Elia Kazan

James Gray: era uma vez na América

Cinema de gênero é quase exceção entre os melhores cineastas que começaram a fazer filmes nas últimas décadas. James Gray, por isso, pode ser considerado um autor raro, um diretor em busca do velho romantismo fechado, dedicado a contar histórias, que parece não esconder nada do espectador. Tudo é entregue à tela, sem rodeios.

Suas histórias envolvem família, amores perdidos, situações cotidianas com jovens delinquentes. Tentam recuperar certo espírito americano de perda, em filmes sobre seres hostilizados em seu próprio seio, sobre tradições desequilibradas, com situações que levam ao “efeito simples” da bandidagem, o “nós contra eles”.

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É provável que Gray estivesse pensando em Terry Malloy, a personagem de Marlon Brando em Sindicato de Ladrões, quando criou – em parceria com o diretor e roteirista Matt Reeves – o jovem Leo Handler (Mark Wahlberg) de Caminho Sem Volta.

Leo teve problemas com as autoridades, pagou pelos erros. Basta seu olhar, no interior do metrô, ainda na abertura, para saber um pouco do que passou. Um policial à frente, no mesmo vagão, causa-lhe incômodo. Trocam olhares de desconfiança, o que dá novas pistas sobre a personagem em questão, que acaba de retornar da cadeia.

Não por acaso, a primeira imagem do filme mostra a saída da escuridão, quando o trem deixa o túnel e chega à luz. O filme todo será assim: um conflito entre luzes e sombras, o que representa a própria condição de seu jovem protagonista sem sorte.

Contra Leo não está apenas a polícia, mas todo um sistema que inclui a máfia, os políticos, a justiça e mesmo a família. Ao fim, todos darão as mãos em um tratado macabro. E a Leo resta o sentimento de que será como sempre foi, não muito diferente de outros subalternos, alguém que nada pode fazer contra os chefes do bairro.

Malloy vem à mente. A grande personagem de Marlon Brando, que havia conferido ao cinema certa ambiguidade típica ao jovem, está ligada às personagens de Gray. Mesclam-se nelas a desconfiança em relação a tudo, a consciência e a busca pela justiça.

Elia Kazan joga nas costas de seu protagonista a luta inglória contra o sistema mafioso que domina os portos. Contra Leo está a corrupção na rede do metrô de Nova York. Ele descobre o pior sobre o melhor amigo, também sobre seu tio, um mafioso que vive à base da imagem do bom homem de negócios.

A saída da escuridão torna Leo alguém mais frágil, alguém que renasce vazio àquele mundo de surpresas, de festas e novidades, no qual tudo parece fácil e à mão. Leo será vítima dos desejos: o amor que tem pela sua própria prima, a bela Erica (Charlize Theron), e a confiança no amigo Willie (Joaquin Phoenix).

A aparência de facilidades, contudo, não é sedutora: Gray filma os ambientes como em típicos filmes de máfia, o que leva a pensar, de forma automática, em O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Salas escuras com homens que tramam o destino dos outros, com detalhes vermelhos ao fundo e mulheres do lado de fora.

Gray declara-se fã de Coppola. Diferente do mestre, suas personagens são mais leves, menos comprometidas com o universo fechado da máfia. Ora ou outra escapam às ruas, onde, no caso de Leo, encontram problemas. É na companhia de Willie que ele envolve-se em um crime. A fatura tem peso: um segurança morto e um policial em coma.

Do dia para noite, Leo torna-se um indesejado: seus problemas chegam aos espaços do tio, e os laços de sangue passam a traí-lo. Seus problemas são semelhantes aos de Malloy, que não pode ser outra coisa aos olhos da máfia senão um garoto de recados.

Curioso notar o conselho de seu tio Frank (James Caan) quando o menino pede-lhe ajuda. Frank diz que Leo deve fazer um curso e se tornar maquinista. O conselho tem duplo significado: deseja manter Leo em uma posição social inferior (o que já tem) e, no caso do poderoso tio, revela um homem preocupado.

Frank, apesar de vilão, carrega essa ambiguidade: ele deseja que o menino não se envolva com a máfia e que se torne maquinista. Por outro lado, Leo inclina-se ao caminho mais curto: deseja, como Willie, ter mais dinheiro, mais poder e, talvez, conquistar o coração de alguém como Erica. Ou o da própria.

Seu sentimento pela moça é claro. À frente, Willie descobre que eles já tiveram um curto romance no passado. Mas Erica não ama mais Leo. Seu coração agora é de Willie. Esse triângulo levará a uma briga entre os homens, na rua, filmada a distância.

Tal como Malloy, Leo terá de mudar de lado para conseguir impor o que entende como justiça. Diferente de Malloy, em um tempo com mais politização e, ao que parece, corrupção, terá de aceitar um acordo entre empresas que disputam o controle dos metrôs – um acordo que beneficiará a todos, principalmente os criminosos.

De quebra, Leo ainda tem uma mãe doente, situação semelhante à dos irmãos do primeiro filme de Gray, Fuga para Odessa, separados pela criminalidade. O mais novo, Reuben (Edward Furlong), ficou com os pais em uma Nova York fria, de contornos envelhecidos, que remete à mesma América de Caminho Sem Volta: local sem muitas opções e no qual os bandidos misturam-se às pessoas comuns.

O irmão de Reuben é um matador de aluguel que decidiu reaparecer, ou que simplesmente reapareceu por acaso durante um de seus serviços. É Joshua (Tim Roth), raivoso e adepto à lei das ruas, às vezes (poucas) um sentimental.

Fuga para Odessa valeu a Gray o Leão de Prata no Festival de Veneza, o que o levou a Caminho Sem Volta. Fiel a seus temas e estilo, Gray – a exemplo de realizadores como Martin Scorsese e Sidney Lumet – conta histórias em um terreno que conhece. Cresceu justamente no Queens, onde sua segunda obra é ambientada.

Na ocasião do lançamento de Caminho Sem Volta, a Miramax queria cortar parte do filme. Gray foi duro e recusou: queria o filme como havia idealizado. Em Cannes, na competição pela Palma de Ouro, o longa foi recebido com frieza.

Os temas e os sentimentos aos quais o filme apela – a dificuldade para encontrar um lugar no mundo, para sobreviver às ruas, para se enquadrar à própria família – já estavam em Fuga para Odessa. Seu sentimento de exclusão, em clima frio, ajuda a explicar as personagens. É indicativo que essa obra de estreia comece com Reuben na sala de cinema, vendo um filme.

