adultério

Lady Macbeth, de William Oldroyd

É difícil deixar o rosto de Florence Pugh. Até certa altura de Lady Macbeth, o espectador quer acreditar que suas intenções esbarram na vingança pessoal, no ódio aos homens, ao sistema patriarcal ao qual se vê presa – e do qual é vítima. Depois, o espectador percebe que o desejo de liberdade confunde-se com o desejo de poder.

Pois a bela e corpulenta Katherine usará sua indiferença, antes, para confrontar o marido, os outros, ou mesmo os criados que a cercam: dormirá por longas horas, dias e noites, à espera do homem, ou apenas para se postar – “de frente para a parede”, como manda seu “dono” – e ser vista a distância, como o objeto que se tornou.

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Depois da indiferença vem o ataque: ela descobre que, como a personagem de William Shakespeare, poderá mobilizar os homens – ou apenas um – para conquistar o reino. Aqui, a grande casa, e para dentro dela trazer o amante. Improvável que ame alguém: a bela e jovem aprende o prazer da manipulação, convive com o poder.

É dele, sobretudo, que trata o filme de William Oldroyd. Do poder confinado às paredes. O poder de comprar uma mulher, brinde que acompanha alguns metros quadrados de terra. Mulher como objeto, como reprodutora, a desfilar pela casa de paredes claras e frias, com aparente camada de poeira pelo chão, dama que precisa pedir permissão para deixar o jantar e que não pode dormir antes do retorno do mestre.

A interpretação de Pugh permite silêncio, poucas e suficientes palavras. Rosto de desejo e vingança, de necessidade também: ela descobre como manipular e matar os homens que surgem em seu caminho, seres acostumados a tratar mulheres como animais, a pendurá-las ou, como citado, a fazê-las retornar à parede.

De onde veio não se sabe. Não precisa se explicar. Suas curvas salientes, seu rosto de desgosto, a ousadia em mostrar o amante ao marido na sequência mais forte da obra. A violência que surge, em momentos, quebra o efeito gélido do ambiente, da casa cuja luz externa atravessa o vidro, toda manhã, no despertar da moça.

Como na obra de Shakespeare, a morte é inevitável. Parte das intenções dessa menina – ou dessa mulher que se forma, que caminha pela paisagem sem sol e úmida que faz pensar em As Irmãs Brontë, de André Téchiné, nos ambientes percorridos pela bela Isabelle Adjani – passa pela retirada de toda e qualquer pessoa que atrapalhe seus planos.

A entrega ao amante inclui desejo. Desejo verdadeiro, antes. Não o desejo suficiente para ultrapassar o poder: com o amante ela não deseja fugir, encontrar a liberdade; acredita, sim, na possibilidade de se manter na mesma casa, no mesmo reino, indestrutível frente ao fraquejo dele, o jovem um pouco boçal vivido por Cosmo Jarvis.

Ao lado ela deixa uma testemunha, a primeira e última vítima dessa história, Anna, a criada tratada como animal pelo patrão, com dificuldades para dividir uma refeição à mesa quando convidada pela nova patroa. O rosto, de novo, mas em outra forma, outro sentido: a fraqueza que se expressa, que explode, na talentosa Naomi Ackie.

A partir da obra do russo Nikolai Leskov, Lady Macbeth of Mtsensk, Oldroyd dá vida a um filme forte, a uma vilã interessante, feita de camadas. A protagonista primeiro seduz o público, depois gera repulsa. Mais de uma vez, retorna ao sofá de cantos arredondados para encarar o público, ou o vazio, lugar algum. Sofá no qual antes dormia, ou tentava, sempre alerta à chegada do marido. Objeto que, como a casa, passará ao seu domínio.

(Idem, William Oldroyd, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Macbeth, de Orson Welles
Macbeth: Ambição e Guerra, de Justin Kurzel

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Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba

O som da torneira aberta, ou das pedras recolhidas do chão, ajuda a compor o suspense. Não se trata do suspense comum, aquele que anuncia um crime, ou no qual se busca a sua solução. O que está em jogo em Para Minha Amada Morta é uma espécie de “suspense social” (a exemplo de outro bom filme brasileiro recente, O Lobo Atrás da Porta).

