behind the scenes

Bastidores: Cães de Aluguel

(…) Cães de Aluguel, que estreia em Los Angeles na próxima semana, é um dos filmes mais bem dosados, perturbadores e habilmente construídos que saem este ano. É um belo filme de gênero que está permanentemente rindo de si mesmo e da idiotice pueril do gênero: uma brincadeira de assalto sem assalto, um filme de ação que está perdidamente apaixonado pela conversa, um poema para o lado sexy de contar uma história e uma amostra de sabedoria precoce sobre a vida. Tudo isso de um cineasta iniciante cuja instrução consiste em seis anos atrás do balcão de uma locadora de vídeos de Manhattan Beach, um tempinho no Sundance Institute Director’s Workshop e um monte de aulas de interpretação. Quentin Tarantino descreve a si mesmo como um especialista em filmes que nunca botou os pés numa escola de cinema e que nunca quis fazer outra coisa além de dirigir filmes. “Estou tentando enfiar cada filme que já quis fazer neste primeiro”, ele diz animado.

Ella Taylor, crítica de cinema, em texto escrito na ocasião do lançamento de Cães de Aluguel nos Estados Unidos e reproduzido no livro Quentin Tarantino (organização de Paul A. Woods; Editora Leya; pgs. 37 e 38). Do trecho acima, vale destacar a passagem em que Taylor cita o fato de Tarantino ter sido balconista de vídeo-locadora, o que só reforça a mitologia que o próprio diretor manteve – ainda mantém? – por anos, ligada à sua formação cinéfila. Abaixo, Tarantino e o ator Harvey Keitel.

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Bastidores: Asas do Desejo

Wenders foi um dos grandes renovadores da linguagem cinematográfica nos anos 80. Levou a experiência formal dos Cinemas Novos dos anos 60 um passo adiante, para a paisagem americana, a partir dos anos 70. Apaixonado pelo cinema clássico dos Estados Unidos, em especial pelo western e pelo filme noir dos anos 40 e 50, reinventou conceitualmente os cinemas de gênero.

Marcos Strecker, sobre o cineasta Wim Wenders, em Na Estrada – O Cinema de Walter Salles (Publifolha; pág. 177). Abaixo, Wenders no set de Asas do Desejo, que lhe valeu o prêmio de direção em Cannes.

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Pina, de Wim Wenders

Bastidores: Meu Nome é Coogan

Quando Meu nome é Coogan estava em pré-produção, Don Siegel ficou sabendo que eu tinha pedido para ver alguns de seus filmes. O único que me era vagamente familiar era Vampiros de Almas. Projetaram para mim Os Impiedosos e A Caçada, suas duas produções precedentes para a Universal. Don, quando ficou sabendo, quis fazer a mesma coisa e pediu para ver os filmes que eu tinha feito com Sergio [Leone]. Ele gostou dos filmes, e foi assim que se estabeleceu nossa associação. Era um personagem, um original, e pensei que tínhamos sido feitos para nos entendermos.

(…)

Don odiava o antigo sistema dos estúdios. Fui eu, você sabe, que conseguiu fazê-lo escapar disso. Eu tinha galgado os degraus no momento em que um novo sistema se instalava e meu poder não estava ligado a um estúdio específico. Na Warner, era a época de Jonh Calley e Frank Wells; eles não tinham a pretensão de ensinar a gente a fazer um filme, eles deixavam a gente em paz. Don estava acostumado à indiferença constante dos responsáveis pela produção. Na época em que eu estava sob contrato na Universal, me infiltrava no fundo da sala, onde os executivos dos estúdios projetavam os copiões, para escutar seus comentários. Eram, no geral, pelo menos uns vinte, e o infeliz do realizador ficava sentado no meio deles, escutando forçado suas asneiras. Conhecemos esta situação com Meu Nome é Coogan, mas depois conseguimos escapar disso. Na Warner era totalmente diferente. Quando chamei Don para Perseguidor Implacável, eles me disseram simplesmente: “É com você”. De repente, Don se viu com mais tempo do que ele jamais teve na vida. Sete ou oito semanas lhe pareciam uma eternidade. Don podia ser tudo, menos extravagante. Ele resmungava o tempo todo: mas que eficiência! Ele sabia o que queria e sabia se decidir. Ele controlava o orçamento e seu plano de trabalho.

Clint Eastwood, diretor e ator, sobre o também diretor Don Siegel, com quem fez seis filmes, em entrevista a Michael Henry Wilson (publicada em Eastwood por Eastwood e realizada em março de 1994; reproduzida no catálogo da mostra Clint Eastwood – Clássico e Implacável, do Centro Cultural Banco do Brasil; pgs. 128, 129 e 130; tradução de Telma H. M. Monassa). Eastwood considera Siegel um de seus mestres.

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Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Bastidores: O Exorcista

Escolher alguém para o papel de Regan, a menina possuída, foi mais difícil. Na época em que Linda Blair foi entrevistada, tinha 12 anos. Friedkin queria ter certeza de que ela poderia enfrentar os elementos mais ousados do papel. Perguntou a Linda: “Você leu O Exorcista?”

“Li.”

“O livro é sobre o quê?”

“Sobre uma garotinha que é possuída pelo diabo e faz um monte de coisas ruins.”

“Que tipo de coisas ruins?”

“Ela empurra um cara de uma janela e se masturba com um crucifixo e…”

“E o que isso quer dizer?”

“É que nem tocar siririca, não é?”

“É sim. Você sabe o que é tocar siririca?”

“Claro que sim!”

“E você faz isso?”

“Claro! Você não toca punheta?”

Linda ficou com o papel.

Peter Biskind, escritor, em Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood (Editora Intrínseca; pg. 209). O diálogo ocorreu entre o diretor William Friedkin e a jovem Linda Blair, ambos na foto abaixo.

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Bastidores: O Iluminado

Bastidores: Imitação da Vida

A hipocrisia hollywoodiana não tem limites. Em 1958, a Universal queria que um filme abordasse a “questão racial”, mas, se possível, sem negros. Uma tamanha contradição, só um cineasta poderia encarar: Douglas Sirk. Pois qualquer crítico de cinema minimamente antenado vai dizer: “Sirk é o cineasta do espelho”. Nada lhe perturba mais do que o abismo entre a coisa refletida e o reflexo deformador. Abismo sem fundo. O espelho não nos dá nada além da imagem da imagem. Uma imagem esconde a outra, substitui outra. Não se pode escapar (é isso, o reflexo do kitsch). É porque ela teve essa ideia imodesta e vingativa de um enterro grandioso que Annie Johnson atinge, pós mortem, o estatuto de imagem. A famosa última cena de Imitação da Vida também é: bem-vindo ao reino da imitação, cara Annie. E o falso, é possível ser fabricado. Para isso, é preciso um grande talento. Toda personagem depositada na beira da tela tornou-se uma imitação. Como a chuva de diamantes na tela escura dos créditos. Não há exceção. O cinema é apenas uma barca e lágrimas, resultado de um ligeiro enjoo.

Serge Daney, crítico de cinema, para o jornal Libération (3 de maio de 1982; a tradução é do professor Pedro Maciel Guimarães, curador da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em 2012; leia aqui uma entrevista com o professor, feita na ocasião da mostra). Abaixo, a estrela Lana Turner durante as filmagens das cenas de abertura de Imitação da Vida.

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