Êxodo Deuses e Reis

Alien: Covenant, de Ridley Scott

Realizador de grandes filmes no início da carreira, entre eles Alien, o Oitavo Passageiro, Ridley Scott vira-se como pode com a violência abusiva. É com ela que tenta causa medo ou trazer alguma emoção, em vão, ao longo de Alien: Covenant.

Entre o filme de 1979 e o mais recente existe um abismo. No salto de um para o outro, percebe-se que Scott mudou radicalmente sua forma de fazer cinema, trocando os silêncios e o suspense pelo sangue em excesso. Não é fácil entender o que aconteceu com ele, que também tem no currículo Blade Runner, o Caçador de Androides.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Scott desaprendeu. Faz hoje um cinema apenas voltado a chacoalhar a plateia, em linha de produção, com explosões gratuitas e aventuras sem qualquer preocupação em criar um universo que cerque o espectador a ponto de não escapar (o que fez tão bem em Alien, o Oitavo Passageiro, sem dúvida um grande filme).

O título de seu novo trabalho refere-se a uma nave que, durante uma viagem para colonizar um planeta, termina encontrando outro. Seus tripulantes resolvem descer em solo estranho, um local nublado cercado por tempestades atmosféricas e com vegetação próxima à da Terra. O local esconde as temidas criaturas. O que vem a seguir é correria.

Covenant é pueril e choca não necessariamente pelo excesso, mas pelo mau gosto, pela dificuldade de preparar o espectador às doses de sangue dos ataques alienígenas. É uma desculpa para reviver a temida criatura cuja primeira aparição, da barriga de John Hurt, no primeiro filme, deu vez a uma das cenas mais famosas do cinema moderno.

Scott, a partir do roteiro de John Logan e Dante Harper, chega a reviver esse mesmo momento, como se precisasse superá-lo. Por se aproximar do ridículo, é como uma referência saída de uma paródia, pequeno signo perdido e óbvio. Tal aparição é agora constrangedora: o monstro rompe o peito da vítima, levanta-se do interior do corpo e acena ao seu criador, o androide interpretado por Michael Fassbender.

O ator, por sinal, será a tentativa de conferir – mais uma vez em vão – alguma profundidade à história. Esse lado um pouco filosófico nada tem a acrescentar (como se viu antes em Prometheus, também de Scott): é apenas um capricho entre esguichos de sangue e mordidas, entre os tiros e a correria que o filme busca atingir.

Não é a primeira vez que Scott rende-se ao caminho mais fácil. Como em Êxodo: Deuses e Reis ou Perdido em Marte, adere ao espetáculo barato, tenta ser épico pelos caminhos errados, em filmes lotados de diálogos canhestros e drama superficial. Em Covenant, a carnificina levada à frente pela criatura pode, inclusive, produzir o efeito contrário ao qual ambiciona: arrancar risos do espectador, tamanha a artificialidade.

(Idem, Ridley Scott, 2017)

Nota: ☆☆☆☆☆

Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

Anúncios

Seis filmes ruins e recentes dirigidos por grandes cineastas

A História do Cinema mostrou, em diferentes momentos, que mesmo alguns grandes mestres podem fazer filmes sofríveis. No caso de alguns cineastas, isso felizmente não é – ou não foi – muito comum. Em seus tropeços, realizadores de carreiras consolidadas fazem o público desanimar ainda mais: como é possível algo desprezível de um Polanski ou um Woody Allen? É bom lembrar: existem bons diretores e grandes diretores. A lista abaixo traz seis grandes nomes em momentos menores, até esquecíveis.

Deus da Carnificina, de Roman Polanski

Não é a primeira vez que Polanski isola algumas personagens em um único ambiente e constrói situações dramáticas e até absurdas a partir de suas relações. Isso pode ser visto, por exemplo, em A Faca na Água e A Pele de Vênus. Em Deus da Carnificina, adaptado da peça de Yasmina Reza, sobre dois casais que se encontram para discutir o problema dos filhos, a explosão de temperamentos das personagens não funciona. São seres irritados, artificiais, levados ao exagero e até mesmo com direito a vômito.

deus da carnificina

Sombras da Noite, de Tim Burton

Pode-se não amar Tim Burton. Ainda assim, é inegável que se trata de um autor. Sombras da Noite tem sua marca: seres fantásticos em uma mistura de comédia e terror. E tem Johnny Depp. As piadas não têm qualquer graça e o diretor, a certa altura, mostra estar no piloto automático. Não tem a mínima ousadia e, pior, tem pouca ou nenhuma graça. Depp interpreta um vampiro abobalhado que retorna ao mundo dos vivos após 200 anos de aprisionamento.

