caça às bruxas

Woody Allen entre a realidade e a ficção

Humphrey Bogart é um exemplo para Woody Allen. É o tipo durão que conquista as mulheres, capaz de arrancar lágrimas de Ingrid Bergman no tão celebrado encerramento de Casablanca. É o momento em que o cínico dobra-se: deixa ver seu lado romântico e sedutor.

No cinema, o público vê Allen. Seus olhos não despregam da tela, sua boca abre lentamente. Em Sonhos de um Sedutor, de Herbert Ross, ele é Allan, alguém que não consegue se despregar da ficção, fã incondicional de Bogart e de seus filmes.

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sonhos de um sedutor

É vítima dos sonhos, o que lhe distancia do aparente mundo verdadeiro – com amigos, amigas, jantares, encontros e tudo o que as “pessoas normais” costumam fazer.

Em outro filme estrelado por Allen nos anos 70, Testa-de-Ferro por Acaso, ele será vítima justamente da realidade, o oposto àquele universo povoado por um Bogart imaginário. Na obra de Martin Ritt, o ator é Howard Prince, caixa de um bar convidado a assinar alguns roteiros de televisão escritos por outros homens.

Trata-se do mundo do entretenimento dos anos 50, época da caça às bruxas levada à frente pelo senador Joseph McCarthy, contra simpatizantes do comunismo. Prince, por outro lado, nada tem de comunista: é um alienado, pequeno trabalhador, pequeno americano, apostador que não incomoda quase ninguém.

De olho no dinheiro que poderá ganhar ao emprestar seu nome, ele aceita o novo emprego e sua vida se transforma. Não poderá ser mais o mesmo ao assumir essa nova função: será tragado àquele universo de injustiças, e se tornará outro.

Ambos os filmes trazem meios divididos entre a realidade e a ficção. Sonhos de um Sedutor apresenta essa personagem confusa, engraçada, que projeta em Bogart – o imaginário ou o real, na tela – o que almeja ser.

testa de ferro por acaso1

Em seu apartamento de paredes forradas por velhos cartazes de filmes clássicos, ele conversa com o Bogart (Jerry Lacy) pelos corredores. A personagem dá-lhe dicas e, à frente, está ao seu lado quando o protagonista não sabe o que fazer com a mulher do melhor amigo (vivida por Diane Keaton), sua última conexão com o mundo real.

Allan, tão imerso na irrealidade dos filmes, vai pouco a pouco mergulhando na névoa que levará à sequência final. Em um aeroporto, o filme retorna a Casablanca, àquela despedida. A diferença é que Bergman virou Keaton e Bogart, Allen.

É uma homenagem ao cinema com traços de pastelão – como a primeira fase da carreira do cineasta, de filmes como Bananas e O Dorminhoco. Vale dizer ainda que o filme brinca com tipos da época, no início dos anos 70, como a menina que anuncia o suicídio, a ninfomaníaca nem tão viciada em sexo quanto parece e os usuários de droga.

O tempo de Testa-de-Ferro por Acaso é outro. A América é outra, mas, à revelia, Allen é sempre o mesmo. Ritt imprime um tom mais sério do que Ross. A primeira parte é mais engraçada. A segunda, em pequenos momentos, esbarra no drama.

testa de ferro por acaso2

Poucas vezes o Allen ator chegou tão perto desse gênero como no momento em que observa o velório de um amigo. Engraçado e famoso na televisão, o falecido é Hecky Brown (Zero Mostel), investigado por suposto flerte com o comunismo.

O roteiro e a direção são econômicos, com o clima dos tempos da Guerra Fria, quando qualquer um podia ser suspeito e quando, em meio à paranoia, até mesmo um alienado como Prince tornava-se herói ou vilão – a depender do ponto de vista. É o que há aqui de mais irônico: Prince será diferente justamente quando passa a perseguido.

Mesmo como comédia, retorna-se à época em que alguns artistas – como Ritt e seu roteirista, Walter Bernstein – caíram na lista negra, sob o olhar do Grande Irmão. As primeiras imagens apresentam o “jeito americano” de ser. Em seguida, traz um país de desacertos, de gente simples que deseja apenas ganhar uns trocados.

