Clint Eastwood

O Estranho que Nós Amamos, de Sofia Coppola

Isoladas em uma grande casa branca, de pilares enormes, entre árvores e neblina, as meninas postam-se como miragens. Seres inexistentes, intocados, fantasmagóricos. Só começam a sair desse casulo quando recebem o sexo oposto: por ali, pela mata, uma delas ajuda um soldado durante a Guerra Civil Americana.

Elas, sulistas, veem-se confrontadas pelo soldado do norte em O Estranho que Nós Amamos. Guerra de sexos, em uma disputa que se dá, sobretudo, à base do silêncio, dos olhares, do toque frágil – à medida que todos esses seres, sob a visão de Sofia Coppola, passam-se a despregar da fantasmagoria e, trôpegos, ganham vida.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A diretora, em seus filmes passados, colocava a vida das personagens em plano realista: cada movimento tornava-se algo impensável, natural, o suficiente para cair, ora ou outra, no enfado de um suposto “cinema de arte” – esse carimbo horroroso à qual alguns autores são legados. Em O Estranho que Nós Amamos, Sofia prefere a moldura branca cortada pela luz forte vinda das janelas, às sombras do interior um tanto mofado.

A impressão é que as meninas estão mais mortas do que vivas em algumas passagens, e que o tempo custa a passar. O tempo é sentido a cada instante, ainda mais quando Sofia coloca o homem para fora da casa, com maior movimento após dias de cama, para ser observado – e talvez observar a amada através da cortina branca.

O homem acredita em sua superioridade, ou mesmo na vantagem de se ver isolado entre mulheres isoladas. Fonte de desejos, essa consciência pode torná-lo forte como fraco, grande como pequeno, do amante possível ao louco castrado – enquanto as mulheres tentam se manter ainda sob o véu branco, sob o estado inatingível dessa pintura.

Eis o problema: as personagens femininas de Sofia não podem ser tocadas. Têm dificuldades para revelar a sexualidade, e parecem mais presas que as meninas da versão anterior – e mais quente – de O Estranho que Nós Amamos, a de Don Siegel. Nela, Geraldine Page faz uma inesquecível megera, Elizabeth Hartman uma bobinha impotente e apaixonada, Jo Ann Harris uma predadora juvenil, mentirosa, em busca de experiências carnais.

Sofia elimina as diferentes posições. Suas mulheres estão mais próximas. São mais frias. E seu McBurney, aqui interpretado por Colin Farrell, não chega à malícia de Clint Eastwood. A cineasta fez outro filme, é verdade, e por isso talvez não caibam comparações. Sua adaptação do livro de Thomas Cullinan faz sentir ainda mais o isolamento.

Como citaram alguns críticos, o ponto de vista vai ao lado feminino, delas para o acolhido. McBurney, por sua vez, não perde a voz, tampouco as mulheres ganham supremacia. Percebe-se, por exemplo, a necessidade de não deixar nenhuma delas parecer vilã, o que tornam as escolhas da líder, interpretada por Nicole Kidman, questionáveis.

Frente à frieza, ao sentimento difícil e ao desejo distante, é quase impossível não pensar na versão de Siegel: a crueldade que emitem esses seres isolados, figuras que não se escondem entre o branco, entre a ideia de que a fumaça, ou a neblina, pode conduzir o filme a um clima de terror (a ideia de Sofia). Na rabeira, o medo eclipsa desejos e prazeres.

Cinema que deixa ver pouca ousadia, no qual esta renuncia à suposta beleza. De qualquer forma, Sofia fez o filme que condiz com seu olhar. E não se trata apenas da questão feminina. O filme sofre para traduzir alguma paixão, no espaço em que as damas de branco, religiosas, podem ser, com esforço, assustadoras.

(The Beguiled, Sofia Coppola, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Bastidores: Encontros e Desencontros
O Estranho que Nós Amamos, de Don Siegel

Anúncios

O Estranho que Nós Amamos, de Don Siegel

A guerra que corre fora da casa é menos importante. No interior, entre mulheres aparentemente adoráveis, trava-se outro combate. De um lado o homem frágil, com dificuldades para andar; do outro as mesmas mulheres, a maior parte formada por meninas, damas sulistas educadas a servir os outros, a dar aulas, ser boas esposas.