A película queima durante a sessão e resume o que vem pela frente: a imagem inexata, distorcida, coberta. E será justamente Reuben a vítima desse obstáculo, quando é confundido com um bandido e morto por um tiro. A bala atravessa um lençol branco antes de lhe atingir. Sua sombra poderia indicar qualquer um, qualquer ser.

Ele, como Leo, é vítima dos pecados alheios. Aparente inocente em um universo dominado pela bandidagem, a mesma que lhe fornece um passaporte. Para Reuben, a oportunidade de ficar com seu irmão, alguém que ainda ama; para Leo, a oportunidade de ter algo e talvez conquistar Erica, ou apenas fugir da escuridão.

O fim da luz em Caminho Sem Volta é como a película que queima: um convite à frustração, ao nada, a porta de saída de um mundo atraente mas perigoso.

Fuga para Odessa inclui as cobranças do pai (a figura de autoridade que também tem seus pecados) e as dores da mãe. O pai é vivido por Maximilian Schell, a mãe por Vanessa Redgrave. Quando ela tem seus ataques de dor, o pai acode-lhe. Ao mesmo tempo, Reuben vê a relação pela pequena abertura da porta, pela luz que escapa do lugar. O amor converte-se em sofrimento. A família está desintegrada.

Os Donos da Noite, terceiro filme de Gray, é também sobre personagens presas às luzes e sombras. Retornam Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg nos papéis de irmãos vivendo em universos opostos: um é gerente de uma casa noturna, chegado a drogas e diversão, o outro um policial honesto e pai de família.

A máfia volta à cena e, para Gray, oferece a quebra de divisões: está dentro e fora de casa, nas pessoas que se ama, nos melhores amigos, nas noites de festa. Os opostos tocam-se pelos efeitos da urbanização e da religiosidade, entre violência e gestos de amor, com a presença de seres que não se definem, a exemplo de Leo ou Joshua.

O dono das contradições é Bobby Green (Phoenix), filho de policiais e a serviço da máfia. Compõem sua rotina homens de moral duvidosa. Há, de resto, alguns “intrusos”, entre eles o pai e o irmão, ora ou outro para fazê-lo lembrar do caminho certo.

Bobby é gerente de uma casa noturna e, com alguma frequência, tem de se colocar no meio de brigas e retirar mulheres com os seios à mostra de cima do balcão. Ao aceitar voltar à (velha) família, embarca em outro universo, em outra festa, na qual o irmão e o pai revelam-lhe outros costumes, o caminho do qual destoa.

Em suas contradições, Bobby é sempre o mais interessante, o mais comprometido com a desgraça que se avizinha, pois será ele, de certa forma, o responsável por ela.

Imerso em seu mundo de pecados e permissões, ele não pode, de cara, aceitar um pedido do pai e do irmão. Bobby é convidado a ajudar a polícia a prender um poderoso traficante que frequenta a casa noturna em que trabalha. É nesse pedido que os mundos tocam-se: o momento em que Gray fará uma mistura à sombra da religião.

É na igreja, a certa altura, que o pai, Burt Grusinsky (Robert Duvall), explicará a situação que os envolve: ou se está de um lado ou de outro, com Deus ou com o Diabo. Bobby, na divisão do tabuleiro, não encontra fuga: será condenado a sofrer ao não estar nem de um lado nem de outro, ao apresentar em si próprio a confusão.

É como o Leo de Caminho Sem Volta, renegado, entre as luzes e a escuridão. É o mais interessante em cena e, felizmente, será assim até o fechamento: talvez à exceção dos últimos segundos, nunca parecerá um policial ou um verdadeiro vilão. Na primeira parte da obra, a personagem caminha sempre ao pecado e à contestação: não resiste à imagem do corpo feminino e tampouco liga quando deve brigar com o irmão, que certa noite faz uma batida policial em sua casa noturna. Enfurece-se quando perde a autoridade.

Será tragado, depois, à resignação: terá de entender que, quando seu pai e seu irmão travam uma guerra, não resta outra opção: deverá estar do lado da família. O lado errado fornecia-lhe delícias, mas, aos olhos de Deus, será sempre o lado errado. Não há o que fazer. E Gray sacrifica as delícias da vida sob a influência da religiosidade.

Nova York continua suja em Os Donos da Noite, no fim dos anos 80, e uma avalanche de cocaína ganha espaço enquanto se fixa a aparência de liberdade nas festas em casas fechadas, de luz escassa, ao som de “Heart of Glass”. É ao som dessa música, após velhas fotos do velho mundo policial, nos créditos, que surge o protagonista. Bobby vai das sombras à luz – seguindo o movimento de Leo, do túnel à claridade.

Como em Caminho Sem Volta, esse movimento evidencia sua condição. Ao sair das sombras, ainda na abertura, Bobby é levado ao desejo, ao corpo da namorada Amada (Eva Mendes). Ela insinua-se, leva as mãos ao meio das pernas e deixa suas partes intimas saltarem à tela levemente. O rapaz desliza a mão e a boca pela sua superfície.

Gray estabelece o universo de Bobby como o da permissividade, da sexualidade como liberdade, contraponto ao universo de sua família. Não por acaso, a certa altura Bobby insinua que o irmão deseja ter uma mulher como a sua, sexualmente desejável.

Sua namorada também será estranha àquele meio de homens brancos: é uma latina cuja descendência, à frente, é lembrada pelo pai, que talvez desejasse ao filho uma companheira com outras raízes, uma mulher branca. Amada é quem revela, em carne, a forma de um mundo atraente, à parte, um espaço de estrangeiros e exotismo.

Em Os Donos da Noite, o protagonista morrerá caso não aceite seu destino, caso não recuse os pecados da vida mundana. Como ocorreu a Leo e a Terry Malloy, ele será dominado pelas dores da consciência. E a religião encontra ali seu espaço.

No clássico filme de Kazan, lançado em 1954, é justamente um padre (Karl Malden) o responsável por organizar uma reunião entre trabalhadores, no interior de uma igreja, para que se juntem contra os homens poderosos e corruptos da região portuária.

Pois há algo religioso na caminhada de Bobby, como na de Leo e de Terry – que precisam sangrar para serem aceitos e perdoados pelos outros, e talvez por Deus.

Durante o funeral do velho Burt, ao som das celebrações policiais, Gray mostra a locomotiva ao fundo. Pode ser a mesma do filme anterior, que traz a personagem das sombras à luz, à tentativa de se livrar do passado que a atormentava.

