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O sonho da Nova Hollywood

A previsão que Coppola fizera em 1968 de que não haveria mais “uma Hollywood como conhecemos quando sua geração de estudantes de cinema deixar a faculdade” provou estar parcialmente correta. A indústria mudou, embora certamente não da maneira que Coppola um dia esperara que fosse mudar – e ele, assim como seus companheiros autores George Lucas e Steven Spielberg, tem culpa parcial nisso.

O estupendo sucesso de bilheteria de filmes autorais caros como O Poderoso Chefão, Tubarão (Jaws, 1975) e Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) – o próprio tipo de filme que Coppola um dia pensara que iria fomentar uma nova indústria autoral em Hollywood – levou a indústria a generalizadamente se focar em faturamentos provindos de blockbusters. O sucesso de filmes de autor nos anos 1970 não permitiu, como Coppola esperava que fosse acontecer, que os autores tivessem mais acesso a financiamento para seus filmes. Em vez disso, os diretores tornaram-se cada vez mais dependentes de financiamentos de estúdios para produzir e distribuir “grandes” filmes.

Com a possibilidade de se obter receitas enormes derivadas de um único produto (de um só filme), os estúdios começaram a concentrar seus esforços na procura pelo próximo O Poderoso Chefão, Tubarão ou Guerra nas Estrelas, à custa de qualquer coisa e de qualquer outra coisa. O resultado final do cinema autoral, então, não era uma maior independência para os autores (como o Zoetrope Studios de Coppola resumia e simbolizava) ou um aumento na oferta para o consumidor. Em vez disso, por volta de 1980, Hollywood parecia estar encolhendo, e o papel dos intermediários que poderiam unir financiamentos de produção e de distribuição tornou-se mais importante do que nunca.

Jon Lewis, professor da School of Writing, Literature, and Film da Oregon State University, onde leciona cursos sobre cinema e estudos culturais desde 1983. O texto foi publicado originalmente sob o título The New Hollywood em Whom God Wishes To Destroy… Francis Ford Coppola and The New Hollywood (Durham e Londres: Duke University Press, 1995) e reproduzido no catálogo da mostra Francis Ford Coppola – O Cronista da América (pgs. 175 e 176; tradução de André Duchiade; leia aqui). Abaixo, Marlon Brando e Coppola nos bastidores de O Poderoso Chefão.

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Bastidores: Dois Dias, Uma Noite

Para Jean-Pierre, em frase que justifica a substituição dos documentários pelas narrativas ficcionais, ainda que sejam construídas com ferramentas documentais, “a ficção é mais interessante do que a realidade”. Em outros termos: a ficção fornece instrumentos para compreender melhor a realidade. Lembremos, por exemplo, a angustiante jornada de Sandra (Marion Cotillard) em Dois Dias, Uma Noite (2014): os pouco mais de 90 minutos que passamos ao seu lado, enquanto luta desesperadamente para convencer os colegas de trabalho a abrir mão de um bônus para que ela mantenha seu emprego, condensam a perversidade das relações de trabalho no modelo capitalista, de modo mais impactante (e, portanto, eficaz) do que extensas reportagens sobre o tema. Há algo de didático, sim, nessa estratégia de cinema político, mas no melhor sentido do termo – aquele que entende ser papel da arte iluminar, e não obscurecer, as engrenagens da sociedade.

Sérgio Rizzo, crítico de cinema, em texto publicado no catálogo da mostra Cinema Humanista – Irmãos Dardenne, do Centro Cultural Banco do Brasil (veja o catálogo completo aqui). Abaixo, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigem Marion Cotillard.

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Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski

Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

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Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

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Entrevista: Anna Muylaert

Entrevista: Giscard Luccas (Mostra Ingmar Bergman)

O jornalista Giscard Luccas fala dos filmes de Ingmar Bergman com riqueza de detalhes: lembra cenas, passagens e muitos gestos de delicadeza. De delicadeza, por sinal, o mestre sueco sabia como poucos. Seus filmes reproduzem como outros poucos – de outros poucos diretores à sua altura – o estado do homem na corda bamba. O que, para Giscard, é um estado que permanece e que tanto contribui para a afirmação do cineasta como um dos grandes da história do cinema.

Com filmes variados, de tempos e com elencos diferentes, a obra de Ingmar Bergman aterrissa agora no Brasil, na mais completa mostra dedicada ao diretor que se tem notícia. Começou no mês passado, no Rio de Janeiro, e é aberta neste dia 13 de junho, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em São Paulo. Giscard, o curador, conta como foi pinçar os filmes, a dificuldade em encontrar agenda às disputadas obras – 52 filmes, além de documentários – e não esconde seu amor pelo legado do diretor.