Como Sonhos de um Sedutor, não chega a ser um grande filme, mas tem momentos de grandeza. Ambos são feitos com liberdade, um sobre o cinema, o outro sobre a televisão. E, em qualquer época ou material, o Allen ator continua o mesmo.

(Play It Again, Sam, Herbert Ross, 1972)
(The Front, Martin Ritt, 1976)

Notas:
Sonhos de um Sedutor: ★★★☆☆
Testa-de-Ferro por Acaso: ★★★★☆

Foto 1: Sonhos de um Sedutor
Fotos 2 e 3: Testa-de-Ferro por Acaso

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Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

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Dez filmes recentes sobre o cinema

Da Hollywood clássica ao atual regime das câmeras digitais e estrelas sem muito brilho, a lista abaixo contempla também a variedade do cinema (o verdadeiro) feito atualmente: produções de cineastas variados, de Monte Hellman a Martin Scorsese, de Ari Folman a David Cronenberg. Algumas obras surpreendem, outras nem tanto.

Caminho para o Nada, de Monte Hellman

Longe da aparência dos longas que lhe deram sucesso, Hellman explora a realização de um filme e o mistério de sua protagonista, que talvez seja a personagem que interpreta.

caminho para o nada1

O Artista, de Michel Hazanavicius

Essa bela homenagem ao período clássico do cinema americano chega pelas mãos de um francês, com atores franceses, a partir do declínio de um astro com o surgimento do som.

o artista

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

Faz-se o caminho inverso ao anterior: é um americano que vai à França para contar o período em que o grande Georges Méliès, pai do ilusionismo na tela, era dado como esquecido.

The Invention Of Hugo Cabret

Sete Dias com Marilyn, de Simon Curtis

A pequena Michelle Williams consegue captar a volúpia de Marilyn Monroe nessa história interessante sobre os poucos dias em que a diva filmou O Príncipe Encantado na Europa.

sete dias marilyn

Hitchcock, de Sacha Gervasi

Não é o Hitchcock que os fãs esperavam, provavelmente irreal: o famoso diretor é reduzido a menino mimado nesse longa que aborda os bastidores de Psicose.

hitchcock

The Canyons, de Paul Schrader

Consagrado diretor e roteirista, Schrader expõe as atuais regras do jogo em Hollywood ao abordar o rumo da estrela decadente que se junta a um ator pornô para realizar um filme.

The Canyons

O Congresso Futurista, de Ari Folman

Trata-se do futuro do cinema: os estúdios de Hollywood passam a captar o interior e o exterior dos atores, tê-los digitalmente, cópias seguras que dispensam particularidades humanas.

o congresso futurista

Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

Menina retorna para Hollywood para encontrar a família. Seu irmão é uma jovem estrela em ascensão e, no período que passa por ali, torna-se assistente de uma atriz em baixa.

mapas para as estrelas

Mia Madre, de Nanni Moretti

Belo relato pessoal de Moretti sobre uma cineasta cuja mãe encontra-se em estado terminal no momento em que prepara seu novo filme e tem de lidar com um ator temperamental.

mia madre2

Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

O famoso roteirista é colocado na lista negra do período macarthista, perde o emprego, vai preso, ao mesmo tempo em que revela uma indústria do cinema covarde e conservadora.

trumbo1

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Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach
Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

Três perguntas sobre John Frankenheimer

Famoso por filmes como Sob o Domínio do Mal, em que a política de seu tempo pode ser vista em cada centímetro de película, John Frankenheimer teve uma carreira sólida em fitas de suspense e ação, muitas delas banhadas pelo clima da Guerra Fria.

Sua carreira e longevidade são abordadas pelo especialista em cinema Marco A. S. Freitas, com exclusividade para o Palavras de Cinema. Nem sempre lembrado como deveria, Frankenheimer foi um dos grandes do cinema americano, entre as gerações da Era dos Estúdios e a da Nova Hollywood. (Abaixo, o diretor e o astro Rock Hudson nas filmagens de O Segundo Rosto.)

o segundo rosto

Além de ter dirigido belos filmes de ação, a política e a guerra aparecem como temas comuns na carreira de Frankenheimer. Qual a influência da Guerra Fria e da paranoia nos filmes dele?

