David O. Russell

As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

Por muito tempo, comédias têm sido associadas apenas a filmes que fazem rir. Ou que fazem rir em excesso a partir de gestos físicos e piadas fáceis. Há também a ideia de que a comédia não pertence ao plano real: vale rir de tudo, claro, pois tudo é assumidamente falso. Tais ideias, em certa medida, ligam-se à forma americana de fazer comédia, que legou o pastelão, a screwball, a comédia física que não se faz mais.

Mas a comédia vai além: a constatação do absurdo, até o espectador corar, também é fazer comédia. Absurdo que tem inegável dívida com a realidade, e que pode ser tão cruel, tão estranhamente atual, que o espectador não tem gargalhadas, mas o leve sorriso de canto de boca. A constatação do sarcasmo. E talvez deixe o cinema até um pouco triste, em alguns casos com a certeza de ter assistido a um gênero nobre. (Observação: a lista abaixo é puramente pessoal.)

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50) Frank, de Lenny Abrahamson

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49) Trapaça, de David O. Russell

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48) O que Resta do Tempo, de Elia Suleiman

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47) Meia-Noite em Paris, de Woody Allen

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46) O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

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45) Além do Arco-Íris, de Agnès Jaoui

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44) Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele

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43) Soul Kitchen, de Fatih Akin

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42) Minhas Tardes com Margueritte, de Jean Becker

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41) Contos da Era Dourada, de vários diretores

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40) Tangerina, de Sean Baker

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39) Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro C. Martins

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38) Mistress America, de Noah Baumbach

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37) Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

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36) Tudo Pode dar Certo, de Woody Allen

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35) Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

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34) Vocês, os Vivos, de Roy Andersson

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33) Nebraska, de Alexander Payne

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32) Rainha & País, de John Boorman

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31) Dois Caras Legais, de Shane Black

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30) Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein

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29) Marguerite, de Xavier Giannoli

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28) Na Mira do Chefe, de Martin McDonagh

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27) Café Society, de Woody Allen

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26) Queime Depois de Ler, de Ethan Coen e Joel Coen

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25) O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

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24) O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

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23) Ela, de Spike Jonze

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22) Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

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21) Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

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20) O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

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19) A Grande Aposta, de Adam McKay

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18) O Porto, de Aki Kaurismäki

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17) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

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16) Em Outro País, de Hong Sang-soo

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15) Frances Ha, de Noah Baumbach

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14) Blue Jasmine, de Woody Allen

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13) Amor & Amizade, de Whit Stillman

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12) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

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11) Ervas Daninhas, de Alain Resnais

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10) O Artista, de Michel Hazanavicius

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9) Força Maior, de Ruben Östlund

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8) Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, de Roy Andersson

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7) Toni Erdmann, de Maren Ade

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6) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

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5) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

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4) O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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3) Sieranevada, de Cristi Puiu

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2) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

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1) Habemus Papam, de Nanni Moretti

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Os dez maiores perdedores da história do Oscar

Ao todo, os dez filmes da lista abaixo somam 89 indicações ao prêmio mais famoso do cinema. Desse bolo não saiu sequer uma estatueta. Alguns tiveram mais indicações – e para prêmios mais importantes – do que outros. No geral, mostram que nem sempre filmes queridos vencem muito – além de serem vítimas das circunstâncias, envolvendo outros concorrentes de cada ano.

A lista abaixo leva em conta o número de indicações para um único filme. Quanto mais indicado, mais alto estará no ranking. Entre os filmes com o mesmo número de indicações, aqueles que foram lembrados em categorias menos importantes galgaram posições mais altas. Como se vê, há grandes obras que não ganharam nada.

10) Pacto de Sangue, de Billy Wilder

Indicado a sete Oscars em 1945: melhor filme, diretor, atriz, roteiro, fotografia, trilha sonora e som. Não ganhou nenhum.

Clássico filme noir dirigido por Wilder, que receberia o Oscar no ano seguinte por Farrapo Humano, sobre os males do alcoolismo. Apesar do bom momento de Fred MacMurray, quem rouba a cena é Barbara Stanwyck, grande dama fatal.

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9) Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont

Indicado a sete Oscars em 1995: melhor filme, ator, roteiro adaptado, fotografia, edição, trilha sonora e som. Não ganhou nenhum.

Um dos filmes mais adorados do cinema (primeiro lugar na lista dos melhores de todos os tempos do IMDB) é também um dos perdedores notórios dos prêmios da Academia. Sequer o diretor foi indicado. Era o ano de Forrest Gump, que levou muito.

