Boston Globe

12 bons filmes recentes que criticam diferentes religiões

As religiões e seus abusos não saem da mira do cinema. Filmes sobre o estado do mundo sob o extremismo religioso são lançados todos os anos. Ainda que alguns voltem ao passado, continuam tristemente atuais. Abaixo, um apanhado recente com diretores variados e talentosos como Michael Haneke e Pablo Larraín.

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O Pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont

Dumont não costuma fazer concessões. Seu filme é forte, sobre uma personagem que vive em extremos, estudante de teologia que ama Deus e a quem é dado o passe para viver fora do convento. Ao conhecer rapazes muçulmanos, na França, ela envolve-se em uma teia perigosa.

A Fita Branca, de Michael Haneke

Passa-se em uma vila, uma sociedade fechada, sob a extraordinária fotografia em preto e branco. Nos dias que antecedem a Primeira Guerra Mundial, tudo remete à maldade – não a de um, mas a do grupo. O vilão é o próprio mal nesse filme que termina no interior de uma igreja.

Habemus Papam, de Nanni Moretti

Bela comédia sobre o homem por trás do grande líder religioso da Igreja Católica, o papa. Aqui, o novo homem a desempenhar o papel, a acenar à multidão, não deseja o ofício. Para descobrir a si mesmo, ele sai às ruas da Itália e se vê enredado, de novo, pelo teatro. Brilhante e engraçado.

Fora de Satã, de Bruno Dumont

Dumont, de novo. O cineasta gosta dos ambientes rurais, de “outra” França. A menina em questão é Alexandra Lemâtre, um pouco masculina, na companhia de um rapaz mais velho. Nessa jornada, eles cometem crimes enquanto tentam se aproximar de Deus.

Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

O romeno Mungiu leva ao ambiente frio, isolado, onde está um monastério. Duas meninas, uma relação estranha que inclui o desejo físico. Uma delas está presa ao local, a outra tenta libertá-la. Dor, silêncios, o sentimento da passagem do tempo.

Calvário, de John Michael McDonagh

Brendan Gleeson brilha no papel de um padre ameaçado de morte durante uma confissão. Enquanto ele vaga entre os fiéis de seu rebanho, descobre mais sobre a sociedade ao redor. Não se trata de um filme sobre revelar o assassino, mas sobre lidar com o mal.

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Filme pesado sobre uma menina que se desintegra pouco a pouco, em 14 atos em que se vê tomada pela religiosidade. Em cena, a pequena Maria (Lea van Acken) reproduz os passos de Cristo. O diretor Brüggemann executa seus 14 atos com longos planos-sequência, sem cortes.

O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

Deus é um homem mau e desleixado que agride a mulher e maltrata a humanidade. Certo dia, sua filha escapa ao mundo real e passa a convocar novos apóstolos. É quando o mesmo Deus (Benoît Poelvoorde) sai em sua busca e tenta fazer com que tudo volte a ser como antes.

O Clube, de Pablo Larraín

Esse grande filme de Larraín mostra o cotidiano de alguns padres excluídos da vida social, em um “clube” à beira-mar. São padres pedófilos que ainda convivem sob os ecos de seus pecados, com seus próprios conflitos, ora ou outra perseguidos pelos erros do passado.

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

O título refere-se à cidade do Mali, na qual extremistas islâmicos tomam o poder e impõem suas próprias regras. Impedem as pessoas de ouvir música, de se casar com quem desejam, além da vigia constante. Sissako traça um panorama triste do extremismo que resiste na África.

Spotlight, de Tom McCarthy

Outro filme recente sobre pedofilia. Os padres, criminosos, pouco são vistos. O que interessa à câmera de McCarthy é o trabalho dos jornalistas do Boston Globe, que descobrem as histórias obscuras envolvendo os líderes religiosos – e a força da igreja para tentar escondê-las.

Agnus Dei, de Anne Fontaine

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma jovem médica (Lou de Laâge) da Cruz Vermelha termina em um convento no qual as freiras estão grávidas, após serem abusadas por nazistas e soviéticos. O problema é que nem todas desejam revelar os crimes.

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Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia

O assunto é delicado, não raro repulsivo. Por outro lado, os filmes abaixo não buscam entender as vítimas. Preferem o olhar dos adultos – de policiais, familiares, jornalistas, da sociedade em geral e até mesmo dos próprios criminosos.

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Filmes recentes, que em comum mostram como alguns desses crimes começam nos ambientes menos imaginados, como a Igreja e a própria família. À lista.

Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki

A vida de uma família é colocada de cabeça para baixo quando, em 1987, a polícia prende o professor de informática Arnold, acusado de pedofilia. O poderoso documentário de Jarecki, indicado ao Oscar, mostra o drama dos familiares ao descobrirem que, além do pai, o filho mais velho também participava do crime.