A água que jorra da torneira e a pedra em contato com o lixo produzem um som inquietante, ao mesmo tempo distante e onipresente: dá a impressão, no trabalho de Aly Muritiba, de algo próximo a explodir. O filme, por sua vez, trata o suspense sempre em fogo baixo, às vezes eleva o tom, e quase sempre prefere a possibilidade ao fato consumado.

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Na trama desse “suspense social”, um policial e fotógrafo descobre que sua companheira falecida tinha um amante. Ela não sobreviveu para lhe revelar. Talvez não devesse, talvez não fosse o caso: talvez aquele romance tenha sido apenas um gesto de fuga, um caso passageiro que não merecia ser trazido à tona. Morreria com ele.

O segredo retorna em algumas fitas de vídeo gravadas pela mulher, guardadas em seu escritório. O marido traído, Fernando (Fernando Alves Pinto), descobre as imagens da relação dela com o amante. São momentos a dois, na cama, de declarações e carícias.

O mundo de Fernando desaba uma segunda vez: tomado pelo instinto policial, ou pelo instinto do homem que deseja entender a traição da qual era vítima sem saber, e sem a mulher viva para se vingar, resta apenas perseguir os passos do amante. E fazer perguntas a si mesmo, o que o silêncio do filme não esconde: quem é ele? Como vive? Com quem vive?

Ou mais: por que a mulher amada – e agora morta – teria escolhido tal homem? A perseguição ao outro faz as questões crescerem na tela: não demora para que o mesmo, o amante, seja revelado. Homem simples, de casa simples, morador em um bairro distante – e inegavelmente simples. Fernando, em Salvador (Lourinelson Vladmir), encontra o que talvez não esperasse.

Pois a amada, não mais viva para dar explicações, escolheu o mais comum dos homens. E, sabe-se mais tarde, o homem que esteve preso, e que ela própria, uma advogada, defendeu. Caso curioso, que assume outras proporções nos pensamentos de Fernando (e que, de novo, o diretor não precisa verbalizar): a amada morta saiu em busca de alguém que talvez pudesse comprar, disposto a ser seu amante.

As suposições são silenciosas. As ações levam a pensar nelas. Fernando, não contente com a ausência de respostas, sai em busca do amante. Mais ainda, descobre que Salvador tem um pequeno cômodo para alugar e, vestido como manda a ocasião, frequenta cultos evangélicos com a mulher e as duas filhas, uma delas adolescente.

A aproximação sempre gera surpresas e revelações nesse chamado “suspense social” com marca nitidamente brasileira, com suas tradições e tipos conhecidos. Fernando e Salvador, como seus parentes vivos, existem aos montes. Por outro lado, a figura enigmática, a amada morta, não está em cena para se explicar. Há apenas sua imagem no vídeo, e a frase que causa dor maior em Fernando, dirigida ao amante: “Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Volta a fita mais de uma vez para escutá-la dizer.

Após alugar a casa dos fundos de Salvador, Fernando pouco a pouco penetra a vida do amante. Descobre detalhes, também a normalidade daquelas pessoas. Chega a mostrar o vídeo para a mulher do outro, o que não leva à separação do casal; e ele custa a revelar a Salvador quem é de verdade nesse jogo feito de silêncios e gestos bruscos, sem violência.

Fernando, ao escolher assistir à vida do outro em posição privilegiada, talvez deseje entender não o homem e aquelas pessoas, mas justamente a mulher morta que não pode se explicar. A escolha não leva a muito longe. O filme carrega mistério, sem a teia do suspense de vingança. Trata, sobretudo, do olhar, de tentar entender, ainda que quase sempre não reste muita coisa.

(Idem, Aly Muritiba, 2015)

Nota: ★★★★☆

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Divinas Divas, de Leandra Leal

O feminino e o masculino em dois filmes franceses recentes

O feminino, em A Vida de uma Mulher, leva à aproximação, à tela fechada, à falta de profundidade visual, à intimidade e ao sofrimento; o masculino, em Rodin, leva aos gestos bruscos do homem ao centro, o artista que colecionou algumas amantes – entre elas Camille Claudel, a mais conhecida – e mantinha um ar rude e impenetrável.

