entrevista

Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski

Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

Veja também:
Entrevista: Anna Muylaert

Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Bastidores: O Silêncio dos Inocentes
Os 20 melhores ganhadores do Oscar

Jackie, de Pablo Larraín

A moça insegura que caminha pelos cômodos da Casa Branca, que apresenta o belo espaço aos espectadores, é a propaganda da mulher ideal: pequena, sorridente, chique, alguém a se fazer cartão de visitas de um país cheio de conflitos, em sua grande casa.

Às câmeras, enquanto é acompanhada pelo apresentador, antes de encontrar o presidente, Jackie Kennedy esforça-se para ser o que se espera dela: a primeira-dama perfeita, alguém que assume o espaço que então cabia às mulheres que doaram suas vidas para estar ao lado de líderes. Em suma, uma coadjuvante de luxo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

jackie1

O fato de estar à frente do vídeo, em Jackie, dá logo a ideia da posição feminina como líder da casa – aqui, a grande casa, o palácio imponente contra sua estrutura pequena, humana – enquanto o marido serve o lado de fora, a nação em tempos de Guerra Fria.

Nas horas que sucedem a morte de John Fitzgerald Kennedy (Caspar Phillipson), a pequena e bela Jackie terá de assumir a frente de um “espetáculo” sem roteiro, em algum momento – na verdade, em vários – fora da grande casa que ajudou a decorar.

A coadjuvante torna-se protagonista, o rosto que a nação espera estampado no funeral – ainda que esse mesmo rosto, no desfile de roupas pretas, pela rua, atrás do caixão, seja coberto por véu escuro. Deverá mostrar que é possível superar e seguir em frente.

O filme do chileno Pablo Larraín estrutura-se em mais situações além das duas citadas, entre a gravação do filme no interior da Casa Branca e o drama das horas após a morte do presidente. Há também o diálogo com um padre e o eixo que dá vida à história que retorna: a entrevista – em misto de combate – a um jornalista (Billy Crudup).

Ao padre (John Hurt, de rugas propositalmente expostas), a frágil boneca de porcelana confessa o desejo de morrer, como sua possível culpa ao tentar escapar do carro quando o marido levou tiros na cabeça, em desfile aberto, em Dallas (como se sabe, Jackie chegou a subir na parte traseira do veículo, como em uma tentativa de fuga).

jackie2

Com a morte do marido, o “rei” de Camelot, como entoa a canção preferida do líder, a “rainha” vê-se sozinha, ao espelho, ainda suja de sangue. Depois tem de enfrentar os rituais, como assistir ao juramento de Lyndon Johnson (John Carroll Lynch), no interior do avião presidencial, ainda em solo texano, e com o vestido ainda sujo de sangue.

Impossível não perceber o desprezo de Jackie aos apegados ao poder. A resposta dela é levar à frente o espetáculo, mesmo quando não parece ter total ideia do resultado: ela deseja, sobretudo, entregar ao marido o funeral digno de um rei. Não à toa, deseja saber como Lincoln foi enterrado, para talvez produzir algo à altura.

A menina que não mostrava grande intimidade com o show, mesmo em seu espaço privado, terá de lidar com a imagem que ficará para a posteridade. Com Jackie, Larraín mostra os bastidores da tragédia histórica servidos por gente comum, o que justifica as andanças da primeira-dama – entre quartos, à frente do espelho, no banho.

De lábios trêmulos, Natalie Portman pontua cada palavra vinda de Jackie: é como se seu jeito vacilante, quando se expõe às câmeras pela Casa Branca, fosse não mais que a propaganda de uma pessoa que não sabe lidar com a grandeza. É como se dissesse que qualquer mulher jovem e dedicada podia ser Jackie. E isso, claro, não é verdade.

(Idem, Pablo Larraín, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Clube, de Pablo Larraín

Robert Redford, 80 anos

O que te fez querer ser um ator?

Isso ocorreu por acidente. Eu queria ser um artista. Eu estava em Nova York planejando uma carreira relacionada à arte e alguém me disse que havia incerteza em relação ao meu futuro, entre meus amigos e minha família. Eles estavam assustados em relação ao que eu estava fazendo, em um “território” perigoso, e que eu poderia terminar sendo um fracassado, ou algo assim. Então eu fiz um acordo para acalmá-los. Eu queria ser um artista, mas sabia que isso os assustaria, porque eles achavam que a maioria dos artistas não tem sucesso, não consegue ganhar a vida, morre de fome. Então eu pensei em ser um diretor de arte, e penso que isso soava bem. Era simplesmente a palavra “diretor”, mas não tinha ideia do que isso significava. (…) Então eles me disseram: “bom, se quer ser diretor de arte, tem de ter um treinamento dramático, e aí você pode criar cenários e tudo isso”. E foi assim que terminei na Academia Americana de Artes Dramáticas. Eu não havia planejado fazer isso, mas, quando eu entrei lá, algo inesperado me deu um “clic”, porque eu tive de fazer uma audição. Eu estava muito contido, e eu transmitia muita raiva nesse momento da minha vida. Tudo isso veio para fora, acho, nessa audição. E a diretora que fazia a audição viu algo em mim. Eu imaginei que tinha sido uma má audição, que não deveria estar lá, e me perguntava por que estava fazendo aquilo. E ela me disse: “Não, você deveria fazer isso”. Ela me convenceu a ficar, de ir a essa escola e continuar. Esse foi o ponto de virada que eu não havia esperado.