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O Lenhador, de Nicole Kassell

Fita pequena e provocadora sobre um pedófilo (Kevin Bacon) que tenta se reintegrar à sociedade enquanto lida com seus desejos. O desespero aumenta quando ele aluga um apartamento de frente a uma escola infantil e passa a ver os movimentos de outro pedófilo pelo local. O mérito do filme é não lançar julgamentos fáceis.

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Polissia, de Maïwenn

A rotina de uma delegacia francesa voltada a crimes contra crianças, a BPM (Brigada de Proteção dos Menores). Em meio aos policiais, uma fotógrafa desajeitada (a própria diretora) acompanha os casos e dramas particulares – o difícil dia a dia de profissionais em meio aos problemas que, em maior parte, começam dentro de casa.

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A Caça, de Thomas Vinterberg

Um suposto caso de pedofilia é a saída para o diretor Vinterberg discutir a intolerância. Moradores de uma pequena cidade passam a perseguir um professor, mesmo sem provas sólidas, quando uma criança – filha do melhor amigo do protagonista – diz ter sido molestada pelo homem. Como o professor, Mads Mikkelsen ilumina a tela.

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O Clube, de Pablo Larraín

Obra magistral, em tons escuros e à beira-mar, quase sempre fria, sobre padres afastados da Igreja. Eles são quase esquecidos após alguns crimes contra crianças e outros membros da instituição religiosa. Ainda no início, com um novo padre, surge por ali uma das vítimas, que relata os abusos. É o suficiente para mudar a rotina do local.

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Spotlight: Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Padres e vítimas pouco aparecem. O filme prefere lançar o olhar sobre a investigação dos jornalistas do Boston Globe: em um espetacular trabalho para unir as peças, por meses eles apuraram inúmeros casos de pedofilia envolvendo padres da Igreja Católica. Pior ainda, descobriram como a instituição escondia todos esses casos.

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Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Tão assustadora quanto a pedofilia é sua omissão. É sobre a segunda, principalmente, que trata o belo Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy. A certa altura, ela chega ao seio dos investigadores, os jornalistas do Boston Globe.

Alguns deles, da equipe de jornalismo investigativo, a Spotlight, questionam-se por que não teriam visto o problema antes, com seus tantos indícios, inclusive com cartas endereçadas à redação, nas quais eram relatados casos de padres pedófilos.

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É o que faz doer: ao longo do filme de McCarthy, o espectador fica com essas e outras interrogações, ao passo que mais e mais casos vêm à tona, e enquanto alguns homens da comunidade – não os padres ou cardeais, mas outros – preferem silenciar.

Em um filme sobre jornalismo, ofício que prevê a exposição dos fatos, o que conduz o drama é o esconderijo, a dificuldade de encarar o problema. Pois todos, mesmo os jornalistas, preferem não enxergar. E há nisso certa vergonha.

Os números crescem, as perguntas também: seria possível 13 padres pedófilos em uma mesma cidade como Boston? Seriam possíveis mais, talvez 90? Qualquer católico ou incrédulo ficaria surpreso ao descobrir que o segundo número é mais realista.

Como outros filmes sobre jornalismo, Spotlight leva a salas fechadas, à insistência de pessoas simples – sempre vestidas em cores pouco berrantes, em traje social, com trejeitos que as aproximam de qualquer um – em busca de respostas.

A honestidade não é colocada em xeque, sequer discutida. O filme parte do bom jornalismo. As personagens ficam assustadas com os casos de pedofilia, a dificuldade de aceitar problemas em um trabalho que quase sempre depende deles.

Como em Todos os Homens do Presidente, por exemplo, há aquele momento em que o jornalista precisa invadir a sala de uma fonte, ou aquele em que precisa correr pela rua, sempre movido à emoção, para ler documentos e voltar à redação.

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E há instantes em que um deles, Mike Rezendes (Mark Ruffalo), exalta-se para provar que a matéria precisa ser publicada. São situações esperadas nesse tipo de filme, às vezes, e acertadamente, tratadas com frieza pelo cineasta.

Do outro lado, nas salas dos chefes, há entendimento, menos politicagem. A ideia é levar a matéria à frente: mais do que apresentar casos de pessoas abusadas, desejam mostrar que a cúpula da Igreja Católica sabia do problema e silenciou.

Alguns padres mudam de paróquia. Os casos são varridos, quase esquecidos. As vítimas, em outros casos, poderiam apenas falar entre si, ou no máximo conquistar matérias de canto de página. Em Spotlight, os jornalistas são incansáveis: traçam gráficos, batem de porta em porta, convencem juízes a liberarem documentos.

No fundo, um filme sobre a sociedade silenciada, entre o atraso imposto pela igreja e a necessidade de dar corpo a uma profissão que, quando levada a sério, mostra as vantagens da democracia: o jornalismo. À velha instituição, vale mais o poder.

Por tudo isso, Spotlight pode soar idealista demais. Talvez seja. Por outro lado, não força o drama: as descobertas tentam driblar o exagero, qualquer lágrima. O que resta são menos que heróis, ou apenas heróis acidentais, seres comuns.

(Spotlight, Tom McCarthy, 2015)

Nota: ★★★★☆

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