Beleza Americana

Ainda é possível falar do ator Kevin Spacey?

Dá para separar a pessoa do ser fictício que ela encarna, o homem em sua vida particular do homem visto nas telas do cinema? Para muita gente – sobretudo aos extremistas do mundo virtual – a resposta é “não”. Ocorreu com artistas extraordinários, cujos nomes foram envolvidos em escândalos. Ocorreu recentemente com o ator Kevin Spacey.

Você pode não gostar de pessoas que praticam assédio sexual. Entendo, pois também não gosto. Talvez você seja homofóbico, o que é um problema seu (não do ator), e talvez você não goste de homossexuais que revelam sua opção sexual para tentar tirar a atenção de outra questão – como tristemente fez Spacey após ser acusado de assédio.

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Questões pessoais à parte, algo não se pode negar: Spacey é um grande ator, independente do que faz ou fez em sua vida pessoal, independente do mal que causou a outras pessoas. Não que a arte seja mais importante que a vida e, por isso, capaz de suavizar o ato criminoso. (Um médico que estupra uma mulher à noite e salva uma vida de manhã não merece absolvição. Deve pagar por seus atos como qualquer pessoa.)

Necessário, sim, tentar separar ficção e realidade quando se trata de uma arte como o cinema, calcada na representação: o ator, parte de uma obra, pertence a um mundo fictício no qual existe como personagem, ao qual é levado, profissionalmente, para desempenhar outra vida e, como provou Spacey mais de uma vez, possivelmente fazer com excelência e vigor.

Não é possível amar menos o Kevin Spacey preso à tela – em Beleza Americana, Seven – Os Sete Crimes Capitais e Os Suspeitos (três filmes em que ele faz figuras curiosas ou dignas de total reprovação) – porque o homem Kevin Spacey cometeu erros na vida real, no universo tangível em que todos, sem exceção, estão sob a batuta da lei.

E, goste você do ator ou não, muitos de seus filmes seguirão vivos. Muitos seguirão assim também graças a ele, para a sorte de seu espectador e dos fãs de cinema, como este autor. Verdade, também, que há algum tempo Spacey não entrega um grande filme, ou uma grande atuação, sendo mais lembrado como o protagonista da série House of Cards.

Nos anos 90, o ator colecionou interpretações extraordinárias e, à medida que perdia espaço na linha de frente de Hollywood, passou a coadjuvante de luxo, geralmente na pele de chefões do crime ou homens odiosos. É verdade que Spacey sempre caiu bem nesse tipo de personagem, o ser arrogante que o espectador sonha destroçar.

Como esquecer, por exemplo, o tom calmo de seu serial killer em Seven, nos diálogos finais com Brad Pitt? Em uma situação como aquela, quem não puxaria o gatilho? Parte da grandeza dessa sequência se deve a Spacey. O ator certo para o (pequeno) papel certo. E, mais tarde, em outro papel menor, mas de grande importância: o humano entre tantos tubarões em Margin Call – O Dia Antes do Fim. Justamente Spacey.

Não só de vilões e seres asquerosos ele viveu. Mas, em todos os casos, viveu outras vidas, de seres que só existem nos limites das telas do cinema ou da televisão. Nada a ver com a vida pessoal, com o homem que agora é o centro das notícias que mesclam o mundo do espetáculo às páginas policiais, ao lado de um certo Harvey Weinstein.

Importante não perder o ator de vista. O homem e seus crimes devem ser deixados à esfera jurídica. Não se trata de perdoar, tampouco de incriminar. Daqui a décadas, quando Spacey não estiver mais entre nós, alguns de seus filmes permanecerão vivos, como os de outros grandes atores que já morreram. Para a alegria dos cinéfilos.

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Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

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13 filmes que demolem os bons modos da sociedade

Trágicos e, em alguns casos, cômicos, os filmes abaixo descortinam – para emprestar a metáfora visual de Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia – o palco no qual vivem os seres em questão, humanos aparentemente bondosos e educados. Aos poucos, eles revelam-se malvados, desbocados, selvagens e acabam quebrando o decoro que rege o meio. São 13, mas poderiam ser mais. Muito mais.

