cinema grego

A Eternidade e Um Dia, de Theodoros Angelopoulos

O escritor está preso no tempo. No dia ou na eternidade. “Quando tempo demora para chegar amanhã?”, ele pergunta à amada, em sua casa de praia. “A eternidade e um dia”, ela responde, enquanto ele retorna o corpo e o olhar ao oceano, no encerramento desse grande filme do grego Theodoros Angelopoulos.

O escritor em questão é Alexandre (Bruno Ganz), naquele que pode ser o último dia de sua vida e, ao mesmo tempo, o passo para a eternidade. O título é assim dúbio e perfeito, dando com exatidão o dilema do homem grego sem rumo, preso às lembranças (ou a esbarrar nelas) e na companhia de uma criança albanesa.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Começa com uma lembrança, com o diálogo de Alexandre, ainda criança, com um amigo. Estão em uma grande casa de praia. Angelopoulos aproxima-se lentamente da janela enquanto a conversa desenrola-se, à medida que um dos meninos fala do trajeto pelo mar até chegar a uma ilha, a uma rocha. É quando a conversa envereda por outro caminho e termina na questão essencial a esse cinema: “O que é o tempo?”. Uma das vozes responde: “vovô diz que o tempo é uma criança que brinca de dados na margem”.

O que quer que isso signifique, carrega ao mesmo tempo certa inocência, leveza, a ideia de que o tempo é incontrolável e passageiro. O tempo de Alexandre, em seus últimos suspiros, inclui a corrida para ajudar um menino longe de casa, marginalizado e quase vendido como mercadoria por traficantes de pessoas.

E outro tempo, nem maior nem menor, mas diferente, que inclui seus mergulhos na memória. E o cineasta grego permite que tais mergulhos sejam feitos em um único plano, como no momento em que Alexandre visita a filha com as cartas de sua mulher morta e encontra seu passado, a própria mulher na sacada do apartamento.

O velho homem de barba saliente, sempre com as mesmas roupas escuras, reclama de uma vida de projetos incompletos. Sentimento que toma esse intelectual solitário, com seu cão à beira-mar, depois com um garoto que lhe conta experiências concretas de quem viu a morte de perto, que teve de atravessar montanhas para chegar à Grécia.

O contraponto entre o homem e o menino é interessante: enquanto um viveu tanto e se dedicou à experiência intelectual, o outro, mesmo vivendo ainda tão pouco, relata-lhe situações horrendas de alguém que teve de lutar – mesmo sem saber ao certo de toda a gravidade em torno – para chegar a um novo país e trabalhar na rua.

A Eternidade e Um Dia, como os filmes anteriores de Angelopoulos, mescla as fronteiras físicas às rememoradas, em uma experiência de continuidade na qual a câmera leva o público a uma navegação. O espaço e o tempo são fundamentais ao diretor: ao mesmo tempo em que o primeiro não mente e é exposto, o segundo deixa dúvidas, pois tempos diferentes podem conviver em um mesmo cenário.

Nesse dia que divide com o menino, tão perto da morte, Alexandre lamenta-se do tempo que não viveu, do tempo perdido. Dá a entender que esteve ausente por opção própria e, como na história de um poeta que segue da Itália à Grécia para embarcar em uma revolução, ele não encontra em seu país, ao retornar, uma língua de verdade.

É a situação do exilado, do viajante, do homem que cruza fronteiras. E a cada retorno ao passado vê a bela mulher, Anna (Isabelle Renauld), na casa à beira-mar, com festas e convidados, com o caminho de madeira ao oceano e, talvez, a alguma nova viagem.

Nas conversas com a própria mãe, em uma de suas idas ao passado, Alexandre diz que não aprendeu a amar. Em seu último dia e às portas da eternidade, ele precisa desses reencontros, dessas portas. Se não corrigem o que passou, ao menos permitem vislumbrar os dias de um paraíso perdido, na companhia de uma bela mulher.

(Mia aioniotita kai mia mera, Theodoros Angelopoulos, 1998)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos
O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

À pergunta do protagonista – “Por que alguém foge?” – impõe-se outra, talvez mais próxima do mistério de O Passo Suspenso da Cegonha: “Por que alguém se esconde?”. Ao encontrar um possível desaparecido, um político grego influente, o jornalista ao centro da história deverá fazer essa pergunta.