sombras da noite

Para Roma, com Amor, de Woody Allen

Em suas viagens pela Europa, Allen parou na Itália e fez ali seu pior filme em anos, a rivalizar com O Escorpião de Jade, de 2001. Como se sabe, Allen é um apaixonado por Fellini. Em Roma, ele novamente explora algumas vidas que se cruzam, com figuras conhecidas: um amontoado de histórias nada marcantes, entre seres desagradáveis, como Roberto Benigni, e outros que servem de mero medalhão, como a voluptuosa Penélope Cruz – para lembrar musas como Sofia Loren.

para roma

3 Corações, de Benoît Jacquot

Entre dois belos filmes, Adeus, Minha Rainha e O Diário de uma Camareira, o francês Jacquot apostou nessa história sem profundidade sobre um homem que se apaixona por uma mulher e termina casado com a irmã dela. Além do roteiro ralo, o filme tem o ator errado para o protagonista. É difícil esperar algum conflito, ou alguma profundidade que a personagem exige, em Benoît Poelvoorde. Melhor permanecer nos filmes cômicos. Para piorar, não há qualquer química entre ele e as mulheres em cena.

três corações

Êxodo: Deuses e Reis, de Ridley Scott

É difícil acreditar que o diretor de Os Duelistas e Blade Runner faria, mais tarde, bombas como Êxodo: Deuses e Reis e o recente Perdido em Marte. E Êxodo consegue ser pior que o seguinte, encabeçado por Matt Damon. A trama geral é conhecida: Moisés (Christian Bale) volta-se contra o irmão de criação, Ramsés (Joel Edgerton), vai embora de seu reino e guia os escravos à libertação. A sequência de abertura do Mar Vermelho impressiona, mas não salva a obra do fracasso.

aexodo

Tudo Vai Ficar Bem, de Wim Wenders

Outro caso a lamentar: em Tudo Vai Ficar Bem, o diretor de O Amigo Americano e Paris, Texas tem um de seus piores momentos. Leva ao drama de um escritor interpretado por James Franco, com o semblante sonolento, ligado à mãe de uma criança que atropelou. Anos mais tarde, ele é procurado pelo irmão da vítima. A beleza é oca, o filme não tem qualquer profundidade. A câmera apela a movimentos desnecessários, o que faz parecer puro exibicionismo do cineasta.

tudo vai ficar bem

Veja também:
Os dez piores filmes de 2015
Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Bastidores: Ridley Scott em dois tempos

Dois homens não conseguem parar de duelar em Os Duelistas. Em seu primeiro filme, Ridley Scott revela talento desigual. Trata-se de uma adaptação da obra de Joseph Conrad, autor de No Coração das Trevas, e passado na era napoleônica.

O vício da guerra e as relações de poder estão em jogo: ao mesmo tempo certa cordialidade, ao mesmo tempo certa selvageria. Para viver a personagem mais desagradável, Feraud, Scott convocou o ótimo Harvey Keitel. Na outra ponta, um pouco mais humano, está D’Hubert, na pele de Keith Carradine.

Com tal filme, Scott entrega um de seus melhores trabalhos e dá início à carreira em alta. Depois ainda viriam Alien, o Oitavo Passageiro e Blade Runner.

os duelistas

Difícil acreditar que viriam, mais tarde, tantos filmes desagradáveis, se muito a dizer: a essa altura, Scott parece ter se tornado um diretor de encomenda, tragado pelas grandes produções, ou pelo mero tamanho de tudo.

Nova prova de seus erros recentes está em Êxodo: Deuses e Reis, épico bíblico sem qualquer ousadia sobre a revolução dos hebreus, rumo à passagem pelo Mar Vermelho.

Em cena, há Christian Bale como Moisés, que não chega a comprometer, e que serve para lembrar o espectador sobre como são os “homens comuns”, religiosos, do lado certo do jogo. Do outro, não seria diferente, está o extravagante, o rei que crê ser um deus, o irmão mais fraco que acabou virando líder. Fala-se de Ramsés (Joel Edgerton), cujo olhar não traz qualquer resquício de Feraud. Scott acomodou-se.

exodo