Produtor executivo da F.J. Cines, Giscard cresceu em um meio em que se respira cinema. Ele é filho de Francisco Luccas, conhecido dono de grandes e luxuosas salas de cinema nos anos 1970 e 1980 – além de distribuidor de filmes. Muitas obras desconhecidas de Bergman no Brasil, por sinal, foram trazidas em um passado não tão remoto por Francisco. Depois chegou ainda a lançar alguns títulos em VHS, ramo que não apenas explorou, mas no qual também mostrou pioneirismo. Atualmente, a F.J. Cines mantém dois cinemas no centro de São Paulo, o Cine Dom José e Windsor.

A mostra no CCBB ainda segue para Brasília. Trata-se de uma oportunidade única aos cinéfilos que querem ver os filmes de Bergman em tela grande, com um número expressivo de cópias em película. Além disso, haverá uma palestra com o jornalista Stig Bjorkman, especialista na obra do diretor, e um curso ministrado pelo crítico Sérgio Rizzo, sobre as fases de Bergman. Outra boa maneira, assim, para se comprovar a grandeza do realizador de Persona e Monika e o Desejo.

Quanto tempo demorou para reunir tantos filmes e tantas cópias? Qual a maior dificuldade?

Tudo começou há mais de dois anos. Trabalhamos com distribuição de filmes e percebemos que nunca havia ocorrido uma grande mostra no Brasil – uma que contemplasse um grande número de filmes do Bergman. O Grupo Estação, no Rio de Janeiro, chegou a fazer uma há alguns anos, mas com este tamanho que chega agora nunca houve. Participamos do edital e fomos selecionados para fazer a mostra. A partir desse momento, fizemos contato com o Instituto Sueco de Cinema e o mais difícil foi coincidir as datas. Afinal, são três meses de mostra, em três cidades (Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília). Só em 35 mm vieram 44 cópias. O instituto, que faz esse controle, está ligado ao governo sueco e é o responsável por ceder os filmes, que viajam pelo mundo. Antes do Brasil, as cópias estavam na Rússia.

Sabemos que o Bergman, como todo grande cineasta, tem as obras mais conhecidas, como O Sétimo Selo e Persona, e aquelas menos vistas. Entre as que estão no segundo grupo, qual você destaca?

Sua pergunta é injusta (risos). Por que desde os anos 1940 já temos o estilo do Bergman sendo formado, mesmo em Crise, talvez o menos bergmaniano de seus filmes, já tem alguns traços dele, já que, naquela época, ele era um homem do teatro. Em Crise, ele está procurando suas formas. Desses primeiros filmes, Monika e o Desejo é um marco. Aqui já temos o grande cineasta, como também em Chove Sobre o Nosso Amor, que é de uma sutileza e que mostra o que o Bergman viria a ser com o seu cinema posterior. Posso citar também Sorrisos de uma Noite de Amor, talvez sua única comédia, ao lado de O Olho do Diabo. Mesmo nelas ela já era feroz com seus personagens, já havia aqueles pequenos demônios a rondar por ali.

Em 2005, o Woody Allen, que é fã confesso de Bergman, disse que não vivemos mais em uma cultura cinematográfica. Diz que o público, na maior parte, não espera pelos novos filmes de grandes diretores como ele e o Truffaut, por exemplo. Um cineasta como o Bergman ainda tem grande apelo ou surge anacrônico à maioria?

Acredito que ainda possui um grande apelo. Seus temas são tão vigentes quanto eram nos anos 50. O homem não superou o medo da morte e o que está relacionado a ela não é tratado de forma passiva. Além disso, há a questão religiosa. Para o homem, a fé ainda está à frente da ciência e Bergman traz as questões relacionadas ao silêncio de Deus. São questões atemporais. Claro que a tecnologia mudou. Muita gente pode ver os filmes dele, hoje, e questionar quesitos técnicos, mas as ideias estão lá.

Os filmes são um reflexo do tempo dele.

Sim, sem dúvida. E vale lembrar que o Bergman se considerava um homem do teatro, ainda mais do que do cinema. O sucesso, no entanto, veio com o cinema. Seu teatro já tinha todo um clima pesado. E tem outra frase interessante do Woody Allen, na qual ele diz que “o que interessa no Bergman são os abismos aos quais ele nos levará”.

Além dos filmes, a mostra traz uma palestra com Stig Bjorkman. Qual a importância dele à continuidade da obra de Bergman?

