Andrew Garfield

Silêncio (as versões de Masahiro Shinoda e Martin Scorsese)

A sujeira com a qual sofrem os visitantes, os padres jovens de Silêncio, não é vista com facilidade durante o filme de Martin Scorsese. Quer dizer, o que poderia ser sujeira quase desaparece entre maquiagem, retoque, entre o visual cristalino da fotografia de Rodrigo Prieto. Ficam incomodados com o mau cheiro dos fiéis e viram o rosto.

Antes, na década de 70, a mesma história foi contada pelo cineasta Masahiro Shinoda. Ambos os filmes, separados por décadas, são baseados no livro do mesmo autor, Shûsaku Endô, que também aparece como co-roteirista da versão de Shinoda. Semelhantes à primeira vista, suas diferenças deixam ver as intenções de seus diretores.

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A aparência suja, ou miserável, é uma delas. Shinoda é mais “descuidado”, mais “livre”, decidido a se lançar na podridão do mundo dos homens: seu visual faz supor, desde cedo, que a empreitada do cristianismo no Japão não acabaria bem. Ou apenas serviria para salientar a vitória da carne, do lado humano, sobre o espírito.

Pois termina assim. Prevalece a carne na versão de 1971. A carne que resta ao padre jesuíta, que tenta não se dobrar à voz dos inquisidores, àqueles que desejam extinguir o cristianismo de terras nipônicas. Shinoda não procura explicar o homem para além do relevo humano, não mais do que se vê nas sessões de tortura – físicas ou psicológicas.

O padre em questão é Sebastião Rodrigues (vivido por David Lampson na versão de 1971 e por Andrew Garfield na versão de 2016). Desembarca no Japão na companhia de outro jesuíta. Está em busca de um terceiro, considerado seu mestre e dado como desaparecido. Os visitantes são apoiados por moradores de pequenas vilas rurais até serem descobertos.

E até que isso ocorra surgem as citadas sessões de tortura. Os poderosos, sob as ordens do inquisidor, desejam testar a fé – e comprovar a falta dela – nos cristãos e mesmo nos jesuítas. Os primeiros são peões, massa de manobra para enfraquecer os segundos, testados à luz do sentimento de um cristão – ou novo Cristo – que deve se render para salvar o outro.

Caso se renda, poderá provar o limite de seu lado humano, real; caso contrário, resistindo, provará a força da fé para além da vida dos inocentes. A briga interna é intensa, sob o rosto triste de Lampson, contido, às vezes distante, ou pelas dobras da criança chorona de Garfield, o perfeito da vez, que se prestou a algo semelhante no ainda inferior – não sem recorrer à religiosidade – Até o Último Homem.

Ao contrário de Shinoda, Scorsese adere ao cristianismo, à sobrevivência da fé nos instantes finais. Ver ambos os filmes e se prender a seus encerramentos é entender justamente o quanto a visão ocidental pode possibilitar a redenção ao seu espectador – afagá-lo, tranquilizá-lo – e o quanto a oriental prefere a cisão, o gesto em direção à carne.

Não menos à humanidade. Pois para Shinoda a sujeira desses corpos está antes nas atitudes, na fraqueza que dispensa o retoque, no silêncio do homem – mais do que no de Deus. Scorsese precisa recorrer ao conforto, até mesmo a uma voz divina que vem para socorrer o público. “Fique tranquilo, você não está sozinho”, parece dizer.

Conforto maior está na imagem de Cristo que seu herói enxerga, apenas compartilhada com o espectador. O rosto de Cristo refletido na água, pouco antes de ser capturado, no lugar do rosto do homem. O paralelo é claro: Rodrigues trilha os passos de Cristo, e tem seu próprio Judas. Há sempre um traidor, um inquisidor, uma cruz para pendurar inocentes.

O componente que leva à novidade é justamente a inclinação ao inquisidor. A certa altura, tanto na versão de Shinoda quanto na de Scorsese, os homens precisam pisar na imagem de Cristo, precisam seguir os passos do mestre que reaparece, agora como um homem japonês, com mulher e filho, para comprovar a fraqueza da carne.

A luta passa à esfera interna. Shinoda leva-a à face, ao homem que se debate e termina nos braços da mulher, talvez em um gesto de regressão ainda maior: mais do que um homem sem Deus, ou que não consegue ouví-lo, seu protagonista é um animal. Scorsese, por outro lado, prefere os bons modos, o crucifixo como vitória da religiosidade.