Amantes, de Louis Malle

Na época o filme causou certo escândalo, fez de sua heroína, Jeanne Moreau, um dos símbolos da libertação sexual da década de 50, ao lado de musas como Brigitte Bardot. Ela, uma mulher rica em um casamento entediante, decide embarcar em aventuras sexuais. Aos poucos, Malle desmonta certa imagem intocada dos ricaços em questão.

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A Presa, de Nagisa Oshima

O cineasta japonês fez uma dezena de filmes cruéis sobre personagens no limite, entre crimes, estupros e suicídios. Neste caso, um trabalho ambientado na época da Segunda Guerra, quando os moradores de um vilarejo tornam um homem negro e estrangeiro refém. Precisam então decidir o que fazer com ele, à medida que a selvageria aflora.

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O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados vão embora antes do início do jantar. Deixam os patrões sozinhos com seus convidados. O que deveria durar pouco se estende: os ricos convidados dessa celebração não conseguem escapar do castelo. Aos poucos se convertem à animalidade antes estranha e precisam apelar às mais diversas situações para sobreviver e talvez escapar.

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A Caça, de Carlos Saura

O que deveria ser um dia de caça como qualquer outro se transforma em um inferno. O ambiente árido é palco para a viagem de quatro amigos, que foram ao local caçar coelhos. Não se dão conta do perigo de portar armas e da possibilidade de dispararem contra o próximo. É sobre o desejo de poder, em plena Espanha de Franco.

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Teorema, de Pier Paolo Pasolini

De olhar enigmático, Terence Stamp é o anjo sedutor que passa a viver entre uma família aparentemente perfeita e, aos poucos, seduz seus membros: o pai, a mãe e os filhos. Interessante notar que talvez essa personagem não seja má nem boa. Oferece apenas a transformação. É um dos trabalhos mais famosos do polêmico diretor.

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O Conformista, de Bernardo Bertolucci

Um fascista sem alma é convocado pelo regime de Mussolini para matar seu antigo professor, que está em Paris na companhia de sua bela (e livre) mulher. Ele não apenas se vê impotente como incapaz de lidar com seus desejos. Obra-prima do diretor italiano, a partir do livro de Moravia, sobre um homem levado pela multidão.

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O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Buñuel

Por ter se dedicado a demolir os bons modos da sociedade, sobretudo a burguesa e religiosa, o mestre espanhol merece mais um filme nesta lista. Aqui, mostra como um grupo de pessoas da alta sociedade sempre fracassa ao tentar concretizar uma refeição. Fica entre o cômico e o absurdo, e às vezes até mesmo com toques de horror.

o discreto charme da burguesia

Filme Demência, de Carlos Reichenbach

O protagonista é Fausto, aqui em versão nacional, em uma viagem externa e interna entre seus sonhos e a metrópole imunda, São Paulo. Empresário falido que perdeu a fábrica de cigarros que era de seu pai, homem sem esperança que procura entre as mulheres algum alívio e é guiado pelo demônio – justamente ele – ao paraíso.

filme demência

Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

Dois executivos, em viagem a trabalho, querem machucar alguém. Ambos perderam as namoradas e resolvem maltratar o sexo oposto. Não se trata de uma vingança contra qualquer mulher, mas contra todas. Representantes da classe de engravatados dos anos 90, eles escolhem uma datilógrafa bela e muda para seduzirem e depois descartarem.

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Felicidade, de Todd Solondz

Um grupo composto por diferentes tipos: o pedófilo à frente de uma família supostamente feliz, o rapaz que faz estranhas ligações telefônicas e busca sexo passageiro, a escritora que deseja ser estuprada para entender o crime, a vizinha solitária que se revela assassina. Toda uma sociedade “bela” pouco a pouco demolida.

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Festa de Família, de Thomas Vinterberg

O cineasta já se dedicou outras vezes ao mal-estar na sociedade, como em Submarino e em A Caça, mas nunca de maneira tão mordaz quanto em Festa de Família, ainda seu melhor longa-metragem. O cenário não poderia ser mais conveniente: a festa para celebrar um patriarca, na qual verdades sobre seu passado vêm à tona – e à mesa.