A exposição desses dois lados, em dois filmes franceses recentes, revela a opção de seus diretores no tratamento dos sexos, não raro a partir de opções estéticas interessantes. O primeiro, Stéphane Brizé, opta pela forma realista, pela câmera livre, às vezes pela aparência de que a feiura pode habitar locais impensáveis: como se vê em A Vida de Uma Mulher, tais escolhas levam à degradação da personagem.

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Nesse universo feminino cercado por mentiras, a protagonista, Jeanne (Judith Chemla), casa-se jovem, após retornar do internato religioso, e logo descobre a traição do marido (Swann Arlaud). Para sua surpresa, o que a leva a um surto e uma fuga em meio à noite fria, o marido engravidou a criada da casa.

Com a intervenção de um reverendo, sob o olhar desconfiado do pai e da mãe, a moça resolve dar uma segunda chance ao rapaz. A felicidade parece retornar. Dura pouco, logo desaba: Jeanne descobre que a nova amante do marido é uma amiga casada, que passou alguns dias se divertindo em sua propriedade.

A vida dessa mulher é entrecortada por lembranças, com a imagem dela já velha, no frio, a imagem do futuro: é a vida de quem teve de viver à sombra de homens (o marido traidor, depois o filho mentiroso) e punida pelos erros dos outros, com segredos que lhe causam dor (como, por exemplo, as cartas do amante de sua mãe).

As lembranças são evocadas com luz forte, mar azul, natureza verde; o presente e seus problemas carregam sombras, chuva, o mar revolto e talvez mais distante do que pareça no momento em que Jeanne caminha pela praia na companhia do pai abatido.

Brizé traduz essas transformações com proximidade, ao passo que o feminino é sempre seu foco: a mulher que resiste a despeito das condições e regras sociais, a despeito das imposições da igreja e, sobretudo, ao fim, da distância do filho. Mulher obrigada a crer no retorno do rapaz que pouco aparece e que, mais tarde, muda-se para a Inglaterra com outra mulher, envolve-se em jogos e contrai dívidas.

A opção pela proximidade e pela câmera trepidante de Brizé segue à contramão do visual adotado por Jacques Doillon em Rodin. Se no primeiro a necessidade de penetrar o ambiente íntimo da mulher e sua degradação é justificada pela câmera intrusa, no segundo o universo masculino pede distância e mistério.

Não por acaso, Doillon não deseja explicar a personagem central, nem justificar seus atos frente às mulheres ou às suas obras (ambas, a certa altura, parecem se misturar). Seu Auguste Rodin (Vincent Lindon) é bruto em cada centímetro, em cada gesto, na maneira como toca a argila ou o corpo de Camille (Izïa Higelin), na cama.

É, nesse caso, a exposição do universo masculino que, pela profundidade de campo adotada, será fundido ao cenário de obras de arte, de peças, de partes de peças que rementem a partes de corpos, ou mesmo de outras formas. Tudo nesse belo filme remete à distância e à indiferença de Rodin em relação ao outro (ou à outra).

A exposição desse mundo masculino, ainda que a interpretação de Lindon nunca seja descartável, deve-se, sobretudo, às opções de Doillon, à sua necessidade de embutir mistério e conferir ao homem o que o público espera: os contornos do gênio, os gestos desse ser distante que rodeia e encara suas obras como se tivessem vida própria.

O tratamento de Brizé em relação a Jeanne é inversamente proporcional: aproxima-se muito para, com o aparente desleixo da câmera, deixar ver a “vida de uma mulher”, a pessoa sem qualquer sinal mítico, mas a mulher que sofre pelas relações que a cercam, cuja vida – ao contrário da de Rodin – é alienada à dos outros.

Na abertura do filme de Doillon, o grande artista prepara A Porta do Inferno, uma de suas obras mais famosas. Ao espectador, graças ao efeito da profundidade de campo, a peça parece ter o mesmo tamanho da personagem. Quando outros homens aparecem em cena, logo se vê o efeito visual e o artista apequena-se.