Scorsese já foi mais “sujo”. Sua personagem, antes, precisava apenas dizer que era “um homem solitário de Deus”, pelas ruas de Nova York, para deixar entender toda a podridão – e, sobretudo, a troca de posições entre céu e inferno, entre Deus e o Diabo. Em seu cristalino Silêncio, ao contrário de Shinoda, ele prefere o caminho mais confortável.

(Chinmoku, Masahiro Shinoda, 1971)
(Silence, Martin Scorsese, 2016)

Notas:
Silêncio (1971):
★★★☆☆
Silêncio (2016): ★★★☆☆

Foto 1: Silêncio (2016)
Foto 2: Silêncio (1971)

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20 grandes filmes que abordam a religiosidade

Até o Último Homem, de Mel Gibson

O mesmo filme que celebra o jovem americano pacifista que se recusa a tocar em armas – e que resolve ir à guerra para salvar pessoas – celebra o soldado japonês cujo último instante de honra depende da arma, quando se entrega ao haraquiri. O mesmo filme que celebra o rapaz cristão e correto, a mostrar os horrores da guerra, aproveita-se de sequências nas quais os soldados surgem cheios de bravura.

O trabalho de Mel Gibson lança-se a essas diferenças sem condenar a guerra por completo. Sua desculpa, em Até o Último Homem, é, no fim das contas, mostrar que conflitos sangrentos e seres pacifistas podem coexistir, e são inclusive necessários.

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Por causa de dramas pessoais, Desmond Doss (Andrew Garfield) decide não tocar em armas. Entre tantos caminhos possíveis, escolhe se alistar. Os motivos nem sempre ficam claros. O roteiro apoia-se na religião, no desejo é salvar os colegas soldados.

A guerra, como se sabe, existe para que se mate oponentes. A violência é a primeira justificativa, ainda que burocratas insistam em estratégias e na política. Doss, outro herói idealizado e angelical do cinema americano, prefere a Bíblia à bala, ou a qualquer arma possível. Verá várias no campo de batalha, a despedaçar seus companheiros.

Sua forma estreita, inflexível, torna-o pronto para corações vulneráveis. A ajudar, seu jeito de eterno menino, o sorriso que Garfield imprime e no qual seus dentes – pela natureza própria – estão sempre em espaço fundo, conferindo-lhe uma marca.

Mel Gibson ataca o ponto fraco do espectador: como não concordar com seu herói que evita tocar em armas e, de maneira indireta e até distante, diz que a guerra não leva a outro resultado senão à morte? Até o Último Homem poderia ser – e até parece isso em sua primeira parte – sobre a oposição entre o pensamento cristão e o conflito armado.

Ou entre homens que pensam a guerra, os militares, e outros (poucos) dispostos a seguir ensinamentos bíblicos, que creem falar com Deus ou que acreditam ter uma missão superior, sem o impedimento de contradições – como é o caso do jovem Doss.

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Com seu herói plano, Gibson leva à guerra de lados marcados, na qual não se tem dúvida da posição do autor: os americanos têm de cumprir sua missão, os japoneses são cruéis a distância. Na ausência da crítica à guerra, resta um filme ruim sobre a possível coexistência entre o pacifista religioso e os assassinos cruéis.

Pior é perceber que Doss será chamado de herói no fim de sua jornada. Não que não possa ser. O problema é que o título serve para lhe converter, aos olhos dos demais, no típico americano, quase nada diferente dos outros. É o ritual para sua aceitação.

O diretor não renuncia ao espetáculo bélico: os homens com suas missões, às vezes por meios diferentes, mas sempre pela causa maior: vencer a guerra. Espetáculo cansativo, cheio de explosões, com Doss atrás de vidas para salvar. É o americano que sobe montanhas para louvar a natureza. Do alto delas, beija a amada e futura esposa.

O drama imprime rasteiras, a seguir o caminho mais fácil. Universo de homens aos gritos, às ordens dos militares que convocam todos aos seus exercícios diários. Nesse caso, um Vince Vaughn que imita o Hartman de Nascido para Matar. Outro, entre vários, que será salvo, mais tarde, pelo menino heroico que não toca em armas.

(Hacksaw Ridge, Mel Gibson, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

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