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Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula

O jornalista Hunter S. Thompson descreveu com intensidade e ironia a juventude nixoniana durante a cobertura da convenção republicana de 1972, da qual Nixon saiu candidato à reeleição.

Em uma passagem rápida de Todos os Homens do Presidente, a televisão revela essa face jovem, aos gritos pelo presidente. A câmera aproxima-se do rapaz – louro, jovem, eufórico – enquanto balões caem sobre todos, enquanto o homem mais poderoso do mundo é encaminhado ao novo mandato e aos episódios que levariam a sua renúncia.

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Apesar de se tratar de um filme (também) sobre o jornalismo impresso, vale evocar a televisão. Todos os Homens do Presidente contrapõe o jornal – ou o trabalho de dois jovens jornalistas – aos efeitos e imagens da caixa recheada de fios e luzes. A televisão exalta – com seu retrato da juventude nixoniana – uma imagem desejada, o ufanismo típico ao momento em que se coroa o líder máximo da nação.

Boa parte de Todos os Homens do Presidente leva à escuridão. Um filme sobre jornalismo, sobre gente afogada em becos com fontes obscuras, em pântanos nem sempre visíveis. Há passagens paranoicas, claro, pois é uma obra de Alan J. Pakula, feita nos anos 1970, quando grampos e tudo o que incluía certa parafernália estavam na moda – tempos de A Conversação, de Coppola.

O primeiro jornalista em foco, o protagonista, é Bob Woodward (Robert Redford). Sua apresentação leva a alguém inexperiente mas curioso. Convence como jornalista. Fosse este um filme passado na época atual, o som da tecla do computador não poderia conferir efeito semelhante ao clima observado aqui, com as batidas à máquina.

As reportagens do Washington Post assinadas por Woodward e Carl Bernstein (vivido por Dustin Hoffman) são apenas uma parte de todo o lixo que veio à tona sobre os métodos de espionagem republicanos. O filme trata essas descobertas com vazio e isolamento: há apenas os jovens repórteres, algumas ligações, invasões às casas de supostas fontes e entrevistados, mas nada muito sólido sobre o vilão.

Os repórteres são obstinados. Gente que não para de trabalhar, que dorme de tão cansada – porque trabalhou muito – e sai em corrida, noite adentro, para não perder o encontro com uma fonte.

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De 1976, o filme reproduz uma perseguição às vezes a lugar algum – e, frequentemente, com um gigante ao fundo, a imagem da Casa Branca às sombras, com poucas luzes em seu recheio. O inimigo está ali e não está. Para fora da redação do Post não é possível confiar em ninguém. A redação é iluminada. Para fora sobra escuridão. Washington torna-se ameaçadora com a fotografia de Gordon Willis.

O filme é real? Provavelmente não. Trata-se de uma aproximação, equilíbrio que não exclui heróis. Ao mesmo tempo, pessoas nada distantes da realidade. Tem-se, com Pakula, a ficção em grande forma, elegante, emocionante sem um único tiro, um único confronto físico, ou um rastro de perseguição que teria existido.

É tão verdadeiro quanto A Conversação. E orquestrado em cores frias como outros filmes da época, a exaltar a podridão silenciosa de um país ainda tomado pela imagem do jovem louro, na televisão, feliz e com um pedido óbvio: mais quatro anos para Richard Nixon. Ironia. Os quatro anos não chegariam ao fim.

(All the President’s Men, Alan J. Pakula, 1976)

Nota: ★★★★☆

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O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca

Ao entregar uma arma ao protagonista de O Homem do Ano, o vendedor compara o poder do objeto ao poder da coroa. A citação faz sentido em um filme sobre relações de poder.

Pior é imaginá-lo nas mãos de uma personagem alienada, à qual é dado o poder de matar, o próprio direito ao poder. É ela o “homem do ano” que não esperava ser, mas convertida a tal a golpes do acaso.

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O protagonista é Máiquel (Murilo Benício), misto entre o desavisado dos faroestes e o brasileiro que quer pertencer a algo, sentir-se incluído. É o tipo possível aos tempos em que a irracionalidade das grandes cidades soma-se à falta de consciência social.