Mais do que dar grandiosidade a um ou pequenez a outro, o efeito ajuda a compreender Rodin como parte inseparável daquele universo, daquelas peças. O homem torna-se ainda mais bruto em contato com suas estátuas. E raros são os momentos em que ele mostra sensibilidade, como na cena em que visita a exposição de Camille. Com os olhos marejados, o artista observa a estátua de uma mulher nua em busca de um abraço.

Em outro momento, Rodin utiliza uma mulher grávida como modelo para chegar à forma da estatua de Balzac. A imagem não poderia ser mais representativa: a mulher grávida é apenas o molde, o mais importante é a estátua ao fundo. E em outro, ainda mais curioso, o protagonista corta a cabeça de uma estátua feminina, feita em argila, poucos segundos depois de uma mulher elogiar suas formas.

Mesmo com tantas diferenças, não se trata de dizer que um filme apresenta uma mulher fraca e que o outro é misógino. Longe disso. Os trabalhos de Brizé e Doillon possibilitam o mergulho no masculino e no feminino, nas formas que definem um e outro. Assistir ambos em sequência faz enxergar o abismo que os separa.

(Une vie, Stéphane Brizé, 2016)
(Idem, Jacques Doillon, 2017)

Notas:
A Vida de uma Mulher: ★★★★☆
Rodin: ★★★☆☆

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Mulheres aprisionadas (em três grandes filmes de Zhang Yimou)

Mulheres aprisionadas (em três grandes filmes de Zhang Yimou)

A garota inocente, entregue a um casamento que não deseja, logo dá vez à mulher forte e decidida em três filmes de Zhang Yimou, ainda no início de sua carreira: Sorgo Vermelho, Amor e Sedução e Lanternas Vermelhas. Essas mulheres não desejam agradar o espectador e às vezes são difíceis de definir ao longo desses filmes.

As três são interpretadas por Gong Li, que, com êxito e velocidade, consegue se passar pela menina ingênua ou pela mulher madura. Basta-lhe a mudança de expressão, do cabelo, a mudança da roupa para um papel seguinte: o da moça vendida, rendida às forças de um homem rico, ou o da mulher que aceita aderir a uma guerra, a um ato de traição ou ao jogo que inclui outras mulheres casadas com um mesmo homem.

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Sorgo Vermelho é o primeiro filme de Yimou. Marco do cinema chinês, do período da chamada Quinta Geração, de cineastas que começaram a fazer filmes após o fim da Revolução Cultural. Nesse trabalho de estreia, Yimou contrapõe o realismo com tons fortes em vermelho, representação da condenação da moça (levada ao casamento sob o tecido vermelho) e da tragédia que se aproximava com a invasão japonesa.

Ou mais: o vermelho que, a partir da viagem da menina ao casamento arranjado, revela seu rompimento, sua transformação: a descoberta de um amor primitivo justamente por um dos criados que a carregava à nova casa, homem cujos instintos fazem-no tomá-la à força, sem que a mesma possa reclamar. Apenas o ama.

Antes aprisionada, a menina vê-se livre, à frente da produção do vinho do sorgo, com um grupo de criados para executar o trabalho. Nem os bandidos que aparecem por ali são capazes de abalá-la. Essa aparente liberdade perde espaço quando Yimou, sem rodeios, mostra os chineses cortando a vegetação verde a mando dos japoneses cruéis – entre eles a menina, seu marido e o filho pequeno.

Não é difícil prever o desfecho. O vermelho sangue adianta-o. As cenas finais são impactantes, com a câmera à contramão da luz do sol. Pai e do filho caminham sobre os restos do conflito, entre a tragédia inescapável. Em Amor e Sedução não será diferente.

Se em Sorgo Vermelho predomina a cor-título, em Amor e Sedução ganha espaço o amarelo abundante. A primeira cor indica o rompimento, a mudança, a aproximação; a segunda, em seu contexto, aponta ao imobilismo das personagens. A trama ajuda a atender: mulher é comprada pelo dono de uma fábrica de tecidos e, noite após noite, é espancada pelo homem enquanto o sobrinho do mesmo escuta do cômodo ao lado, sem muito a fazer.