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8) O Poderoso Chefão – Parte 3, de Francis Ford Coppola

Indicado a sete Oscars em 1991: melhor filme, diretor, ator coadjuvante, fotografia, direção de arte, edição e trilha sonora. Não ganhou nenhum.

Os dois primeiros filmes da saga ganharam como melhor filme. A segunda parte, de 1974, deu o Oscar para Coppola. O terceiro, feito mais tarde e com um chefão cansado (Al Pacino), não empolgou tanto. Dança com Lobos foi o grande vencedor dessa edição.

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7) O Homem Elefante, de David Lynch

Indicado a oito Oscars em 1981: melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado, direção de arte, figurino, edição e trilha sonora. Não ganhou nenhum.

Lembrado por suas incursões surrealistas, Lynch realiza um drama em preto e branco, no qual o ator central, John Hurt, passa o filme inteiro sob pesada maquiagem para viver John Merrick. Consegue momentos sublimes e ainda tem Anthony Hopkins no elenco.

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6) Vestígios do Dia, de James Ivory

Indicado a oito Oscars em 1994: melhor filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, direção de arte, figurino e trilha sonora. Não ganhou nenhum.

Belo drama de emoções contidas, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, passado em uma mansão. A delicadeza do cineasta é conhecida. No ano anterior, o diretor chegou também ao prêmio com o belo Retorno a Howards End.

vestígios do dia

5) Trapaça, de David O. Russell

Indicado a dez Oscars em 2014: melhor filme, diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, figurino, edição e direção de arte. Não ganhou nenhum.

Em um ano em que os prêmios foram divididos entre 12 Anos de Escravidão e Gravidade, o filme do badalado O. Russell ficou sem nada. Narra os trambiques e aventuras de quatro personagens, entre política, máfia e ações do FBI.

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4) Bravura Indômita, de Ethan e Joel Coen

Indicado a dez Oscars em 2011: melhor filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia, figurino, direção de arte, mixagem de som e edição de som. Não ganhou nenhum.

A Academia preferiu O Discurso do Rei ao bom faroeste dos Coen, que já havia sido filmado nos anos 60 com John Wayne no papel de Rooster Cogburn (e que lhe valeu o Oscar). Nem a bela fotografia de Roger Deakins recebeu a estatueta dourada.

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3) Gangues de Nova York, de Martin Scorsese

Indicado a dez Oscars em 2003: melhor filme, diretor, ator, roteiro original, fotografia, direção de arte, figurino, edição, trilha sonora e som. Não ganhou nenhum.

O pior filme de Scorsese dos últimos anos foi bem representado ao Oscar e terminou sem prêmios. O cineasta levou o Globo de Ouro, mas perdeu a estatueta dourada para Roman Polanski e seu O Pianista. O destaque fica para Daniel Day-Lewis.

gangues de nova york

2) Momento de Decisão, de Herbert Ross

Indicado a 11 Oscars em 1978: melhor filme, diretor, atriz (duas vezes), ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, fotografia, direção de arte, edição e som. Não ganhou nenhum.

A rivalidade entre antigas bailarinas dá corpo a esse drama de Ross, também à frente de outro filme de sucesso – e indicado ao Oscar – no mesmo ano: A Garota do Adeus. Ao centro, duas grandes atrizes da época, Anne Bancroft e Shirley MacLaine.

momento de decisão

1) A Cor Púrpura, de Steven Spielberg

Indicado a 11 Oscars em 1986: melhor filme, atriz, atriz coadjuvante (duas vezes), roteiro adaptado, fotografia, direção de arte, figurino, trilha sonora, canção e maquiagem. Não ganhou nenhum.

Ninguém entendeu, à época, a ausência de Spielberg na categoria de melhor diretor – mesmo tendo vencido, no mesmo ano, o prêmio do Sindicato dos Diretores. Filme tocante, com Whoopi Goldberg em seu melhor momento. No mesmo ano, o grande vencedor foi Entre Dois Amores. Outros filmes de peso se destacaram nessa edição, como A Testemunha, vencedor nas categorias de roteiro original e edição, e RAN, de Kurosawa, com o melhor figurino.

cor purpura

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Joy: O Nome do Sucesso, de David O. Russell

A batalhadora Joy sempre quebra algumas coisas pelo caminho, enquanto procura um jeito de se dar bem. A boa ideia vem justamente em um desses acidentes, quando limpava o barco da namorada do pai, depois de algumas taças de vinho quebradas.