O homem em questão, em O Estranho que Nós Amamos, é um soldado do norte encontrado quase morto nas beiradas da casa, entre bosques, moribundo. As mulheres, após o aviso de uma menina que vive no local, a primeira a ser beijada por ele, resolvem acolhê-lo. Do lado inimigo, de fala ponderada e aparência correta, ele parte para o ataque.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

No filme de Don Siegel, o homem entre as damas é Clint Eastwood, o estranho John McBurney, ou apenas McB. Até certa altura, o espectador compreende as mulheres, e tem seus motivos para detestar esse homem: ao que parece, é o mais belo a surgir por ali em anos, também manipulador, cuja guerra interna levará à frente com sedução.

Não demora para que as mulheres da casa – talvez todas, talvez nem tanto – estejam apaixonadas por ele. Com seus motivos para isso, é bom salientar: a mais velha, chefe do casarão branco (Geraldine Page), deseja encontrar um substituto para seu antigo amante, vendido a todos como irmão desaparecido, estampado em um velho quadro.

Outra, com pouco mais de 20 anos, é a ingênua Edwina (Elizabeth Hartman), cuja face contorce-se facilmente na expressão de sua fraqueza, de sua inabilidade com o sexo oposto. Falha muito, a todo momento. Entrega-se, para a alegria do estranho, para deixar ver o amor que nutre. É a representação da menina em busca do grande amor.

Há outra que merece destaque, a jovem atrás de sexo, a mais bela entre elas, Carol (Jo Ann Harris), decidida a levar McB para conhecer seu quarto. Todas sucumbem aos poucos, na primeira parte do filme. É quando o visitante – o estranho que todas aprendem a amar e a odiar, mais tarde – toma a dianteira da batalha sem precisar dar ordens.

Ao contrário, parece recebê-las. Faz-se frágil. Usa muletas para simular impotência, e faz dos beijos em cada uma, com frequência, os beijos do amante idealizado, o homem que talvez não exista senão na mente dessas mesmas meninas presas ao casarão, trancafiadas pela guerra, a desconfiar até dos sulistas que deveriam protegê-las.

O grande filme de Siegel abre com imagens reais da Guerra Civil, fotografias em tom sépia dos confrontos, dos corpos estirados no chão ou em valas. Fecha-se com o mesmo tom impregnando a tela, o fim de outro combate. É quando se revela a verdadeira maldade que impera na casa que acolheu McB para entregá-lo às tropas do sul, depois para amá-lo, mais tarde para fazê-lo refém do sexo oposto.

Deveria estar com elas, nunca sem elas. Deveria servi-las – a líder do grupo, a professora inocente ou a aluna com o desejo estampado nos olhos – em diferentes papéis. Poderia ser o amante correto, a recolher a colheita, ou se ocupar da imagem do bom marido, ou do amante de ocasião, a satisfazer a adolescente no meio da noite.

O estranho de passagem perde a batalha quando as mulheres descobrem que ele deseja ser tudo: é a forma que encontrou, entre uma escapada e outra, entre mentiras, para vencer a guerra (a outra guerra). Não esperava a investida violenta das moças. Na verdade, McB enfrenta um sistema que inclui outra parte de sua nação e, sobretudo, outro sexo, talvez ainda desconhecido para ele.

E esse falso herói, falso amante, não cansa de mentir para ser desmentido pelo próprio cinema. As imagens de Siegel, em montagem alternada, revelam seu verdadeiro papel na Guerra Civil, longe do bom homem que deseja vender às confinadas. O Estranho que Nós Amamos chega à grandeza quando não se vê bondade de qualquer lado.

O filme tem um aspecto sujo, violento, visivelmente feito pelo ponto de vista masculino. Reproduz, a partir do livro de Thomas Cullinan, a castração. Do protagonista as mulheres retiram uma perna. É o que basta para compreender a verdadeira intenção das damas em cena.

(The Beguiled, Don Siegel, 1971)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Moby Dick, de John Huston

Bastidores: Meu Nome é Coogan

Quando Meu nome é Coogan estava em pré-produção, Don Siegel ficou sabendo que eu tinha pedido para ver alguns de seus filmes. O único que me era vagamente familiar era Vampiros de Almas. Projetaram para mim Os Impiedosos e A Caçada, suas duas produções precedentes para a Universal. Don, quando ficou sabendo, quis fazer a mesma coisa e pediu para ver os filmes que eu tinha feito com Sergio [Leone]. Ele gostou dos filmes, e foi assim que se estabeleceu nossa associação. Era um personagem, um original, e pensei que tínhamos sido feitos para nos entendermos.

