoluto. Ora ou outra, como no início e no meio, o filme escapa para as ruas. Uma das personagens discute com a esposa e inicia uma briga após parar o veículo na vaga de outro motorista. A ironia é clara: Puiu expõe a confusão pelo pequeno espaço na sociedade em que todos possuem seus próprios carros, e na qual a socialização apequenou-se, deu vez à confusão cotidiana.

A câmera reveza-se entre cômodos no apartamento em que ocorre o reencontro familiar. O espectador demora a ter noção do espaço, da disposição dos cômodos. Terá de aprender a observar um estranho labirinto de portas que abrem e fecham, das quais nasce uma vida aos gritos, também engraçada, sempre natural.

O filme é brilhante em sua composição, no ato de saber perder – perder o que se passa nesses mesmos quartos fechados, perder a história que já teve início e não encontrará seu fim. Puiu fala de instantes. Atinge um humanismo que chega a parecer improvável.

O espectador terá de aprender a conviver com a distância, com pequenos movimentos, com o fora de quadro, com o realismo que dispensa o gênero fácil, em um curioso equilíbrio entre o que há de mais cortante e engraçado.

(Idem, Cristi Puiu, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

Capitão Fantástico, de Matt Ross

A opressão confunde-se com liberdade em Capitão Fantástico. Ao dar aos filhos a oportunidade de viver em um mundo longe das amarras do sistema, Ben (Viggo Mortensen) termina por privá-los de experiências fundamentais para encarar a vida.

A família vive na mata. A casa é de madeira. O alimento é retirado da natureza. Os filhos são treinados para a sobrevivência e, no início, um ritual leva um deles, o mais velho, a matar um cervo e depois a comer seu coração. Selvagem e real.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

capitao-fantastico1

À frente, após sair em viagem, a família depara-se com dois frangos à mesa, na casa de parentes. Alguém logo pergunta como esses animais chegaram até ali. O filme de Matt Ross expõe a diferença entre viver na sociedade com seus problemas, com suas facilidades e vícios, e viver à margem, em suposta liberdade.

A mãe, ao se suicidar, obriga o pai e os filhos a saírem em viagem. Seguem ao funeral da mulher, levado à frente pela família cristã. A mulher desejava ser cremada em um ritual regado à festa, além de ter as cinzas lançadas em um vaso sanitário. O pai e os filhos pretendem cumprir a promessa, contra os planos da família tradicional.

O filme brilha a cada momento. O mundo ao redor, seja na floresta, seja na cidade, espelha o olhar do novo, a descoberta dos meninos, a experiência que, mesmo com seus problemas, traz algo grandioso: não se esconde, aqui, o viés cômico.

A divisão nem sempre é clara, e o filme nem sempre perde o sentido do drama e sua seriedade. As frases soltas, como as das crianças, ajudam no tom disfuncional da empreitada, com planos que incluem furtos e fingimentos, resgates e escolhas difíceis. O drama está no todo, na situação geral. A comédia parte de pequenos atos.

As crianças foram educadas pelo pai e pela mãe. Conhecem filósofos, grandes autores, conhecem a Constituição. Falta a elas a malícia (necessária) para se adaptar àquilo que, fora, logo se impõe: as descobertas da carne, o confronto com a sociedade hostil.

capitao-fantastico2

O flerte com uma garota, a certa altura, deixa claro que esses filhos – nesse caso, o adolescente Bo (George MacKay) – não sabem nada (ou quase nada) sobre algumas experiências reais, sobre os obstáculos que, ora ou outra, serão colocados no caminho de todos. É inevitável enfrentar essas barreiras, ainda que o pai tente protegê-los.

Até o momento, perto do fim, que esse mesmo pai rende-se à necessidade de deixar que os filhos encontrem outra forma de proteção. A sociedade ao redor, de casas belas e supermercados, dispensa guerreiros imbuídos de missões. Depois que uma das filhas acidenta-se, Ben entende que seus ensinamentos perdem o sentido fora da floresta.

É quando decide se transformar, rejuvenescer: corta a barba, viaja sozinho (crê) e permite que os filhos, deixados para trás, encontrem o próprio caminho. Capitão Fantástico leva a pensar em uma liberdade quase sempre ilusória. Ser livre, Ben descobre, não significa abrir mão de alguns itens sedutores e comuns ao sistema.

(Captain Fantastic, Matt Ross, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os 20 melhores vilões do cinema nos últimos dez anos