A ideia parece-lhe revolucionária: a criação de um esfregão eficiente e que evita que mulheres como ela – donas de casa – debrucem-se para enxugar e dobrar o pano mais tarde. Em Joy: O Nome do Sucesso, essa é a saída para o cineasta David O. Russell apresentar uma fatia da loucura americana, com a busca pelo sucesso.

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Não à toa, é uma comédia de personagens desesperadas, entre negócios rentáveis, fracassos, holofotes e voltas por cima – com gente às vezes lançada ao absurdo mas sempre querida, como em Jerry Maguire: A Grande Virada ou Melvin e Howard.

Desde o início, O. Russell diz ao espectador, sem rodeios, que se pode confiar nessa moça talhada à vitória, como garante a avó, o espírito que conta a história.

Ela projetou para a neta o caminho desejado, não o de outros membros da família: como no minúsculo reino sem príncipe, da ainda pequena Joy em seu castelo de papel, vê-se a menina, depois a mulher, destinada ao sucesso, ao sonho americano.

Tal sonho não sai barato e acompanha tropeços. Ele vem acompanhado de alguns pontos verdadeiros, quando a menina precisa vender seus produtos, ser chata de tão insistente, à medida que faz mais dívidas e lida com gente pouco confiável.

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À ideia do esfregão se junta a busca por financiamento. A nova namorada do pai (Isabella Rossellini), uma italiana endinheirada, torna-se a isca perfeita. E a protagonista, sob o olhar flamejante da outra, terá de provar a boa oportunidade.

Como em outros filmes de O. Russell, cada diálogo torna-se único: suas personagens explodem com facilidade, gritam por corredores, agem à beira da loucura no que parece normalidade e, segundo o criador, não sem um recado: é esta a verdadeira América.

Para fora do castelo de Joy, em sua vida adulta, em um conto de fadas permeado por tropeços da vida real, a moça aos poucos galga posições. Esforça-se, cai, esforça-se mais um pouco – sem que precise se corromper. Precisa parecer forte, não desistir.

Sua persistência – contra o falatório negativo do pai (Robert De Niro), contra a imobilidade da mãe (Virginia Madsen) e de outros ao redor – encontra em Jennifer Lawrence a figura perfeita para reter amargura, fúria, desejo reprimido.

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Russell joga até mesmo com a trapaça (sem trocadilho com seu filme anterior): a personagem, contra todas as expectativas, nunca chega a se corromper. Ao explodir em fúria, atravessa uma pequena cerca de madeira ao lado da oficina do pai, toma a arma de um homem e começa a atirar. Em sua face transborda excitação.

Pois para Joy, síntese do americano médio em busca de sucesso, o alívio não vem sem alguma carga de ação. Faz pensar na Annette Bening de Beleza Americana, sorrindo a cada novo tiro disparado com sua arma, em seu momento de lazer.

Entre toques reais e outros falsos, tem-se um filme interessante, no qual as quedas não anulam o sonho. Prova disso vem perto do fim: depois de tantos problemas, Joy ainda encontra prazer na vitrine de brinquedos natalinos, em meio às pequenas coisas da vida.

Nota: ★★★☆☆

Concurso de dança (em cinco filmes)

Alguns concursos de dança são trampolins para o encontro das personagens, ou apenas para comprovarem a química e o amor na tela. Abaixo estão alguns filmes divertidos e marcantes, nos quais a disputa não é o mais importante. Melhor é a dança.

A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Difícil esquecer o momento em que as personagens de James Stewart e Donna Reed caem na água em plena sequência da dança. É quando começam a se unir, pouco antes de seguirem noite adentro, cantando, quando o cupido já havia atingido ambos.

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Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci

O casal precisa quebrar o protocolo: no meio da pista de dança, Brando solta-se, escandaliza, e a sequência dá vez à correria do casal pelas ruas de Paris. O filme de Bertolucci foi um marco na época, e ainda não houve nada igual.

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Os Embalos de Sábado à Noite, de John Badham

O rapaz ao centro – que idolatra Al Pacino – esquenta as noites de Nova York, em casas noturnas nas quais dança sozinho ou acompanhado, por diversão ou competição. John Travolta tem um belo momento, embalado pelas canções do Bee Gees.

embalos de sábado à noite

Pulp Fiction: Tempo de Violência, de Quentin Tarantino

Travolta de novo. Seu retorno ao grande cinema dá-se pela dança – também pelo crime. No filme de Tarantino, ele sacode o corpo ao som do twist, ao lado de Uma Thurman. Estão em uma lanchonete com velhos traços da América e sósias de Marilyn Monroe.