Esse passado inclui drogas e facilidades, bandidos com jeito camarada, dinheiro e sucesso. Inclui também as músicas das casas noturnas nas quais Leo e Bobby embrenham-se na busca do desconhecido, na tentativa de esquecer, talvez, os problemas de fora. E existem ali as mulheres, misto de amor, desejo e perigo.

Janela indiscreta

O protagonista seguinte de Gray é um rapaz desajustado, um suicida. Leonard, à frente de Amantes, não amadureceu por completo e ainda vive à sombra da família – igualmente à sombra da dor de ter perdido a mulher que amava.

Logo na abertura, ele carrega uma capa plástica que cobre a roupa e na qual se lê uma declaração de amor à cidade de Nova York – o emaranhado de prédios e urbanização, sempre às sombras, com becos e festas regadas à dança frenética.

Leonard é vivido por Joaquin Phoenix, ator de quase todos os seus filmes (à exceção do primeiro longa-metragem, Fuga para Odessa). O astro é perfeito ao papel do rapaz deslocado, meio infantil, cuja vida tem significado apenas quando se ama. E isso ajuda a entender, talvez, por que Leonard é um suicida: ele é alguém que ainda acredita em um amor profundo o suficiente para sacrificar a vida, como em antigas tragédias.

Fadado ao sofrimento, Leonard vaga por aquela cidade fria, no inverno que aqui aproxima e separa os corpos em medida semelhante. Mais uma vez, Gray mostra uma comunidade fechada e com seus próprios hábitos. Como em seu primeiro longa-metragem, retornam os comerciantes judeus.

Mas Gray retira uma característica comum a seus filmes passados: a máfia. O problema agora é de sentimentos, em uma obra sobre um homem só, tendo de lidar com seu peso e seus conflitos internos. Ficam apenas problemas amorosos e conflitos entre gerações. Leonard, a certa altura, envolve-se com uma moça judia, filha de um poderoso comerciante que faz negócios com seu pai. Ela é Sandra (Vinessa Shaw).

Representa tudo o que ele podia esperar: é uma mulher companheira, dedicada, reconhece seus problemas passados e, de quebra, diz que deseja cuidar dele. No entanto, o protagonista não é capaz de amar Sandra. Seus problemas remetem ao passado: Leonard não pôde ficar com a mulher que amava porque não podiam ter filhos.

Ao que parece, a questão familiar e mesmo a cultural sobrepõem-se ao amor dele, fazendo mudar sua vida, fazendo com que retornasse àquele estado anterior, ao rapaz que ainda vive com os pais, trancado no quarto, adolescente deslocado que busca nos menores hábitos a saída para esquecer os acordos do mundo externo.

Sem muitos mimos, mas tratado sempre com atenção, para Leonard ou se ama ou não se vive. A certa altura, sua vida muda quando entra em cena uma bela mulher loura (em oposição à morena Sandra), a problemática e sensual Michelle (Gwyneth Paltrow).

Perto mas longe: Michelle vive no mesmo prédio de Leonard, algumas escadas acima, e de sua janela – um pouco mais ao alto – dá para ver o quarto do protagonista. Ele ama-a incondicionalmente em seu estado infantil e contido, em sua maneira extremista de ver o mundo, o que o leva à tentativa de suicídio.

Leonard entende o mundo a partir das emoções, não dos acordos ou das conveniências. Não consegue ser racional. E, com Michelle, parte para festas, para dançar e beber. Sempre ocupará uma segunda posição na vida da vizinha: não um novo amor, mas uma amizade, alguém que serve para a mulher desabafar os problemas.

Michelle desestabiliza, é a mulher que assombra, a moça que coloca a vida do protagonista de cabeça para baixo. Ao fim, quando vai até ele para dar a pior das notícias, emerge das sombras como um anjo do mal. E quando Leonard segue-a até o metrô, no início desse relacionamento, terá de entrar na escuridão. Repete-se o movimento entre luzes e sombras que marca os filmes de Gray.

O amor é tão trágico quanto os laços entre homens em suas famílias e redes criminosas, em seus negócios proibidos. Como outras personagens do cineasta, Leonard segue caminho oposto aos cínicos em pipocam na tela, atraente com suas dúvidas e crises.

O que talvez explique a paixão de Sandra, a moça que deseja não apenas um homem, mas alguém para cuidar, tornando-se mãe. E talvez Leonard deseje ser cuidado, alimentado por uma mulher – como parece indicar a sequência em que Michelle, da janela, mostra-lhe o seio. Ao mesmo tempo materna e erótica.

A mulher problemática já foi vista em outras obras de Gray. Em Caminho Sem Volta havia a Erica de Charlize Theron, a moça rebelde que não suportava os problemas do namorado, ao mesmo tempo dentro e fora do mundo marginal. Em Os Donos da Noite havia a latina Eva Mendes, Amada, tão “estrangeira” quanto Michelle. É como os pais das personagens de Phoenix recebem essas mulheres: estranhas demais para seus filhos, “estrangeiras” o suficiente para colocarem fim a uma linhagem “pura”.

Mais importante que a questão religiosa em Os Donos da Noite é a questão cultural, a permissão para fazer parte e a aceitação observadas também em Amantes. Crescer, diz Gray, é entender (e seguir) as tradições, seus arranjos, à contramão do coração. Quando retorna para Sandra, aparentemente recuperado, o rapaz mostra estar próximo, enfim, da maturidade.

O amor é a corrida a algo que insinua proximidade – a alguns metros, em uma janela indiscreta –, ao mesmo tempo distante e ilusório. Esse amor revela-se apenas uma paixão momentânea, um estágio, e talvez tenha prazo de validade.

Das danças na casa noturna aos gestos de reclusão, no quarto, grudado ao travesseiro, Leonard é alguém cujo amor leva à metamorfose, às várias faces em uma, ao mapa humano que não deixa saída. E isso talvez explique seu desejo pela morte, no início, e sua vitória ao fim: o desejo de viver. Aceita a segurança, o amor do outro.

Às origens

Com Era Uma Vez em Nova York, James Gray mostra a dor de quem carrega o pecado, a busca por se “limpar” em um universo que despeja sempre o que há de pior: a sujeira que se vê em um país em transformação, em uma terra escura e de conflitos.