(…)

Don odiava o antigo sistema dos estúdios. Fui eu, você sabe, que conseguiu fazê-lo escapar disso. Eu tinha galgado os degraus no momento em que um novo sistema se instalava e meu poder não estava ligado a um estúdio específico. Na Warner, era a época de Jonh Calley e Frank Wells; eles não tinham a pretensão de ensinar a gente a fazer um filme, eles deixavam a gente em paz. Don estava acostumado à indiferença constante dos responsáveis pela produção. Na época em que eu estava sob contrato na Universal, me infiltrava no fundo da sala, onde os executivos dos estúdios projetavam os copiões, para escutar seus comentários. Eram, no geral, pelo menos uns vinte, e o infeliz do realizador ficava sentado no meio deles, escutando forçado suas asneiras. Conhecemos esta situação com Meu Nome é Coogan, mas depois conseguimos escapar disso. Na Warner era totalmente diferente. Quando chamei Don para Perseguidor Implacável, eles me disseram simplesmente: “É com você”. De repente, Don se viu com mais tempo do que ele jamais teve na vida. Sete ou oito semanas lhe pareciam uma eternidade. Don podia ser tudo, menos extravagante. Ele resmungava o tempo todo: mas que eficiência! Ele sabia o que queria e sabia se decidir. Ele controlava o orçamento e seu plano de trabalho.

Clint Eastwood, diretor e ator, sobre o também diretor Don Siegel, com quem fez seis filmes, em entrevista a Michael Henry Wilson (publicada em Eastwood por Eastwood e realizada em março de 1994; reproduzida no catálogo da mostra Clint Eastwood – Clássico e Implacável, do Centro Cultural Banco do Brasil; pgs. 128, 129 e 130; tradução de Telma H. M. Monassa). Eastwood considera Siegel um de seus mestres.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Com Sully: O Herói do Rio Hudson, Clint Eastwood volta ao homem experiente. Ou, antes, apenas ao homem. É o fator humano que salvou 155 pessoas da morte – Sully incluído – no pouso de um avião, em janeiro de 2009, sobre as águas do rio Hudson.

O diretor havia contado outras histórias sobre homens experientes, pessoas que representam uma história apenas à força do olhar, algo quase inexplicável. O pistoleiro que deixa sua quarentena em Os Imperdoáveis, o treinador que se vê “obrigado” a preparar uma mulher para os ringues em Menina de Ouro, o velho conservador que ajuda uma família oriental em Gran Torino (todos vividos pelo próprio Eastwood).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

sully3

O herói da vez não quer ser herói – como outros homens do cinema de Eastwood. Não quer dizer que não seja. Apenas não deixa evidente, ou fácil. Talvez por isso Sully não seja a experiência de emoção esperada, o que não o impede de ser exemplar.

Chama a atenção o controle do diretor veterano, a “pequena” grande história que, nas mãos de outro, poderia ser apenas uma “grande” história. O que o imaginário reproduz salta das telas da televisão, de comentaristas e jornalistas tentando explicar o tal “milagre do Hudson”. E nem isso se evita: talvez seja mesmo um milagre, quem sabe?

Algumas poucas passagens da vida de Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks) vêm à tona: a juventude em seu voo sobre campos verdes, para a pulverização, ou mesmo seu pouso bem sucedido com um avião de guerra. A história de vida volta em pequenos pedaços nesses dias de interrogatório: antes de se deixar levar pelas perguntas dos outros, Sully questiona a si mesmo – em sonhos ou devaneios.

O passado talvez dê conta de dizer – ainda que em pequenos recortes – quem ele é, ou por que chegou àquele ponto em que não se reconhece: não pode dizer a si mesmo que é um herói, muito menos assumir o peso do fracasso. Tem em sua conta 155 vidas.

E como explicá-lo em tempo tão parco? A habilidade de Eastwood comprova-se nas escolhas, da vibração da cabine do piloto à tensão em ter de se explicar às câmeras, sob o risco de revelar a fragilidade que ninguém espera desse novo herói americano.

sully2

Pois Sully será confrontado por computadores. Cálculos indicam que talvez ele pudesse ter pousado em algum aeroporto próximo. Ele diz o contrário: sua experiência em voos credenciou-o a tomar outra decisão, e a de pousar no Hudson, ele diz, foi a mais acertada àquele momento, após o choque de aves com as turbinas do avião.