pulp fiction

O Lado Bom da Vida, de David O. Russell

O casal deslocado fica contente com as notas pouco atrativas durante a parte final do filme de O. Russell. Tudo termina em diversão, com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper esbanjando beleza. Longe de ser grande, tem seus momentos inspirados.

o lado bom da vida

Especial Oscar 2014: Belezas americanas

Trapaça, O Lobo de Wall Street e Clube de Compras Dallas

Os anti-heróis são mais sedutores. Hollywood demorou um pouco para descobrir isso. Nos anos 40, em meio à febre do filme noir, essas figuras dúbias surgiam das sombras, das noites em claro com mulheres perigosas, bebidas e amigos assassinados.

A modernidade fez do anti-herói quase uma figura comum. Ele está em todos os lugares, em todos os filmes: parece ruim em alguns momentos, bom em outros, quase sempre inconfiável. É o caso, por exemplo, de Irving Rosenfeld, o protagonista de Trapaça, vivido por Christian Bale.

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Tão difícil quanto gostar é desgostar dele. É um ser ora repugnante, ora sincero. O que fazer? Com Trapaça, tem-se mais comédia do que drama, o que torna a aceitação de Rosenfeld – como também a dos outros trapaceiros – mais fácil.

Encurralado pelo FBI, ele vê-se obrigado a colaborar: tem de ensinar aos homens da lei as artimanhas dos trapaceiros. Ao lado de sua saborosa companheira, Sydney Prosser (Amy Adams), ele deverá entregar quatro cabeças ao agente Richie DiMaso (Bradley Cooper). Depois disso, estará livre para seguir em frente.

O problema, no filme de David O. Russell, é que ser trapaceiro significa viver. Ser assim com naturalidade, como se nada houvesse no caminho contrário. Todos são falsos. Nesse meio, surgem novas figuras a cada segundo, novos trapaceiros: pequenos bandidos, políticos, membros da máfia italiana. As coisas saem dos trilhos.

Para viver, Rosenfeld trapaceia americanos que precisam de dinheiro, quebrados e desesperados. O mesmo faz outro anti-herói americano recente, o protagonista de O Lobo de Wall Street, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio).

o lobo de wall street

Ainda mais perigoso que Rosenfeld, Belfort tem uma característica marcante: ele não quer se aproximar do público, não quer ser amado e impõe suas próprias regras. Ou é com elas ou é nada. Vai para Wall Street ficar rico à maneira mais fácil possível, vendendo ações podres, fazendo promessas que não poderá cumprir.

Danem-se os outros. Sempre será assim no universo de Belfort, meio selvagem no qual o que importam são as cifras, os números – ao passo que a loucura desse anti-herói contagia a todos, com seu microfone, seus gritos, seus rituais.

É um Scorsese em grande forma e que faz pensar em suas obras passadas. Poucas vezes tanto sexo e tanta droga surgiram tão gratuitamente em seus filmes. É como se o combustível de Belfort não acabasse nunca, como se sempre houvesse uma nova viagem de drogas, um novo delírio, um novo confronto.

Vive tão intensamente que não se dá conta dos perigos. Ou simplesmente é indiferente a todos eles. É um pouco como outro anti-herói baseado em um homem verdadeiro, o Ron Woodroof de Matthew McConaughey, protagonista de Clube de Compras Dallas.

clube de compras dallas

Portador do vírus da aids, machista, caubói, homofóbico e outras coisas, essa personagem tem tudo para fazer explodir seu universo. Descobre ter a doença após ser internado no hospital, ao levar um choque elétrico acidentalmente.

O médico sentencia: Woodroof tem apenas um mês de vida. Ele estuda o caso, não se conforma. Malandro como é, ou apenas um sobrevivente nessa selva que é a América (como em Trapaça e O Lobo), ele terá de encontrar outro caminho para ficar entre todos e sobreviver. De quebra, tirará proveito disso.

Mesmo fragilizado e mais consciente, Woodroof segue como anti-herói, pouco a pouco menos repugnante, nem por isso menos verdadeiro e duro. Woodroof é um daqueles seres que não trapaceia o espectador: é cru como Belfort, malicioso como Rosenfeld. Na pele de McConaughey (vinte quilos mais magro) é a síntese de uma América desesperada, em busca de uma saída, doente e oportunista.

Há sempre uma chance para mudar, uma forma de redenção. Woodroof muda. Do anti-herói, ele move-se lentamente ao ser heroico e conquista o público. É alguém no limite, nem fraco nem forte, alguém que se deixa mudar. Mutante.