O que se sobressai é o conflito às vezes íntimo, o da moça imigrante que não pode ser, de cara, alguém como todas as outras moças, mas alguém que, para sobreviver, terá de ser como todas: uma mulher que se entrega aos homens por dinheiro, que sabe que, para sobreviver nessa terra de dinheiro que é a América, terá de pecar.

A América, diz Gray, foi forjada à base do pecado, e nem por isso a religião escapou dali. Ao contrário, persiste. Era Uma Vez em Nova York, sua obra mais completa, tem a ambição de lançar luz ao passado para que seja possível entender sua filmografia. Com essa obra completa e extraordinária, o cineasta faz o que Scorsese tentou com Gangues de Nova York e não conseguiu: mostrar o que dá forma àquela América na qual a lealdade familiar mescla-se à bandidagem.

Ao mesmo tempo uma síntese de tudo o que vem antes, Era Uma Vez em Nova York é um resultado, o capítulo seguinte de uma obra consistente, apenas de altos, sem os pontos baixos comuns a outros diretores americanos pressionados pelo mercado. Gray revela-se – àqueles que ainda não acreditavam – um autor. Um diretor sem medo de reviver uma nova cópia, fiel a seu universo de criminosos e tradições.

A abertura de Era Uma Vez em Nova York faz pensar em O Poderoso Chefão – Parte 2. O diretor nunca escondeu sua admiração por Coppola, que se dedicou, com sua famosa trilogia, a examinar (também) as bases que formaram os Estados Unidos, a confusão aparentemente organizada e reduzida aos balbucios de Marlon Brando (na primeira parte), a um jovem De Niro em busca de vingança sobre os telhados de Nova York.

São imagens que povoam a mente dos cinéfilos: demonstrações sobre os imigrantes nessa América que traz um pouco de tudo, do mafioso velho e aparentemente confiável ao assassino que, na verdade, é justamente o passado desse mesmo homem velho.

Copolla, com maravilhosas metamorfoses, com seu drama mesclado ao épico, é seguido de perto por Gray. Era Uma Vez em Nova York é o resultado de uma carreira voltada a discutir a vida de criminosos apaixonados, em dívida com suas raízes, levados ao extremo do pecado (como a execução presenciada pelo irmão em Fuga para Odessa), também sobre a entrega total a uma missão, à paixão da existência que está sempre tão próxima ao fim (como parece ser o caso do ambíguo Leonard de Amantes).

América de confusões à qual é levada a polonesa Ewa Cybulska (Marion Cotillard), na qual o sol quase não aparece. A Estátua da Liberdade está um pouco distante. Faz frio, como em outros filmes de Gray, e há alguma hostilidade na chegada, no porto em que os imigrantes são examinados e, se necessário, separados e barrados.

Ewa veio à América com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), de quem é separada quando as autoridades descobrem que a segunda tem tuberculose. Sem a irmã, Ewa consegue chegar à cidade com a ajuda de um homem aparentemente bom, Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), ao mesmo tempo em que Magda é detida para ser tratada.

Em sua passagem à suposta liberdade, a protagonista só encontra mais e mais prisões. E sua irmã continua em “terra de ninguém”, sem voltar para trás ou seguir para frente, alguém sem pátria. Gray apresenta – desde cedo, com a Estátua da Liberdade distante e a ausência de luz – uma crítica à América cinzenta, na qual as oportunidades e liberdades são revestidas pela propaganda dos supostos nativos e exploradores.

Bruno não foge à regra. Tal como Ewa, metamorfoseia-se para viver. Ela, ao mesmo tempo santa e pecadora. Ele, ao mesmo tempo monstruoso e compreensivo. A reunião de formas diferentes em uma só pessoa tem justificativa: a sobrevivência.

Não se vive nesse novo país senão por esse viés. É isso o que faz da inocente Ewa – a mais inocente de todas as mulheres de Gray – uma pecadora. Pois terá de trabalhar para Bruno e se tornar mais do que uma de suas dançarinas: terá de se tornar – sob o forte efeito de maquiagem e roupas extravagantes – uma prostituta.

Nesse período de formação de um país tal como se verá mais tarde, pecadores e santos vivem em um só ser. É o que Ewa prova indiretamente, enquanto os supostos religiosos – como seu tio, um homem bruto – revelam-se intolerantes. A situação de Ewa é ainda pior quando é acusada de ser uma mulher fácil, de moral duvidosa.

“É pecado tentar sobreviver?”, questiona ela, à tia, quando precisa de um pouco de dinheiro, perto do fim, para pagar pela liberdade da irmã. Apenas o dinheiro fornece saídas nessa América em formação: é tomado pelos guardas corruptos, pelos policiais, até mesmo pela moça ao centro. Vale tudo para tê-lo e sobreviver.

Mais interessante é Bruno, vivido por Phoenix, o ator definitivo de Gray. Todo seu aparente equilíbrio cai por terra com a chegada de Ewa. A bela Ewa será a mulher a desequilibrar seu paraíso, ainda que sem intenção. O fato é que Ewa não tem desejos aparentes, é retraída e contrasta tudo o que é necessário para sobreviver naquele meio: ela não tem vocação para o pecado.

Encontrar tal vocação é esbarra no pecado. Quando nega um abraço de Bruno, a moça é maltratada, jogada ao canto e tem seu crime – o furto de dinheiro – revelado. Será julgada, levada a dançar em um cabaré ocupado por homens gritões, mostrados com pouca luz entre a plateia enquanto as mulheres dançam.

Não há possibilidade para Ewa. Resta-lhe apenas Bruno, o indesejado, o único capaz de ajudá-la, ao fim, a salvar sua irmã. Bruno é o acesso ao mal que se deve carregar, necessariamente, para escapar com vida nesse novo país. É a mesma contradição de O Poderoso Chefão, também de Era Uma Vez na América, de Sergio Leone (resultado de faroestes anteriores em que a América revelava-se em seu gênero mais caro).

Para complicar, Gray traz ainda um terceiro personagem fundamental em Era Uma Vez em Nova York. Trata-se do mágico Orlando (Jeremy Renner), cujo nome verdadeiro é Emil. Descontraído, ele chama a atenção de Ewa. Ao mesmo tempo um mentiroso como pede a profissão, é sincero e que crê na liberdade dela.

É também o primo de Bruno. Alguém que desperta a fantasia do impossível, da ilusão, alguém que leva a mulher à fuga quando o espaço ao redor, concreto e obscuro, não possibilita a esperança. É o oposto de Bruno: alguém que não precisa ser perdoado, que leva à salvação, que não tem traços religiosos.