Esse rapaz, em uma cidade grega de fronteira, finca os pés na lama, na neve, em espaço frio. O filme todo não deixa ver o sol. Durante uma reportagem sobre os refugiados, gente de todas as partes e etnias, ele acredita ter captado a imagem do tal político desaparecido, interpretado aqui por Marcello Mastroianni.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Com Blow-Up, de Antonioni, há apenas essa semelhança: o homem que acredita ter decifrado um mistério a partir de uma imagem, ao acaso. O resto é o oposto: enquanto em Antonioni a imagem constrói dúvidas, e enquanto quase se desenha uma história de suspense, na obra de Theodoros Angelopoulos a imagem leva à verdade.

Não por acaso, ora ou outra o diretor grego retorna a câmera não à ação, mas à pequena tela instalada no interior do furgão da equipe de reportagem. Entrega ao espectador a reprodução da matéria que fazem ali, voltando à pequena tela para tentar revelar a imagem verdadeira, ou a cópia fiel, no ato, do que ocorre.

Um desses momentos mostra justamente o encontro do homem que seria o político desaparecido (agora na pequena cidade da fronteira, vivendo como refugiado) e sua mulher, interpretada pela musa Jeanne Moreau (coincidência ou não, o casal de atores esteve junto, antes, em um filme de Antonioni, o extraordinário A Noite).

À medida que a imagem liberta-se do mistério, o mesmo jornalista (Gregory Patrick Karr) percebe que está preso à realidade da cidade, ao confronto da fronteira, àquelas pessoas desesperadas para pertencer a qualquer lugar. Seus tropeços não serão em vão. E sua condição carrega ironia: ao investigar o desaparecimento de um homem de seu país, encontra o “desaparecimento” de pessoas de outras nações.

Entre vagões de trem, ou mesmo do outro lado do rio, ele depara-se com pessoas que tiveram de viver entre escombros, não necessariamente em fuga. Nessa cruzada, muitas encontraram a morte, como é o caso do incidente real mostrado na abertura, no porto de Piraeus: os asiáticos que se jogaram no oceano após não serem aceitos na Grécia.

Desde o início, Angelopoulos volta a câmera à tragédia dos refugiados. A pequena cidade fronteiriça é o ponto de encontro de etnias, no qual o jornalista vê muitos mundos em um só. A certa altura, na companhia da equipe, assiste ao casamento entre uma jovem e um rapaz, ambos de lados diferentes da fronteira, lados opostos de um rio. O casamento, com seus convidados, é celebrado a distância.

Embalado pelo silêncio, em um filme sobre a difícil comunicação entre pessoas e sobre fronteiras como linhas fictícias, o espectador segue uma personagem pouco a pouco esmagada. Sua corrida termina com nova dúvida: o homem confundido com o político, talvez cansado da mesma cidade, volta a desaparecer.

Em momento de rara beleza, o protagonista vê-se sozinho e ao lado de uma mulher, em um restaurante, enquanto outras pessoas dançam ao redor. O casal encara-se. Em seguida, ela segue-o até o quarto do hotel. É a mesma moça que, pouco depois, casará com o rapaz do outro lado da fronteira, às margens do rio escuro.

O jornalista, ao fim, finca um dos pés na última linha que pertence à Grécia, sobre uma ponte, antes de chegar ao outro país, provavelmente a Albânia. Soldados são vistos do outro lado. Estão prontos para atirar caso alguém avance. Apenas um passo separa um local de outro, a vida da morte. Sobre a linha, o homem mantém-se em frágil equilíbrio.

(To meteoro vima tou pelargou, Theodoros Angelopoulos, 1991)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

Enquanto se vê as pessoas pela rua, do lado de fora do cinema, é possível ouvir uma frase do filme anterior de Theodoros Angelopoulos, O Passo Suspenso da Cegonha: “Quantas fronteiras devemos cruzar para chegarmos em casa?”. A frase indica que a jornada de Angelopoulos pelas fronteiras não chegou ao fim. Seu protagonista em Um Olhar a Cada Dia, vivido por Harvey Keitel, é o próprio cineasta grego.

O filme, como confessou Angelopoulos, é autobiográfico. A jornada em questão é a de um diretor de cinema em busca de um tesouro perdido: três rolos de filmes dos irmãos Manaki, cineastas pioneiros da região dos Balcãs. A personagem de Keitel, chamada apenas de A, sai em busca desses rolos enquanto cruza diferentes fronteiras.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Sua jornada é de descobrimento, “toda a aventura humana, a história que nunca termina”. Chega ao fim para ver os filmes perdidos, depois de atravessar uma região em conflito, na qual o real e o verdadeiro sempre se confundem, à qual o cineasta é lançado como alguém que não consegue estar à parte, tragado à guerra que se insinua.