O nova-iorquino era universitário no início dos anos 50 e serviu na força aérea do seu país na mesma década. Impossível para um homem da geração dele não ter convivido com a sensação diária de que o mundo ocidental não devesse estar em constante vigília, temendo que a qualquer momento a utopicamente pacífica sociedade americana não pudesse ser reduzida ao pó devido a algum ataque do pessoal da Cortina de Ferro. Nesta mesma época, o chamado Red Scare (expressão que caracterizava o medo do comunismo) foi parte da cultura dos Estados Unidos. Se essa paranoia que você citou ainda era difundida pela mídia nos anos 80 quando eu era adolescente (quem não se recorda da popularidade de produções estreladas por Stallone, Arnold e Chuck Norris – bem como centenas de imitadores –, onde a “comunalha” parecia ter como propósito de vida cozinhar crianças e devorá-las acompanhada de vodca?), imagine quando ele cresceu! Anos mais tarde, o diretor quase pirou quando o seu ídolo e grande amigo Bobby Kennedy foi assassinado. Esse viés, diríamos, anticonservador para os “padrões hollywoodianos da época” fica evidente em vários dos longas realizados por ele. Em O Homem de Alcatraz, por exemplo, Frankenheimer mostra o prisioneiro feito por Burt Lancaster progredindo de niilista a expert em aves, apesar da brutalidade do sistema carcerário vigente em seu país. Em Sob o Domínio do Mal, mesmo tendo como tema a lavagem cerebral promovida por comunistas, os pais americanos do protagonista são reacionários (sendo que o cabeça-da-família é um político linha-duríssima e pinguço, uma óbvia alusão ao senador que capitaneou a Caça às Bruxas na vida real, Joe McCarthy). Ainda nos anos 90, quando a carreira dele nas telonas andava em baixa, a televisão a cabo o acolheu, e ele fez, entre outros, o telefilme Amazônia em Chamas – passado no Pará, mas rodado no México – sobre o seringueiro Chico Mendes, onde ele é quase santificado e os ricos são os vilões corruptos (representados nas figuras de um fazendeiro sanguinário interpretado pelo ator natural de Cuba Tomás Milián – astro de clássicos faroestes europeus, e que, quando jovem, ficou famoso no papel de camponeses analfabetos confrontando latifundiários poderosos – e por políticos ricaços e sinistros, fãs de whisky escocês).

Em O Segundo Rosto, Frankenheimer explora a possibilidade de mudança de rosto, de ser outra pessoa. Você o considera um filme ainda atual?

O fator longevidade sempre foi algo que muito me interessou na cultura pop. Considero-me nostálgico por excelência e por vezes cético quanto ao futuro do planeta (me vejo como um realista com flashes de exuberante alegria, enquanto outros me olham como, basicamente, um pessimista). A obra-prima que você citou, cujo título original é Seconds, a meu ver um filme-irmão do já citado Sob o Domínio do Mal, com ambos abordando a desesperada busca por uma identidade em meio a um mundo distópico, no qual as pessoas parecem fingir ser o que não são. Ainda que não bem-sucedido comercialmente e não lembrado como um filme da contracultura, a direção psicodélica e a influência do expressionismo (eu amaria saber a opinião de Salvador Dali sobre o filme) são notáveis. O lado Dorian Gray, da premissa com a frenética obsessão por rejuvenescimento, ajuda a manter o filme relevante nos dias de hoje. E não esqueçamos que a crítica do diretor à histeria anticomunista se dá na escalação de John Randolph, Jeff Corey e Will Greer, atores vistos como notórios à época por uma suposta simpatia ao comunismo.

A geração dele é intermediária, entre a de diretores clássicos e os da Nova Hollywood, e tem nomes importantes como os de Martin Ritt e Sidney Lumet. Qual a importância dessa safra para o cinema americano?