A cada encontro com Bruno, Orlando é obrigado a fugir. Depois de uma briga entre primos, Bruno termina preso. No dia em que sai da cadeia, é Ewa quem está por ali, como um animal à espera do dono. Uma relação de entrega, um pouco irracional.

Ao fim de Era Uma Vez em Nova York, Gray coloca em cena, no mesmo quadro, o caminhar de Bruno à prisão, em reflexo, e a fuga de Ewa e sua irmã, com o barco, pelo mar, através da janela. Enquanto o homem é o próprio universo escuro e interior, Ewa é a parte exterior, de volta ao mar, sabe-se lá para qual destino.

O sacrifício de uns permite a sobrevivência de outros. Gray, com essa imagem-síntese, explica toda sua filmografia. Pois o sacrifício esteve em todos os seus filmes: o de Reuben em Fuga para Odessa, o de Erica em Caminho Sem Volta, o de Burt em Os Donos da Noite e o do próprio Leonard, o rapaz com tendências suicidas de Amantes. À contramão, outros, como Ewa, encontram a saída.

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James Gray é um cineasta americano nascido em Nova York, em 1969. Dirigiu apenas seis longas-metragens até o momento. (Observação: este ensaio foi escrito antes da estreia de Z: A Cidade Perdida no Brasil.)

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20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

Importante dizer, de partida, que o chamado “sonho americano” é um rótulo, utopia embalada pela televisão, pela propaganda de margarina, pelo cinema idealista dos anos 30. O american way of life, com sua economia robusta, suas famílias suburbanas felizes, direitos iguais para todos, não resiste ao retrato da realidade – seja pela comédia ou pelo drama de contornos obscuros – levado à frente pela da lista abaixo.

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Existem outros vários filmes sobre a degradação desse ideal americano que ficaram de fora da relação. A lista também traz longas-metragens que se banharam em livros conhecidos, de autores como John Steinbeck e F. Scott Fitzgerald. Ainda assim, a visão dos cineastas tem peso maior, com narrativas de forte impacto. À lista.

Fúria, de Fritz Lang

Austríaco e fugitivo do nazismo, Lang deu vez a uma história sobre intolerância em seu primeiro filme americano, no qual um homem é considerado culpado por um crime que não cometeu. Do lado de fora da prisão, a multidão descontrolada pede seu pescoço.

fúria

Alma em Suplício, de Michael Curtiz

Esse filme noir traz Mildred Pierce (Joan Crawford), cuja escalada social será acompanhada pela degradação da filha, a quem a protagonista tenta dar a melhor educação. A história é contada em flashback, à polícia, após o assassinato do ex-marido de Mildred.

alma em suplício

O Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey

O policial de Van Heflin descobre uma mulher casada, em uma bela casa de subúrbio, sozinha enquanto seu marido apresenta um programa de rádio. Passa a frequentar o local, torna-se seu amante. O destino desses fracassados tomará rumos inesperados.

o cúmplice das sombras

Vidas Amargas, de Elia Kazan

Vários filmes de Kazan tratam da morte do sonho americano. Nenhum deles, contudo, de maneira magistral como Vidas Amargas, da obra de Steinbeck, sobre um rapaz (James Dean) filho de um pai religioso e de uma mãe prostituta, em busca do amor de ambos.

vidas amargas

Delírio de Loucura, de Nicholas Ray

James Mason interpreta um professor pai de família que passa a ter comportamento violento com a mulher e o filho após iniciar um tratamento com cortisona. Esse remédio – amostra “milagrosa” da vida moderna – não garantirá a continuidade da família.

delírio de loucura

O Indomado, de Martin Ritt

A sequência mais famosa dá ideia da degradação geral: pai, filho e outros rancheiros matam o rebanho doente da fazenda. O filho (Paul Newman) quer vendê-lo mesmo assim, o pai (Melvyn Douglas) é contra. Por esses contrapontos, a família aos poucos se dissolve.

o indomado

O Beijo Amargo, de Samuel Fuller

A Kelly de Constance Towers esbofeteia seu cafetão antes de ir embora. Migra à pequena cidade interiorana, a uma “outra” América, indo trabalhar como enfermeira em um hospital para crianças com deficiência. Ali, apenas as crianças serão verdadeiras.

o beijo amargo

Sem Destino, de Dennis Hopper

Outra América é o que esperam também os motociclistas chapados de Hopper e Peter Fonda. Ganham um pouco de dinheiro e destroem um relógio antes de embarcar nessa viagem igualmente existencial – e repleta de intolerância, a dos outros.

sem destino

Perdidos na Noite, de John Schlesinger

Enquanto canta, no chuveiro, o caipira Joe Buck (Jon Voight) sonha acordado com as belas mulheres que almeja encontrar, na cidade grande, trabalhando como gigolô. A realidade é outra: termina quase sem nada, apenas com a companhia do marginal Ratso (Dustin Hoffman).

perdidos na noite

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack

Nos tempos da Grande Depressão, algumas pessoas decididas a ganhar dinheiro se arriscam em um jogo insano: precisam sobreviver ao cansaço, horas sem dormir, em uma pista de dança na qual se convertem no centro de um espetáculo doentio.

a noite dos desesperados

O Grande Gatsby, de Jack Clayton

A versão de Baz Luhrmann desaparece quando comparada ao elegante trabalho de Clayton, a partir do livro de Fitzgerald, com suas passagens entre o paraíso e o inferno, seus amantes condenados, todos gravitando em torno do poderoso Gatsby (Robert Redford).

o grande gatsby

Stroszek, de Werner Herzog

Um rapaz com aparente problema mental (Bruno S.), uma prostituta (Eva Mattes) e um baixinho (Clemens Scheitz) saem da Alemanha para tentar a vida na América. Após os imaginados fracassos, como a perda da casa, eles decidem aderir à violência.

stroszek

Eles Vivem, de John Carpenter

A sociedade capitalista é descortinada de forma original nessa ficção científica: o mundo foi dominado por alienígenas que não se deixam ver, nem suas mensagens. O herói grandalhão (Roddy Piper) só consegue enxergá-los quando utiliza óculos especiais.