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Beleza Americana, de Sam Mendes

Homem traído pela mulher resolve mudar de vida: larga o emprego para viver como vivia em sua juventude, volta a malhar e compra o carro de seus sonhos – quando era jovem. Mas o custo da “bela vida” logo bate à porta: o vizinho militar e homofóbico e, sobretudo, seu filho, que vende drogas e passa a namorar a filha do protagonista.

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Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

São seis relatos, ou contos, que expõem o ser humano no limite, justamente à beira da selvageria. O avião que é guiado por um louco, a garçonete que decide se vingar de seu cliente, a noiva que descobre – no dia do casamento – a traição do noivo, entre outros. Mais um caso em que os bons modos são demolidos em tom abertamente cômico.

relatos selvagens

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20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

Importante dizer, de partida, que o chamado “sonho americano” é um rótulo, utopia embalada pela televisão, pela propaganda de margarina, pelo cinema idealista dos anos 30. O american way of life, com sua economia robusta, suas famílias suburbanas felizes, direitos iguais para todos, não resiste ao retrato da realidade – seja pela comédia ou pelo drama de contornos obscuros – levado à frente pela da lista abaixo.

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Existem outros vários filmes sobre a degradação desse ideal americano que ficaram de fora da relação. A lista também traz longas-metragens que se banharam em livros conhecidos, de autores como John Steinbeck e F. Scott Fitzgerald. Ainda assim, a visão dos cineastas tem peso maior, com narrativas de forte impacto. À lista.

Fúria, de Fritz Lang

Austríaco e fugitivo do nazismo, Lang deu vez a uma história sobre intolerância em seu primeiro filme americano, no qual um homem é considerado culpado por um crime que não cometeu. Do lado de fora da prisão, a multidão descontrolada pede seu pescoço.

fúria

Alma em Suplício, de Michael Curtiz

Esse filme noir traz Mildred Pierce (Joan Crawford), cuja escalada social será acompanhada pela degradação da filha, a quem a protagonista tenta dar a melhor educação. A história é contada em flashback, à polícia, após o assassinato do ex-marido de Mildred.

alma em suplício

O Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey

O policial de Van Heflin descobre uma mulher casada, em uma bela casa de subúrbio, sozinha enquanto seu marido apresenta um programa de rádio. Passa a frequentar o local, torna-se seu amante. O destino desses fracassados tomará rumos inesperados.

o cúmplice das sombras

Vidas Amargas, de Elia Kazan

Vários filmes de Kazan tratam da morte do sonho americano. Nenhum deles, contudo, de maneira magistral como Vidas Amargas, da obra de Steinbeck, sobre um rapaz (James Dean) filho de um pai religioso e de uma mãe prostituta, em busca do amor de ambos.

vidas amargas

Delírio de Loucura, de Nicholas Ray

James Mason interpreta um professor pai de família que passa a ter comportamento violento com a mulher e o filho após iniciar um tratamento com cortisona. Esse remédio – amostra “milagrosa” da vida moderna – não garantirá a continuidade da família.

delírio de loucura

O Indomado, de Martin Ritt

A sequência mais famosa dá ideia da degradação geral: pai, filho e outros rancheiros matam o rebanho doente da fazenda. O filho (Paul Newman) quer vendê-lo mesmo assim, o pai (Melvyn Douglas) é contra. Por esses contrapontos, a família aos poucos se dissolve.

o indomado

O Beijo Amargo, de Samuel Fuller

A Kelly de Constance Towers esbofeteia seu cafetão antes de ir embora. Migra à pequena cidade interiorana, a uma “outra” América, indo trabalhar como enfermeira em um hospital para crianças com deficiência. Ali, apenas as crianças serão verdadeiras.

o beijo amargo

Sem Destino, de Dennis Hopper

Outra América é o que esperam também os motociclistas chapados de Hopper e Peter Fonda. Ganham um pouco de dinheiro e destroem um relógio antes de embarcar nessa viagem igualmente existencial – e repleta de intolerância, a dos outros.