Chega ao fim como um Ulisses moderno, a olhar a si mesmo depois de olhar para a tela branca do cinema aos pedaços: proclama seu retorno em roupas diferentes, transformado, para mais tarde contar suas histórias a alguém que o ame e, noite após noite, esteja disposto a ouvi-las. A aventura de um homem em busca do olhar perdido.

Passa pela Grécia, pela Albânia, pela Romênia, depois pela Bósnia. Passa pelas regiões em guerra, por cinematecas, museus, ambientes nos quais as pessoas vivem entre escombros, sob o constante clima nublado, sob o desespero que desagua em beijos e aproximação. Busca consolo em mais de uma mulher ao longo de seu trajeto – e elas, talvez pela falta de algo a agarrar, entregam-se a ele em igual desespero.

O protagonista encontra seu passado, o espírito da mãe ou apenas sua memória. Vê-se adulto na época em que era criança. Da estação de trem de Bucareste segue para a casa da família, à festa organizada pelos avós; embrenha-se no passado com certa naturalidade, pouco deslocado, como uma personagem dos filmes de Ingmar Bergman.

Mas Angelopoulos é comparado com mais frequência a Andrei Tarkovski, devido aos planos-sequência e ao uso do tempo. Sua ação desenrola-se com calma, livre do jogo dos cortes, do plano/contraplano, da montagem alternada. O diretor grego permite até mesmo soar artificial quando se aproxima da poesia e, por ela, aceita matar o real.

A trajetória de seu cineasta, por isso, é interior. Os sinais do mundo verdadeiro – cruzando territórios, em uma região em guerra, desintegrada, antes chamada de Iugoslávia – expõem-se como contraponto à memória e suas reconstruções, também à descoberta do olhar perdido (os filmes não revelados dos irmãos Manaki).

Ao fim, o curador da cinemateca de Saravejo (Erland Josephson) convida o protagonista a andar pela cidade entre a neblina. É quando as pessoas saem de suas casas sem medo da guerra e se sentem mais protegidas. É quando aderem aos rituais de felicidade e tristeza: a orquestra, o teatro, a dança, também um cortejo fúnebre.

Em um mundo em conflito, a bela paisagem não sobrevive fora da neblina espessa – o que remete a outro grande filme de Angelopoulos, Paisagem na Neblina. Enquanto caminha pelo espaço que não se vê por completo, o cineasta descobre que a imunidade, mesmo momentânea, é ilusória: nesse velho mundo comunista – no qual a grande estátua de Lênin sobrevive como artigo de colecionador –, o conflito armado continua a fazer vítimas. Os atiradores não têm rostos nem nacionalidade definida.

E desse velho mundo dividido, enquanto observa a luz na tela branca, às lágrimas, o cineasta promete retornar para casa levando suas histórias. Continuará preso às memórias, àquilo que o torna humano, a uma “história que nunca termina”.

(To vlemma tou Odyssea, Theodoros Angelopoulos, 1995)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O Filho de Joseph, de Eugène Green

Alpes, de Yorgos Lanthimos

Uma ginasta recorre ao seu treinador no início e no fim de Alpes. Ela deseja mudar a música de sua apresentação: quer passar do clássico ao pop. Primeiro é humilhada; depois, ao fim, corre para lhe dar um abraço. E emenda: “Você é o melhor treinador do mundo”. Em um filme sobre interpretação, difícil saber se tal gesto é verdadeiro.

Como outras três pessoas no filme de Yorgos Lanthimos, incluindo o mesmo treinador, ela faz parte de um grupo que assume o lugar de pessoas mortas. Isso ocorre com o próprio consentimento de familiares. A interpretação é gratuita, sem se comprometer com detalhes, sem se importar com a falsidade e com quem está à volta.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

alpes

E, não por acaso, parecem débeis ou desajustados, corpos em trânsito por uma obra fria, na qual é difícil penetrar. Lanthimos explora uma sociedade de falsos gestos, feita à mecanização, cuja naturalidade deu vez à crença na possibilidade de substituição: tudo pode ser resolvido quando alguém está disposto a interpretar.