Os especialistas do governo têm suas dúvidas, abrem investigação. De um lado os algoritmos, de outro o piloto experiente. A história de Sully leva a esse confronto incontornável, a saber, entre o que pode ser calculado e o que depende essencialmente do homem experiente que precisa pensar rápido e evitar a tragédia.

O espectador reconhece sua grandeza em seu recuo, também, mas em seu modo de agir com destreza, em seu susto, por exemplo, quando uma mulher resolve abraçá-lo – simplesmente porque é Sully. Tom Hanks prova ser a escolha ideal para essa história de dias, horas, de minutos no interior daquela cabine, em uma escolha arriscada.

Chama a atenção como Eastwood recorre aos pequenos efeitos em meio àquilo que poderia ser carregado de drama e parecer o mesmo. O acidente dispensa o espetáculo. Sully e seu parceiro, vivido por Aaron Eckhart, são pessoas comuns.

(Sully, Clint Eastwood, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cinco cineastas que surpreenderam em 2015

Religiosos e intolerantes

O filho fica assustado quando seu pai, Keller, faz da morte de um cervo, em Os Suspeitos, a oportunidade para celebrar a grandeza do homem branco. O que está em jogo para esse pai, personagem de Hugh Jackman, é a importância de defender seu território, sua família, seus valores, mesmo que isso signifique aderir à violência.

No filme de Denis Villeneuve, Keller e o amigo Franklin (Terrence Howard) têm suas filhas sequestradas em pleno Dia de Ação de Graças. A polícia chega a um suspeito (Paul Dano), o dono do veículo que estava circulando pela pacata vizinhança.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

os-suspeitos

Ao passo que os dias correm, o protagonista perde as esperanças, cansa de esperar por uma ação das autoridades. Sai ele próprio atrás do principal suspeito. Aposta na violência, em um filme que funde a imagem do cervo abatido à oração religiosa.

Em A Caça, de Thomas Vinterberg, o ponto de vista é o da vítima, não o da sociedade intolerante, mas as peças em jogo não diferem muito: o professor Lucas (Mads Mikkelsen) é acusado pelos moradores de sua cidade – incluindo seu círculo de amizades – de ter abusado de uma criança. Sua vida torna-se um inferno.

O fim desemboca na religião: Lucas vê-se no interior de uma igreja, cercado ironicamente por pessoas intolerantes. Nem sempre visual e palavras acompanham ações. O protagonista de A Caça também foi criado segundo a cultura do tiro, de homens que ocupam a floresta para caçar animais. E faz pensar nos camaradas de O Franco Atirador, de Michael Cimino, metalúrgicos de uma pequena cidade americana que lutam no Vietnã. De volta para casa, eles não conseguem mais se socializar.

Os Suspeitos e A Caça abordam a intolerância. Neles, o espírito do caçador contra os “monstros da floresta” ganha relevo. Os vilões permanecem distantes, nem sempre identificados – como se vê no momento em que alguém atira na direção de Lucas.

sobre meninos e lobos

O clima frio e a ausência de vilões estão também em Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood, a partir do livro de Dennis Lehane. De novo em tom obscuro, com personagens borradas, sobre um garoto sequestrado na infância e, na vida adulta, transformado no principal suspeito do assassinato da filha de seu amigo.

Interessa menos aos autores dessas obras a abordagem do sequestro ou as acusações de pedofilia e assassinato. Examinam, antes, a fragilidade do grupo e o aparente reconforto da vingança, o “olho por olho, dente por dente” de uma cultura moldada à violência e à oração, ao conforto de uma “justiça” imediata e do possível perdão.

Por isso, o Keller de Hugh Jackman aproxima-se do protagonista de Sobre Meninos e Lobos, Jimmy Markum (Sean Penn). Até certo ponto, é difícil condená-los. O drama torna-os mais palatáveis: são monstros “humanos”, pais de família que não suportam essa sociedade às sombras. São autoritários, caçadores em meio à floresta.

Foto 1: Os Suspeitos
Foto 2: Sobre Meninos e Lobos

Veja também:
A Caça, de Thomas Vinterberg