sem destino

Perdidos na Noite, de John Schlesinger

Enquanto canta, no chuveiro, o caipira Joe Buck (Jon Voight) sonha acordado com as belas mulheres que almeja encontrar, na cidade grande, trabalhando como gigolô. A realidade é outra: termina quase sem nada, apenas com a companhia do marginal Ratso (Dustin Hoffman).

perdidos na noite

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack

Nos tempos da Grande Depressão, algumas pessoas decididas a ganhar dinheiro se arriscam em um jogo insano: precisam sobreviver ao cansaço, horas sem dormir, em uma pista de dança na qual se convertem no centro de um espetáculo doentio.

a noite dos desesperados

O Grande Gatsby, de Jack Clayton

A versão de Baz Luhrmann desaparece quando comparada ao elegante trabalho de Clayton, a partir do livro de Fitzgerald, com suas passagens entre o paraíso e o inferno, seus amantes condenados, todos gravitando em torno do poderoso Gatsby (Robert Redford).

o grande gatsby

Stroszek, de Werner Herzog

Um rapaz com aparente problema mental (Bruno S.), uma prostituta (Eva Mattes) e um baixinho (Clemens Scheitz) saem da Alemanha para tentar a vida na América. Após os imaginados fracassos, como a perda da casa, eles decidem aderir à violência.

stroszek

Eles Vivem, de John Carpenter

A sociedade capitalista é descortinada de forma original nessa ficção científica: o mundo foi dominado por alienígenas que não se deixam ver, nem suas mensagens. O herói grandalhão (Roddy Piper) só consegue enxergá-los quando utiliza óculos especiais.

eles vivem

Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone

Antes uma criança que brincava com armas, jovem apaixonado e patriota, o protagonista (Tom Cruise) retorna do Vietnã em uma cadeira de rodas. Repensa tudo, muda de lado: não demora a protestar, a aderir às passeatas contra seu próprio governo.

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O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

Sob as ordens do chefe, alguns corretores imobiliários correm para vender mais e cumprir as metas, em noite chuvosa. O roteiro é de David Mamet, baseado em sua própria obra. O protagonista, entre o cômico e o cínico, é ninguém menos que Jack Lemmon.

o sucesso a qualquer preço1

Felicidade, de Todd Solondz

Painel sobre a vida privada dos moradores de subúrbio, com seus segredos e a busca pela inclusão. Há o pai de família pedófilo, a solteira chorona em busca do “príncipe encantado”, o rapaz solitário atrás de sexo fácil, a escritora frustrada, entre outros.

felicidade

Beleza Americana, de Sam Mendes

O protagonista (Kevin Spacey) sonha com as rosas vermelhas que saltam do corpo da bela garota (Mena Suvari), ninfeta e amiga de sua filha. Outro painel de degradação da doce vida americana, com tipos variados como o vizinho que vende drogas e seu pai militar.

beleza americana

Longe do Paraíso, de Todd Haynes

O tempo e as cores de Douglas Sirk. Também os traços de suas personagens, a sociedade que desaba, a família infeliz. Em cena, uma dona de casa (Julianne Moore) descobre as inclinações homossexuais do marido enquanto se encanta com a presença de um jardineiro negro.

longe do paraíso

O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O consagrado diretor de Taxi Driver vai a Wall Street mostrar a trajetória de jovens em busca de dinheiro fácil, sem qualquer humanidade. A vida é uma diversão feita de escritórios abarrotados com homens caçando números, de orgias paralelas. É a loucura americana.

o lobo de wall street

O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor

O ano é 1981, quando os índices de criminalidade foram os mais altos em Nova York. Nesse cenário, o jovem empresário Abel Morales (Oscar Isaac) tenta conquistar espaço com sua empresa, ao lado da mulher “perfeita” (Jessica Chastain) e homens estranhos. Ser honesto não será fácil.

o ano mais violento

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Ninfetas (em 15 filmes)

Um grupo de belas jovens do cinema, a fazer pencas de marmanjos saírem dos trilhos. Uma lista com 15 meninas de filmes variados, do noir ao universo violento do cinema americano atual. Não se tratam de formas a representar o sexo fácil, ainda que em vários filmes elas remetam a desejos ocultos e ao erotismo comum ao cinema moderno.