O Stig, além de ser um jornalista em quem o Bergman confiava, se aproximou do diretor e se tornou um amigo, uma pessoa que esteve próximo ao universo do Bergman. Ele passou a participar do círculo dele e o analisou por dentro.

Muitas vezes Bergman é apontado como o cineasta “da alma humana”. Antonioni, que morreu no mesmo dia que ele, é chamado de “o cineasta da incomunicabilidade”. Você concorda com tais termos?

Acho que reduz muito o que os dois fizeram. Não concordo. Bergman também falava sobre a incomunicabilidade. Persona, por exemplo, é um filme sobre a incomunicabilidade. A Liv Ullmann se comunica através da incomunicabilidade. O mesmo pode ser dito do protagonista de Morangos Silvestres. Seu universo o levou a se fechar, as pessoas estavam refratárias a ele. Curioso que, depois, o Bergman percebeu que o personagem do Victor Sjöström era alguém como ele, apesar de o diretor ser muito mais novo.

O Bergman teve um grande colaborador, entre outros, que é o fotógrafo Sven Nykvist. A obra do Bergman teria o mesmo peso sem ele?

Não sei te responder. Mas acho que mesmo alguns aspectos técnicos, como ângulos de filmagem, já estavam presentes antes de o filme ser feito. Não era só uma luz a mais ou a menos. Em A Hora do Lobo, por exemplo, há o caso do personagem do Max Von Sydow, que conta um caso que, na verdade, ocorreu com o próprio Bergman. Trata-se daquela história de estar trancado no armário. Ele conta isso ascendendo um fósforo. É como se estivesse na escuridão desde a infância e, ao ascender o fósforo, mostra uma tentativa em escapar dela. Pelo menos é uma leitura minha. Há, também, aquela menina que será queimada em O Sétimo Selo, aquela a quem eles dão água. Há uma luz, ali, que é linda. E isso, de alguma forma, contribuiu muito.

Ele fez muito sucesso também pelos grandes desempenhos femininos que arrancou. Alguma cena favorita com alguma grande atriz que trabalhava com o diretor?

(Pensa bastante antes de responder). Acho que qualquer cena da Harriet Andersson em Gritos e Sussurros é muito forte. Ela está doente, na cama, e as irmãs acodem ela.

E ela é a Monika, não é?

Pois é. Monika e o Desejo também tem coisas com muita sensibilidade, mostra uma juventude muito pura. A saída de casa, as descobertas, mas no bom sentido, no sentido de descobrir a vida. Tudo é muito natural.

Rafael Amaral (13/06/2012)

Entrevista: Cássio Starling Carlos

O Douglas Sirk abordado por Cássio Starling Carlos em sua aula no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), dentro da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama, ainda se chamava Detlef Sierck. Ainda não era um “príncipe”, como indica, com justiça, o evento. Em algumas cenas apresentadas pelo especialista, de filmes da pouco conhecida fase alemã, é possível ver a clara inclinação de Sirk – ou Sierck – ao estilo pelo qual ficaria marcado.

Coube a Cássio resgatar e dar uma ideia sobre essa fase pouco conhecida, das passagens do cinema ligado ao nazismo à vida pacata nos Estados Unidos – e, mais tarde, ao sistema de estúdios de maior alcance do mundo. Ao lado de grandes estrelas, com os corrosivos subtextos que adorava abordar. O que, vale dizer, não é uma exclusividade de sua fase americana. Nos filmes alemães é possível ver algumas representações que mais tarde serão levadas a Hollywood.

Uma delas é comentada por Cássio, na entrevista abaixo: a importância da mulher na filmografia de Sirk, a ponte de ligação entre a Europa e a América. Além disso, Cássio aborda a dificuldade dessa fase alemã em chegar ao Brasil, das relações do melodrama com o cinema brasileiro e aquele filme que considera um tesouro dentro da mostra dedicada ao grande Sirk (que segue até 10 de junho, em São Paulo, e ainda vai para Brasília e Rio de Janeiro).

Cássio tem 48 anos, formação em filosofia e trabalha como crítico e pesquisador na área do audiovisual desde 1982. Nascido em Belo Horizonte, atualmente está em São Paulo, onde escreve semanalmente à Folha de S. Paulo. Curador da mostra sobre Sirk ao lado de Pedro Maciel Guimarães, ele é também um dos responsáveis pelo material textual da coleção Folha Cine Europeu. Em uma conversa descontraída, após sua aula no CCBB, ele não esconde suas emoções com os filmes e diz que chega a chorar na sala escura – principalmente quando, em tela, está uma obra de Sirk – ou Sierck.

