entrevista

Fellini segundo Malle

Fellini era o rei da Cinecittà. Em qualquer momento, se você fosse a Roma, ouviria dizer que Fellini estava rodando um filme e seria possível encontrá-lo. Fellini é sempre muito gentil, gosta de ser o guia das pessoas. Eu era mais jovem que ele e achava sua generosidade, sua cordialidade fascinantes, parecia que o tempo não importava. Tinha sempre gente em volta a adorá-lo. Fellini era como todo jovem diretor gostaria de ser, mas sabíamos que existia apenas um Fellini e não seria possível existir outro. É um artista absolutamente original, com um lugar reservado na história do cinema: um dos poucos diretores realmente grandes.

Louis Malle, cineasta francês. A declaração, em entrevista, está no livro A Arte da Visão – Conversa com Goffredo Fofi e Gianni Volpi (Martins Fontes, pg. 85). Abaixo, Fellini durante a filmagem de Oito e Meio.

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O melhor filme de Francis Ford Coppola, segundo Sofia

Qual seu filme preferido dele [Francis Ford Coppola]?

A Conversação, que ganhou a Palma de Ouro (em 1974).

E o Chefão?

Tive de rever o filme recentemente. Posso gostar mais de A Conversação, mas não existe lição de cinema narrativo melhor que a do primeiro Chefão.

Sofia Coppola, cineasta, em entrevista ao crítico de cinema Luiz Carlos Merten (O Estado de S. Paulo; 29 de maio de 2017, pg. C3). A entrevista ocorreu durante a edição 2017 do Festival de Cannes, da qual Sofia saiu com o prêmio de melhor direção por O Estranho que Nós Amamos. Abaixo, Francis dirige Gene Hackman em A Conversação.

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Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski

Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

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Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

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Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

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Jackie, de Pablo Larraín

A moça insegura que caminha pelos cômodos da Casa Branca, que apresenta o belo espaço aos espectadores, é a propaganda da mulher ideal: pequena, sorridente, chique, alguém a se fazer cartão de visitas de um país cheio de conflitos, em sua grande casa.

Às câmeras, enquanto é acompanhada pelo apresentador, antes de encontrar o presidente, Jackie Kennedy esforça-se para ser o que se espera dela: a primeira-dama perfeita, alguém que assume o espaço que então cabia às mulheres que doaram suas vidas para estar ao lado de líderes. Em suma, uma coadjuvante de luxo.

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O fato de estar à frente do vídeo, em Jackie, dá logo a ideia da posição feminina como líder da casa – aqui, a grande casa, o palácio imponente contra sua estrutura pequena, humana – enquanto o marido serve o lado de fora, a nação em tempos de Guerra Fria.

Nas horas que sucedem a morte de John Fitzgerald Kennedy (Caspar Phillipson), a pequena e bela Jackie terá de assumir a frente de um “espetáculo” sem roteiro, em algum momento – na verdade, em vários – fora da grande casa que ajudou a decorar.

A coadjuvante torna-se protagonista, o rosto que a nação espera estampado no funeral – ainda que esse mesmo rosto, no desfile de roupas pretas, pela rua, atrás do caixão, seja coberto por véu escuro. Deverá mostrar que é possível superar e seguir em frente.

O filme do chileno Pablo Larraín estrutura-se em mais situações além das duas citadas, entre a gravação do filme no interior da Casa Branca e o drama das horas após a morte do presidente. Há também o diálogo com um padre e o eixo que dá vida à história que retorna: a entrevista – em misto de combate – a um jornalista (Billy Crudup).

Ao padre (John Hurt, de rugas propositalmente expostas), a frágil boneca de porcelana confessa o desejo de morrer, como sua possível culpa ao tentar escapar do carro quando o marido levou tiros na cabeça, em desfile aberto, em Dallas (como se sabe, Jackie chegou a subir na parte traseira do veículo, como em uma tentativa de fuga).

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Com a morte do marido, o “rei” de Camelot, como entoa a canção preferida do líder, a “rainha” vê-se sozinha, ao espelho, ainda suja de sangue. Depois tem de enfrentar os rituais, como assistir ao juramento de Lyndon Johnson (John Carroll Lynch), no interior do avião presidencial, ainda em solo texano, e com o vestido ainda sujo de sangue.

Impossível não perceber o desprezo de Jackie aos apegados ao poder. A resposta dela é levar à frente o espetáculo, mesmo quando não parece ter total ideia do resultado: ela deseja, sobretudo, entregar ao marido o funeral digno de um rei. Não à toa, deseja saber como Lincoln foi enterrado, para talvez produzir algo à altura.

A menina que não mostrava grande intimidade com o show, mesmo em seu espaço privado, terá de lidar com a imagem que ficará para a posteridade. Com Jackie, Larraín mostra os bastidores da tragédia histórica servidos por gente comum, o que justifica as andanças da primeira-dama – entre quartos, à frente do espelho, no banho.

De lábios trêmulos, Natalie Portman pontua cada palavra vinda de Jackie: é como se seu jeito vacilante, quando se expõe às câmeras pela Casa Branca, fosse não mais que a propaganda de uma pessoa que não sabe lidar com a grandeza. É como se dissesse que qualquer mulher jovem e dedicada podia ser Jackie. E isso, claro, não é verdade.

(Idem, Pablo Larraín, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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