Blade Runner o Caçador de Androides

Bastidores: Blade Runner, o Caçador de Andróides

Os ambientes são sempre frios, com imensas paredes que parecem herdadas de um passado longínquo e que se erguem imponentes em sua escuridão apenas reforçando o lugar ínfimo que os homens ocupam neste novo mundo. São ambientes recortados, ao mesmo tempo que amplos, com as paredes tomadas por placas com estranhos desenhos e que se repetem monotonamente com o mesmo padrão, sempre em tons escuros e sujos, sempre a desdobrar a ausência de vida que parecem confinar entre as paredes que os contêm.

Paulo Menezes, professor, em À Meia-luz: Cinema e Sexualidade nos anos 70 (Editora 34; pg. 214).

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Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott

Os andróides descobrem que viver é bom. Ou vivem para descobrir. Inevitável: desejam, por isso, viver mais, e correm atrás do criador, de respostas para uma possível longevidade. Diferente dos humanos, esses replicantes vivem apenas quatro anos, como o espectador logo descobre em Blade Runner, o Caçador de Andróides.

Quatro anos de desespero, corridos pelos perseguidos que viram muito, aos quais a humanidade passa, antes, pelo poder de ver. É o que confessa o último andróide, vivido por Rutger Hauer, em luta com o Rick Deckard de Harrison Ford: viu o impensável, no misto de horror e maravilhamento. Com sua morte morre também essa visão.

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O que explica o pressionar dos olhos quando investem contra os homens. É o que faz o líder contra seu pai, seu criador, seu deus de óculos quadriculados e lentes grossas, o gênio voltado à cama de adornos imperiais, como a de um rei, igualmente ao tabuleiro que reduz a existência à estratégia, sem dúvida ao confronto.

Precisa, antes de matar o pai, beijá-lo em desespero, pressionar seus olhos até jorrar o sangue. Morte, sim, mas precedida pela certeza do encerramento da visão, do sentido pelo qual a vida corre. Ver e continuar vendo, como parece dizer esse grande filme de Ridley Scott, a partir da obra de Philip K. Dick, repleto de características dos filmes noir.

Pode parecer ultrapassado com seus computadores de telas sem profundidade, com fotos físicas impressas em papel espesso, com figurinos sobre figuras furtivas que parecem ter saído do Alasca ou de qualquer outro local gelado do globo. A começar pelo ambiente, nada é agradável: não há verde, chove sem parar, o neon ocupa todos os cantos, e da cidade escura, sem nunca ver a luz do sol, sobe o fogo das torres.

Ainda assim os androides desejam continuar vivendo: já viram o suficiente – e o pior, entre um ambiente hostil e desagradável – para fazerem suas escolhas. Melhor ficar por ali, de olhos abertos, do que aceitar o fim, o desligamento. Os replicantes talvez sejam ocupados por sonhos, ou talvez não durmam: talvez sonhem acordados.

Deckard, que também pode ser um replicante, sonha com o unicórnio. À frente, o animal inexistente é reduzido ao origami no chão, na porta de seu apartamento, no encerramento do filme. À tela, o herói que não quer ser herói, sem empolgação para o trabalho que lhe é dado: caçar quatro andróides que se rebelaram contra o sistema.

Nesse filme que não chega a ser um noir, tampouco um terror, e cuja ficção científica outra vez revolve um mundo fracassado, o espectador tem seus motivos para ter pena e sofrer com os replicantes. Nenhum deles – nem a Pris de Daryl Hannah – chega a ser um vilão. E é a ela que a obra reserva a morte mais brutal, momento em que se debate no chão – uma máquina em pane, uma vida que se encerra.

Mesmo o duelo final não afirma o esperado, a luta do bem contra o mal. Mas, em cena, a luta da máquina que deseja provar – com seus uivos, como um lobo atrás da presa – que pode ser clemente, o homem que Deckard – fraco, desarmado, sangrando – não esperava encontrar. É ao caçador de andróides que o replicante mira os olhos, a quem, sob a chuva, leva a pomba, dono das palavras que tocam o poder de ver.

Ainda os olhos: no início, entre um corte e outro, o olho e a pupila ocupam a tela. Como se nada escapasse a ele, ou como se dele, primeiro, emergisse a vida. Não à toa, é pelo olho que os replicantes são testados. Os caçadores tentam encontrar, a partir da dilatação ou não da pupila, traços de emoção, de humanidade.

Nesse filme de múltiplas camadas, o visual não para de lançar novos impedimentos aos olhos do público. Luzes, água, sujeira, maquiagem, quinquilharias, além de painéis gigantes que engolfam os veículos voadores e a multidão pelas ruas. Ao fundo, a figura assustadora de Edward James Olmos, outro mistério com forma humana.

Do alto, naves convidam à fuga: deixar o planeta, ir para outro agora colonizado, pode ser um bom negócio. E deve custar caro. O planeta Terra tornou-se um problema, espaço que contrapõe o fechamento da primeira versão, de 1982, quando Deckard e sua amada, Rachael (Sean Young), voam à salvação. Na versão do diretor, o encerramento comunga com o amargor que cerca a obra. O espaço entre a porta e o elevador delimita a prisão, antes da chegada abrupta dos créditos e a certeza de que o casal está abandonado à própria sorte.

(Blade Runner, Ridley Scott, 1982)

Nota: ★★★★★

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Alien: Covenant, de Ridley Scott

Realizador de grandes filmes no início da carreira, entre eles Alien, o Oitavo Passageiro, Ridley Scott vira-se como pode com a violência abusiva. É com ela que tenta causa medo ou trazer alguma emoção, em vão, ao longo de Alien: Covenant.