Quando pensamos em Douglas Sirk, logo vem o melodrama na cabeça. A mostra se refere a ele como “príncipe”. Por que “príncipe” e não o “rei do melodrama”?

Pegamos uma expressão que era usada pelos franceses nos anos 1950 e achei curioso, porque vi isso em vários textos. E pensei: ele é o “príncipe”, e quem será o “rei”? Mas acho que a ideia é um pouco essa, a de destacar a realeza, seja “príncipe” ou “rei”. A expressão traz delicadeza, faz pensar no melodrama como uma forma que, para muitos, é óbvia, e ele (Sirk) introduz sutilezas.

Geralmente, quando se trata de Sirk, temos mais acesso à fase americana, com alguns filmes lançados em DVD. Em relação à fase alemã, que você tratou em sua aula no CCBB, tem algum motivo específico de não ter chegado, com tanta força, ao Brasil?

Originalmente, temos esse problema de pertencimento. Ou seja, é uma produção que nem mesmo dos arquivos alemães tiveram investimento, no sentido de preservação e circulação, porque é sempre associada ao período que a própria Alemanha tende a querer esquecer (o cinema dos anos 1930, no período nazista). Esse é um dos aspectos. Esses filmes entraram em circulação nos últimos cinco anos porque dois deles foram restaurados e saíram em cópias em DVD na Alemanha. Se não estou enganado, dois deles entraram em uma edição que a Carlotta, que é uma editora de DVDs na França, fez há um ou dois anos. Basicamente, Recomeçar a Vida e La Habanera, considerados clássicos. Então o que temos é um pouco isso: uma autocensura em relação a um repertório, mas que é um repertório que considero essencial. Ele ilumina a própria época e ilumina a fase posterior de sua carreira.

Em sua aula, você cita bem a questão da presença da mulher nos filmes de Sirk. Em um dos filmes que você mostrou (Nona Sinfonia, de 1936), ficou clara essa oposição entre mulheres. Há a mundana, na Alemanha, e aquela que está na América, uma coitada que está sofrendo. Em Desejo Atroz, já na fase americana, tenho a impressão que ele une as duas características na personagem de Barbara Stanwyck. Você concorda com a leitura?

Concordo. Acho que nas duas personagens de Stanwyck, na obra de Sirk, estão incorporadas essas duas mulheres. No Chamas que Não se Apagam temos a mulher mundana e vítima também. Acho que ele (Sirk) traduz isso quando encontra a Barbara Stanwyck, e a imagem dela atualiza essa duplicidade para seu repertório de estrelas do cinema americano. Depois, talvez, a Dorothy Malone em determinados momentos de Palavras ao Vento. Ela é essa mulher ninfomaníaca, devoradora, destruidora, e em determinado momento fica vítima de si mesma.

Sobre os atores nos filmes de Sirk, quando pensamos em homens, logo pensamos em Rock Hudson. Em outro terreno, qual atriz, para você, fica mais marcada dentro do cinema do diretor?

É difícil dizer uma. No caso de Rock Hudson, há um predecessor que é o George Sanders…

No caso, em Emboscada?

Não apenas este, mas também O que Matou por Amor é com ele, e o Vidocq também. No caso das mulheres, acho que Sirk se adapta às questões de estúdio, porque você tem aquela figura do pertencimento ao estúdio. Então ele se encaixava com o que estava disponível naquele momento, à medida da disponibilidade da estrela. É a Jane Wyman, é a Barbara Stanwyck, a Lana Turner, a Dorothy Malone, também, nessas duplicidades. Faz dois ou três filmes com a mesma estrela. Uma coisa muito interessante no Sirk é inverter o tipo de personagem. É curioso. Coloca uma mulher, em um primeiro momento, como forte e, em um segundo, como vítima. Quer dizer, é um pouco do que ele faz com os espelhos: pega eles e vai duplicando as imagens. Então você não tem uma imagem fixa, que é muito a característica da ideia da estrela do cinema americano. O repertório da estrela é muito associado a uma característica. Ele (Sirk) pega essa personalidade e vai um pouco refratando ela em vários aspectos. Acho que isso, talvez, seja o mais interessante. A gente pode ler a Barbara Stanwyck como o próprio avesso da Jane Wyman nos filmes e, depois, a Malone como o avesso de outra. É um pouco como uma personagem que roda. E vai focalizando isso de acordo com a disponibilidade do ator naquele momento.