Não demora a surgir uma relação de amor entre a mulher (a mesma Gong Li) e o sobrinho, cuja inclinação à violência é semelhante à capacidade de ceder e demonstrar respeito pelo tio violento. A situação complica-se quando nasce um filho desse envolvimento proibido e o dono da fábrica perde o movimento das pernas.

O casal deseja matar o homem, mas talvez falte coragem. O filho cresce e, mais tarde, aprende a chamar o dono da fábrica de pai, enquanto o verdadeiro é sempre legado ao papel de coadjuvante. Ainda que outras cores apareçam por ali, como o vermelho e o azul (principalmente após o início da relação proibida), os tons amarelos predominam.

Mais de uma vez a mulher investe contra o homem que a aprisionava. O espectador é tentado a lhe dar razão, a enxergar essa selvageria – falsamente anulada pelo amarelo e pela aparente distância entre as pessoas – como forma de resolver os problemas.

Continuará – como o amante – presa ao seu papel, aprisionada à imagem da mulher esperada. Ao mesmo tempo, seu filho descobre o amor da mãe pelo outro homem. E, como o dono da fábrica, que desejava ter como pai, adere à violência.

Como em Sorgo Vermelho, há toques de melodrama, voltas conhecidas para uma tragédia de pessoas que não encontram saídas – antes sob a influência da guerra que pedia passagem, da necessidade de resistir, depois com os julgamentos da sociedade ao redor, tradicional, que lança às pessoas o papel que espera delas.

Lanternas Vermelhas, em seguida, talvez seja o mais ousado dos três: mais que toques de melodrama, prefere os do suspense, ou mesmo do terror. Sua atmosfera de medo repousa sob os sinais da calmaria, do aparente silêncio da grande casa na qual uma mulher (a mesma Gong Li) é levada para ser a quarta esposa do líder local.

Tenta, ainda no início, escapar do vermelho estampado em meio de transporte igual ao usado em Sorgo Vermelho: vai para a grande casa caminhando, apenas com a mala na mão. Mas, como manda a regra, logo a recobrem com a mesma cor, no corredor feito de lanternas vermelhas, até encontrar o verdadeiro dono do local, o homem.

E, curiosamente, o homem não tem rosto. O mal não tem forma. E esse mesmo mal não se resume ao líder – é quase certo que não. O problema está ligado à tradição instituída por essa sociedade de portas fechadas, de suposta calmaria, de adornos antigos, de velhas muralhas acinzentadas em oposição ao vermelho das lanternas.

O amor primitivo e o amor louco dos filmes anteriores dão vez à falta de amor, ao jogo entre gestos frios, às relações de poder entre mulheres que lutam para ter mais e, no fundo, participar da vida de uma casa sem vida, ganhando não se sabe o quê.

De Sorgo Vermelho a Amor e Sedução, Yimou seguiu ao controle das personagens – e do drama – em espaços fechados. E ao controle das cores. Lanternas Vermelhas é o passo seguinte, a comprovação de sua conquista. Dispensa palavras a mais, explosões de drama. É o mais sútil e, paradoxalmente, aquele em que crueldade mais penetra.

Os ambientes fechados entram em contraste com os abertos, “em cores vibrantes”, como lembra o crítico de cinema Roger Ebert. “Apesar do uso sensual da cor e da beleza feminina, o filme não tem sexo no sentido convencional. Nada de nudismo, de intimidades, quase ninguém se toca”, também aponta o crítico.

Nesse meio, impera a disputa entre três das quatro esposas do líder da grande casa. Disputa que, ao fim, indica a vencedora com a marcação do vermelho, na frente de determinada casa, pelas lanternas acessas: o momento em que se revela a esposa com a qual o dono do local passará a noite, sua escolhida para a ocasião.

Essa disputa trata menos do desejo de estar com o homem sempre visto a distância: é uma disputa entre mulheres, em um jogo de poder que inclui ciúme e vingança. Por ali, entre as estações do ano, a nova mulher descobre que o vermelho, no fundo, não é nada perene, e que o cinza das paredes, dos telhados e de um cômodo distante, no qual mulheres foram enforcadas, pode tomar conta do espaço com certa facilidade.