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Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone

Antes uma criança que brincava com armas, jovem apaixonado e patriota, o protagonista (Tom Cruise) retorna do Vietnã em uma cadeira de rodas. Repensa tudo, muda de lado: não demora a protestar, a aderir às passeatas contra seu próprio governo.

nascido em 4 de julho3

O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

Sob as ordens do chefe, alguns corretores imobiliários correm para vender mais e cumprir as metas, em noite chuvosa. O roteiro é de David Mamet, baseado em sua própria obra. O protagonista, entre o cômico e o cínico, é ninguém menos que Jack Lemmon.

o sucesso a qualquer preço1

Felicidade, de Todd Solondz

Painel sobre a vida privada dos moradores de subúrbio, com seus segredos e a busca pela inclusão. Há o pai de família pedófilo, a solteira chorona em busca do “príncipe encantado”, o rapaz solitário atrás de sexo fácil, a escritora frustrada, entre outros.

felicidade

Beleza Americana, de Sam Mendes

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Longe do Paraíso, de Todd Haynes

O tempo e as cores de Douglas Sirk. Também os traços de suas personagens, a sociedade que desaba, a família infeliz. Em cena, uma dona de casa (Julianne Moore) descobre as inclinações homossexuais do marido enquanto se encanta com a presença de um jardineiro negro.

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O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O consagrado diretor de Taxi Driver vai a Wall Street mostrar a trajetória de jovens em busca de dinheiro fácil, sem qualquer humanidade. A vida é uma diversão feita de escritórios abarrotados com homens caçando números, de orgias paralelas. É a loucura americana.

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O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor

O ano é 1981, quando os índices de criminalidade foram os mais altos em Nova York. Nesse cenário, o jovem empresário Abel Morales (Oscar Isaac) tenta conquistar espaço com sua empresa, ao lado da mulher “perfeita” (Jessica Chastain) e homens estranhos. Ser honesto não será fácil.

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Cinco filmes recentes sobre o capitalismo selvagem

Ninfetas (em 15 filmes)

Um grupo de belas jovens do cinema, a fazer pencas de marmanjos saírem dos trilhos. Uma lista com 15 meninas de filmes variados, do noir ao universo violento do cinema americano atual. Não se tratam de formas a representar o sexo fácil, ainda que em vários filmes elas remetam a desejos ocultos e ao erotismo comum ao cinema moderno.

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Carmen Sternwood (Martha Vickers) em À Beira do Abismo

Antes de encontrar seu contratante, ainda no início da obra-prima de Howard Hawks, o detetive Philip Marlowe (Humphrey Bogart) depara-se com a pequena e aparentemente indefesa Carmen. Algo está errado por ali: a menina não demorada a se lançar nos braços do herói, que, como sempre, ironiza. Ao longo do filme, ela mostra-se apenas uma peça da trama intrincada, cheia de idas e vindas, de dúvidas, com Lauren Bacall no elenco.

à beira do abismo

Baby Doll (Carroll Baker) em Baby Doll

O trabalho de Elia Kazan vem carregado de ousadia: é sobre um homem (Karl Malden) impotente unido a uma bela menina, em uma casa aos cacos, enquanto não consegue consumir seu desejo por ela. Ela grita do lado de fora enquanto a aguarda, para a graça dos velhos senhoras negros por ali. Mais tarde, seu rival (Eli Wallach) vai à mesma casa e passa a jogar charme na menina. Como em Uma Rua Chamada Pecado, Tennessee Williams também assina o roteiro.

baby doll

Colette (Marie-France Pisier) em Antoine e Colette

O espectador entende por que Colette capta a atenção de Antoine e desvia seu olhar, do palco do concerto à bela menina, algumas poltronas à frente. A maneira como arruma o vestido, como passa o dedo nos lábios, torna-a seu objeto de desejo. Logo está apaixonado, em seu possível primeiro amor. Ele fará de tudo para tê-la por perto no segundo filme de Truffaut sobre Antoine Doinel, que integra o longa Amor aos 20 Anos. Pisier mescla juventude com jeito de mulher.

antoine e colette

Lolita (Sue Lyon) em Lolita

A partir do livro de Nabokov, Kubrick levou à tela um estranho romance carregado de ressentimento, de dor, com o homem mais velho cheio de problemas, desconfiado, vivido na medida pelo mestre James Mason. A bela Lyon não precisa de muito para encantar, e em alguns momentos chega a não ter qualquer tempero: às vezes é até difícil compreender por que esse homem mais velho e inteligente fica de joelhos à menina. É uma boneca cuja imagem, ao fim, esvai-se: não é mais a Lolita de sempre.

lolita

Agnese Ascalone (Stefania Sandrelli) em Seduzida e Abandonada

Após o incrível Divórcio à Italiana, o diretor Pietro Germi retorna ao campo da comédia que revela outro lado da sociedade italiana de bons costumes. A saída é rir do absurdo, das perseguições à menina que teria perdido a juventude, para a desgraça do pai, da Igreja, de todos ao redor. Há a sequência delirante em que ela é perseguida pelos moradores da cidade. De beleza ímpar, como outras musas italianas da época, Sandrelli ganha pela presença, ao mesmo tempo em que o espectador ri dos homens que a cercam.

seduzida e abandonada

Delilah “Delly” Grastner (Melanie Griffith) em Um Lance no Escuro

O detetive de Gene Hackman é contratado para encontrar essa garota no grande filme de Arthur Penn. A trama envolve uma atriz de cinema decadente (mãe dela) e o lado obscuro dessa arte, atrás das câmeras, com os dublês e os riscos do ofício. Logo Harry (Hackman) percebe que a menina é apenas a ponta do iceberg. Suas andanças levam-no ao inimaginável, ao fim, com um encerramento misterioso. É o primeiro trabalho de Griffith que lhe valeu crédito, muito antes do sucesso de Uma Secretária de Futuro, de Mike Nichols.

um lance no escuro

Iris (Jodie Foster) em Taxi Driver

A raquítica Foster cai nos braços da personagem de Harvey Keitel, o cafetão, na única sequência do filme de Martin Scorsese em que Robert De Niro não está em cena. Em outros momentos, a menina passa pelas ruas e sempre atrai a atenção do taxista Travis, em suas andanças pela cidade, em seus momentos de solidão. Seu desejo de “limpar” a metrópole leva-o a encontrar a menina de novo, em encerramento traumático. Foster já havia feito um pequeno papel em Alice Não Mora Mais Aqui, de Scorsese.

jodie foster

Violet (Brooke Shields) em Menina Bonita

A ninfeta é servida como banquete nesse polêmico filme de Louis Malle, quando alguns diretores europeus eram atraídos a Hollywood com a possibilidade de realizar trabalhos interessantes. Crescida no bordel, a menina de Shields logo chama a atenção de um jovem fotógrafo que passa por ali, interpretado por Keith Carradine. Malle capta o universo de libertinagem do início do século 20. O elenco conta com Susan Sarandon, como mãe da menina e também prostituta.

