era clássica

Tarde Demais, de William Wyler

Algumas histórias alimentam o drama com a presença do amor: em geral, o casal ama-se de verdade e algo impõe a separação, como a classe social ou a guerra. Outras histórias preferem o oposto: os gestos de amor revelam-se pura falsidade.

Em Tarde Demais, apenas a protagonista mostra-se verdadeira, moça ingênua para quem o amor supera o dinheiro. Pobre protagonista, vivida com perfeição pela não tão bela – e quase sempre melosa, ainda que de forma proposital – Olivia de Havilland.

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A falsidade é apresentada pelo pai, Austin Sloper (Ralph Richardson), que não encontra na filha a classe de sua mulher morta, mãe da moça. Para ele, amar a filha é um problema, já que, a seus olhos, ela não poderá substituir a antiga mulher. Por consequência, não credita que outro homem poderá amar a desinteressante menina.

Maior é a falsidade do pretendente, o homem que Catherine (Havilland) provavelmente amará para sempre – e odiará em igual medida. O belo Morris Townsend (Montgomery Clift) não demora a assumir suas intenções, enquanto o diretor William Wyler esculpe verdadeiros gestos de amor.

Ao rever a obra, o espectador descobrirá o quanto a moça é verdadeira, o quanto o rapaz pode ser falso em suas intenções e, ainda mais, questionará se para ela não é melhor viver sem saber nada, mergulhada com o belo pretendente em uma vida de falsidades.

Graças ao pai, que mais tarde prefere dizer à filha o que pensa, Catherine tem seu choque de realidade: descobrirá que o universo ao redor é mais complicado do que parece. Terá de crescer, vagar com suas poucas luzes – como se vê no extraordinário momento final – pela escuridão da escadaria de sua grande casa, na qual vive só.

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Jovem, Catherine está à espera de alguém para cortejá-la. No baile em que segue com o pai e a tia, é retirada para dançar por um rapaz e deixada ao canto pouco depois. Talvez haja algo real por ali, ainda que sobrem pompa e maquiagem.

Poucos cineastas filmaram grandes bailes como Wyler. Basta pensar em Jezebel. O baile de Tarde Demais é um desses exemplos inesquecíveis da beleza do cinema clássico americano, da composição de um velho tempo, de outros modos.

E Catherine é o perfeito exemplar desse tempo perdido: é a menina pouco inserida em sua sociedade, que sofre ao descobrir as regras do jogo, ou que sorri com a cabeça inclinada para baixo, sempre dando ares de submissão.

A obra é composta com planos de profundidade, o que possibilita a Wyler expor diferentes camadas na mesma imagem, com várias “pequenas histórias” – as várias reações de cada personagem – expostas em um único plano.

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Como Orson Welles, Wyler era um dos diretores que apostavam na profundidade de campo e em suas possibilidades narrativas. Passado quase todo em ambientes fechados, Tarde Demais utiliza essa composição para valorizar o espaço do drama.

E o drama até então limitado à não aceitação do pai em relação a Morris migra para o desaparecimento deste, quando percebe que a fuga com a moça não lhe trará a fortuna desejada. Como antecipa o pai, Morris é um caçador de dotes.

Ao longo do filme, sobretudo em sua primeira parte, Wyler não deixa ver as intenções da personagem de Clift, ou simplesmente prefere não julgá-la: talvez – ainda que seja difícil afirmar – não fosse diferente de tantos outros rapazes de seu tempo.

Seu meio social permite-lhe naturalidade, e o que o importa é a situação financeira. O pai, no jeito cínico, contido e perfeito de Richardson, enxerga isso com facilidade. Em seus tropeços, a menina custará a enxergar. Ao recrudescer, refletirá o próprio pai.

(The Heiress, William Wyler, 1949)

Nota: ★★★★☆

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Dez filmes recentes sobre o cinema

Da Hollywood clássica ao atual regime das câmeras digitais e estrelas sem muito brilho, a lista abaixo contempla também a variedade do cinema (o verdadeiro) feito atualmente: produções de cineastas variados, de Monte Hellman a Martin Scorsese, de Ari Folman a David Cronenberg. Algumas obras surpreendem, outras nem tanto.

Caminho para o Nada, de Monte Hellman

Longe da aparência dos longas que lhe deram sucesso, Hellman explora a realização de um filme e o mistério de sua protagonista, que talvez seja a personagem que interpreta.

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O Artista, de Michel Hazanavicius

Essa bela homenagem ao período clássico do cinema americano chega pelas mãos de um francês, com atores franceses, a partir do declínio de um astro com o surgimento do som.

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A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

Faz-se o caminho inverso ao anterior: é um americano que vai à França para contar o período em que o grande Georges Méliès, pai do ilusionismo na tela, era dado como esquecido.

The Invention Of Hugo Cabret

Sete Dias com Marilyn, de Simon Curtis

A pequena Michelle Williams consegue captar a volúpia de Marilyn Monroe nessa história interessante sobre os poucos dias em que a diva filmou O Príncipe Encantado na Europa.

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Hitchcock, de Sacha Gervasi

Não é o Hitchcock que os fãs esperavam, provavelmente irreal: o famoso diretor é reduzido a menino mimado nesse longa que aborda os bastidores de Psicose.

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The Canyons, de Paul Schrader

Consagrado diretor e roteirista, Schrader expõe as atuais regras do jogo em Hollywood ao abordar o rumo da estrela decadente que se junta a um ator pornô para realizar um filme.

The Canyons

O Congresso Futurista, de Ari Folman

Trata-se do futuro do cinema: os estúdios de Hollywood passam a captar o interior e o exterior dos atores, tê-los digitalmente, cópias seguras que dispensam particularidades humanas.

o congresso futurista

Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

Menina retorna para Hollywood para encontrar a família. Seu irmão é uma jovem estrela em ascensão e, no período que passa por ali, torna-se assistente de uma atriz em baixa.

mapas para as estrelas

Mia Madre, de Nanni Moretti

Belo relato pessoal de Moretti sobre uma cineasta cuja mãe encontra-se em estado terminal no momento em que prepara seu novo filme e tem de lidar com um ator temperamental.

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Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

O famoso roteirista é colocado na lista negra do período macarthista, perde o emprego, vai preso, ao mesmo tempo em que revela uma indústria do cinema covarde e conservadora.

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