(Hong gao liang, Zhang Yimou, 1987)
(Ju Dou, Zhang Yimou, 1990)
(Da hong deng long gao gao gua, Zhang Yimou, 1991)

Notas:
Sorgo Vermelho: ★★★★★
Amor e Sedução: ★★★★☆
Lanternas Vermelhas: ★★★★★

Foto 1: Sorgo Vermelho
Foto 2: Amor e Sedução
Foto 3: Lanternas Vermelhas

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Trilogia dos Bichos, de Dario Argento
Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

Perdas e Danos, de Louis Malle

A primeira aparição de Juliette Binoche dá a ideia do peso de sua personagem, feita para desestabilizar: fria, vestindo preto, de cabelos curtos colados ao crânio, um ser que beira o exotismo e, justamente por isso, capaz de captar a atenção do protagonista.

Ele próprio apontará às intenções de Louis Malle em Perdas e Danos: “Quem é você?”, pergunta, no segundo encontro do casal, e ainda com roupas. Foi assim no primeiro: ele vai ao endereço dela e sem palavras avança. Fazem sexo ainda com roupas, a salientar o encontro desajeitado, e sem deixar claro se ela deseja-o de verdade.

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Ele deixa-se ver. Ela não dá indícios de paixão. Ao contrário, e como a personagem de Terence Stamp em Teorema, de Pasolini, ela existe apenas para desequilibrar a família “perfeita” encabeçada pelo homem de Jeremy Irons, o ministro Stephen Fleming.

Malle não chega à profundidade de Pasolini. Fica quase sempre na superfície. Seu filme tem bons momentos e, por algum milagre, o casal ainda consegue transmitir gotas de emoção. Não é sobre traição, mas sobre um homem que se vê nu, que descobre não ter o controle de si mesmo. O que leva ao desejo pelo anjo silencioso.

Ao descobrir essa mulher, a noiva do filho, Stephen converte-se em jovem bobo que passa a perseguir a nova amada. Chega a viajar de trem de Bruxelas a Paris apenas para um encontro rápido com a moça, a vê-la pela janela, no outro hotel, com seu filho.

Menos radical, às vezes atrevido, Malle não retira o filme da frieza: é para causar mal-estar, para não se entender o que nela tanto atrai o protagonista, e o que tanto o faz se desviar da mulher mais interessante em cena, sua esposa (Miranda Richardson), e que chega a lhe apresentar o corpo, ao fim, para ver o quanto perdeu.

Anna (Binoche), claro, tem passado nebuloso. Envolve a morte do irmão que ela amou. Quando perguntam o motivo da morte do rapaz, é direta, não menos fria: morreu por amor. A família desestruturada da moça, inaceitável à sociedade de bons modos e religiosa em questão, certamente a motiva a destruir a outra.

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Malle não precisa elegê-la vilã, o que, de novo, faz pensar no Stamp de olhar enigmático e que, pouco a pouco, traga todos à espiral de desgraça. Binoche não é atraente, tampouco o corpo que gera desejo enquanto faz sexo com o ministro. O cineasta francês filma o sexo como conflito, fúria, com as mãos dos amantes sobre os olhos do outro e os corpos que se debatem enquanto se tocam.

A falta de emoção tem a ver com essa sociedade fria e que ainda deixa ver, à deriva, em seus coadjuvantes, poucos sentimentos verdadeiros: a mãe que expõe o corpo que o marido perdeu, ou trocou; o filho que ainda guarda um sorriso verdadeiro.

A tragédia da parte final é clara: ao filho, não apenas a amante está nua. O pai, a família, todo o alicerce que não se vê na foto que o mesmo menino carrega, que o pai – longe de seu cargo, de suas funções públicas de ministro, e agora preso a algum lugar distante – vê-se obrigado a apreciar, ampliada, em sua parede.

A Anna da fotografia não está longe da moça em sua primeira aparição, ao pai, com seu jeito petrificado, seu olhar distante, seu convite à perdição. O mal que ela transmite é inexplicável, os efeitos são conhecidos: o homem segue em frente, perde tudo.

(Damage, Louis Malle, 1992)

Nota: ★★★☆☆

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