menina bonita

Suzanne (Sandrine Bonnaire) em Aos Nossos Amores

Em seu primeiro papel de destaque e com crédito, Bonnaire é uma revelação. O diretor Maurice Pialat nunca trata o sexo como momento difícil ou leva a jovem a algum questionamento que envolva culpa. Ao contrário, é natural. Os problemas da menina são outros e envolvem sua família, a separação dos pais, as brigas com o irmão. Há também o relacionamento que não deu certo, com diálogos cortantes e o realismo do diretor.

aos nossos amores

Cécile de Volanges (Uma Thurman) em Ligações Perigosas

A trama envolve a destruição de uma jovem (Michelle Pfeiffer) por um casal de amigos íntimos, vivido por Glenn Close e John Malkovich. Em meio à trama, em jogos de diversão e prazer, eles encontram a bela Cécile. Thurman já havia feito outros filmes, como As Aventuras do Barão de Münchausen, do mesmo ano, e mais tarde ganharia destaque por sua personagem descontrolada em Pulp Fiction, de peruca e mulher de um perigoso mafioso.

ligações perigosas

Christina (Mia Kirshner) em Exótica

A casa de shows de stripper é decorada como selva. Homens vão ao local para observar as belas mulheres que dançam ali. Entre elas está a misteriosa Christina, alvo, quase todas as noites, das investidas de um cliente fiel (Bruce Greenwood). O belo filme de Atom Egoyan mescla diferentes personagens, como o dono de uma loja de animais exóticos interpretado por Don McKellar, e outros que compõem a estranheza da obra, como o DJ de frases de efeito de Elias Koteas.

exotica

Angela Hayes (Mena Suvari) em Beleza Americana

O objeto de desejo do protagonista (Kevin Spacey) surge, em sonhos, coberto de pétalas de rosa, quando retira o casaco de líder de torcida, ou quando se insinua para ele do alto do teto de seu quarto. Como nada é o que parece nesse filme de Sam Mendes, ganhador do Oscar, mais tarde a moça fará uma revelação capaz de demolir seu sonho. Retorna à realidade, ao ambiente que inclui as traições da mulher, as descobertas da filha, o contato com o vizinho traficante e os embates com o pai do garoto, militar linha dura.

beleza americana

Junie (Léa Seydoux) em A Bela Junie

O título não mente: Seydoux é bela demais, com seu olhar de lince, o que leva o espectador a não despregar os olhos. Faz pensar na Anna Karina de Godard, na menina como fonte de atenção de seus bandidos e fugitivos. Como outros de sua geração, Christophe Honoré bebe na fonte da nouvelle vague. Faz de Seydoux uma musa em formação: tem o olhar trágico e ao mesmo tempo distante. Difícil saber no que está pensando ou o que deseja, o que assegura seu mistério.

a beça junnie

Dottie Smith (Juno Temple) em Killer Joe – Matador de Aluguel

A menina rouba a atenção do matador de aluguel interpretado por Matthew McConaughey no surpreendente e violento filme de William Friedkin. Ao aceitar matar a mãe do menino que o contrata, ele coloca a irmã do pagador como parte do negócio. E Temple sai-se bem como a adolescente perdida de uma família disfuncional. O filme leva ao insuportável quando, ao fim, todas as personagens reúnem-se à mesa, quando o assassino fala de suas intenções, e quando o fechamento leva ao corte seco.

killer joe

Joe (Stacy Martin) em Ninfomaníaca – Parte 1

Nas histórias da experiente Joe vem à tona seu passado, quando se aventurava em baladas sexuais, com parceiros diversos. O período é preenchido pela presença da bela Martin, cujo olhar de certeza comprova a boa escolha para o papel. Sozinha ou com alguma amiga, ela dá vez aos desejos. A direção de Lars von Trier é certeira e o filme, claro, criou alguma polêmica. Não é sobre sexo fácil. Prefere suas entranhas, ao passo que a madura Joe (Charlotte Gainsbourg) é bombardeada pelas ideias de seu interlocutor (Stellan Skarsgård).

ninfomaníaca

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As duas mulheres de Palavras ao Vento

Há duas mulheres de peso em Palavras ao Vento, de Douglas Sirk: primeiro, a mulher distante, séria, a ser conquistada pelos homens em cena. Ao contrário do que se pensa, nunca é previsível. Como diz o próprio Sirk, ela surpreende sempre, fazendo o espectador pensar uma coisa e encontrar outra – como a possibilidade de ser adúltera.

À personagem Lucy, Lauren Bacall (abaixo) entrega não mais que seu tipo habitual, sua distância. Quando menos percebe, já se deixou levar pela rica família que vive do petróleo, e sem se dobrar às suas grandes torres.

palavras ao vento

Quase tudo dá errado. É o campo do melodrama. Lucy é amada por diferentes homens, o patrão rico – com quem se casa – e o empregado, talvez mais interessante – mas a quem uma mulher como ela talvez não esteja facilmente destinada.

E destino, aqui, faz a diferença. Para apimentar a situação, ou apenas para bagunçá-la – segundo as regras do melodrama –, há ainda outra personagem secundária de peso, espécie de vampira, interpretada por Dorothy Malone (abaixo).

A segunda mulher desse grande filme de Sirk é fácil, impulsiva, e só seria igualada, mais tarde, pela Barbara Loden de Clamor do Sexo, de Elia Kazan.

Em uma de suas melhores sequências, ela dança enquanto o pai encontra a morte. Desestabiliza a família enquanto não consegue conquistar o empregado e, por isso, aceita qualquer homem da cidade. Incontrolável, uma explosão de sexualidade.

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30 grandes filmes, há 60 anos

30 grandes filmes, há 60 anos

Não é exagero: 1955 tem tanto peso ao cinema quanto 1939. Talvez não tenha o mesmo número de filmes americanos importantes, mas tem todos os ingredientes que dariam vez ao cinema moderno, além de filmes com contornos clássicos.

Lançados há 60 anos, alguns desses filmes abordam a juventude, têm grandes diretores que ainda não tinham chegado ao topo, outros que terminavam a carreira, além da façanha de antecipar movimentos como a nouvelle vague e o cinema novo. Ano para não esquecer.