Mas tudo pode ser substituído? O filme não chega a abordar detalhes da sociedade ao redor. Prefere quatro personagens – sobretudo a enfermeira, vivida por Angeliki Papoulia – e suas relações com outras pessoas silenciosas e de passagem.

A ginasta, seu treinador, a enfermeira e um socorrista de ambulância fazem parte desse pequeno grupo chamado justamente de Alpes. Lanthimos parece dizer que toda interpretação que pretende se fundir à vida real beira o absurdo e termina ainda mais falsa. Ou que toda a interpretação que beira a crença pode gerar efeitos até desastrosos.

No filme em questão, os feridos, após suas perdas, preferem mentir para si mesmos e acreditar, como consolo, na presença de um ator – ainda que de categoria duvidosa.  Não sabem, por sua vez, que esses atores estão em busca dos mortos e até desejam a morte dos outros. E não sabem que eles podem entrar tanto em suas caracterizações a ponto de não sair mais, de se tornarem dependentes desse teatro real.

Perdem suas vidas para viver o duplo. No caso da enfermeira, tentará ser outra até mesmo no interior de sua casa (talvez a verdadeira), ainda que o pai não aceite, ao fim, seu gesto de aproximação e intimidade – que dirige as personagens ao incesto.

Filme insuportável, em momentos, sobre a penetração do absurdo e, a certo ponto, sua naturalidade. É a forma de se viver em uma sociedade de silêncios e gestos brutos: assimilar outra vida, deglutir pessoas e suas famílias, até mesmo apelar ao ridículo.

(Alpeis, Yorgos Lanthimos, 2011)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Cinco filmes recentes com violência extrema

13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

O caminho de diferentes personagens não se limita ao simples deslocamento. Como se vê nos filmes da lista abaixo, são viagens de significados profundos. De descobrimento. A estrada pode assumir sua forma conhecida, de terra ou asfalto, ou mesmo a inimaginável, quando o homem sai em busca de outros planetas e dimensões. A lista traz obras de diferentes diretores, de Ingmar Bergman a Andrey Zvyagintsev.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

Um velho professor viaja para receber uma homenagem. É o que lhe resta para coroar a vida, enquanto, na mesma viagem, assiste ao passado, às lembranças, tomado de assalto. A aparente vida pacata toma outro rumo. Ao mesmo tempo, tem de conviver com jovens que cruzam seu caminho na bela obra de Bergman, autor de mais filmes sobre viagens existenciais, como Monika e o Desejo e O Sétimo Selo. O protagonista é interpretado pelo cineasta Victor Sjöström.

morangos silvestres

Édipo Rei, de Pier Paolo Pasolini

Nem sempre fica entre os mais lembrados do controvertido italiano. É parte daquela galeria mítica do cineasta, à qual se lança para explorar diferentes autores. Com Édipo, tem-se o homem luta contra o próprio destino. Ao longo de sua jornada, matará o pai e se casará com a mãe. Pasolini também investiu tempo e esforços em outras histórias sobre viagens existenciais, como em Gaviões e Passarinhos, e sua própria jornada tornar-se-ia, depois, outra jornada existencial pelas mãos de Abel Ferrara.

édipo rei

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Na aurora do homem, o macaco lança o osso ao alto e, milênios à frente, este dá vez à nave espacial. O salto de séculos, diz Kubrick, é a maior jornada possível: é a consagração máxima da elipse no cinema, o poder do corte, a amostra de que a máxima tecnologia é fruto da violência. Depois, no futuro, o homem toma outra jornada. Lutará contra sua própria máquina – sem aparência nítida, com voz humana – enquanto assiste ao nascimento de outro mundo. Possivelmente o melhor filme do diretor.

2001 uma odisseia no espaço

Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

À medida que tenta se incluir, a personagem de Jack Nicholson termina sempre em explosão. E a certa altura fica clara sua renúncia: simplesmente deixa tudo, o mundo para trás, e embarca para lugar algum. Robert Eroica Dupea não quer mais jogar o jogo. Quer encontrar uma saída, um caminho, talvez um amor no meio de toda sua baderna interna e externa. Nicholson chega ao âmago de uma geração com sua personagem niilista.

cada um vive como quer

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

O ponto de partida dessa viagem é o conflito entre a civilização e o mundo selvagem. Após o suicídio do pai, dois irmãos ficam perdidos no deserto australiano e, com a ajuda de um jovem aborígene, tentam encontrar o caminho para casa. O mesmo caminho levará a diferentes descobertas. O diretor Nicolas Roeg vinha de outra “viagem” ousada em Performance, e ainda faria outra, logo depois, com o magistral Um Inverno de Sangue em Veneza.