Máiquel é o “mal necessário”, desprovido de papel e que fica, curiosamente, com o papel principal: é o homem levado pela multidão. O que ele deverá fazer é tomar essas rédeas, como se domasse um cavalo enlouquecido.

O jovem assassino pinta o cabelo, torna-se louro no início de O Homem do Ano. O processo de coloração passa do ponto enquanto ele faz sexo com a cabeleireira, depois transformada em sua mulher (Cláudia Abreu). Como o cabelo, tudo sempre ultrapassa o ponto desejado, sai do controle.

Ele observa seu reflexo no espelho e se reconhece novo. Passa a sentir orgulho de si próprio. E segue em sua saga de matanças: primeiro por pura raiva, fruto de algumas risadas e ofensas; depois, a mando de poderosos que o utilizarão como massa de manobra.

Os contratantes agem às escondidas, falam em patriotismo e utilizam alienados como Máiquel, cuja história leva a um jovem sem consciência e posição. Curioso notar o ainda pingo de dor, simplismo e pena no interior do protagonista. Enquanto não sente qualquer remorso em matar, ele entra em crise quando sua mulher sacrifica seu porco de estimação e o coloca à mesa, para um banquete.

O Homem do Ano estabelece uma estranha ligação entre esse homem, a massa suína guiada pelos poderosos e a nulidade do animal entre todos, que come, dorme e permite a seu dono louro um rastro – ainda pequeno – de humanidade.

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O enigma do filme talvez esteja mesmo em encontrar humanidade em Máiquel, primo distante de personagens conhecidas do cinema, como o Travis de Taxi Driver e, mais tarde, o jovem que se torna líder de uma prisão em O Profeta.

Não se trata de um filme sobre o confronto do homem com a lei, mas sobre a consciência do indivíduo, os sinais de seu cotidiano e a busca pela sobrevivência. O diretor José Henrique Fonseca leva às descobertas da personagem, aos seus conflitos de identidade.

Ela quer trabalhar honestamente, mas sempre termina a matar mais; não quer viver uma vida de casado, mas é tragada àquele clima de sonho expresso pelo dia do casamento: o bolo que fica na espátula, a bela noiva sorridente e todos os amigos que o cercam.

Aos poucos, a violência é institucionalizada. Matar é parte de um trabalho. Nasce uma empresa e Máiquel, o desajeitado louro armado da periferia, ganha um terno e uma mala. Passa a trabalhar, a bater de comércio em comércio. Evidente que não se reconhecerá nesse novo papel social, o que, de novo, faz pensar na busca por identidade.

Durante todo o decorrer de O Homem do Ano, o desafio de Máiquel é se tornar algo, descobrir-se. O cabelo louro é uma livre representação de falsidade, de algo barato, como era a peruca loura de Barbara Stanwyck no grande Pacto de Sangue.

(Idem, José Henrique Fonseca, 2003)

Nota: ★★★☆☆

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Bastidores: Veludo Azul

A cena parece, de fato, colorida pelo desejo atordoado de Jeffrey: mal arrumada num vestido de veludo que parece saído de uma garrafa de xarope, sussurrando molemente “Blue Velvet” num microfone antiquado e banhada por uma luz azul, Dorothy é a apoteose dos mistérios baratos do sexo, ou melhor, do sexo tal como é concebido, como a exaltada província da vontade masculina. Dorothy é um recipiente vazio no qual os desejos de Jeffrey se derramam em cascata; o “olhar” controlador do rapaz é tão direto e fundamental que é quase uma paródia da teorização feminista, exceto pelo fato de que podemos estar seguros de que Lynch não cogitou de tais estratégias políticas. Na verdade, o papel de Dorothy no filme, como vítima das fantasias masculinas – inclusive das de Jeffrey –, transforma o aparato teórico costumeiro em verdadeira questão temática. Dorothy é sempre idealizada (de tantas maneiras quantos são os personagens masculinos, mas nunca é materializada como objeto sexual para o espectador), sua luta principal é com essas idealizações; ela precisa lutar e negociar com elas para encontrar tanto o filho desaparecido quanto sua renovada autoestima como mãe.