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Carmen Sternwood (Martha Vickers) em À Beira do Abismo

Antes de encontrar seu contratante, ainda no início da obra-prima de Howard Hawks, o detetive Philip Marlowe (Humphrey Bogart) depara-se com a pequena e aparentemente indefesa Carmen. Algo está errado por ali: a menina não demorada a se lançar nos braços do herói, que, como sempre, ironiza. Ao longo do filme, ela mostra-se apenas uma peça da trama intrincada, cheia de idas e vindas, de dúvidas, com Lauren Bacall no elenco.

à beira do abismo

Baby Doll (Carroll Baker) em Baby Doll

O trabalho de Elia Kazan vem carregado de ousadia: é sobre um homem (Karl Malden) impotente unido a uma bela menina, em uma casa aos cacos, enquanto não consegue consumir seu desejo por ela. Ela grita do lado de fora enquanto a aguarda, para a graça dos velhos senhoras negros por ali. Mais tarde, seu rival (Eli Wallach) vai à mesma casa e passa a jogar charme na menina. Como em Uma Rua Chamada Pecado, Tennessee Williams também assina o roteiro.

baby doll

Colette (Marie-France Pisier) em Antoine e Colette

O espectador entende por que Colette capta a atenção de Antoine e desvia seu olhar, do palco do concerto à bela menina, algumas poltronas à frente. A maneira como arruma o vestido, como passa o dedo nos lábios, torna-a seu objeto de desejo. Logo está apaixonado, em seu possível primeiro amor. Ele fará de tudo para tê-la por perto no segundo filme de Truffaut sobre Antoine Doinel, que integra o longa Amor aos 20 Anos. Pisier mescla juventude com jeito de mulher.

antoine e colette

Lolita (Sue Lyon) em Lolita

A partir do livro de Nabokov, Kubrick levou à tela um estranho romance carregado de ressentimento, de dor, com o homem mais velho cheio de problemas, desconfiado, vivido na medida pelo mestre James Mason. A bela Lyon não precisa de muito para encantar, e em alguns momentos chega a não ter qualquer tempero: às vezes é até difícil compreender por que esse homem mais velho e inteligente fica de joelhos à menina. É uma boneca cuja imagem, ao fim, esvai-se: não é mais a Lolita de sempre.

lolita

Agnese Ascalone (Stefania Sandrelli) em Seduzida e Abandonada

Após o incrível Divórcio à Italiana, o diretor Pietro Germi retorna ao campo da comédia que revela outro lado da sociedade italiana de bons costumes. A saída é rir do absurdo, das perseguições à menina que teria perdido a juventude, para a desgraça do pai, da Igreja, de todos ao redor. Há a sequência delirante em que ela é perseguida pelos moradores da cidade. De beleza ímpar, como outras musas italianas da época, Sandrelli ganha pela presença, ao mesmo tempo em que o espectador ri dos homens que a cercam.

seduzida e abandonada

Delilah “Delly” Grastner (Melanie Griffith) em Um Lance no Escuro

O detetive de Gene Hackman é contratado para encontrar essa garota no grande filme de Arthur Penn. A trama envolve uma atriz de cinema decadente (mãe dela) e o lado obscuro dessa arte, atrás das câmeras, com os dublês e os riscos do ofício. Logo Harry (Hackman) percebe que a menina é apenas a ponta do iceberg. Suas andanças levam-no ao inimaginável, ao fim, com um encerramento misterioso. É o primeiro trabalho de Griffith que lhe valeu crédito, muito antes do sucesso de Uma Secretária de Futuro, de Mike Nichols.