Amo Martin Ritt e Lumet. O que acho mais importante na contribuição de John e desses diretores (apesar de eu achar o enfocado muito mais viril na direção que Martin e também mais ambíguo politicamente) é a tentativa de quebra do artificialismo dos cenários de estúdios e na direção mais naturalista e menos contida dos atores, promovendo o sistema de interpretação de Stanislavski, uma série de técnicas mais calcada no resgate de experiências pessoais do ator, em vez de um approach mais distanciado.

Marco A. S. Freitas estudou publicidade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, formou-se em Cinema pela Columbia College e também estudou roteiro em Direção de Atores e Roteiro em Cuba. Teve a honra de colaborar com três livros: Cemitério Perdido dos Filmes B: Explotation, prefaciou Casablanca – A Criação de uma Obra-Prima Involuntária do Cinema (sobre os insanos bastidores de um dos mais memoráveis filmes da Era de Ouro do Cinema) e possui textos em Homem Não Entende Nada, a mais completa obra sobre o universo Planeta dos Macacos (sobre os clássicos dos anos 60 e 70, a influência deles em programas de televisão e em filmes brasileiros e de outros países, superproduções recentes etc) e em Vanessa Alves, coletânea de imagens e palavras sobre uma das maiores estrelas da chamada Boca do Lixo.

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Três perguntas sobre Casablanca

Os dez melhores indicados ao Oscar que não venceram o prêmio (anos 00)

Logo no início da década de 2000, o Oscar foi para Gladiador e, mais tarde, para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Crash: No Limite. Alguma coisa estava errada: filmes populares, mas sem a mesma qualidade de antigos vencedores, começavam a ganhar estatuetas. Como se vê, o Oscar nunca foi tão desinteressante. É a década do 11 de Setembro, com Michael Moore tão vaiado quanto aplaudido ao ganhar o Oscar por Tiros em Columbine, com Polanski ganhando o seu (mesmo sem ir buscá-lo). E quando Martin Scorsese finalmente recebeu o prêmio – mas não por seu trabalho mais interessante. Não dá para querer tudo.

10) Traffic: Ninguém Sai Limpo, de Steven Soderbergh

Três histórias diferentes, com tonalidades diferentes, lançam personagens no mundo das drogas – do policial na fronteira do México à dama que faz tudo para tirar o marido da cadeia.

traffic

9) Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood

Três garotos têm a infância marcada por um crime que continuará a persegui-los anos depois. Entre eles está a personagem de Sean Penn, cuja filha é assassinada.

sobre meninos e lobos

8) O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Com esse incrível filme de artes marciais, o diretor de Razão e Sensibilidade traz grandes cenas de ação e ainda deixa espaço para uma tocante história de amor.

o tigre e o dragão

7) Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

Termina com a morte de Hitler no lugar menos imaginado: enquanto assistem a um típico filme nazista, a tela é tomada pela moça judia, que decreta o fim dos inimigos.

bastardos inglórios

6) Capote, de Bennett Miller

A obra passa-se depois do crime, com campos gelados, com o outro lado da vida americana: é o clima que inspira Truman Capote a escrever A Sangue Frio.

hoffman

5) As Horas, de Stephen Daldry

Enquanto Virginia Woolf (Nicole Kidman) mostra-se depressiva, seu livro Mrs. Dalloway muda a vida de outras pessoas, décadas mais tarde. É o momento de sobreviver ou deixar tudo.

as horas

4) Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney

O apresentador de televisão Edward R. Murrow (David Strathairn) compra briga com o senador Joseph McCarthy, contra sua “caça às bruxas”. Tempo de paranoia.

boa noite e boa sorte

3) Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman

Como em A Regra do Jogo, Altman leva suas personagens a uma grande casa para despi-las: elas revelam novos caminhos e o tal assassinato talvez não seja o mais importante.

assassinato em gosford park

2) O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

O amor entre dois brutos é a saída para Lee mostrar sensibilidade apesar de tudo: de tempos em tempos eles reencontram-se, lutam para ficar juntos, e contra a própria sociedade.

brokeback mountain

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

A obra-prima de Anderson tem Daniel Day-Lewis em seu melhor papel, com as mãos molhadas de sangue, tendo de afagar o filho encharcado pelo petróleo. Obra de gênio.

sangue negro

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