Michael Atkinson, crítico de cinema, em Veludo Azul (Editora Rocco; pgs. 48 e 49). Abaixo, Isabella Rossellini, imortalizada no papel de Dorothy, é dirigida por David Lynch (sentado) na cena citada pelo crítico.

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A Comunidade, de Thomas Vinterberg

Os dramas da grande casa não escapam à observação da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen). No decorrer de A Comunidade, a menina limita-se a observar a intimidade dos outros, quase nunca a participar por completo desse meio.

Curioso, portanto, que reste a ela uma importante escolha final. Ao mesmo tempo nesse núcleo e fora dele, a jovem vai buscar suas descobertas na rua, fora dali, e parece não ver problema algum em dividir a grande casa com os pais e os amigos destes.

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O filme de Thomas Vinterberg aborda a convivência entre diferentes pessoas sob o mesmo teto, em uma comunidade na qual as decisões são tomadas pelo voto. Questiona o formato da família tradicional e se alinha assim à época que aborda, os anos 70, período de libertação e de contestação das regras vigentes.

Ao adotar uma coadjuvante observadora, silenciosa, às bordas, Vinterberg oferece a possibilidade de não se misturar. Será Freja, a certa altura, a primeira a descobrir a traição do pai, Erik (Ulrich Thomsen), que passa a sair com uma de suas alunas.

Sua mãe, Anna (Trine Dyrholm), é a dona da ideia de trazer outras pessoas à grande casa, de estabelecer uma comunidade, e passa a sofrer com a intimidade revelada, do dia para noite, aos membros do grupo. E, para não perder o marido, ela permite que este leve a nova companheira ao local, ao suposto meio de liberdade e aceitação.

É o preço que se paga ao se deixar tudo às claras: nessa comunidade em que se estabelecem escolhas pelo voto, na qual não se esconde o problema e se coloca o drama à mesa, Anna será a primeira vítima. Despenca aos olhos de todos, inclusive da filha.

Esse desejo de tudo ver, de se lançar à claridade, é evidenciado pelos momentos em que a própria Anna mexe as mãos entre a luz. Primeiro em seu quarto, após o sexo com o marido; depois no estúdio de televisão, pouco antes de entrar no ar, em seu programa.

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Jornalista, ela despe-se ao espectador nesses dois momentos – primeiro com o sexo, depois com as lágrimas. Sucumbe antes ao prazer, aos sentimentos, e logo o espectador entende o impacto da vida a dois, dessa ligação, dessa intimidade.

Com a vida em grupo, na grande casa, ela não será a única a perder: o marido, ainda no início, dá a entender que talvez aquele modelo não seja o melhor. Há sinais de que Erik gostaria de mais atenção da mulher, enquanto ela divide-se entre os outros.

Ao passo que a comunidade não lhe oferece o que esperava (e talvez não tenha mesmo por que oferecer), Erik descobre na jovem aluna uma fuga. Passa então a se encontrar com ela, em momentos de pouca intensidade, de poucos gestos íntimos.

A ideia de um mundo revelado, “sem paredes”, é dada pela fotografia de Jesper Tøffner, pela explosão da claridade, ao mesmo tempo pelo toque de sonho. Não há comunidade perfeita, descobrirá o público. A harmonia é aos poucos quebrada: a antes equilibrada Anna deixa-se ver, deixa escorrer uma lágrima, ao vivo, na televisão.

Sua estrutura vem abaixo. E Dyrholm oferece uma interpretação poderosa, de mutações, a mulher que tenta, até certo ponto, ocultar sentimentos, depois afrontada por eles. Sabe-se muito sobre ela, pouco sobre a filha silenciosa e quase intrusa. A forma como lidam com suas vidas particulares está ao centro do trabalho de Vinterberg.

(Kollektivet, Thomas Vinterberg, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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