um lance no escuro

Iris (Jodie Foster) em Taxi Driver

A raquítica Foster cai nos braços da personagem de Harvey Keitel, o cafetão, na única sequência do filme de Martin Scorsese em que Robert De Niro não está em cena. Em outros momentos, a menina passa pelas ruas e sempre atrai a atenção do taxista Travis, em suas andanças pela cidade, em seus momentos de solidão. Seu desejo de “limpar” a metrópole leva-o a encontrar a menina de novo, em encerramento traumático. Foster já havia feito um pequeno papel em Alice Não Mora Mais Aqui, de Scorsese.

jodie foster

Violet (Brooke Shields) em Menina Bonita

A ninfeta é servida como banquete nesse polêmico filme de Louis Malle, quando alguns diretores europeus eram atraídos a Hollywood com a possibilidade de realizar trabalhos interessantes. Crescida no bordel, a menina de Shields logo chama a atenção de um jovem fotógrafo que passa por ali, interpretado por Keith Carradine. Malle capta o universo de libertinagem do início do século 20. O elenco conta com Susan Sarandon, como mãe da menina e também prostituta.

menina bonita

Suzanne (Sandrine Bonnaire) em Aos Nossos Amores

Em seu primeiro papel de destaque e com crédito, Bonnaire é uma revelação. O diretor Maurice Pialat nunca trata o sexo como momento difícil ou leva a jovem a algum questionamento que envolva culpa. Ao contrário, é natural. Os problemas da menina são outros e envolvem sua família, a separação dos pais, as brigas com o irmão. Há também o relacionamento que não deu certo, com diálogos cortantes e o realismo do diretor.

aos nossos amores

Cécile de Volanges (Uma Thurman) em Ligações Perigosas

A trama envolve a destruição de uma jovem (Michelle Pfeiffer) por um casal de amigos íntimos, vivido por Glenn Close e John Malkovich. Em meio à trama, em jogos de diversão e prazer, eles encontram a bela Cécile. Thurman já havia feito outros filmes, como As Aventuras do Barão de Münchausen, do mesmo ano, e mais tarde ganharia destaque por sua personagem descontrolada em Pulp Fiction, de peruca e mulher de um perigoso mafioso.

ligações perigosas

Christina (Mia Kirshner) em Exótica

A casa de shows de stripper é decorada como selva. Homens vão ao local para observar as belas mulheres que dançam ali. Entre elas está a misteriosa Christina, alvo, quase todas as noites, das investidas de um cliente fiel (Bruce Greenwood). O belo filme de Atom Egoyan mescla diferentes personagens, como o dono de uma loja de animais exóticos interpretado por Don McKellar, e outros que compõem a estranheza da obra, como o DJ de frases de efeito de Elias Koteas.

exotica

Angela Hayes (Mena Suvari) em Beleza Americana

O objeto de desejo do protagonista (Kevin Spacey) surge, em sonhos, coberto de pétalas de rosa, quando retira o casaco de líder de torcida, ou quando se insinua para ele do alto do teto de seu quarto. Como nada é o que parece nesse filme de Sam Mendes, ganhador do Oscar, mais tarde a moça fará uma revelação capaz de demolir seu sonho. Retorna à realidade, ao ambiente que inclui as traições da mulher, as descobertas da filha, o contato com o vizinho traficante e os embates com o pai do garoto, militar linha dura.

beleza americana

Junie (Léa Seydoux) em A Bela Junie

O título não mente: Seydoux é bela demais, com seu olhar de lince, o que leva o espectador a não despregar os olhos. Faz pensar na Anna Karina de Godard, na menina como fonte de atenção de seus bandidos e fugitivos. Como outros de sua geração, Christophe Honoré bebe na fonte da nouvelle vague. Faz de Seydoux uma musa em formação: tem o olhar trágico e ao mesmo tempo distante. Difícil saber no que está pensando ou o que deseja, o que assegura seu mistério.

