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Beber, filmar e cantar

Dean [Martin] e eu fazíamos muitas piadas sobre beber. Mas, convenhamos: se tivéssemos bebido de fato tanto quanto diziam que nós bebíamos, você acha que conseguiríamos filmar durante o dia e cantar à noite – que era o que fazíamos? Eu não recomendaria que ninguém vivesse a vida assim. É preciso saber o que se pode aguentar.

Frank Sinatra, ator e cantor, em declaração reproduzida em Frank Sinatra – A Arte de Viver, de Bill Zehme (Ediouro; pg. 118). Abaixo, ele (à direita) e o parceiro de filmes e noitadas Dean Martin.

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Meu Tio Antoine, de Claude Jutra

Não há conflito palpável em Meu Tio Antoine, de Claude Jutra. Talvez apenas no protagonista que, vale dizer, também demora a aparecer. Ele é um menino de olhos curiosos, às vezes chegado à seriedade e, quase sempre, levado à molecagem para descobrir o desconhecido. Em apenas 24 horas, quando o Natal bate à porta na pequena cidade canadense coberta por uma camada grossa de neve, ele sairá, sem dúvida, transformado. O filme é sobre esse caminhar.

Há outras várias personagens, a começar pelo tio do título, o Antoine de Jean Duceppe. Parece alguém sério, trabalhador, até o momento em que despenca, após uma longa noite de bebedeiras. O protagonista, Benoit (Jacques Gagnon), assiste à bebedeira e se vê obrigado a tomar as rédeas do trabalho do tio. Para o menino, o mundo fica maior, mais difícil, já que, até então, a pequena cidade – com uma igreja, uma fábrica e uma loja – resumia todo seu espaço e vida.

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Esses três ambientes são cercados por gente que pouco sai. Os trabalhadores que lidam com o amianto caminham pela neve, ao alto, com suas pequenas malas na mão. As mulheres e os meninos olham da porta de suas casas um homem caridoso, com sua carroça, que lança enfeites ao chão – como migalhas naquele Natal.

Benoit trabalha na loja com Antoine, sua mulher Cecile (Olivette Thibault), o simpático Fernand (vivido pelo próprio diretor) e a menina Carmen (Lyne Champagne), com quem troca flertes e brincadeiras. Jutra utiliza essa loja como um ponto possível à felicidade, um local de reunião, de divertimentos, cujas prateleiras fornecem um visual colorido contra o mundo monocromático do lado de fora.

Ao expor vidas com tamanha sensibilidade, às vezes rendido como está pelo realismo e, ao mesmo tempo, pela mágica do olhar infantil, Jutra faz uma obra semelhante a Amarcord, de Fellini, lançado pouco depois. Isso porque se molda mais a um povo, menos a uma personagem. Benoit demora a se revelar o centro, um menino de olhar poderoso no decurso de horas que começam e terminam em morte.

Uma das melhores sequências dá-se quando um bando de garotos rola na neve com os homens mais velhos, quando estes saem da fábrica no dia de Natal. Ou quando todos esperam, sob o frio, a revelação do colorido e do presépio na vitrine da loja de Antoine e Cecile. Em outra situação, uma bela mulher – estranha aos moradores da cidade – chega à mesma loja em busca de uma encomenda e, ao subir as escadas para experimentá-la, dois garotos – entre eles Benoit – correm para vê-la sem roupa.

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Toda essa junção de situações, das mais variadas, é construída por Jutra com distância: uma forma de deixar que a cidade mostre vida própria, ao mesmo tempo em que o adolescente faz suas descobertas – do sexo feminino em Carmen à morte de um garoto, à frente, em uma casa isolada – e ao passo que crescer parece cobrar um preço alto.

Em paralelo a Benoit, a Fernand, a Carmen e a todos os outros há Jos Poulin (Lionel Villeneuve), trabalhador inconformado com a situação de seus parceiros de fábrica. Ele decide deixar a família e se retirar momentaneamente. Logo nos primeiros momentos, ele coloca uma caminhonete da empresa à beira da montanha e, pouco depois, discute com o chefe que fala inglês, alguém que não compreende.

A vida de Jos liga-se ao olhar de Benoit, no encerramento, quando o filho desse trabalhador perde a vida. Nasce uma ligação das personagens da loja àquela família isolada, com a mãe de lágrimas verdadeiras, nunca apelativas. É o choque com a realidade em Meu Tio Antoine e, assim, o fim da nostalgia observada anteriormente, com a cara e o jeito de uma comédia de costumes. O fim aproxima-se do drama, quando mudanças pregam peças no público, quando a bela cidade revela toda sua tristeza.

A obra de Jutra é simples e não quer enganar: é o que parece ser, o que é muito. Um filme de aparência simplista e, ao mesmo tempo, de profundidade e mistério. Mas qual é o mistério? Talvez esteja na inconstância das pessoas, em reviravoltas, em olhares, ou mesmo naquele pai debruçado sobre o caixão do filho, deixado, certa noite, em meio à neve espessa. No olhar final – do jovem à família – está um gesto doloroso: amostra de que o mal, ora ou outra, chega ao lugar mais remoto, impensável, à gente mais escondida. É a grande descoberta de Benoit, mais curioso do que religioso.