A grande ponte de ligação entre a fase alemã e a americana, na obra de Sirk, então, é a figura feminina?

É essa figura que faz a ponte. Ela que nos permite identificar como o diretor pensa essa figura feminina como eixo de uma sociedade repressiva. Seja em uma sociedade autoritária, como no nazismo dos anos 1930, seja uma sociedade de valores morais muito arraigados como a do Eisenhower nos Estados Unidos dos anos 1950. A ideia é ver como essa mulher serve para retratar essa sociedade. E nesse caso, acrescentando, acho que é o grande vínculo com a obra do Fassbinder, que vai identificar nelas a personagem do fascismo remanescente. Como essa mulher representa a vítima de um fascismo, mesmo que Hitler e Goebbels já tenham ido para a tragédia da história. Fica por ali um espírito que Sirk representa, que captou na América dos anos 1950 e que o Fassbinder captou na Alemanha dos anos 1970.

O cinema brasileiro atual tem algum preconceito com o melodrama? Ao que parece, não se aborda o melodrama como se aborda nas novelas, ou como se abordava na obra do Sirk.

O melodrama é associado ao repertório da telenovela. Vimos, lemos, assistimos centenas de diálogos, centenas de cenas e situações em que sabemos de onde vem. A outra questão é que existe um preconceito com o significado e com as possibilidades do melodrama. Não quis dizer isso na aula, pois achei que seria um pouco pedante, mas, por exemplo, quem faz melodrama e que utiliza o mesmo recurso de fazer a trama se desenvolver a partir da situação musical é o Karim (Karim Aïnouz, cineasta brasileiro). Na estrutura da personagem da Hermila Guedes em O Céu de Suely, por exemplo, todas as situações que ela vive ou gostaria de viver são cantadas nas músicas que circulam por ali. A ideia do melodrama em passar pela questão musical está colada à ideia geral do melodrama. A outra é que o conceito de melodrama é bastante elástico. Não precisamos mais trabalhar apenas com esses repertórios ligados às vítimas da etnia, desse tipo de preconceito que está muito associado a uma mentalidade dos anos 1950. Mas também, no caso do Karim, encontramos esses personagens que sonham outra vida. O filme (O Céu de Suely) é um pouco essa possibilidade de criar essa outra vida…

E a própria Hermila é vítima dessa sociedade…

Sim, é uma vítima do homem que a deixa, uma vítima por ser uma mãe que não sabe se encaixar naquele mundo. E, aí, há o processo de criar outra vida no momento em ela para na bilheteria e pergunta quanto custa a passagem para o lugar mais longe. Inventar um personagem. Isso é uma lógica do melodrama.

Ainda sobre o melodrama, temos a impressão de que, nele, não há um vilão de carne e osso. É possível afirmar que a sociedade é o vilão do melodrama?

São duas questões, acho. Existe a ideia de retratar essa sociedade como mal, como aquilo que faz mal – mais do que como o mal clássico. Porque o mal na trama dramática, geralmente, é punido. Você mostra onde a sociedade comete o mal. E tem outra questão, vendo os filmes do Sirk, agora, em continuidade: seja mal, seja bom, seja vítima, seja apenas um passante, todos os personagens têm carne e osso. Têm uma ossatura que dá uma espécie de vitalidade mesmo quando têm pouco tempo em cena. É uma coisa muito impressionante do cinema do Sirk: não tem aquela hierarquia tradicional do cinema clássico. Há o protagonista e aqueles que lhe servem de escada. Aqui, mesmo aqueles com um mero diálogo, um momento em que aparece em cena, estão totalmente incorporados como uma função que não é meramente dramática.

Qual o filme que você considera o tesouro escondido da mostra?

Bem, a Mostra Douglas Sirk é um “tesouro de Ali Babá” (risos). Vou dizer do filme que, em tela, ficou ainda mais impactante. Havia visto ele na televisão e não está entre os grandes do diretor. Quando vi, chorei muito e, no cinema, fico muito sentimental com o personagem. É Chamas que Não se Apagam, um dos filmes de maior crueldade da obra. Esteticamente há outros mais impactantes, como é o caso de Palavras ao Vento, mas Chamas que Não se Apagam é um filme em que toda essa questão em pensar o Sirk como uma imagem – technicolor, flamejante – está escondida, porque é um filme preto e branco. A figura central é um homem, ou seja, descola um pouco da ideia da mulher como a vítima e aí você vê todo o retrato da sociedade como espécie de máquina de moer liberdades.

Veja a programação completa da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama

Rafael Amaral (31/05/2012)