a beça junnie

Dottie Smith (Juno Temple) em Killer Joe – Matador de Aluguel

A menina rouba a atenção do matador de aluguel interpretado por Matthew McConaughey no surpreendente e violento filme de William Friedkin. Ao aceitar matar a mãe do menino que o contrata, ele coloca a irmã do pagador como parte do negócio. E Temple sai-se bem como a adolescente perdida de uma família disfuncional. O filme leva ao insuportável quando, ao fim, todas as personagens reúnem-se à mesa, quando o assassino fala de suas intenções, e quando o fechamento leva ao corte seco.

killer joe

Joe (Stacy Martin) em Ninfomaníaca – Parte 1

Nas histórias da experiente Joe vem à tona seu passado, quando se aventurava em baladas sexuais, com parceiros diversos. O período é preenchido pela presença da bela Martin, cujo olhar de certeza comprova a boa escolha para o papel. Sozinha ou com alguma amiga, ela dá vez aos desejos. A direção de Lars von Trier é certeira e o filme, claro, criou alguma polêmica. Não é sobre sexo fácil. Prefere suas entranhas, ao passo que a madura Joe (Charlotte Gainsbourg) é bombardeada pelas ideias de seu interlocutor (Stellan Skarsgård).

ninfomaníaca

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Os cinco melhores filmes com Kevin Spacey

Desde seus primeiros papéis, como a inesquecível participação em Uma Secretária de Futuro, Spacey despontou entre os mais versáteis atores da atualidade. A consagração veio nos anos 90, com grandes papéis: ganhou dois Oscars, interpretou vilões e, como outros, também teve deslizes. Abaixo, seus melhores filmes.

5) Margin Call – O Dia Antes do Fim, de J.C. Chandor

Filmaço sobre Wall Street e sua podridão. Aqui, um jovem talento (Zachary Quinto) descobre que sua empresa de capital aberto está prestes a ir à bancarrota. Logo, em uma noite que deveria ser como outras, aciona os “cabeças” da companhia para tentar salvá-la. Ninguém escapa aos problemas, nem a personagem de Spacey, que, ao contrário de outras, ainda parece guardar algum pingo de humanidade. O texto é afiado e os diálogos, incríveis.

margin call

4) Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

Depois de interpretar um grande vilão em Os Suspeitos (e ganhar um Oscar de coadjuvante), Spacey foi escalado para viver o serial killer que aparece apenas na parte final da obra de Fincher, entre suas mais lembradas. Seu jeito frio e calculista chama a atenção: não é difícil entender o que faz o policial vivido por Brad Pitt perder a cabeça, ao fim, e concretizar o desejo do assassino. As expressões de John Doe são inesquecíveis.

seven

3) Beleza Americana, de Sam Mendes

Valeu ao ator seu segundo Oscar. Difícil imaginar outro na pele de Lester Burnham, narrador, cuja morte anuncia nos primeiros instantes. Enquanto joga tudo para o alto, Lester mantém relações com os vizinhos, também com a filha, com a mulher instável (Annette Bening) e enxerga pétalas de rosas vindas do corpo da ninfeta (Mena Suvari), a amiga da filha (Thora Birch). Nada é o que parece nessa América de mentira. Muito menos a beleza.

beleza americana

2) O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

A partir da peça de David Mamet, o diretor Foley constrói a loucura de alguns homens dispostos a vender imóveis. Esses corretores são colocados na parede, precisam vender a qualquer custo. Como outras obras de Mamet, fala sobre corrupção e bandidagem. Passa-se em poucas horas, em noite chuvosa. Ao lado de várias estrelas, entre elas Al Pacino e Jack Lemmon, Spacey é John Williamson, tipo asqueroso e impotente que não sabe lidar com o poder.

o sucesso a qualquer preço

1) Los Angeles: Cidade Proibida, de Curtis Hanson

Na Los Angeles dos anos 50, estrelas do cinema misturam-se a policiais. Nesse híbrido está a personagem de Spacey, policial que serve de consultor às séries policiais, que circula e dança com atrizes, que sabe – como fez a outras personagens – ser cínico sem perder o sentido do drama. E esse sentido torna-o chave para o destino dos outros dois policiais idealistas, também diferentes, interpretados por Russell Crowe e Guy Pearce.

los angeles cidade proibida

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