Entre o filme de 1979 e o mais recente existe um abismo. No salto de um para o outro, percebe-se que Scott mudou radicalmente sua forma de fazer cinema, trocando os silêncios e o suspense pelo sangue em excesso. Não é fácil entender o que aconteceu com ele, que também tem no currículo Blade Runner, o Caçador de Androides.

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Scott desaprendeu. Faz hoje um cinema apenas voltado a chacoalhar a plateia, em linha de produção, com explosões gratuitas e aventuras sem qualquer preocupação em criar um universo que cerque o espectador a ponto de não escapar (o que fez tão bem em Alien, o Oitavo Passageiro, sem dúvida um grande filme).

O título de seu novo trabalho refere-se a uma nave que, durante uma viagem para colonizar um planeta, termina encontrando outro. Seus tripulantes resolvem descer em solo estranho, um local nublado cercado por tempestades atmosféricas e com vegetação próxima à da Terra. O local esconde as temidas criaturas. O que vem a seguir é correria.

Covenant é pueril e choca não necessariamente pelo excesso, mas pelo mau gosto, pela dificuldade de preparar o espectador às doses de sangue dos ataques alienígenas. É uma desculpa para reviver a temida criatura cuja primeira aparição, da barriga de John Hurt, no primeiro filme, deu vez a uma das cenas mais famosas do cinema moderno.

Scott, a partir do roteiro de John Logan e Dante Harper, chega a reviver esse mesmo momento, como se precisasse superá-lo. Por se aproximar do ridículo, é como uma referência saída de uma paródia, pequeno signo perdido e óbvio. Tal aparição é agora constrangedora: o monstro rompe o peito da vítima, levanta-se do interior do corpo e acena ao seu criador, o androide interpretado por Michael Fassbender.

O ator, por sinal, será a tentativa de conferir – mais uma vez em vão – alguma profundidade à história. Esse lado um pouco filosófico nada tem a acrescentar (como se viu antes em Prometheus, também de Scott): é apenas um capricho entre esguichos de sangue e mordidas, entre os tiros e a correria que o filme busca atingir.

Não é a primeira vez que Scott rende-se ao caminho mais fácil. Como em Êxodo: Deuses e Reis ou Perdido em Marte, adere ao espetáculo barato, tenta ser épico pelos caminhos errados, em filmes lotados de diálogos canhestros e drama superficial. Em Covenant, a carnificina levada à frente pela criatura pode, inclusive, produzir o efeito contrário ao qual ambiciona: arrancar risos do espectador, tamanha a artificialidade.

(Idem, Ridley Scott, 2017)

Nota: ☆☆☆☆☆

Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott

Chappie, de Neill Blomkamp

Como o doutor Frankenstein, o jovem cientista de Chappie tem seu momento de fúria. Compra uma arma e investe forças contra seres que tornam seu mundo mais sujo, mais bruto. Não há muito a fazer na nova ficção científica de Neill Blomkamp: o universo em questão sempre deixa espaço aos excluídos e à violência.

A culpa é sempre dos poderosos, os verdadeiros vilões. Os excluídos vivem entre os destroços, caçados, armados. A violência é sempre culpa dos outros.

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Monstros são criados para combater monstros. Em cena, surge o cientista jovem (Dev Patel) e obviamente genial, também seu oposto: o homem bruto, chegado a armas, mas sem o brilho do rapaz, disposto a trair e matar, e vivido por Hugh Jackman.

Os alienígenas de Distrito 9, filme que colocou Blomkamp no mapa, dão vez aos robôs, ou a apenas um deles, o Chappie do título. Ao contrário dos demais, ele tem emoções, a inteligência artificial criada pelo jovem cientista.

Se há tempo a gastar com a máquina que se humaniza, o mesmo não se vê com os humanos. Blomkamp talvez acredite que todos estejam prontos. Encontra, por isso, espaço para manobras arriscadas nesse roteiro também escrito por Terri Tatchell.

É nesse ponto que o jovem cientista mostra um pouco de sua monstruosidade. Pouco antes, ele desenvolve rapidamente sua máquina pensante, mesmo contra as ordens da empresa em que trabalha. Cria Chappie em sua casa e depois permite que a máquina – da infância à maturação – caia nas mãos de um trio de bandidos.

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Em Chappie, o capitalismo prefere os robôs que apenas executam tarefas àqueles que resolvem pensar: de novo, Blomkamp fala dos escravizados. Nessa estranha sociedade em confronto, pensar é colocar o poder em risco.

O que ajuda a compreender por que os vilões quase sempre se comportam como ogros, ou por que a líder da empresa de robôs (Sigourney Weaver) não quer mais do que a eficiência de seus produtos, com a mecanização da segurança pública.

As boas ideias de Blomkamp, por sua vez, são sempre vítimas da estrutura esperada, com o cientista brilhante e sua criação como vítimas desse sistema, ao mesmo tempo em que alguns bandidos talvez não sejam tão malvados como parecem.

Se em Distrito 9 o homem tem de se transformar em um alienígena para sentir na pele as dores do outro, em Chappie o homem terá de se transformar em máquina. Parece, sem dúvida, uma jogada original: o homem termina preso à sua própria criação.

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Ao longo de descobertas, por diferentes caminhos, Chappie conhece sua “mãe”, seu “pai”, conhece a morte e, como os replicantes de Blade Runner, o Caçador de Androides, tenta encontrar a saída para viver. É a luta daqueles que ganham alma: a consciência de que estar no mundo é muito bom, apesar de tudo.

Deixa-se levar: “brinca” com armas e é enganado por seus parceiros. Termina violentado. Como um jovem que perdeu a briga na escola, ou que apenas não queria brigar, volta para casa, aos braços da “mãe”. Não cabe nesse universo em conflito.

Nota: ★★☆☆☆