a longa caminhada

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista, ao ter de capturar a vida alheia, talvez nunca esteja totalmente inserido em um meio. A personagem central do filme de Antonioni é interpretada por Nicholson, em outro momento sublime, como o jornalista que muda de vida ao trocar de identidade com um homem morto. A mudança ocorre em um hotel distante, na África, continente ao qual é enviado para sua nova reportagem. O protagonista, Locke, passa a se chamar Robertson e busca assim outro caminho para sua existência.

profissão repórter

Stalker, de Andrei Tarkovski

Outro cineasta que se dedicou a diferentes “viagens existenciais”, com suas personagens percorrendo caminhos físicos e íntimos ao mesmo tempo. Vale lembrar outros de seus filmes – ou de quase todos – que cabem no tema: A Infância de Ivan, Andrei Rublev, Solaris, O Espelho e Nostalgia. Mas Stalker talvez simbolize melhor a busca pelo desconhecido, em um clima selvagem e ao mesmo tempo futurista, quando alguns homens – os stalkers – tentam alcançar um lugar mítico chamado Zona.

stalker

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A ideia de levar No Coração das Trevas às telas é antiga. Foi levada em conta por Orson Welles, que sequer conseguiu finalizar outra importante jornada da sétima arte, seu É Tudo Verdade. Na versão de Coppola, gestada por anos, encontram-se a composição perfeita, as personagens imperfeitas, o provável discípulo em busca do mestre – talvez para matá-lo e tomar seu posto. Martin Sheen é tão sombrio quanto Brando. Outra figura repulsiva é o Kilgore de Robert Duvall, capaz de destruir uma aldeia para poder surfar.

apocalypse now

Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda

Os filmes anteriores de Varda são carregados de dor. É o caso de La Pointe-Courte, que antecipa a nouvelle vague, e o incrível As Duas Faces da Felicidade. Nos anos 80, com Sem Teto, Nem Lei, ela mergulha na jornada de uma jovem pela estrada. Chama-se Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire), cuja imagem não é suavizada. A partir de histórias de pessoas que cruzaram com ela, essa viagem não a revela por completo, o que fica evidente desde o início.

sem teto nem lei

Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos

Com crianças à frente, o filme de Angelopoulos ganha uma forma especial: cada pequeno trecho percorrido tem sentido de descobrimento maior. Quando se chega ao plano final, com a paisagem sob a neblina, percebe-se que nem tudo pode ser visto. Nessa jornada de descobrimento, as crianças desejam encontrar o pai que nunca conheceram, em viagem da Grécia para a Alemanha, ao passo que são obrigadas a amadurecer.

paisagem na neblina

Naked, de Mike Leigh

O melhor filme de Leigh acompanha o deslocado Johnny (David Thewlis), que furta um carro e foge após violentar uma mulher – nos primeiros e conturbados instantes da obra. Contra todos, a arma do protagonista é a palavra: fala sem parar, como uma metralhadora, e chega a enlouquecer lançado ao chão. Ao procurar uma velha amiga, esse anti-herói termina perdido pelas ruas de Londres e se encontra, ao acaso, com os mais diferentes tipos. Filmaço.

naked

Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

Viagens e janelas são constantes nos filmes de Kiarostami. Em um de seus últimos trabalhos, Um Alguém Apaixonado, as personagens andam muito de carro e falam através das janelas. A obra, por sinal, termina com o rompimento de uma. Em Gosto de Cereja, feito antes, tem-se um homem a bordo de seu carro, que pede aos outros que lhe façam companhia no momento da própria morte. Ele desistiu de viver e precisa que alguém o enterre.

gosto de cereja

O Retorno, de Andrey Zvyagintsev

Antes do sucesso de Leviatã, o diretor russo realizou esse filme forte, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em cena, a trajetória de dois irmãos com o pai desconhecido. Até então, o único contato com o homem havia se dado por uma foto. Nessa viagem, eles descobrirão outra face do lado paterno, em diversos conflitos. A fotografia gélida ajuda a dar o tom. Zvyagintsev dirigiria depois o poderoso Elena, sobre uma mulher que luta para ter a herança do companheiro.

o retorno

Veja também:
15 filmes para refletir sobre a morte (e sobre a vida)