30) Sementes de Violência, de Richard Brooks

Professor pacato tem de conviver com os conflitos de uma nova geração. O filme de Brooks marcou época e tem na abertura o som de “Rock Around The Clock”.

sementes de violência

29) Geração, de Andrzej Wajda

Primeiro filme de Wajda, sobre a luta de resistência polonesa contra tropas nazistas. É o primeiro da Trilogia da Guerra, da qual fazem parte Kanal e Cinzas e Diamantes.

geração

28) A Trapaça, de Federico Fellini

Trapaceiros profissionais encabeçados pelo bonachão Broderick Crawford fingem ser homens da igreja para levar dinheiro de fieis em pequenas vilas pobres da Itália.

a trapaça

27) Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos

Filme brasileiro que abriu caminho ao cinema novo da década seguinte, com um panorama da “cidade maravilhosa”, seus abismos e, claro, o futebol.

rio 40 graus

26) As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot

Para compensar a falta de talento de Véra Clouzot há a presença de Simone Signoret nesse suspense sobre duas mulheres (amante e esposa) unidas para matar um homem.

as diabólicas

25) Noite e Neblina, de Alain Resnais

Marcante documentário sobre a memória do Holocausto, com imagens em cores dos campos de concentração e outras da época dos fatos, com doses de horror.

noite e neblina

24) Conspiração do Silêncio, de John Sturges

Homem misterioso e correto desembarca em pequena cidade perdida no mapa para investigar um assassinato. É o suficiente para deflagrar diferentes conflitos.

conspiração do silêncio

23) Ricardo 3º, de Laurence Olivier

Mais lembrado pela adaptação de Hamlet, Olivier levou às telas – com fotografia extraordinária – essa exuberante história de cobiça a partir de Shakespeare.

ricardo 3

22) O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger

O diretor só conseguiu fazer esse trabalho graças à presença de Frank Sinatra. À época, tratar o uso de drogas ilícitas no cinema era algo novo e poderia causar afronta.

o homem do braço de ouro

21) Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel

Filme de serial killer que segue a mania de Buñuel sobre a impossibilidade de concretizar um ato. Algo sempre dá errado quando a personagem tenta matar alguém.

ensaio de um crime

20) Sorrisos de Uma Noite de Amor, de Ingmar Bergman

Traições entre diferentes casais embalam a comédia de Bergman, com a presença luminosa de Harriet Andersson, empenhada a provocar um rapaz puritano.

sorrisos de uma noite de amor

19) A Morte de um Ciclista, de Juan Antonio Bardem

Grande filme mexicano sobre um casal que mata acidentalmente um ciclista, à estrada, e tem a vida transformada quando há a suspeita de que alguém teria presenciado o crime.

a morte de um ciclista

18) Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick

Contra os experientes bandidos está o impensável: a pacata senhora que acredita se tratar de um grupo de músicos profissionais. Última comédia dos Estúdios Ealing.

quinteto da morte

17) Abandonada, de Francesco Maselli

Rapaz burguês tem a vida transformada ao hospedar uma família pobre em sua fazenda, nos tempos de guerra. A certa altura, ele vê-se obrigado a lutar com a resistência.

abandonada

16) A Rosa Tatuada, de Daniel Mann

Presença de força, Anna Magnani é a mulher deixada pelo marido e que tem de cuidar da filha. A certa altura, conhece outro homem, vivido pelo ótimo Burt Lancaster.

a rosa tatuada

15) Stella, de Mihalis Kakogiannis

A presença da atriz Melina Mercouri entrou para a história do cinema, interpretando uma cantora que seduz homens diversos e não aceita ser domada.

stella

14) Grilhões do Passado, de Orson Welles

O mestre Welles interpreta mais uma figura curiosa, Gregory Arkadin, com um trabalho estranho a um homem perdido no mundo: investigar sua própria vida.

grilhões do passado

13) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

Com toques expressionistas, a obra de Lewis tem sequências magistrais. Segue a corrida do policial vivido por Cornel Wilde, no rastro do chefão do crime e preso às sombras.

império do crime

12) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

Com O Selvagem e Sementes de Violência, o filme de Ray coloca o jovem definitivamente nas telas do cinema. Nesse caso, o rebelde sem causa.

juventude transviada

11) Férias de Amor, de Joshua Logan

O forasteiro recém-chegado à cidade arranca suspiros das mulheres: com o peito nu, sem raízes, ele logo se envolve com a garota mais bela do local.

férias de amor

10) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

Antes dos filmes que deram vez à nouvelle vague, no fim dos anos 1950, a diretora Varda utilizou parcos recursos e conseguiu antecipar o movimento.

La Pointe-Courte

9) Rififi, de Jules Dassin

Após ir embora dos Estados Unidos, perseguido pelo macarthismo, Dassin realiza esse grande filme de assalto. A sequência do roubo, meticulosa, entrou para a história.

rififi

8) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Melodrama classe A, talvez o melhor de Sirk ao lado de Palavras ao Vento, sobre o amor (quase) impossível entre uma mulher madura e seu jardineiro.

tudo que o céu permite

7) Casa de Bambu, de Samuel Fuller

No Japão cheio de americanos do pós-guerra, a bandidagem ianque lucra alto enquanto policiais infiltrados tentam descobrir os tentáculos dessa organização.

casa de bambu

6) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

Como o típico filme noir, as mulheres são inconfiáveis, o chão é um tabuleiro de xadrez e a surpresa final, nesse caso, ainda permite a abertura da Caixa de Pandora.

a morte num beijo

5) Lola Montes, de Max Ophüls

Último filme do mestre Ophüls, mais uma de suas obras-primas. Chegou a ser mutilado na época e só mais tarde ganhou a versão que o diretor desejava.

lola montes

4) Vidas Amargas, de Elia Kazan

O rapaz deslocado de James Dean é um inconformado: deseja ajudar o pai a todo custo e reencontrar a mãe. De quebra, talvez acabe apaixonado pela namorada do irmão.

vidas amargas

3) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

A religião divide mais do que une nesse grande filme de Dreyer, com a incrível sequência final, capaz de emocionar até os espectadores mais céticos.

a palavra

2) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

A primeira parte da Trilogia de Apu é também o primeiro filme de seu diretor, sobre a difícil vida de um garoto em região rural da Índia, em meio à pobreza absoluta.

a canção da estrada

1) Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Com os dedos tatuados e amedrontador, às vezes até engraçado, Mitchum é o vilão perfeito, o falso pregador que persegue duas crianças inocentes.

o mensageiro do diabo

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