Robert Redford, ator, em resposta ao jornalista argentino Alexis Puig no lançamento do recente Meu Amigo, o Dragão (a entrevista pode ser assistida aqui, com legendas em espanhol). O astro fez 80 anos em 18 de agosto de 2016. Abaixo, Redford entre Paul Newman e Katharine Ross, seus parceiros de elenco em Butch Cassidy, filme que o colocou definitivamente entre as estrelas de Hollywood.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

robert redford

Veja também:
Dez grandes erros do Oscar

Entrevista: Anna Muylaert

Ao fazer a apresentação de seu novo trabalho, Mãe Só Há Uma, a cineasta Anna Muylaert disse que uma das características do filme é impedir previsões fáceis. Ao centro está o drama de Pierre (Naomi Nero), adolescente que faz descobertas relacionadas à sexualidade e é surpreendido com a notícia de que não foi criado pela mãe biológica. O turbilhão de mudanças da personagem contrasta, em certa medida, a direção de Muylaert, cuja suavidade confere beleza à obra.

A entrevista abaixo ocorreu antes da sessão do filme, no Cinépolis do JundiaíShopping, em Jundiaí – cidade na qual reside o autor deste blog.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

anna muylaert

Seu filme trata da questão de gênero. Qual a importância de trazer essa discussão à sociedade?

Acho que a discussão está sendo maior do que eu imaginava. Os jovens que vivem essa questão, a do mundo não binário, que não cabe só em homem e mulher, estão gostando muito do filme, estão se sentindo representados e estão muito felizes que haja um filme falando disso, dessa geração que ainda é muito nova. Está sendo bem legal.

Produções de fora do Brasil, relativamente recentes, também discutem essa questão. Por que a produção brasileira tinha certa dificuldade em discutir a questão de gênero?

De qualquer maneira é uma questão nova. Não faz muitos anos que as pessoas estão falando sobre isso. Acho natural. Eu sei que o Daniel Ribeiro [diretor de Hoje eu Quero Voltar Sozinho, que trata de relacionamento gay] também fará um filme com a história de uma transexual. É um tema que está chegando. O ano passado foi um ano em que isso veio forte, por causa do Bruce Jenner, que virou Caitlyn Jenner, e depois com as irmãs Wachowski. É uma discussão que está saindo cada vez mais da periferia e vindo para o centro.

Em relação à maternidade, que seu filme também trata, você já havia abordado a questão no seu filme anterior, Que Horas Ela Volta? (imagem abaixo). Por que a perseguição ao tema maternidade?

As pessoas vêm me fazendo essa pergunta e não tenho muito clara a resposta. Acho que a mãe é um personagem formador, então de alguma maneira eu acabo querendo discutir questões da sociedade através da mãe, porque a mãe e o pai, os pais, a família, são a primeira instância da sociedade, que nos passa a língua, os costumes. Simbolicamente, acho, a mãe é isso, ou então tenho que ir ao analista (risos).

que horas ela volta2

Nos seus filmes anteriores, Que Horas Ela Volta? e É Proibido Fumar, você teve atrizes de peso, da Rede Globo. E em seu novo filme, Mãe Só Há Uma, me parece que não há um ator que pode ser atração para bilheteria. Isso tem limitado o espaço do filme?

Esse filme já nasceu para ser pequeno. Eu queria fazer um filme menor, justamente para poder me arriscar na linguagem. Esse é o meu primeiro filme com câmera na mão. Eu ganhei um prêmio do MinC [Ministério da Cultura], de baixo orçamento, e fiz esse filme até de um modo mais rápido que o tradicional. A ideia era trabalhar com um filme menor e ter essa liberdade. Acho que um elenco desconhecido traz um frescor. Claro que adoro elenco conhecido, mas são duas propostas diferentes.

Gostaria de falar sobre o momento que o Brasil está vivendo hoje. Vimos recentemente exonerações na Cinemateca Brasileira, depois com o recuou do Ministério da Cultura. Como você vê as mudanças tomadas por esse Ministério e os rumos que nossa política nacional vem tomando em relação à cultura?

Uma vez que se entra na zona da inconstitucionalidade não há muito mais o que esperar. Podem ocorrer tanto coisas legais quanto coisas não legais. Essa intervenção violenta que vem ocorrendo, com a demissão de técnicos, não é boa. Tanto é que voltaram atrás. Como também voltaram atrás com a demissão do Ricardo da EBC [Ricardo Melo, presidente da Empresa Brasil de Comunicação, demitido pelo presidente Michel Temer, mas que depois retornou ao cargo]. Sou contra toda forma de autoritarismo. Essa passagem de governo foi uma espécie de sequestro.

E essa passagem pode afetar futuras produções?

Não sei dizer. É uma coisa que não dá para saber. Acredito que a Ancine [Agência Nacional do Cinema] esteja protegida, aparentemente. Mas não sei, realmente não sei.

Veja também:
Entrevista: Beto Brant
Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert
Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero